Nacionalização do rublo, o caminho para a liberdade da Rússia

La Nacionalización Del Rublo Y Su Impacto En Los Tipos De Cambio Y ...

Por: Roberto Scarcia Amoretti

Resenha de Rouble Nationalization, the Way to Russian Freedom, de Nikolai Starikov.   A versão em inglês pode ser descarregada aqui

Antes de entrar no mérito da obra de Nikolai Starikov é necessário notar que não houve, até onde sabemos, tradução para o castelhano. Na esperança de que haja em breve, introduzimos as ideias de Starikov aos leitores interessados e que não se atrevem a se aventurar com a versão russa ou a tradução inglesa, tal como fizemos anteriormente a resenha de Falcões da Paz [NR] , a autobiografia de outro influente homem político russo, Dimitri Rogozin.

Os livros que conseguem apresentar narrativas diferentes críveis, em um contexto cultural marcado pelo hegemônico e totalitário conto oficial sobre o sistema de poder, são desafortunadamente poucos em nossos tempos “digitais”. Os livros que têm o mérito de carregar uma mensagem de interesse internacionalista, apesar de terem sido escritos para leitores de uma língua e cultura específica são até, lamentavelmente, raros.

Entretanto, esta obra de Nikolai Starikov, o dirigente do partido da “Grande Pátria” russo, é um desses raros casos. A “Nacionalização do Rublo. O Caminho para a Liberdade Russa” é uma obra que desvela um olhar sobre um período histórico e indica um caminho de combate político que, embora escrito para os russos, poderia ser benéfico para todas as nações que aspiram a uma soberania completa, sem “talvez” nem “mas”.

Com efeito, a soberania das nações se declina, segundo a interpretação do autor, de maneira que não deveria deixar a ninguém indiferente, e consiste de cinco níveis iniludíveis:

1) O nível simbólico. O reconhecimento internacional do território de um país por parte da comunidade internacional, os símbolos nacionais como o hino e os emblemas.

2) A soberania diplomática, quer dizer, a capacidade de seguir uma política internacional independente: “a liberdade de poder eleger seus amigos e seus inimigos”.

3) A soberania militar: “a capacidade de derrotar a um agressor e de garantir segurança à própria nação e a seus aliados”.

4) A soberania econômica para garantir o desenvolvimento autônomo da nação.

5) A soberania cultural. “Nossa história nos ensina que é a mais importante”, destaca Starikov; “porque a falta de soberania cultural é o primeiro passo para o abismo”. “O Ocidente” lamenta o autor “era considerado (nos últimos anos da URSS) “o berço dos sonhos” e o nosso país era desprezado como um ‘sovok’ (palavra depreciativa para indicar ‘soviet’)”.

O título “Nacionalização do rublo. O caminho para a liberdade russa”, já identifica o problema financeiro do capitalismo e propõem um caminho de solução para recuperar a soberania econômica depois da caída da União Soviética.

Em um simples parágrafo no início do livro o autor identifica a natureza do problema, que não deixa lugar a dúvidas ou mal-entendidos acerca de um dos principais problemas de nosso mundo “globalizado” e reduzido a um joguete nas mãos de uma oligarquia financeira:

“A emissão descontrolada de dinheiro sem nenhum respaldo tem sido o sonho dos banqueiros e dos credores durante séculos. Este é o caminho mais curto à dominação do mundo. Hoje este sonho se converteu em realidade. Todo o dinheiro do mundo está atado ao dólar. Como resultado da derrota na Guerra Fria, Rússia foi privada de uma parte significativa de sua soberania. O rublo russo já não pertence ao povo. A única maneira de sair do beco sem saída é mudar a forma atual do sistema de emissão de dinheiro”.

Ao longo dos 12 capítulos do livro, Starikov propõem, de um lado, uma série de passos para recuperar a soberania econômica da Rússia, depois de haver, de outro, traçado o percurso histórico que levou a finança anglo-americana ao poderio global. Dito de outra maneira, a obra de Starikov é uma criativa fusão de dois gêneros: investigação histórica, e do que em inglês se chama comumente de “how-to book”, ou seja, um manual de instruções concretas, neste caso aplicáveis ao corpo do Estado mediante a ação política. Simplificando ainda mais “Nacionalização do Rublo. O Caminho para a Liberdade Russa” responde por meio de uma série de perguntas a duas questões fundamentais para a Rússia atual: O que aconteceu? E, o que fazer?

O que aconteceu?

É claramente difícil sintetizar em poucas palavras uma investigação que cobre vários séculos. Os capítulos de investigação histórica traçam a continuidade histórica desde aquele verdadeiro e relativamente desconhecido delito de “luva branca” que foi o invento da emissão de dinheiro em papel sem nenhum respaldo econômico concreto ao final do século 17 com a criação do Banco da Inglaterra, até a dominação do dólar nos dias atuais, e os efeitos nefastos que o dito percurso provocou em sua pátria russa. Como as peças aparentemente sem relação de um puzzle, eventos tão distintos como, por exemplo, a colaboração de Mussolini com os serviços de inteligência britânicos, atividades de misteriosos personagens durante a revolução russa, o acordo de Bretton Woods e a estrutura do Fundo Monetário Internacional, a política britânica em relação ao império czarista, e até a presença de franco-atiradores estrangeiros nos tetos de Moscou durante os trágicos dias de 1993 que aplainaram definitivamente a via do poder a Eltsin, contribuem para dar um panorama coerente. Para dizer com as palavras do próprio autor, são “as raízes de uma mesma árvore”.

A árvore em questão seria um mundo marcado pela dominação econômica e cultural de traço anglo-saxão.

Sabemos que no âmbito dos media “mainstream” habitualmente classificam estes argumentos como “teorias da conspiração”; mas sabemos também que se trata de críticas intelectualmente covardes para afogar qualquer tipo de narrativa alternativa àquelas apresentadas pelos poderes “de facto” como “a história” oficial.

Em Starikov, se encontra, em resumo, uma valiosa revisão histórica por parte daqueles que perderam sua pátria e seu potencial político coletivo por causa do que fundamentalmente foi uma guerra de propaganda disfarçada de cavalo de Tróia do qual saiu a colonização financeira por meio da tirania do dólar.

Contudo, o valor da obra de Starikov se mede também por aquilo que não se diz textualmente, mas que resultaria um lógico corolário ao seu raciocínio.

Ficando com a mesma metáfora do autor, parece-me que o sistema em que estamos é como uma árvore com várias ramificações que têm suas raízes na reforma protestante inglesa e seus efeitos culturais e socioeconômicos.

E isso também deveria interpelar todos os “soberanistas” de pátrias grandes ou pequenas ou de nações com ou sem Estado.

Se já ficava claro para alguns de nós que a “globalização” não atua em termos culturalmente neutros senão que contém em si mesma as formas de uma estrutura arraigada em “valores” anglo-americanos, agora, com o livro de Starikov na mão, seria mais concreto falar de “anglo-balização”. O sistema de poder de hoje parece ser um simples “aggiornamento” (atualização) e consolidação do domínio anglo-saxão, desde a pirataria inglesa à tirania do dólar americano, e como tela de fundo a guerra psicológica (e de propaganda) contra o adversário da vez desde a “Lenda negra” contra a Espanha até a russofobia declarada atualmente passando por todas as variegadas expressões de russofobia disfarçadas desde os anti-czaristas do liberalismo europeu até o anticomunismo antissoviético.

Lendo Starikov (que não é um neo-bolchevique), está claro que a guerra fria antissoviética era alimentada por uma adaptação propagandística da “lenda negra” anti-espanhola dos séculos passados às características da experiência russa de resistência ao sistema de dominação cultural e financeira anglo-saxã.

O que fazer?

Nikolai Starikov propõem quatro passos técnicos para recuperar a soberania econômica. Em resumo se trata de:

1) Desvincular o rublo das reservas globais. Saída da Rússia do Fundo Monetário Internacional. A emissão de rublos deve depender das necessidades concretas da economia russa.

2) Nacionalização do Banco Central que deve regular a circulação e a estabilidade da moeda nacional. Um Banco Central não deve utilizar como reservas as ações de outros países.

3) Comerciar os bens e produtos russos em rublos. Por consequência a nacionalização do rublo.

4) Redução dos preços de recursos naturais para qualquer projeto que tenha como finalidade o desenvolvimento da Rússia. Nenhuma participação na Organização Mundial do Comércio porque dificultaria baixar os preços dos recursos.

Um passo prévio a estas coisas é evidentemente a conquista do poder político pela via democrática e por isso existe o Partido da Grande Pátria, que Nikolai Starikov dirige.

O lamento de Nikolai Starikov pelo estado da sua pátria explica a proteica natureza de um processo de dominação que se consolida ao longo da história. As soluções que o autor de “Nacionalização do rublo. O caminho para a liberdade russa” propõem indicam uma via à soberania nacional que também poderia ser a nossa. É o bastante para dizer que a obra de Starikov merece ser lida, estudada e interpretada.

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