ISRAEL ARRASA INSTALAÇÕES PALESTINIANAS CONTRA A COVID-19

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Por: Alan Macleod

Tropas israelitas arrasaram há uma semana um hospital e um centro de testes acabados de construir por palestinianos em Hebron para combater a COVID-19; em Março tinham feito o mesmo em Khirbet Ibziq, também na Cisjordânia. Tanto as chamadas “democracias liberais” como as “iliberais” da União Europeia guardam um recatado silêncio perante estas atrocidades que enxovalham os direitos humanos em tempos de pandemia. As autoridades sionistas cometeram o crime com requinte: começaram por exigir licenças de construção quando são elas próprias que negam essas autorizações a palestinianos nos territórios ocupados. Israel é, como tantas vezes se repete no “mundo civilizado”, “a única democracia no Médio Oriente”.

A decisão israelita de arrasar um hospital de campanha e um centro de testes da COVID-19 acabados de construir em Hebron, na Cisjordânia, tem vindo a ser condenada por activistas, grupos de defesa dos direitos humanos e por dirigentes palestinianos. “Demolir um centro de testes da COVID-19 é, sem dúvida, a melhor maneira de Israel provocar o desperdício de fundos destinados a apoiar as populações sob ocupação”, adverte o grupo pacifista Codepink, dirigido por mulheres. “Esta obsessão israelita por destruir a Palestina, inclusivamente através da inutilização dos recursos destinados a combater uma pandemia, é uma doença séria”, acrescenta.

Em 18 de Julho, as forças israelitas de ocupação entregaram uma ordem de demolição aos responsáveis de uma clínica de campanha e centro de testes da COVID-19 erguida na entrada norte da cidade de Hebron. Construídas com o apoio do município, as instalações tinham-se tornado imprescindíveis nesta zona, que é a mais atingida pela epidemia em todos os territórios palestinianos ocupados. No dia 21 de Julho, as tropas israelitas arrasaram as construções e todo o seu conteúdo.

Os promotores da construção das instalações de saúde tinham conseguido angariar 250 mil dólares norte-americanos de financiamento. O terreno foi doado pela família do engenheiro Raed Maswadeh em memória do avô, que faleceu recentemente vítima do novo coronavírus.

Raed Maswadeh explicou aos jornalistas da publicação Middle East Eye que os soldados israelitas assistiam há meses aos trabalhos de construção sem dizer nada. Hebron é uma região dita de “autonomia palestiniana” fortemente militarizada e policiada pelas forças de ocupação, que encorajam e protegem as constantes acções violentas dos colonos sionistas contra a generalidade da população.

Há cerca de duas semanas, segundo Maswadeh, as tropas ocupantes foram instruídas para passar a exigir licenças de construção aos promotores, uma coisa impossível de conseguir quando se trata de erguer edifícios para palestinianos nos territórios “autónomos” administrados, na prática, pelas autoridades israelitas. Os soldados advertiram que se os construtores não conseguissem as licenças de edificação as obras seriam arrasadas. E assim aconteceu.

Na circunstância de pouco valeu a indignação do presidente do município de Hebron, Tayseer Abu Sneineh, eleito pela maioria da população palestiniana. “Estamos no meio de uma crise global, numa situação de emergência onde poderíamos ser levados a pensar que eles mostrariam alguma empatia ou dariam alguma margem às pessoas, mas não estão interessados nisso”, disse. Abu Sneineh sublinhou que “isto mostra claramente que Israel não tem consideração por qualquer vida palestiniana; eles não nos concedem quaisquer dos direitos básicos de saúde, nem sequer os que permitiriam tratar o nosso povo contra o coronavírus”.

O silêncio cruel da União Europeia

Os promotores da iniciativa sanitária em Hebron não estão apenas revoltados com as autoridades de ocupação mas também com os governos ocidentais que lhes dão cobertura: neste caso respondendo com o silêncio a mais uma atrocidade contra os direitos humanos. “Não se ouve uma palavra da União Europeia sobre a destruição do hospital de emergência”, sublinha Ali Abunimah, co-fundador do website Intifada Electrónica. “Quando não é o silêncio são migalhas de caridade lançadas aos palestinianos”, acusou. “Não permitiremos que a União Europeia tente lavar com essas migalhas a cumplicidade e o apoio aos crimes de guerra israelitas”.

Entretanto, a situação gerada pelo novo coronavírus na região parece estar fora de controlo. 

Apesar de Israel ter dado a sensação de conseguir travar com êxito os primeiros surtos, a verdade é que surgiu uma segunda vaga de infecções muito pior do que qualquer episódio ocorrido até agora. No auge da pandemia, no início de Abril, Israel registou em média cerca de 600 novos casos por dia. Num dos últimos dias o número de contaminações foi superior a duas mil.

Os territórios palestinianos perdem igualmente o controlo da situação, uma vez que só no mês de Julho foram registados 57 dos 64 óbitos por coronavírus.

Nikolay Mladenov, coordenador especial das Nações Unidas para o chamado “processo de paz” no Médio Oriente, alertou recentemente que o aumento de casos é um motivo acrescido para a instabilidade na região devido às suas consequências potencialmente perigosas. Sugeriu novas “medidas extraordinárias” para combater a disseminação do vírus; a destruição do hospital e do centro de testes de Hebron é precisamente o contrário do que Mladenov defendeu.

Comportamento habitual

Embora a destruição de infraestruturas sanitárias em tempos de pandemia possa chocar muitas pessoas, trata-se, contudo, de uma prática que se insere no comportamento comum das tropas israelitas de ocupação. Em Março, as tropas ocupantes tinham feito o mesmo com o novo hospital de campanha na zona de Khirbet Ibziq, na Cisjordânia; destruíram as instalações e confiscaram equipamentos médicos e materiais de construção. “Enquanto o mundo inteiro luta contra uma crise de saúde sem precedentes e paralisante, as forças armadas de Israel dedicam tempo e recursos a assediar as comunidades palestinianas mais vulneráveis da Cisjordânia, que são alvos para expulsão há muitas décadas”, escreveu o grupo israelita de direitos humanos B’Tselem. “Destruir iniciativas comunitárias de primeiros socorros durante uma crise de saúde é um exemplo especialmente cruel dos abusos regulares infligidos a essas comunidades e vai contra todos os princípios humanos e humanitários básicos, sobretudo numa situação de emergência”, acrescentou. 

O governo israelita tem vindo a anunciar planos para anexar formalmente até mais um terço da Palestina, incluindo grande parte do fértil Vale do Jordão, a fonte de alimentação da Palestina. Com base no chamado “acordo do século”, elaborado por Trump e Netanyahu, o plano prevê a inclusão de mais cerca de 70 mil palestinianos sob a jurisdição racista israelita. Até a alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos, a chilena Michelle Bachelet – silenciosa perante o golpe fascista na Bolívia e os atentados contra a Venezuela – qualificou os planos de anexação como “ilegais” e “desastrosos”. O dr. Ramzy Baroud, jornalista palestiniano também com nacionalidade norte-americana, declarou recentemente que a população da Cisjordânia “já está sob completo controlo israelita, uma vez que todas as movimentações e liberdades estão restringidas para os palestinianos”; no entanto, acrescentou, o plano de Trump e Netanyahu torna a situação ainda pior, “será o último prego no caixão do chamado processo de paz”.

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