Um país e uma economia em dificuldades

Por: Eugénio Rosa

– Não preparação para enfrentar a crise do coronavirus
– Um governo que adia atuar
– A situação dramática dos desempregados cujo número não para de aumentar

Para se poder compreender a verdadeira situação que o país e os portugueses enfrentam atualmente, assim como as dificuldades que se verificam para ultrapassar uma crise grave como a atual, é necessário ter presente dados importantes que dão uma ideia clara, objetiva e global da situação do país e da economia Ela é determinada por politicas seguidas durante anos que fragilizaram muito o país e que agora a crise causada pelo “coronavírus” veio apenas tornar visível.

O DESINVESTIMENTO NA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL É CAUSA PARA QUE MAIS DE 40% DA POPULAÇÃO EMPREGADA TENHA SÓ O ENSINO BÁSICO OU MENOS, QUASE O DOBRO DA MÉDIA DOS PAÍSES DA UE

O quadro 1, com dados oficiais do INE, mostra a situação real do país neste momento:

No 2º Trimestre de 2020, ainda 1.929.000 portugueses empregados tinham apenas o ensino básico ou menos, o que corresponde a 40,8% da população total empregada. A média nos países da UE é pouco superior a 20%. Contrariamente também ao que acontece em outros países da UE a população empregada com o ensino superior é mais elevada do que a com o ensino secundário, o que revela uma distorção causada por um sistema de ensino não adequado ao desenvolvimento do país. Segundo os Relatórios do OE, entre 2010 e 2020, a despesa publica com o funcionamento do ensino básico e secundário, a preços constantes de 2010, sofreu uma redução de 2.200 milhões €. O desinvestimento dos sucessivos governos no aumento do nível de escolaridade e de qualificação dos portugueses é claro, quando é o mais importante para desenvolver o país. Para além disso, durante as crises os mais atingidos pelo desemprego são os trabalhadores de baixa escolaridade. Entre 2011 e 2015, com a “troika” e com Passos Coelho, o emprego diminuiu em 191.000, mas os trabalhadores com o ensino básico ou menos que perderam o emprego atingiu 631.000. Com a crise atual, entre o 4º trim.2019 e o 2º trim.2020 já foram destruídos 205.000 empregos mas o número de trabalhadores com o ensino básico ou menos que perderam o emprego já atinge 182.000.

O “STOCK” DE CAPITAL, OU SEJA, O INVESTIMENTO EM EQUIPAMENTOS E OUTROS MEIOS NECESSÁRIOS A PRODUÇÃO POR TRABALHADOR TEM DIMINUÍDO EM PORTUGAL

O desinvestimento em Portugal em equipamentos e outros meios necessários ao aumento da produtividade do trabalhador tem sido enorme com revelam os dados da Comissão Europeia.

Entre 2013 e 2019, o “stock” de capital líquido por trabalhador em Portugal diminuiu em 11,7%, pois a preços constantes passou de 124.564€ para apenas 110.034€. No lugar do investimento em equipamentos e outros meios materiais aumentar para que a produtividade por trabalhador aumentasse, o que se tem verificado em Portugal é precisamente o contrário. O novo investimento nem tem compensado aquele que desaparece por obsolescência e pelo uso. E o Estado tem dado o pior exemplo. Entre 2015 e o 2019, o investimento publico (FBCF) somou 18.192 milhões € mas o Consumo de Capital Fixo (amortizações), ou seja, o que se desgastou ou foi destruído pelo uso ou degradação somou 26.444 milhões €, portanto investiu-se menos 8.252 milhões do que se “consumiu”. É essa a causa da degradação profunda de muitos equipamentos públicos (escolas, hospitais, transportes, etc.). Como consequência, a produtividade aparente do trabalho (PIB por trabalhador) teve a evolução revelada pelos dados do INE do gráfico 2.

A produtividade aparente do trabalho que já tinha diminuído no 1º trimestre de 2020, caiu no 2º trimestre de 2020 para apenas 8.876€, ou seja, um valor que é praticamente o verificado no 1º trimestre de 2000 (neste trimestre a riqueza criada em média por trabalhador – PIB por trabalhador – foi apenas de 8.821€), portanto no 2º trimestre de 2020 verificou-se um recuo de 20 anos

O GANHO MÉDIO LÍQUIDO DOS TRABALHADORES EM PORTUGAL ERA APENAS 980€ EM 2019, O MAIS BAIXO DA UE – E COM A CRISE AINDA POR CIMA SOFREU UMA FORTE REDUÇÃO

Consequência do desinvestimento verificado na educação e em equipamentos, quer da administração publica quer do setor privado, o nosso país tem um perfil de economia assente em baixa produtividade e em baixos salários. O quadro 2 completa o gráfico anterior:

Segundo o Eurostat, em 2019, o ganho médio liquido mensal em Portugal era apenas de 980€, enquanto a média na União Europeia era de 1808€ (+84,4%), na Zona euro de 1.899€ (+93,7%), na Alemanha de 2.262€ (+130,7%), no Luxemburgo de 3.042€ (+210,2%), na Noruega de 3.240€ (+230,4%), etc., etc.. As diferenças de ganhos líquidos entre Portugal e a maioria dos países das União Europeia constantes do quadro 2 são enormes. É evidente que Portugal é um país em que a esmagadora maioria da população tem ganhos muitos baixos, quando comparado com outros países da UE, o que causa que o impacto da crise económica e social seja maior e mais grave.

EM JUL/2020 APENAS 32 EM CADA 100 DESEMPREGADOS RECEBIAM SUBSÍDIO DE DESEMPREGO

E esta gravidade da crise económica e social é ainda aumentada pelo crescimento rápido do desemprego e pelo reduzido número de desempregados que que recebem subsídio de desemprego.

Em apenas quatro meses (março/julho de 2020), o desemprego real em Portugal aumentou de 519.500 para 678.500, enquanto o número de desempregados a receber subsídio de desemprego subiu apenas de 173.815 para 221.765. O aumento do número desempregados em apenas quatro meses (+159.000) foi três vezes superior ao número daqueles que receberam o subsídio de desemprego (+47.950). A miséria está a alastrar rapidamente em Portugal

A NECESSIDADE URGENTE DE RETOMAR A ATIVIDADE E DE NORMALIZAR A ECONOMIA MAS COM SEGURANÇA – CASO CONTRARIO É O CAMINHAR PARA O ABISMO

Os últimos dados divulgados pelo INE revelam uma preocupante quebra na atividade económica. No 2º trimestre 2020, quando comparado com idêntico trimestre de 2019, registou-se uma quebra no PIB de -16,3% (menos 8.500 milhões € de riqueza produzida), uma quebra no consumo privado de -14,5% (sem consumo o país não recupera), uma quebra no investimento de -10,8% (sem investimento o pais não se moderniza nem aumenta a produtividade) e uma quebra nas exportações de -39,5%. São quebras que a continuar conduzirão inevitavelmente o país a um desastre económico e social. É necessário inverter este caminhar para o abismo, mas o governo tem-se revelado incapaz de falar com a verdade que é necessário e de tomar as medidas adequadas que permitam uma retoma gradual do país à normalidade possível mas com a segurança mínima que é indispensável. Mesmo nas áreas de sua responsabilidade direta, como é a Administração Pública, o governo parece ausente, deixando ao arbítrio das respetivas chefias não havendo ainda qualquer orientação clara por parte do governo.

É urgente a reorganização do trabalho de toda a administração publica integrando de uma forma planeada e organizada o teletrabalho, construindo instrumentos de enquadramento, de acompanhamento e de avaliação do trabalho realizado pelos trabalhadores que não existe, assim como o respeito dos seus direitos (ao descanso, à sua vida privada, ao horário de trabalho, etc), mas até a esta data nada foi feito deixando tudo à deriva com consequências graves nos serviços prestados à população cujo acesso é cada vez mais difícil.

É urgente normalizar a economia com um mínimo de segurança. Para isso é necessário introduzir horários desfasados quer na administração publica quer no setor privado para reduzir os ajuntamentos nomeadamente nos transportes públicos, e assim tornar possível o distanciamento físico mas até à esta data nada foi feito; é preciso, pelo menos a nível da Administração Pública, em muitos serviços, em que o teletrabalho foi introduzido de uma forma desorganizada, improvisada e sem qualquer preparação, dividir os trabalhadores em dois grupos que se alternam (regime presencial/teletrabalho) de forma a existirem sempre trabalhadores em regime presencial para assegurar pelo menos um mínimo de normalidade no funcionamento dos serviços que não existe atualmente e garantir aos trabalhadores o distanciamento físico necessário indispensável à sua segurança. Mas tudo isto está por fazer, e o governo tem-se revelado incapaz. Até parece que nem pensa nisso ou que tem medo de atuar porque teme perder popularidade. E são os cidadãos que sofrem com a desorganização dos serviços públicos. Assim é o caminho para o abismo.

Os EUA à beira da guerra civil

Por: Thierry Meyssan

No presente artigo, o autor procura chamar a nossa atenção sobre um facto difícil de conceber para os Ocidentais : o povo norte-americano vive uma crise de identidade. Ele está tão profundamente dividido que a eleição presidencial não visa apenas eleger um chefe, mas também determinar o que deve ser o país (império ou nação ?). Nenhum dos dois campos está disposto a aceitar perder, tanto e de tal forma que qualquer um deles poderá recorrer à força para impor o seu ponto de vista.

uando se aproxima a eleição presidencial nos Estados Unidos, o país divide-se em dois campos que mutuamente se atribuem a desconfiança de preparar um golpe de Estado. De um lado o Partido Democrata e os Republicanos extra-partido, do outro os Jacksonianos, que se tornaram a maioria no seio do Partido Republicano sem partilhar a sua ideologia.

Lembram-se, certamente, já em Novembro de 2016, que uma empresa de manipulação dos média (mídia-br) dirigida pelo mestre de Agit-Prop, David Brock, recolhia mais de 100 milhões de dólares para destruir a imagem do Presidente-eleito antes mesmo dele ter sido investido [1]. Desde essa data, quer dizer antes de ele poder fazer fosse o que fosse, a imprensa internacional descreve o Presidente dos Estados Unidos como um incapaz e um inimigo do povo. Certos jornais foram ao ponto de apelar ao seu assassinato. Durante os quase quatro anos seguintes, a sua própria Administração não parou de o denunciar como um traidor pago pela Rússia e a imprensa internacional criticou-o ferozmente.

Actualmente, um outro grupo, o Transition Integrity Project (TIP), planeia (planeja-br) cenários para o derrubar durante a eleição de 2020, quer ganhe ou perca. Este caso tornou-se assunto nacional desde que a fundadora do TIP, a professora Rosa Brooks, se espalhou num longo artigo no Washington Post, da qual ela é uma colaboradora regular [2].

Em Junho último o TIP organizou quatro jogos de simulação. Simulou vários resultados para antecipar as reacções dos dois candidatos. Todo o conjunto dos participantes era de Democratas e “Republicanos” (ideologicamente falando e não «republicanos» no sentido de filiação partidária), nenhum era Jacksoniano. Sem surpresa, todas essas personagens consideraram que « a Administração Trump sabotou regularmente as normas fundamentais da Democracia e do Estado de Direito. Que adoptou inúmeras práticas corruptas e autoritárias». Concluíram pois que o presidente Trump tentaria um Golpe de Estado e imaginaram que era seu dever conceber preventivamente um Golpe de Estado «democrático» [3].

É uma característica do pensamento político contemporâneo proclamar-se a favor da democracia, mas rejeitar as decisões que vão contra os interesses da classe dirigente. A propósito, os membros do TIP admitem francamente que o sistema eleitoral dos EUA, que eles defendem, é profundamente «antidemocrático». Lembremos que a Constituição não atribui a eleição presidencial aos cidadãos, mas a um colégio eleitoral composto por 538 pessoas designadas pelos governadores. A participação dos cidadãos, que não foi prevista aquando da independência, impôs-se progressivamente na prática, mas unicamente a título indicativo para os governadores. Assim, em 2000, durante a eleição de George W. Bush, o Supremo Tribunal da Florida relembrara que não tinha que levar em consideração a vontade dos cidadãos do Estado, mas unicamente a dos 27 eleitores designados pelo seu governador da Florida.

Contrariamente a uma ideia feita, a Constituição dos Estados Unidos não reconhece a soberania popular, apenas uma soberania aos governadores. Por outro lado, o Colégio Eleitoral concebido por Thomas Jefferson já não funciona correctamente desde 1992: o candidato eleito já não reúne a maioria dos votos dos cidadãos nos Estados que fazem balançar a eleição (os “Swing States»-ndT) [4].

O TIP pôs à vista quase tudo o que poderá acontecer durante os três meses que separam o escrutínio da investidura. Ele admite que será muito difícil apurar os resultados, dado o recurso ao voto por correspondência em período de epidemia. Intencionalmente o TIP não explorou a hipótese de que o Partido Democrata anuncie a eleição de Joe Biden apesar de uma contagem insuficiente e que a Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, o faça prestar juramento antes que Donald Trump tenha podido ser declarado perdedor. Num tal cenário, haveria dois presidentes rivais, o que marcaria o início de uma Segunda Guerra Civil.

Esta eventualidade encoraja alguns a considerar lançar secessões, a proclamar unilateralmente a independência do seu Estado. Isto é especialmente verdadeiro na Costa Oeste. Para prevenir este processo de desintegração, alguns defendem a divisão da Califórnia a fim de atribuir mais membros do Colégio Eleitoral à sua população. No entanto, esta solução é já uma tomada de posição no conflito nacional porque ela favorece a representação popular em detrimento do Poder dos governadores.

Por outro lado, eu tinha evocado, em Março último, a tentação putschista de certos militares [5] à qual, em seguida, vários oficiais superiores fizeram referência [6].

Estes diferentes pontos de vista atestam a profunda crise que os Estados Unidos atravessam. O «Império Americano» deveria ter-se dissolvido após a desintegração da União Soviética. Mas nada disso se passou. Ele deveria ter-se reinventado com a globalização financeira. Mas nada disso aconteceu. De cada vez, um conflito surgiu (a divisão étnica da Jugoslávia, os ataques de 11 de setembro) para fazer reviver o morto-vivo. No entanto, já não será possível protelar as coisas por muito mais tempo [7].

Referências

[1] “O dispositivo Clinton para desacreditar Donald Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 1 de Março de 2017.

[2] “What’s the worst that could happen? The election will likely spark violence — and a constitutional crisis”, The Washington Post, September 3, 2020.

[3Preventing a disrupted presidential election and transition, Transition Integrity Project, August 3, 2020.

[4Presidential elections and majority rule, Edward B. Foley, Oxford University Press, 2020.

[5] “Golpistas na sombra do coronavirus”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 1 de Abril de 2020.

[6] “O Pentágono contra o Presidente Trump”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2020. Do we risk a miltary coup?, by Colonel Richard H. Black, August 24, 2020.

[7] “Os Estados Unidos vão reformar-se, ou dilacerar-se?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Outubro de 2016.

Sobre o Autor

Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

A crise brasileira: reflexões implacáveis

A crise brasileira não foi causada por austeridade - Instituto Mercado  Popular

Por: Jorge Figueiredo

“Reflexões sobre a crise brasileira” [1] , a obra mais recente de Edmilson Costa, é um livro instigante. Tem o grande mérito de deixar de lado a pequena política e ir às questões de fundo, àquelas que realmente interessam. Obras como esta são uma raridade no Brasil, onde aparentemente está toda a gente voltada para questões eleitoreiras e estritamente dentro do quadro institucional (cada vez mais podre) em vigor. O secretário-geral do PCB é dos poucos economistas brasileiros com perspectiva histórica e que, numa óptica de classe definida, tem coragem suficiente para agarrar o touro pelos cornos. Grande parte dos economistas vulgares preocupa-se em fazer a “gestão da crise” – mas não em traçar os caminhos para a sua superação.

Nos países da periferia a teorização disto é mais complicada do que nos centrais. A maioria dos países que hoje são desenvolvidos fez as suas revoluções burguesas no passado. Na Grã-Bretanha foi feita com Cromwell (1649), em França com a Revolução de 1789, nos EUA com o fim da Guerra de Secessão (1865), no Japão com a queda do shogunato (1868) que liquidou o feudalismo niponico. Em alguns foi feita de cima para baixo, como na Alemanha com a reunificação bismarckiana (de direita) e na Itália com a unificação garibaldiana (de esquerda mas apropriada a seguir pela direita). Mas países que chegaram atrasados na história – as colónias e quase-colónias da Ásia, África e América Latina – não puderam mais fazer as suas revoluções burguesas. Suas economias foram desde o princípio orientadas para o exterior. A apropriação de grande parte do seu excedente por potências coloniais ou imperiais impediu a criação de burguesias locais fortes – o que gerou classes dominantes locais dependentes e serviçais ao estrangeiro, não aos seus próprios povos. Só alguns poucos economistas – como por exemplo Jorge Beinstein, Rui Mauro Marini, Prabhat Patnaik, Nildo Ouriques – tiveram a lucidez de encarar esta realidade. A maioria tem-se limitado a papaguear o que dizem cartilhas neoliberais ou keynesianas.

Os ensaios agora reunidos por Edmilson Costa não pecam por este defeito. Eles foram sistematizados em duas partes: a conjuntura política e a conjuntura económica. A primeira faz uma análise da crise brasileira, enquadrada na actual terceira crise sistémica global do capitalismo (a primeira foi de 1873-1896 e a segunda de 1929-1945). As deficiências de compreensão e/ou a pusilanimidade das coligações petistas, que levaram ao impeachment, são ali analisados. O reflexo no Brasil da actual fase de financiarização da crise global é o presente desmonte do Estado brasileiro. A destruição do pouco que fora conquistado pelo seu povo começou com a privatização da Previdência; a reforma trabalhista; as privatizações selvagens de empresas públicas; a entrega das reservas petrolíferas às transnacionais e das empresas estatais que as exploravam; austeridade fiscal; a entrega da base militar de Alcântara aos EUA, etc. Note-se que essas malfeitorias, intensificadas no governo Bolsonaro, começaram durante governos anteriores, inclusive do PT. Por isso mesmo, observa o autor, “o Partido dos Trabalhadores foi abandonado pelos proletariado nas principais regiões industriais do país” (p.44).

Um tema muito comentado nos media é o da psicopatia do presidente Bolsonaro, que o leva a cometer declarações estapafúrdias quase diárias. No entanto, observa o autor, tais bizarrices “cumprem um papel funcional e compõem um método de acção política da extrema-direita que também é observado em outras partes do mundo”. As suas posturas toscas e/ou grosseiras marcam a agenda política e mediática. Elas “contribuem para distrair a população dos verdadeiros problemas do país, como a recessão, o desemprego, o caos nos transportes, na saúde e a incompetência do governo em resolver esses problemas”. É o circo para distrair as multidões.

Na opinião de Edmilson Costa, as classes e fracções de classe que agora comandam o governo são três:   “a) Bolsonaro e seus filhos, pentecostais e neopentecostais, corruptos e fascistas orgânicos;   b) militares de direita, reacionários, saudosistas da ditadura, entreguistas e privatistas, mas com certa racionalidade do ponto de vista da política externa e menos bizarro do ponto de vista dos costume;  c) os representantes da ditadura do mercado, dos grandes monopólios industriais e de serviços, da oligarquia financeira e do agronegócio, além da estrutura jurídica para dar feição legal às contra-reformas”. São blocos que actuam de modo unitário, embora possa haver pequenos choques entre eles quando a política do governo fere o interesse de alguma fracção.

Organizar a resistência, com paciência e sem desespero

“Trata-se de uma da conjunturas mais dramáticas da nossa história (…) Estamos diante de uma luta de classe aberta, onde o inimigo resolveu tirar a máscara em relação aos seus objectivos e declarar guerra à maioria da população brasileira”, afirma Edmilson (p.60). Diante deste quadro, conclui, é preciso “organizar a resistência, com paciência e sem desespero”. Mas para isso será preciso abandonar a política de conciliação de classe promovida pelo PT. Por isso, é de criticar sectores da esquerda que apostam todas as suas fichas no processo eleitoral em detrimento das manifestações populares.

A ideia actual de que a “saída” estaria numa eleição de Lula à Presidência em 2022 é jogar areia nos olhos do povo. Para já a possibilidade de candidatura de Lula nem sequer está garantida do ponto de vista jurídico. Além disso, nunca se explicita o programa que seria desenvolvido por um eventual governo Lula . A proibição da candidatura de Evo Morales na Bolívia; o exílio do Equador do ex-presidente Rafael Correa; o suicídio do ex-presidente do Peru, Alan García, deveriam fazer meditar a direcção do PT que aponta ao povo caminhos “fáceis” mas inviáveis. Mas fica a suspeita de que ela aponta tais caminhos porque tem outros objectivos em mente: não romper com a burguesia rentista que domina o Brasil e sim acomodar-se a ela. “Tentam criar a ilusão de que se Lula voltar à presidência fará um governo diferente porque aprendeu com o passado. É pura ilusão, pois se Lula ganhar novamente fará um governo pior que o anterior, em função das condições objectivas da conjuntura e das alianças com as mesmas forças do passado que está costurando agora”, afirma Edmilson (p. 143). Na verdade, a Revolução Brasileira nunca será fácil e é desonestidade política apregoar o contrário.

A segunda parte do livro, a da conjuntura económica, analisa extensamente o capitalismo monopolista brasileiro. O grau de monopolização indica um capitalismo maduro e desenvolvido. Isso pode ser avaliado através de classificações como as 1000 maiores empresas, os 500 maiores grupos, etc. Examinando apenas as 100 maiores, verifica-se que 58% do conjunto de grupos são controlados por capital nacional e em 2018 eles facturaram 38% do PIB brasileiro. Os restantes 42 grupos, controlados pelo capital internacional, foram responsáveis por 18,3% do PIB, mas controlavam os sectores mais dinâmicos.

A análise de Edmilson rompe com a teorização antiga (e errada) do PCB de que haveria uma burguesia nacional com interesses opostos à burguesia internacional, o que a transformaria numa potencial aliada. Na verdade, ambas estão estreitamente imbricadas uma com a outra numa amálgama inseparável. Isto é ainda mais verdadeiro agora, na actual etapa da financiarização do capitalismo. Já nem sequer se pode detectar diferenças entre capital industrial e financeiro, pois as empresas industriais também fazem aplicações no mercado financeiro.

Isto leva ao exame do “carácter das transformações no Brasil”, em que Edmilson conclui que “o carácter da revolução do país é socialista, não existindo mais espaço para as chamadas lutas de libertação nacional envolvendo todo o povo, inclusive sectores da burguesia, contra um imperialismo externo que sufocaria as possibilidades de desenvolvimento da nação” (p.247). E o autor recorda o triste exemplo dos governos de aliança do PT: “a burguesia quando avaliou que o seu aliado não era mais funcional para seus interesses, descartou-o de maneira humilhante”.

O autor dedica também um capítulo à “independência do Banco Central”. Assim, constata que o BC opera com autonomia “desde o início do período neoliberal no começo da década de 1990 e cumpriu como bom aluno aplicado todas as determinações do Consenso de Washington” (p.250). Ou seja, o BC do Brasil tem estado ao serviço dos rentistas, que se locupletam com juros estratosféricos. Mas como os abutres são insaciáveis, querem acabar até com as migalhas que eram distribuídas à população (programa Bolsa Família, redução de pensões e de salários da função pública, etc). As várias políticas cambiais que têm sido adoptadas (câmbio fixo, bandas cambiais, câmbio flutuante) são igualmente analisadas por Edmilson.

“A oligarquia financeira tomou a chave do cofre” é o título do capítulo 15. Verifica-se que a crise económica, social e política brasileira mudou de patamar com o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A partir daí, o poder foi usurpado por uma gangue de oligarcas corruptos, cujos principais personagens dominam o Parlamento brasileiro e vários escalões da administração. Ao seu lado estão os “ladrões de casaca que tomaram de assalto todos os ministérios da área económica e social para impor aos trabalhadores uma violenta regressão social e a entrega do património público e das riquezas nacionais para os monopólios nacionais e internacionais”, constata Edmilson (p.265).

O mimetismo do PT

No Brasil chamam de “ajuste fiscal” aquilo que na Europa é denominado de “austeridade fiscal”. É do que trata o capítulo 16, cujo título significativo diz que foi feita para “cevar os banqueiros e rentistas”. Aqui se analisa o fenómeno do “mimetismo”, processo da natureza em que animais procuram camuflar-se, adaptar-se e confundir-se com o meio ambiente ou outras espécies. Mas na vida política trata-se de “um fenómeno degenerado que transforma as organizações políticas e sociais em instrumentos inteiramente diferentes que pregavam no início da sua existência, mudam de plumagem, de programa e objectivos e levam seus militantes e simpatizantes a frustrações, acomodação, além de derrota moral e política”, observa Edmilson. E conclui: “Esse fenómeno serve como uma luva para a trajectória do Partido dos Trabalhadores (PT) nos últimos 20 anos e, especialmente, desde que assumiu o governo, há 12 anos. Como um camaleão proletário, exerceu seu mimetismo de maneira impressionante, ao se adaptar de tal forma ao sistema que passou a ser um dos seus principais organismos, se não o principal, da ordem que antes dizia combater” (p.285).

O penúltimo capítulo intitula-se “Paulo Guedes, um assassino social a serviço dos rentistas”. A caracterização é justa, pois todo o curriculum vitae do sr. Guedes tem sido no campo da especulação financeira, como Chicago boy e colaborador de Pinochet. Na verdade, pode-se dizer que ele é medíocre pois pouco sabe de gestão macroeconómica – nunca cuidou disso. Economistas burgueses como Delfim Netto, o autor do chamado “milagre” no tempo da ditadura militar-empresarial, sabe mais dormindo de gestão de política económica do que o sr. Guedes acordado. Mas na verdade isso pouco importa:   ele não foi nomeado ministro para gerir de facto a economia e sim para fazer o trabalho sujo pretendido pela classe parasitária. A um magarefe não se exige grande ciência.

Finalmente, o livro conclui com uma análise aos 20 anos do Plano Real, a nova moeda introduzida no governo F.H. Cardoso em substituição ao antigo Cruzeiro. “Foi uma tragédia para o conjunto dos trabalhadores e para a economia nacional. Em contrapartida, um paraíso para os banqueiros nacionais e internacionais, os especuladores financeiros, os grandes monopolistas e o agronegócio”, afirma Edmilson (p.331).

Do 11/Set ao Grande Reinício

11 de setembro - O dia marcado pelo terror nos EUA - YouTube

Por: Pepe Escobar

O 11/Set foi a pedra inaugural do novo milênio –, indecifrável como os Mistérios Eleusinos . Há um ano, no Asia Times , mais uma vez formulei numerosas perguntas que ainda não encontraram respostas.

Entre as setas dos arcos e as pedras das fundas que voaram como raios de ultrajante desgraça e rasgaram estas duas décadas, com certeza incluem-se as seguintes:   O fim da história. O breve momento unipolar. A Longa Guerra do Pentágono. A Segurança Nacional. A Lei Patriótica (Patriot Act). Choque e Pavor. A tragédia/derrocada no Iraque. A crise financeira de 2008. A Primavera Árabe. Revoluções coloridas. “Liderar pela retaguarda”. Imperialismo humanitário. Síria, a como guerra por procuração absoluta. A farsa ISIS/Daesh. O Plano Abrangente de Ação Conjunta (Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA), conhecido como “Acordo do Irã” e “Acordo Nuclear”). Maidan. A Era das Operações ‘Psicológicas’ (Psyops). A Era do Algoritmo. A Era dos 0,0001%.



Mais uma vez entramos fundo no território de Yeats: “Os melhores vacilam e os piores andam cheios de irada intensidade.” 

Ao mesmo tempo, a “Guerra ao Terror” – decantação da Longa Guerra – avançou sem trégua, matou multidões de muçulmanos e arrancou das suas próprias terras pelo menos 37 milhões de pessoas.

Chegou ao fim a geopolítica derivada da 2ª Guerra Mundial. Está em andamento a Guerra Fria 2.0. Começou como EUA contra Rússia, transformou-se em EUA contra China; e agora, completamente desmascarada como Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, e com apoio dos dois principais partidos, é EUA contra ambas. O pesadelo absoluto de Mackinder-Brzezinski está à vista:   o muito temido “concorrente” na Eurásia rasteja rumo à [avenida] Beltway para nascer [2] sob a forma da parceria estratégica Rússia-China.


Algo tem de ceder. [3] E então, sem mais nem menos, do nada, aconteceu.

Um impulso planejado na direção de concentração de poder com garras de aço e diktats econômicos foi conceptualizado antes – sob uma fachada de “desenvolvimento sustentável” – já em 2015, na ONU ( aqui, em pormenor ).

Agora, esse novo sistema operacional – ou distopia digital tecnocrática – está sendo finalmente codificado, embalado e “vendido”, desde meados do Verão, mediante campanha abundante, ostensiva e concertada, de propaganda.

Zele pelo seu espaço mental

Toda a histeria no Planeta Confinamento que elevou a Covid-19 a dimensões de moderna Peste Negra já foi consistentemente desmascarada, por exemplo, aqui e aqui , a partir de conhecimento original que vem de uma fonte altamente respeitada, de Cambridge .

A demolição de fato controlada de vastas porções da economia global garantiu ao capitalismo das corporações e abutres, em todo o mundo, lucros indescritíveis, arrancados do colapso e da destruição de empresas e negócios.

E tudo feito com a mais ampla cumplicidade das massas – processo espantoso de servidão voluntária.

Nada disso é acidental. Por exemplo, há mais de dez anos, desde antes da criação de uma Equipe de Percepções Comportamentais [Behavioral Insights Team], o governo britânico já estava muito interessado em “influenciar” comportamentos, em colaboração com a London School of Economics e o Imperial College.



O resultado foi o relatório MINDSPACE . É a ciência do comportamento usada para influenciar os políticos e a política e, sobretudo, para impor controle neo-Orwelliano sobre a população.

Crucialmente importante, MINDSPACE manifestou colaboração estreita entre o Imperial College e a empresa RAND, de Santa Monica. Tradução: os autores dos modelos computacionais absurdamente falhados que alimentaram a paranoia do Planeta Confinamento, operaram em conjunção com o principal think-tank ligado ao Pentágono.

Em MINDSPACE, lê-se que “abordagens comportamentais incorporam uma linha de pensamento que se desloca, da ideia de um indivíduo autônomo que toma decisões racionais, para um tomador ‘situado’ de decisões [‘situated’ decision-maker], cujo comportamento, em grande parte, é automático e influenciado pelo respectivo ‘ambiente de escolha’ [‘choice environment’] “.

Assim, a pergunta chave é quem decide qual é o ‘ambiente de escolha’. Hoje, todo nosso ambiente é condicionado pela [pandemia e vírus] Covid-19. Chamemos de “a doença”. E dá e sobra para estabelecer muito belamente “a cura”: The Great Reset .

O coração pulsante

O Grande Reinício (Great Reset) foi oficialmente lançado no início de junho pelo Fórum Econômico Mundial (FEM) – habitat natural do Homem de Davos. A base conceitual é algo que o FEM descreve como Plataforma de Inteligência Estratégica ( Strategic Intelligence Platform ): “sistema dinâmico de inteligência contextual que capacita os usuários a que tracem relacionamentos e interdependências entre as questões, como suporte para tomar decisões mais bem informadas”.

Essa plataforma promove complexo cruzamento e mútua penetração entre a doença Covid-19 e a Quarta Revolução Industrial – conceptualizada já em dezembro de 2015 e cenário futurista escolhido pelo Fórum Econômico Mundial. Um não pode existir sem o outro. Visa a imprimir no inconsciente coletivo – pelo menos no ocidente – a noção de que só a abordagem “de acionista” autorizada pelo FEM é capaz de superar o desafio da doença Covid-19.

Great Reset é imensamente ambicioso , cobrindo mais de 50 campos de conhecimento e prática. Interconecta tudo, de recomendações para recuperação da economia, até “modelos de negócios sustentáveis”, de restauração ambiental até redesenho de contratos sociais.

O coração pulsante dessa matrix é – e que mais seria? – a Plataforma de Inteligência Estratégica, que reúne literalmente tudo: “desenvolvimento sustentável”, “governação global”, mercados de capital, mudança climática, biodiversidade, direitos humanos, paridade de gênero LGBTI, racismo sistêmico, comércio e investimento internacional, o – duvidoso – futuro das indústrias e viagens e turismo, alimento, poluição do ar, identidade digital, blockchain, 5G, robótica, inteligência artificial (IA).

No final, só um plano geral A faz interagirem todos esses sistemas, sem saltos ou emendas:   o Grande Reinício – abreviatura de uma Nova Ordem Mundial sempre evocada com deslumbramento, mas jamais implementada. E não há Plano B.

O “legado” do Covid-19

Os dois principais atores por trás do Grande Reinício são Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial; e a diretora-gerente do FMI Kristalina Georgieva. Georgieva não tem qualquer dúvida de que “a economia digital é a grande vitoriosa dessa crise”. Crê firmemente que o Grande Reinício deva começar, necessariamente, em 2021.

A Casa de Windsor e a ONU são os principais coprodutores executivos. Principais patrocinadores incluem BP, Mastercard e Microsoft. Desnecessário dizer que todos quantos têm conhecimento de como são tomadas as mais complexas decisões geopolíticas e geoeconômicas sabem que esses dois principais atores só fazem cumprir roteiro decorado. Os autores são, digamos assim, “a elite globalista”. Ou, em homenagem a Tom Wolfe, “Os Senhores do Universo”.

Schwab, como se poderia prever, escreveu o mini-manifesto do Great Reset . Um mês depois, expandiu muitíssimo a conexão-chave:   o “legado” da [doença] Covid-19.

Tudo isso foi devidamente incorporado num livro , escrito em coautoria com Thierry Malleret, diretor da Rede de Risco Global do Fórum Econômico Mundial (WEF’s Global Risk Network). A Covid-19 é descrita como o fator que “criou o grande reinício disruptivo dos nossos sistemas global, social, econômico e político”. Schwab pinta a [doença] Covid-19 não só como “oportunidade” fabulosa, mas, realmente, como fator criador (itálicos meus) do – agora inevitável – Reset.

Tudo isso se encaixa lindamente com a ideia filhote do próprio Schwab: a [doença] Covid-19 “acelerou nossa transição para a era da Quarta Revolução Industrial”. A revolução vem sendo exaustivamente discutida em Davos desde 2016.

A tese central do livro é que nossos mais prementes desafios têm a ver com o meio ambiente – considerado só em termos de mudança climática – e com desenvolvimentos tecnológicos, que permitirão a expansão da Quarta Revolução Industrial.

Em resumo: o Fórum Econômico Mundial está declarando oficialmente morta a globalização empresarial, modus operandi hegemônico desde os anos 1990s. Agora é tempo de “desenvolvimento sustentável”. – E é “sustentável” o que for declarado “sustentável” por um seleto grupo de “acionistas”, idealmente integrados numa “comunidade de interesses, objetivos e ação comuns (sic).”

Atilados observadores do Sul Global não deixarão de comparar a retórica do FEM de “comunidade de interesses comuns” à “comunidade de interesses partilhados” chinesa, que se aplica à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), que, sim, é projeto continental de comércio/desenvolvimento.

O Grande Reinício pressupõe que todos os acionistas – em todo o planeta – alinhem-se perfeitamente. Se não, como Schwab destaca, teremos “mais polarização, mais nacionalismo, mais racismo, agitação social crescente e mais conflitos”.

Assim sendo – mais uma vez – é ultimato tipo “você está conosco ou contra nós” – reminiscência espectral do nosso velho mundo do 11/Set. Ou o Grande Reinício estabelecido pacificamente, com todas as nações devidamente subservientes, obedecendo às novas orientações definidas por um punhado de autonomeados sábios de República neoplatônica, ou o caos.

Se a Covid-19 e respectiva “janela de oportunidade” apareceram por aí por acaso, ou se apareceu por projeto, permanece sempre como questão das mais sumarentas.

Neofeudalismo digital

A reunião ‘real’, cara a cara, em Davos, ano que vem, foi adiada para o Verão de 2021. Mas Davos virtual acontecerá em janeiro, focada no Grande Reinício. .

Já há três meses, o livro de Schwab sugeria que quanto mais todos se deixem prender na paralisia global, mais claramente se verá que não se permitirá (itálicos meus) que as coisas voltem ao que, antes, se considerava normal.



Há cinco ano, a Agenda 2030 da ONU – madrinha do Grande Reinício – já insistia em vacinas para todos, sob patrocínio da Organização Mundial de Saúde e da CEPI – iniciativa fundada em 2016 por Índia, Noruega e a fundação de Bill e Belinda Gates.

timing não poderia ser mais conveniente para o notório Event 201 .



O “exercício de pandemia” efectuado em outubro do ano passado em Nova York, com o Centro para Segurança da Saúde da Universidade Johns Hopkins, em parceria com – adivinhem! – o Fórum Econômico Mundial e a Fundação Bill e Melinda Gates. Os guardiões vigilantes dos media não admitem nenhuma crítica às motivações dos Gates que não seja superficial. Afinal de contas, são os Gates que financiam estes guardiões mediáticos.

Mas já está imposto como consenso mantido com mão de ferro que sem uma vacina que neutralize a Covid-19 não há qualquer possibilidade de coisa alguma que sequer se pareça com normalidade.

E o artigo espantoso publicado no Virology Journal – que também publica o que diz o Dr. Fauci – demonstra muito claramente que “a cloroquina é potente inibidor da infecção e disseminação de infecção por coronavírus na SARS” [NR] . Trata-se de droga “relativamente segura, efetiva e barata” cujo significativo efeito inibitório antiviral quando as células um possível uso profilático e terapêutico.”

Até o livro de Schwab admite que Covid-19 é “uma das pandemias menos mortais nos últimos 2.000 anos” e que suas consequências “serão pouco graves, comparadas às de pandemias anteriores”.

Não importa. O que importa sobretudo é a “janela de oportunidade” que [a doença] Covid-19 oferece, promovendo, dentre outras questões, a expansão do que já descrevi como Neofeudalismo Digital – ou o Algoritmo devora a Política. Não surpreende que instituições político-econômicas, da Organização Mundial do Comércio à União Europeia e à Comissão Trilateral já estejam investindo em processos de “rejuvenescimento”, expressão codificada para “mais concentração de poder”.

Vigie os imponderáveis

O filósofo alemão Hartmut Rosa é um dos raros pensadores que veem o suplício pelo qual estamos passando, como rara oportunidade para “desacelerar” a vida em tempos de turbocapitalismo.



Hoje, não se trata de “ataque contra o estado-civilização” . Trata-se de estados-civilizações – como China, Rússia, Irã – não submetidos ao Hegemon, que tendem a mapear curso bem diferente.

O Grande Reinício, apesar de tantas ambições universalistas, permanece como modelo insular, ocidente-cêntrico, que só beneficia o proverbial 1%. A Grécia Antiga não se via como “Ocidental”. O Great Reset é, essencialmente, projeto derivado do Iluminismo .

Se se examina a trilha pela frente, com certeza a vemos cheia de imponderáveis. Desde o Fed a transferir dinheiro digital diretamente para aplicativos financeiros de smartphones nos EUA, até a China a promover um sistema de comercial/econômico para toda a Eurásia, ao mesmo tempo em que implementa o yuan digital.

O Sul Global dedicará muita atenção ao agudo contraste entre, de um lado, a proposta desconstrução-liquidação da ordem econômica industrial; e, de outro lado, o projeto Iniciativa Cinturão e Estrada – focado num novo sistema de financiamento fora do monopólio ocidental, e que enfatiza o crescimento agroindustrial e o desenvolvimento sustentável de longo prazo.

O Grande Reinício apontará contra nações perdedoras, agregando todas as que se beneficiam da produção e do processamento de energia e agricultura, desde a Rússia, China e Canadá até o Brasil, Indonésia e grandes porções da África.

Hoje, só uma coisa se sabe com razoável certeza: o establishment no cerne do Hegemon e as baleias babonas do Império só adoptarão um Grande Reinício se isso ajudar a adiar o declínio, acelerado na manhã fatídica de 19 anos atrás.

Sobre o Autor

Jornalista. Alguns dos seus livros são encontráveis em Book Depository .

Allende, um reformador revolucionário

Memorial da Democracia - Militares derrubam Allende no Chile

Por: Jorge Arrate 

As eleições de 4 de setembro de 1970 deram a vitória a Salvador Allende. Sua figura vive na consciência do Chile porque seu pensamento e sua prática são um legado e um desafio. Reformista ou revolucionário? Determinado ou hesitante? Realista ou imprudente? Nos últimos cinquenta anos, Allende passou por um exame minucioso. Na manhã do dia da sua derrubada, 11 de setembro de 1973, ele planejava anunciar um plebiscito para mudar a Constituição e fornecer uma solução política para a crise que o país passava. A memória de Allende e os triunfos populares trazem os ensinamentos da história para a memória e para a atualidade.

O legado de Allende teve vida difícil. Desde o início, a ditadura tentou exterminar seus herdeiros, lançou uma campanha hedionda contra a memória de Allende e quiz fazer de seu governo sinônimo de arbitrariedade, fracasso econômico, escassez, desordem, ilegalidade. A Unidade Popular foi apresentada como um projeto monstruoso. Em seguida, veio o silêncio da pós-ditadura, para evitar discórdias entre os membros da Concertación que tinham diferentes pontos de vista sobre o significado do governo popular. Quando se festejou o centenário do nascimento de Allende, em 2008, algumas homenagens destacaram as suas feições de sonhador, de homem bem intencionado, leal e corajoso. Havia um subtexto que poucos se atreviam a sugerir explicitamente: talvez faltasse realismo, talvez tivesse sido vítima do turbilhão de uma época conturbada, palco de projetos revolucionários tolos que alimentavam expectativas impossíveis. O passado não é um projeto e é um erro grosseiro tentar traçá-lo como um molde do futuro. O futuro deve ser inventado com ousadia e risco. No entanto, há uma nostalgia que é preciso reivindicar hoje: a lembrança de uma ação política que não desiste de olhar o horizonte e que tem o vigor necessário para querer mudar uma sociedade tão injusta como a do Chile. Por isso, os debates sobre o que significou a Unidade Popular, quais foram suas reais possibilidades de vitória e como foi seu governo, continuarão em aberto, como ocorre com acontecimentos históricos complexos que deixam sua marca na memória coletiva. É um evento estelar no qual existem chaves para explicar o último meio século no Chile e na América Latina e também para imaginar o futuro.

Três modos de ver Allende

Allende herói, ou socialista de carne e osso, ou líder de um projeto de esquerda. Três modos de ver possíveis. O primeiro está totalmente cristalizado e ultrapassou as fronteiras do Chile e da esquerda chilena. O segundo, o Allende militante, descobre um homem persistente, um lutador incansável por um projeto socialista e por sua própria liderança, atuante em muitos conflitos internos nos quais, por vezes, foi derrotado. Amava e respeitava seu partido para além de suas discrepâncias, em ocasiões graves. Junto com ele estavam outros líderes notáveis, embora nenhum tenha contribuído tanto para desenvolver um movimento com a amplitude e a força que o “allendismo” tinha. Para Allende, a disputa política era também uma disputa de poder, mas, acima de tudo, era uma disputa de ideias. Suas divergências com outros líderes na década de 1940, sua desfiliação do Partido Popular Socialista em 1951 ou seus confrontos internos nas décadas seguintes, tiveram a ver com abordagens políticas. Sob sua liderança surgiu o grande movimento para o qual convergiram organizações sociais e partidárias, militantes e cidadãos sem partido, constituindo um amálgama poderoso e original. O terceiro Allende, o chefe de um projeto revolucionário – “por seus fins”, teria dito seu contemporâneo, o principal ideólogo do socialismo chileno, Eugenio González – e não violento em seus meios, gerou interpretações e debates. Não é estranho. Ao contrário de Ernesto Guevara, que convergiu com um momento em que nada era considerado impossível – os anos sessenta – Allende estava longe de ser uma figura dos “anos sessenta”. Inserido nas instituições, formais quando exigidas, informais até o limite do permitido, desenvolveu-se no Parlamento, em grandes atos democráticos e populares ou no debate político nacional, não nos territórios que então muitos latino-americanos priorizavam para sua luta: as montanhas, os campos, os metrôs das cidades, os lugares remotos dos subúrbios pobres de nossas capitais. As armas de Allende eram sua voz, sua presença, a luz da sua mensagem, a capacidade de abalar e conquistar consciências, o incentivo que dava às organizações populares. Eram a greve, o protesto ou a ocupação de terras que ele apoiava.

Líder de um projeto

Allende concebeu uma expressão política maior que a soma dos dois grandes partidos marxistas, menos sectária, mais abrangente. Também assinalou, sem excessiva especulação teórica, um caminho para a vitória: o árduo confronto democrático, o recurso ao sufrágio universal, a mobilização social, a luta de massas. Em quatro candidaturas presidenciais, percorreu um país onde não existiam os meios audiovisuais ou informáticos de hoje. Construiu a hegemonia de esquerda e a revalidou todos os dias. Desenvolveu sua batalha com partidos sólidos, o Socialista e o Comunista (posteriormente também com radicais e grupos de origem cristã), em momentos promissores de lutas sociais e em um contexto internacional caracterizado pelo confronto entre duas grandes potências e um hemisfério sul rebelde, em processo de descolonização ou luta pelo desenvolvimento com justiça social. A visão de Allende mostrou que ele pôde viver com o espírito daqueles anos e alcançou surpreendentes momentos de síntese: seu apoio e relação especial com a Revolução Cubana e seus dirigentes, seu interesse pelo processo chinês, sua adesão à luta vietnamita, sua fraternal compreensão e estímulo aos movimentos revolucionários armados surgidos na América Latina e no Chile, seu sempre polêmico mas respeitoso diálogo com a esquerda extraparlamentar que criticava seu governo e a Unidade Popular. Allende foi o líder de um projeto que, pela primeira vez na história do Chile, teve como objetivo mudar verdadeiramente o simbolo do poder. O fim dessa experiência está diretamente relacionado com a profundidade do projeto Allende e seu alcance transformador. São esses elementos que explicam a reação das classes dominantes e do imperialismo, e motivam as consequências cruéis do golpe militar. Nossas autocríticas, válidas e necessárias, não podem esquecer este fato: sempre fomos perseguidos por inimigos que utilizaram de todos os meios para impedir o sucesso do projeto liderado por Allende. O que deu tanto potencial a este projeto? O allendismo instalou-se na oposição entre reforma e revolução. Talvez o magnetismo do projeto fosse buscar uma síntese. Nem reformista nem simplesmente revolucionário, Salvador Allende foi antes um “reformador revolucionário” que pensava que a agregação de reformas radicais, em vários campos e realizadas mais ou menos simultaneamente, significava uma mutação qualitativa para um tipo de mudança social que era uma autêntica revolução. A vida política de Allende foi prejudicada pelas tensões inerentes a projetos de longo prazo. Teoria e prática tiveram um encontro complexo durante muitos anos de longas campanhas eleitorais e debates constantes. O pragmatismo compelido do governante teve que ser medido contra o idealismo do revolucionário que quer mudar a sociedade e deu origem a momentos cruciais para a vida política e social chilena. Meios e fins relacionam-se em permanente tensão quando esquemas ideais são confrontados com a realidade problemática. Destemido pelo desafio, Allende procurou sintetizar reforma e revolução, liberdade e igualdade, democracia e socialismo.

Sobre o Autor

Jorge Arrate é economista e ex-candidato à presidência