IMPÉRIO À DERIVA E MORTÍFERO NO CORNO DE ÁFRICA

Por: Martin Jay

Na Somália, o embaixador dos Estados Unidos puxa para um lado; e a estratégia militar de agressão do Pentágono parece conduzir no sentido contrário. Tudo acontece entre massacres de civis por aviões norte-americanos, subornos de milhões em dinheiro vivo e outros comportamentos de que beneficiam os terroristas do Al Shabab, parentes da al-Qaida. O caos e a instabilidade subsistem no Corno de África numa situação em que é impossível decifrar qualquer coerência da política imperial para a região, a não ser aprofundar o caos e a instabilidade.

Consta que uma vez Churchill disse que “a diplomacia é a arte de mandar alguém para o inferno e o visado ainda pedir instruções para o caminho”. Se isso for verdade, então poderemos assumir que o homem de Washington para a África Oriental precisa que se lhe aplique essa máxima.

Existe também uma história sobre um alto funcionário de um departamento de Londres que, durante os tempos coloniais, visitou um “oficial do distrito” na África Oriental. Depois da sobremesa, os dois aventuraram-se numa saída de Land Rover, ocasião em que o alto funcionário fez três perguntas ao oficial vestido de caqui:

“Qual é a tribo dominante nesta área?

Que língua falam os seus habitantes?

Onde existe água potável nesta região?” 

O oficial, um homem mais jovem, pareceu confuso e encolheu os ombros. O alto funcionário parou o carro, mandou-o sair e gritou-lhe enquanto se afastava: “Quando voltar quero que saiba as respostas”.

Washington bem pode considerar enviar um funcionário deste tipo à África Oriental para fazer uma saída de Land Rover com o desastrado e desconcertado embaixador que por lá está e que começa a ser notado em Washington DC por perturbar ainda mais a política entre os Estados Unidos e a Somália.

Donald Yamamoto foi alvo de um artigo recente da publicação The National Interest no qual foi retratado como um tolo que se intromete na geopolítica do Corno de África de maneira a criar ainda mais problemas reais para a administração Trump.

Designado “governador colonial”, devido às visões delirantes sobre o seu próprio papel ao engendrar políticas e tomar acções concretas para construir um Estado unificado entre a Somália e a Somalilândia, Yamamoto consegue ser até uma ameaça para os próprios planos do secretário de Estado Pompeo para aquilo a que chama “estabilizar” a Somália.

Os recentes movimentos de Yamamoto para associar o primeiro-ministro da Etiópia a uma pretensa unificação da Somália com a chamada Somalilândia – que seria a coroação da sua presença no cargo – saíram pela culatra e colocaram novamente a região sob os holofotes do circo de Washington e da panóplia mediática que se alimenta das suas entranhas.

Trata-se de uma situação muito perigosa e que pode contribuir para explicar a razão pela qual o Pentágono e o Departamento de Estado norte-americano estão actualmente envolvidos na mais ilógica, mas banal e absolutamente cruel onda de ataques aéreos na Somália – que na esmagadora maioria das vezes assassina pastores, residentes civis de localidades, agricultores e quase nunca os membros do grupo extremista Al Shabab. Será que os pilotos norte-americanos que operam os drones são incompetentes? O que será que nos escapa? 

O regresso de velhos fantasmas

A última vez que os Estados Unidos estiveram no centro de notícias sobre a Somália, e pelos motivos errados, foi em 1993 quando e revista Time saiu com uma foto de capa vencedora do Prémio Pulitzer mostrando o corpo de um soldado norte-americano a ser arrastado preso a uma corda pelas ruas de Mogadíscio, depois do fiasco da operação militar Black Hawk Down.

Esse caso acabaria por redesenhar a política externa dos Estados Unidos nos anos seguintes, interpretada pela administração Clinton, perseguida pelos fantasmas que gerou e pelas repercussões mediáticas, a que se juntou a situação no Ruanda – onde Washington ficou na linha da frente a assistir a um genocídio.

É importante regredir cerca de dois anos nessa época, à altura em que o regime somaliano de Siad Barre, sem dúvida uma ditadura brutal, entrou em colapso – situação aproveitada pela Somalilândia, uma ex-colónia britânica, para se afastar da região a Sul, a Somália, uma ex-colónia italiana.

Ainda o comboio de veículos de tracção às quatro rodas topo de gama que transportava a família de Barre mal chegara à fronteira com o Quénia já a Somalilândia, sem perda de tempo, recuperara a sua independência, obtida dos britânicos em 1960.

Porém, esta secessão não é reconhecida internacionalmente, a não ser em casos pontuais, e acabou por contribuir para criar uma nova colónia onde se faz sentir a influência militar de Israel. Neste quadro pode considerar-se um território muito mais “estável” e “calmo” que a Somália, um país estrangulado pela Al Shabab, organização terrorista da constelação da al-Qaida que se enraizou na sequência dos atentados de 11 de Setembro em Nova York e contribui para uma nação dilacerada, das mais pobres e corruptas do planeta. 

A nova união

As razões e os motivos objectivos que estão no ressurgimento da ideia de união entre os dois territórios não são claros, embora exista alguma verdade na sensação partilhada em ambos os lados de que uma Somália maior e unida poderia ser menos vulnerável aos inimigos regionais.

A pressão pela união é maior do lado da Somália, mas para que as circunstâncias se tornem favoráveis seria necessário que os Estados Unidos contivessem os bombardeamentos supostamente contra os terroristas do Al Shabab mas que, no essencial, continuam a poupá-los. Pelo que estamos numa situação bizarra: o embaixador dos Estados Unidos movimenta-se no sentido da união da Somália e da Somalilândia enquanto o Pentágono e o Departamento de Estado destroem quaisquer hipóteses desse enlace.

Muitos políticos em Mogadíscio parecem acreditar que o embaixador Yamamoto seja ingénuo. Na verdade, a ideia de que a unificação proporcionará estabilidade na região é uma loucura e aos jornalistas veteranos faz lembrar outros episódios singulares com origem em Washington, como os planos de antigos generais dos tempos do Black Hawk Down que assentavam na oferta de uma recompensa de 25 mil dólares por informações que levassem à captura de Mohamed Farrah Aidid, que a Wikipédia descreve simplesmente como “senhor da guerra”.

A estabilidade na Somália só é possível se assentar em acções concretas de âmbito regional que neutralizem, de facto, o Al Shabab. E para isso seria necessário que os Estados Unidos deixassem de dar força ao grupo terrorista com as suas acções que atravessam mais de duas décadas e várias administrações. Governança é um termo pretensioso usado por analistas e consultores ocidentais em Mogadíscio e a sua distância em relação à realidade só é superada pelos movimentos do embaixador dos Estados Unidos. 

Os comportamentos coloniais e agressivos do Pentágono, do Departamento de Estado e da sala oval da Casa Branca (partindo do princípio que o presidente sabe onde fica Mogadíscio no mapa) têm consequências negativas nos próprios países da região que era suposto os Estados Unidos ajudarem.

O embaixador dos Estados Unidos não se limita a parecer ingénuo na sua abordagem simplista e instantânea, tipo desenhos animados, de uma situação extremamente complicada tanto na Somália como na Somalilândia. E as suas decisões em Mogadíscio têm preços muito elevados.

Mil milhões de dólares em dinheiro vivo foram gastos imprudentemente a untar mãos consideradas importantes na construção da unificação dos dois territórios. Pressionar no sentido de Mogadíscio ter o controlo central do espaço aéreo acabou por conduzir à chegada de carregamentos ilegais de armas, que anteriormente eram impedidos. Esse tipo de controlo dos céus provocou reacções negativas na Somalilândia e criou novas tensões entre o Sul e o Norte. O mais grave erro de julgamento de Donald Yamamoto é, contudo, a decisão de insistir para que todo o dinheiro da ajuda internacional e dos Estados Unidos seja canalizado num único sentido – Mogadíscio.

Desde que isso aconteceu o terrorismo aumentou de intensidade, uma vez que os tentáculos do Al Shabab entram profundamente nos departamentos governamentais, na polícia, nos corpos militares e até nas áreas da chefia do Estado. Em que estaria o embaixador a pensar quando colocou todos os ovos da ajuda numa única cesta e num país que bate todos os recordes negativos por ser um Estado falido?

Daí que os ataques com drones que continuam a ser realizados pelos Estados Unidos contra alvos sobretudo civis na Somália pareçam uma estratégia contrária à adoptada pelo embaixador, privilegiando a divisão e o caos na região em vez de uma unificação de dois territórios.

Os ataques aéreos dos Estados Unidos estão a acontecer agora para impulsionar o plano absurdo do embaixador ou para o desmontar? Há muita confusão, mentira e desinformação para digerir numa estratégia imperial à deriva.

Massacres

Só este ano já foram realizados pelo menos 41 ataques aéreos contra a Somália, com terríveis massacres de civis. Fontes locais calculam cerca de 300 mortos: as fontes militares norte-americanas, como é habitual em todas as guerras de agressão em curso, falam apenas num “punhado”. 

Os níveis de ingerência e de colossal confusão das acções dos Estados Unidos na Somália, em particular, e no Corno de África em geral já inspiraram filmes de Hollywood como Black Hawk Down. Agora as estranhas manobras de um embaixador dos Estados Unidos, combinadas com uma estratégia militar aparentemente dissonante, poderão servir de base a um novo guião de Hollywood.

Espera-se agora a visita de um general do Pentágono a Mogadíscio, pronto a fazer ao embaixador as três perguntas sacramentais numa viagem de Land Rover até ao deserto. Tudo leva a crer que haja quem precise de ser mandado diplomaticamente para o inferno.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *