ESTADO, RELIGIÃO E MODERNIDADE: MUAMMAR AL-KADAFI E A TERCEIRA TEORIA UNIVERSAL.

Por: Murilo Sebe Bon Meihy – PUC-Rio

A construção de projetos políticos alternativos pode ser observada em experiências políticas que se baseiam em uma nova concepção de modernidade distante dos modelos sustentados pelo contexto da
Guerra Fria. No interior de uma crítica a concepção de modernidade amparada por Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, torna-se possível observar que a década de
setenta do século XX produziu em territórios de população islâmica, discursos políticos críticos às relações de poder próprias do confronto ideológico estabelecido entre capitalismo e comunismo. Em grande parte desses discursos, novas estratégias políticas eram traçadas por Estados de maioria muçulmana que consolidavam a legitimidade de seus governos através da aproximação de seus líderes a referências islâmicas, em detrimento da construção de identidades nacionais vinculadas à bipolaridade da Guerra Fria.

Os países muçulmanos do norte do continente africano, em especial, foram tomados nos anos setenta do século XX, por um crescente sentimento pró islamismo. A República Árabe do Egito, que durante os onze primeiros anos de governo do general Gamal Abdel Nasser assistiu sua defesa de uma política socialista e pan-arabista sobreposta a qualquer sectarismo religioso no país, pôde perceber que após a derrota na Guerra dos Seis Dias de 1967, sua legitimidade política passou a depender de uma tímida aproximação com o discurso islâmico, ainda que não permitindo o desenvolvimento de grupos políticos de cunho religioso1. Com a morte de Nasser em 1970 e a ascensão de Anuar Sadat, a tendência egípcia a islamização se acentua. Sadat ainda que buscando distanciar-se do nasserismo, intensificando suas relações com o Ocidente, construiu uma identidade egípcia moderna que ressaltava sua raiz islâmica embora controlada pelo Estado-nação que se alinhava ao modelo capitalista.
Em oposição ao modelo de Sadat, a Líbia de Muammar al-Kadafi se via como a continuadora do nasserismo pós 1967. A defesa de um Estado moderno na Líbia sempre foi uma das preocupações capitais do líder líbio, porém a concepção de modernidade perceptível em seus discursos políticos
estabelece uma participação do islã com uma intensidade muito mais característica do que àquela que o Egito apresentava.

O entendimento sobre a modernidade que se extrai da política de Kadafi se assemelha aos elementos conceituais que o filósofo Mohammed al-Jabri atribui à idéia de modernidade construída pela civilização árabe-islâmica, que apresenta elementos constitutivos próprios, ao invés de se colocar como uma caricatura da modernidade ocidental. Dessa maneira, para al-Jabri a concepção de modernidade árabe-islâmica possui uma dinâmica interna que se apresenta como reprodutora do antigo, vinculando ao “moderno” uma inerente ligação com a tradição (Turâth). A característica mais marcante dessa modernidade seria sua necessária relação com o passado, criando interpretações modernas da tradição2.

A idéia de se levar um projeto político moderno a civilização árabe-islâmica mostrou-se tentadora à Kadafi. A partir da queda de popularidade de seu governo em 1973, Kadafi cria uma nova estratégia governamental que propunha alterações significativas na composição política, econômica e social da Líbia. As reformas instituídas por Kadafi em 1973 e publicadas em sua obra O Livro Verde a partir de 1975, refletem sua leitura inovadora da tradição política legada pelo islã, construindo um projeto modernizador ao país que alterava significativamente o sistema político líbio e extraia legitimidade política de seus fundamentos religiosos. Gema Martín Muñoz salienta que desde sua chegada ao poder em 1969, Kadafi já havia percebido que qualquer projeto político para a Líbia deveria considerar três elementos básicos da realidade sociológica do país: A matriz religiosa do Estado, a frágil coesão social do país e o peso da estrutura tribal na organização social da Líbia3. O que se observa no projeto político de Kadafi em 1975 é sua ênfase proposital no primeiro desses elementos.
A partir de uma reforma no sistema político líbio, Kadafi critica no primeiro volume de seu Livro Verde, denominado Solução do Problema da Democracia, o modelo representativo liberal de governo, procurando incentivar não somente em seu país, mas em todo o Mundo Árabe, uma reestruturação das instituições políticas capaz de garantir a consolidação da unidade na região em uma espécie de pan-arabismo que começa a se encantar pelo teor militante da ação política islâmica4. A maneira encontrada por Kadafi para o estabelecimento de laços de maior proximidade com os demais países do Mundo Árabe é a chamada de todos a uma crítica conjunta sobre a influência da experiência política estrangeira em seus regimes. Para Kadafi, parece claro que o modelo representativo ocidental e o comunismo soviético não podem ser entendidos como propostas definitivas para a solução das questões políticas contemporâneas.

A proposta teórica do líder líbio se apresenta como uma alternativa ao embate ideológico da Guerra Fria, pois o primeiro volume de seu Livro Verde traria a base política de uma Terceira Teoria Universal”, concorrente à democracia representativa e ao governo comunista. Kadafi defende que sua teoria criara uma “democracia direta” que verdadeiramente daria ao povo o controle sobre o poder político, sem depender da “impostura” da eleição de representantes. O modelo representativo de governo se mostra como uma ferramenta de usurpação da soberania popular, já que afastaria as massas do exercício direto da política. Nesse aspecto, Kadafi tenta introduzir em seu novo modelo político o princípio corânico da shûrà (no islã, idéia de consenso em relação ao governante)5, confirmando o argumento de que a representação é um embuste político distante da tradição islâmica comum à nação líbia.

O primeiro volume do Livro Verde ampara a noção de que suas linhas propõem uma nova realidade política aos homens. Antes de sua criação, o mundo teria vivido o que Kadafi chamou de “Era das Repúblicas/Ditaduras”, pois o ambiente ideológico da Guerra Fria permitiu a existência de modelos políticos opressivos que estariam fadados ao desaparecimento a partir do estabelecimento de um marco político inaugural proposto pelo Livro Verde, a Era da Jamahiriyya (Era das Massas). Assim, a construção de uma visão crítica da Guerra Fria ganha concepções mais explícitas, seja pela recusa da uniformização material da sociedade proposta pelo comunismo, ou mesmo pelo partidarismo da democracia representativa atribuída ao capitalismo liberal, já que Kadafi afirma que:

“Enfim: as tentativas de uniformização da base material da sociedade, com o objetivo de resolver o problema do poder, ou de pôr fim à luta em proveito de um partido, de uma classe, de uma seita ou de uma tribo, têm falhado do mesmo modo que as tentativas de satisfazer as mesmas pela eleição de epresentantes, ou pela organização de referendos; continuar nessa via seria perder tempo e ridicularizar o povo”6.

A idéia de que todos os governos existentes no mundo são “ditaduras camufladas” se acentua pela discussão que o livro apresenta sobre a legitimidade do poder exercido por partidos políticos.
Kadafi defende que um partido político é sempre a coligação dos interesses de seus integrantes, sendo o poder de uma fração sobre o conjunto da população de um país. A existência de partidos políticos em um sistema de governo o transforma em “máquina de governação ditatorial”, posto que cada eleição, enquanto disputa entre propostas partidárias, consolidaria os interesses do grupo vitorioso no poder, legando ao povo apenas a opção de escolher qual minoria deve ter seus interesses atendidos pela posse do poder político. Qualquer embate eleitoral tenderia a se desdobrar em dois caminhos possíveis: a luta armada pelo poder, ou a difamação mútua entre o partido do governo e o de oposição7.

A proposta de resolução das questões apresentadas pela “máquina de governar” está contida no conceito de “democracia direta” da Terceira Teoria Universal. A ação política direta do povo estaria garantida por meio de uma estrutura piramidal de escolha de atores políticos que através de uma sucessão de congressos e comitês populares constituiriam um Congresso Geral do Povo formado por delegados designados. As eleições do secretariado de cada congresso submetem-se a um modelo de
seleção relacionado ao conceito de “escolha dos melhores” presente no islã desde a época posterior à morte do profeta Maomé, que havia servido como estratégia para a escolha de seus sucessores8. Esse princípio islâmico invocado (ijtihad) refere-se ao esforço de adaptação do texto corânico a determinadas situações não previstas pelo texto original, dando, portanto, caráter de legalidade ao que se examina.

A manutenção desse princípio religioso na teoria política de Kadafi relaciona-se diretamente com a maneira como o líder líbio caracteriza o conceito de “lei”. Em sua obra, Kadafi defende o argumento de que a autêntica lei de uma sociedade é a sua tradição, que no caso líbio refere-se a costumes islâmicos entendidos como inerentes à população local. A explícita valorização da tradição na produção de um moderno projeto político coloca sua própria definição de tradição à condição de “lei natural”, entendendo o islã como a legítima e apropriada tradição da Líbia. A proposta de Kadafi é atacar a ação legisladora dos Parlamentos, posto que qualquer lei criada pelos homens, como a Constituição de um país, se trata de uma “lei artificial” não advinda da tradição. Nesse sentido:
O meio pelo qual as ‘máquinas de governar’ procuram dominar os povos está consignado na Constituição. O povo é constrangido a submeter-se pela força às leis derivadas da Constituição, que por sua vez resulta do humor e das concepções da ‘máquina de governar’9.
Uma Constituição, portanto, não seria capaz de garantir a liberdade e a forma de exercício justo do poder aos homens condicionados a mesma. O modo de se governar um povo deve ser extraído de sua própria tradição, obrigando o governo a adaptar-se a lei natural de sua sociedade. A ausência de uma forma de governo baseada em uma lei natural, sagrada, tornada estável pelo uso contínuo, coloca em risco a liberdade de um povo porque a lei humana está sempre submetida à vicissitudes dependentes das relações de poder no interior de um regime político10.
Em condição complementar a base política da “Era da Jamahiriyya”, Kadafi expõe em um segundo volume do Livro Verde o que considera ser A Solução do Problema Econômico (Socialismo).
A idéia central de seu pensamento econômico se mostra pela defesa incondicional do fim do trabalho assalariado. Para Kadafi, a relação patrão-empregado é a base do problema econômico vivido pela humanidade. O sistema de trabalho assalariado é considerado opressor por ser visto como uma espécie de escravidão temporária, em que o trabalhador aluga sua força de trabalho e até o pagamento do salário mantém-se dominado pelo empregador. A resolução da questão econômica se encontra no
“socialismo natural”. Com a abolição da relação trabalhador-patrão, somente o Estado é admitido como empregador, pois somente ao mesmo deve ser estabelecida a posse de terra11. Entretanto, com a abolição do trabalho assalariado, o Estado fica responsável em garantir acesso à liberdade econômica para cada cidadão líbio. O conceito de liberdade econômica se define como o controle das necessidades de cada indivíduo, sendo o Estado responsável por assegurar três elementos básicos a essa liberdade:
habitação, proventos e veículo. Além disso, torna-se função do Estado garantir que as relações humanas retornem a maneira como eram dadas antes do surgimento das classes. Esse regresso a uma espécie de “lei econômica natural”, seria possível quando o Estado tivesse controle sobre os três elementos fundamentais da economia: a matéria-prima, os instrumentos de produção e o produtor. A atribuição de um mesmo grau de importância a esses três elementos, bem como o controle dos mesmos pelo Estado é a raiz conceitual que define o “socialismo natural” líbio. Este socialismo característico seria capaz de prover o homem da satisfação das necessidades não somente materiais, já que:

“O objetivo da nova sociedade socialista é criar uma sociedade feliz, porque é livre. Esta pode ser alcançada através da satisfação das necessidades materiais e morais do homem, o que, por sua vez, o liberta da dominação e controle exterior destas necessidades”12.

Dessa maneira, ao Estado compete dar condições para o desenvolvimento material e moral do homem, fator que novamente uniria Estado e religião enquanto ferramentas de construção da ordem social do país. Se a religião, conforme visto anteriormente, é a lei natural do povo, as regras de organização da base material do mesmo também devem ser pautadas em igual princípio, tornando legítimo do ponto de vista econômico a existência de um socialismo natural, assim como a religião à
sociedade.

A proposta econômica desenvolvida por Kadafi garante o fim do lucro e do dinheiro, dispensáveis no interior de uma coletividade economicamente justa. A ausência desses dois elementos existentes em qualquer economia faria com que o trabalhador submetido ao regime socialista se visse como sócio da produção, sem necessidade de agir com parcimônia; entendida como a usurpação da riqueza pública.

A última parte da obra O Livro Verde intitulada A Base Social da Terceira Teoria Universal refere-se a determinado projeto de revolução social entendido como a “genuína interpretação da história”, preocupada em estabelecer os “princípios firmes da vida social para toda a Humanidade”.
Através de uma análise da condição social de minorias como as mulheres e os negros, Kadafi determina que a existência de minorias em um país é fruto da dissolução do nacionalismo. Assim, o mundo, submetido a ciclos regulares do movimento histórico encontra-se no ciclo de defesa do nacionalismo pela luta nacional, compreendendo esse combate como o motor da história13.

A base da teoria social de Kadafi é a defesa do nacionalismo. A conservação da unidade nacional/social é entendida como alicerce da sobrevivência humana. Nesse sentido, enquanto a definição de Estado coincidir com a de Nação, a integração social encontra-se mantida. Em contraposição à defesa dos interesses de minorias, Kadafi reinterpreta seu próprio projeto de nação, que atrelado a seu programa econômico ousado e sua concepção política inovadora, se vê como uma
alternativa ao contexto da Guerra Fria, criando uma modernidade preocupada com um método próprio
de relacionar-se com a tradição.


1 “Após a derrota de 1967 Nasser se afastara um pouco do socialismo e dera início a uma reaproximação com o Estados Unidos. Reconhecendo o novo clima religioso do Oriente Médio, voltara a rechear seus discursos com referências islâmicas, embora mantivesse os Irmãos Muçulmanos presos”. Karen Armstrong. Em Nome de Deus: O Fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. São Paulo: Cia das Letras, 2001. 2ª. Reimpressão. p. 323.

2 “É por isso que o nosso próprio caminho para a modernidade deve necessariamente apoiar-se nos elementos de espírito crítico manifestados na própria cultura árabe, para desencadear dentro desta uma dinâmica de mudança. A modernidade significa, pois, antes de tudo elaborar um método e uma visão modernos da tradição. Poderemos assim, libertar a nossa concepção da tradição dessa carga ideológica e afetiva que pesa sobre a nossa consciência e nos força a ver a tradição como uma realidade absoluta, que transcende a história, em vez de vê-la em sua relatividade e em sua historicidade”. Mohammed al-Jabri. Introdução à Crítica da Razão Árabe. São Paulo: Editora UNESP, 1999. p. 29.


3 “Pero, tanto en su primera etapa como em su reconversión posterior, el régimen modelado por Gaddafi ha tenido que amoldar su estructura a los tres elementos básicos de la realidad sociológica líbia: la matriz religiosa del Estado (por el papel desempeñado por la cofradía Sanusiyya en su construcción estatal), la débil cohesión nacional (por tratarse de la agrupación de tres regiones bastante inconexas:Cirenaica, Tripolitana y al-Fazzan) y el peso de la estructura tribal en la organización social del país”. Gema Martín Muñoz. El Estado Árabe – Crisis de Legitimidad y Contestación Islamista.
Barcelona: Edicions Bellaterra, 1999. p. 150.

4 “Cet arabisme ‘classique’, hérité de Gamal Abd al-Nasser, recèle toutefois quelques spécificités. Dans la transition qui s’opère tout au long dês années soixante-dix entre l’arabisme de Nasser et l’islamisme montant dês années quatre-vingt, Qadhafi occupe une place intermédiaire (…) il est moins éloigné que Nasser de l’univers référentiel des islamistes”. François Burgat et André Laronde. La Libye. Paris: PUF, 1996. p. 63.


5 “La formulación teórica de Gaddafi se concreta em la creación por todo el país de congresos y comités populares destinados a hacer participar a los libios en las decisiones polítcas, pero cuya participación se presentará ideológicamente como un procedimiento conforme al principio coránico de la consulta (shûrà). Gema Martín Muñoz. Op.cit. p.152.

6 Muammar al-Kadafi. O Livro Verde. Primeira Parte: A Solução do Problema da Democracia (A Autoridade do Povo).
Trípoli: Empresa Pública de Edição, s/d. p. 22.


7“O partido afirma de antemão que a sua subida ao poder será o meio de realizar os seus objetivos e que os seus objetivos são os do povo. Essa é a teoria que justifica a teoria do partido e que serve de base a toda a ditadura. Qualquer que seja o número de partidos, essa teoria é sempre a mesma. A existência de vários partidos exacerba até a luta pelo poder… que onduz ao aniquilamento de todas as conquistas do povo e sabota todos os planos de desenvolvimento da sociedade. É essa destruição que justifica a tentativa do partido rival de tomar o lugar do partido no poder. A luta dos partidos, se não conduz à luta armada – o que é raro – toma a forma da crítica e da difamação mútuas”. Idem, p. 13.


8 “Hay que señalar que la elección de los secretariados de cada Congreso es presentada como un procedimiento inspirado en el principio de la ‘elección de los mejores’ (ijtiyar) en el que se fundamentó la designación de los primeros sucesores del Profeta; de ese modo, el régimen libio vse identifica y confunde con el primer y mítico período del islam”. Gema Martín Muñoz. Op. cit. p. 152.

9 Muammar al-Kadafi. Op.cit. p.32.
10 “A religião absorve o costume, que é a expressão da vida natural dos povos. Portanto, a religião é uma confirmação da lei
natural. As leis não nascidas do costume e da religião são criações do Homem contra o Homem. Por conseqüência, são injustas porque são desprovidas das fontes naturais que são o costume (a tradição) e a religião”. Idem, pp. 34 e 35.


11 “O argumento de que, no caso da posse ser do Estado, os proventos revertem para a sociedade, incluindo os trabalhadores, em contraste com o fato de que numa corporação privada, os lucros revertem apenas para o seu proprietário, é válido. Nós defendemos que tomemos em consideração antes dos interesses particulares dos trabalhadores, os interesses gerais da
sociedade e que a autoridade política, que monopoliza a posse da propriedade, é a autoridade de todo o povo”. Idem, p. 48.

12 Idem, p. 57.
13 “O que se passa é que o Mundo está a atravessar atualmente um dos seus ciclos regulares do movimento histórico, o da
luta nacional em defesa do nacionalismo. (…) Isto quer dizer que a luta nacional – luta social – é a base do movimento da
história, porque é mais forte do que todos os outros fatores”. Idem, p. 77.

VINGANÇA DA DERROTA: WASHINGTON E BRUXELAS CONDENAM POVO SÍRIO À FOME

Por: Edward Barnes

Incapazes de vencer a guerra de agressão lançada há já nove anos contra a Síria, os Estados Unidos e a União Europeia têm vindo a confirmar, durante as últimas semanas, a sua mudança de estratégia para tentar colocar em Damasco os seus servidores: impor a fome ao povo sírio em cima da pandemia de COVID-19 e provocar uma explosão social interna.

Um bloqueio total da Síria devastada pela guerra é o efeito pretendido pela administração Trump com as novas sanções impostas esta semana. O objectivo é impedir que a nação árabe consiga desenvolver o processo de reconstrução e de normalização da sua vida depois de ter vencido a guerra que lhe é imposta há dez anos. Ou, como diz a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, “impedir o governo sírio de garantir a vitória militar”.

Uma guerra que lhe é movida no exterior e não uma rebelião interna, versão falsa dos acontecimentos que continua a ser a doutrina oficial disseminada pela comunicação social corporativa. Os agentes directos desta guerra são grupos terroristas injectados do exterior, especialmente da Turquia, com patrocínio da NATO e sob vários rótulos que convergem sob duas designações essenciais do terrorismo internacional: al-Qaida e Isis ou Estádio Islâmico. Ao longo dos últimos nove anos têm sido muitas as ocasiões em que foram demonstradas cumplicidades directas entre países da NATO, como os Estados Unidos, o Reino Unido, a França e a Turquia e seus aliados regionais e os citados grupos de mercenários que se cobrem sob a máscara do “islamismo”.

A União Europeia, como entidade, é igualmente responsável pelas acções pela mudança de regime em Damasco, através do envolvimento militar de alguns dos seus membros e também pela imposição de sanções, renovadas e reforçadas no mês passado.

Associar os efeitos da fome e da pandemia

Washington e Bruxelas tentam através das sanções submeter o povo sírio à fome, de modo a tornar as condições sociais no país tão insuportáveis que suscitem um levantamento interno total. A estratégia tem sido aplicada igualmente noutros países, como a Venezuela e o Irão. Acresce que o reforço de sanções coincide com a pandemia de COVID-19, sendo evidente a intenção partilhada pelos Estados Unidos e a União Europeia de vencerem a resistência síria e penalizarem o povo pela conjugação dos efeitos das duas tragédias.

Logo que se deu o agravamento das sanções norte-americanas e europeias, ilegais à luz do direito internacional e que poderiam cair no âmbito do Tribunal Penal Internacional (TPI) – se este realmente funcionasse de maneira independente – grupos terroristas da al-Qaida no norte do país e tropas de ocupação dos Estados Unidos no sul começaram a incendiar campos agrícolas de maneira coordenada. A Síria apresentou queixa no Conselho de Segurança das Nações Unidas mas a ONU, como um todo, tem dado perante a agressão à Síria mais uma imagem do seu desprestígio e do alinhamento pela guerra.

Em poucos dias desapareceram dos mercados sírios os produtos alimentares importados e os preços dos que são produzidos localmente, sob a pressão dos atentados nos campos, subiram em flecha. A libra síria afundou-se nos mercados cambiais e é negociada no mercado negro por um quarto do seu valor oficial.

Coincidindo com este cenário, a Turquia pôs a sua moeda nacional em circulação nos territórios ainda ocupados por grupos terroristas no norte e noroeste do país, designadamente na província de Idleb – uma situação que acaba por tornar-se idêntica à que vigora há quase 50 anos no Norte de Chipre. Além de revelar mais um passo nas ambições “neo-otomanas” do ditador fundamentalista turco Erdogan, nada deixa entender que a medida venha a ser contestada pelos Estados Unidos e a União Europeia, confirmando-se assim a sua intenção de desagregar o território da Síria.

Uma “nova face do terrorismo”

De acordo com o quadro de sanções posto em prática mais recentemente, qualquer pessoa ou entidade que faça comércio com a Síria será duramente condenada pelos Estados Unidos e a União Europeia – que continua a seguir a essência das medidas tomadas por um energúmeno como Trump.

As acções para condenação dos sírios à fome começaram a ter repercussões internas. Desde 9 de Junho têm ocorrido manifestações populares reclamando alimentos. Contudo, a Síria nunca tivera problemas alimentares durante a guerra, excepto nas regiões que estiveram ocupadas pelos terroristas, onde estes apreendiam os produtos alimentares às populações reféns.

A Presidência da República preparou um plano de autossuficiência alimentar, mas que não produzirá efeitos imediatos. A Rússia e eventualmente outros países, como a China, poderão suprir as maiores necessidades a curto prazo, mas a população síria debate-se com a ameaça da fome a médio prazo.

As sanções reforçadas esta semana foram impostas no quadro de uma lei interna dos Estados Unidos – de responsabilidade tanto de democratas como de republicanos – designada, cruel e cinicamente, “Lei de Protecção Civil da Síria” ou “lei César”.

Kelly Craft, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, foi clara ao afirmar perante o Conselho de Segurança que as medidas se guiam pela necessidade de impedir o governo sírio de “garantir a vitória militar”. O embaixador sírio na ONU, Bachar Jaafari, declarou que as medidas “mostram uma nova face do terrorismo”.

Tudo indica que os ataques norte-americanos e europeus não fiquem por aqui: “antecipamos muito mais sanções”, declarou o secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo. A finalidade, acrescentou, é fazer com que Damasco “concorde com uma solução política para o conflito”.

A única “solução política” considerada viável pelos Estados Unidos e aliados é a renúncia do actual governo e a sua substituição por agentes dos países e interesses que têm estado por detrás de nove anos de guerra e destruição de um país soberano.

Vários países, designadamente Rússia, China, Irão, Cuba e Venezuela, condenaram as sanções a afirmaram que não se considerarão submetidos às medidas pretensamente transnacionais impostas de maneira totalitária, e contra o direito internacional, por Estados Unidos e União Europeia.

Além destas duas entidades, a que deve acrescentar-se a NATO, há ainda os seguintes países envolvidos individualmente na estratégia de destruição e desagregação territorial da Síria: Reino Unido, França, Alemanha, Turquia, Israel, Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Jordânia.

A guerra internacional imposta contra a Síria provocou já 400 mil mortos além de milhões de pessoas com as vidas arruinadas, tornando-se refugiados e desalojados internos e externos.

A assustadora história do laboratório de Fort Detrick

Por: Ceng Jing

Desde que o governo Trump declarou emergência nacional em meados de março, devido à rápida disseminação da COVID-19, a tarefa de desenvolver uma vacina recaiu sobre o principal laboratório de pesquisa de vírus do Exército dos EUA em Fort Detrick, localizado num subúrbio em Maryland, a 80 km de Washington (DC).

Nas últimas décadas, pesquisas de ponta sobre uma ampla gama de vírus e bactérias foram realizadas dentro do complexo. Suas instalações de ponta também armazenam algumas das toxinas mais perigosas conhecidas pela humanidade, incluindo Ebola, antraz e o coronavírus SARS.

A obscura base militar ficou sob os holofotes em 2008, depois que um de seus cientistas foi suspeito de ter cometido o ataque de antraz em 2001, quando várias cartas contendo a bactéria mortal foram enviadas para escritórios da imprensa e do governo norte-americanos.

No ano passado, um dos laboratórios de alta segurança mais importantes do campus foi fechado pelas autoridades de saúde devido a violações de segurança. Apesar de alguns incidentes aqui e ali, Fort Detrick parece um laboratório comum para a ciência médica moderna. Voltando um pouco na história, no entanto, um período genuinamente macabro começa a emergir.

Após a Segunda Guerra Mundial, Fort Detrick tornou-se um local de horríveis experimentos científicos conduzidos sob uma missão secreta da CIA para controlar a mente humana, conhecido como Projeto MK Ultra . Depois de mais de 20 anos, o projeto terminou em um fracasso abismal e levou a um número desconhecido de mortes, incluindo um cientista que participou do projeto e pelo menos centenas de vítimas americanas e canadenses submetidas a tortura física e mental. Os experimentos não apenas violaram o direito internacional, mas também o estatuto da própria agência, que proíbe a atividade doméstica.

O Projeto MK Ultra foi criado pelo padrinho do império de inteligência americano – o diretor da CIA, Allen Dulles, cuja retórica sempre mordaz sobre a ameaça soviética o ajudou a criar um aparato onipotente de segurança nacional que viria a definir a política americana. Em 1953, depois de capturar pilotos americanos que admitiram o uso de antraz durante a Guerra da Coréia, Dulles passou a publicar teorias de que eles haviam sofrido lavagem cerebral pelos comunistas da República Popular Democrática da Coréia. Para garantir a segurança nacional, ele argumentou, os EUA deveriam criar seu próprio programa de lavagem cerebral.

A alegação de Dulles se baseou na mais pura fantasia da Guerra Fria, pois um relatório que ele encomendou posteriormente rejeitou as alegações de lavagem cerebral pelos comunistas. No entanto, o sagaz mestre de espionagem Dulles, conhecido por resgatar ativamente várias autoridades nazistas contra a vontade de seu próprio governo, continuou o programa por uma razão muito mais nefasta.

Devil's chessboard.

Conforme explicado por David Talbot em seu livro O tabuleiro de xadrez do diabo , muitos espiões recrutados nos primeiros dias da Guerra Fria eram personagens indecisos e pouco confiáveis, motivados por vulnerabilidades internas, como ganância, luxúria ou vingança. Enquanto isso, a agência procurava maneiras de descartar essas variáveis psicológicas, criando máquinas humanas que agiriam sob comando, mesmo contra sua própria consciência.

Em termos oficiais, o principal objetivo do programa era “pesquisa e desenvolvimento de materiais químicos, biológicos e radiológicos capazes de empregar operações clandestinas para controlar o comportamento humano”, segundo um memorando desclassificado produzido pelo Inspetor-Geral da CIA. O programa cresceu rapidamente em escala, ramificando-se em 149 subprojetos envolvendo pelo menos 80 instituições, incluindo universidades, hospitais, prisões e empresas farmacêuticas nos Estados Unidos e no Canadá.

Para dominar o controle da mente, um grupo de cientistas mal intencionados testou métodos extremos livremente em humanos que levariam qualquer pessoa à prisão se não estivesse dentro dos parâmetros do Fort Dertrick. Isso inclui a administração forçada de drogas psicoativas, eletrochoques forçados, abusos físicos e sexuais, bem como uma infinidade de outros tormentos, todos silenciosamente realizados atrás dos altos muros da “segurança nacional”.

Dulles estava especialmente interessado em descobrir se alucinógenos como o LSD poderiam induzir indivíduos selecionados a realizar “atos de sabotagem substancial ou atos de violência, incluindo assassinatos”, lembrou o principal especialista em venenos da agência, Sidney Gottlieb, que liderou o programa.

Documentos desclassificados revistos pela CGTN mostraram que as premissas sob investigação do programa variavam entre o bizarro e o extremo da ficção científica: drogas que poderiam “causar confusão mental”; “fornecer um máximo de amnésia”; “produzir euforia pura sem subsequente decepção”; “diminuir a ambição e a eficiência geral do trabalho dos homens;” e muitos outros.

Ao longo de sua vida útil de duas décadas, o MK Ultra foi executado em extremo sigilo, pois a agência esperava uma reação política significativa, caso se tornasse de conhecimento público. Era tão secreto, de fato, que apenas alguns altos funcionários da agência estavam cientes de sua existência.

Sem que nem a Casa Branca nem o Congresso soubessem, as pessoas dos cantos esquecidos da América – prisioneiros, prostitutas e sem-teto – foram escolhidas nas ruas como participantes involuntários da louca ciência de Fort Derrick: “Pessoas que não podiam revidar”, nas palavras de Gottlieb. No entanto, o programa também contava com pessoas que podiam, incluindo soldados americanos e pacientes inocentes que, inadvertidamente, entraram nos hospitais e clínicas associados ao MK Ultra por toda a América do Norte.

Em julho de 1954, o aviador Jimmy Shaver, da Base da Força Aérea de Lackland, foi acusado de estuprar e matar uma menina de três anos em San Antonio. Durante o incidente, alega-se frequentemente que ele estava em estado “atordoado” e “em transe”. Enquanto estava preso, Shaver também parecia ter perdido uma quantidade tremenda de memória, incluindo as que envolviam sua esposa. Quatro anos depois, ele foi executado no seu 33º aniversário. Somente depois o público soube que Shaver, que não tinha antecedentes criminais, era um dos cobaias usados pelo MK Ultra. O projeto de controle da mente teve um papel significativo na condenação de Shaver à cadeira elétrica, de acordo com o The Intercept.

Outros que sobreviveram aos experimentos brutais revelaram as horríveis sequelas da lavagem cerebral sancionada pela CIA. Linda McDonald, de 25 anos e mãe de cinco filhos pequenos, relatou que se transformou essencialmente em uma criança depois de passar pelos notórios experimentos da Sala do Sono, que lhe disseram que tratariam sua esquizofrenia aguda inexistente. Por 86 dias, McDonald ficou em coma induzido por doses administradas de poderosos narcóticos e eletrochoques que fritaram seu cérebro 102 vezes.

“Precisaram me ensinar a ir ao banheiro”, disse McDonald. “Eu era um vegetal. Eu não tinha identidade, nem memória. Eu não existia no mundo antes. Era como um bebê.”

No entanto, de todos os 180 médicos e pesquisadores que participaram dessas experiências ilegais, poucos expressaram qualquer suspeita ou remorso. Aquele que o fez apareceu morto.

Frank Olson, bioquímico e pai de três filhos, trabalhava nos Laboratórios de Guerra Biológica em Fort Detrick. Ele foi um dos cientistas do MK Ultra que viajava regularmente entre “locais negros” na Europa para observar diferentes experimentos em humanos. Após uma visita de 1952 ao Camp King, um famoso esconderijo da CIA na Alemanha, ele ficou particularmente abalado com a crueldade à qual os prisioneiros soviéticos foram submetidos, segundo Talbot.

“Ele passou por um momento difícil depois da Alemanha … drogas, tortura, lavagem cerebral”, disse o ex-colega de Olson na Detrick, pesquisador Norman Cournoyer. Quando retornou da Alemanha, Olson havia sofrido uma “crise moral” e estava pronto para desistir de sua carreira científica para se tornar dentista, segundo a sua família. No entanto, antes que ele pudesse mudar de vida, o próprio cientista havia se tornado uma das muitas vítimas involuntárias do MK Ultra.

Uma semana antes do Dia de Ação de Graças, Olson foi convidado para um retiro de fim de semana em uma instalação isolada da CIA em Deep Creek Lake, em Maryland. Uma noite após o jantar, Olson e outros cientistas desavisados receberam bebidas com LSD, após o que ele começou a alucinar descontroladamente. O experimento terminou uma semana depois, quando ele colidiu com a janela do 10º andar no Statler Hotel em Manhattan. A investigação da morte do cientista foi concluída às pressas pelos funcionários da CIA como suicídio. No entanto, os filhos de Olson não aceitaram a “narrativa” e começaram sua própria investigação sobre o trágico fim de seu pai.

Depois de décadas de idas e vindas com o governo dos EUA e a investigação dos filhos de Frank, Eric e Nils, incluindo uma autópsia de exumação, evidências substanciais pesam sobre a possibilidade de assassinato do cientista. Depois de examinar os restos mortais de Olson, o patologista forense James Starrs apontou várias inconsistências importantes que contradiziam o suicídio narrativo oficial. Apesar de ter caído de costas, o crânio acima dos olhos de Olson havia rachado, sugerindo uma força brusca na cabeça antes de colidir com a janela.

“A morte de Frank Olson em 28 de novembro de 1953 foi um assassinato, não um suicídio”, declarou Eric Olson. “Esta não é uma história de experimento com drogas de LSD, como foi representada em 1975. Esta é uma história de guerra biológica. Frank Olson não morreu porque era uma cobaia que experimentou uma ‘bad trip’. Ele morreu devido à possibilidade de divulgar informações sobre um programa de interrogatório altamente confidencial da CIA no início dos anos 50 e sobre o uso de armas biológicas pelos Estados Unidos na Guerra da Coréia.”

O significado do movimento Black Lives Matter (BLM)

Por: Pepe Escobar

– Antes os EUA exportavam “revoluções coloridas”, agora aplicam-na internamente
– O movimento BLM foi encampado pelo Partido Democrata & o Estado Profundo dos EUA
– O BLM tem financiamento da Fundação Ford & da Wall Street
– Este movimento tem posições recuadíssimas em relação às dos grandes líderes históricos afro-americanos, como Martin Luther King, Angela Davis e Malcolm X
– A chamada “Comuna de Seattle” não passa de manobra eleitoral do Partido Democrata para desgastar Trump

O casamento do pós-Lockdown (pós-confinamento) com os protestos contra a morte de George Floyd gerou uma besta-fera que ainda é imune a qualquer tipo de debate civilizado nos Estados Unidos: a Comuna de Seattle.

Então, o que vem a ser a Zona Autônoma de Capital Hill + República Popular?

Seriam os comunalistas meros idiotas úteis? Tratar-se-ia de um refinamento do experimento Occupy Wall Street? Seria ele, em termos logísticos, capaz de sobreviver e ser replicado na Cidade de Nova York, em Los Angeles e no Distrito de Colúmbia?

Um presidente Trump indignado descreveu a Comuna como um complô de autoria de “terroristas domésticos”, em uma cidade “administrada por democratas radicais de esquerda”. Ele conclamou por “LEI E ORDEM” (em caixa alta, segundo sua tweetologia particular).

Toques de Síria são claramente discerníveis em Seattle. Nesse cenário, a Comuna é uma remixagem de Idlib lutando contra “postos avançados de contra-insurgência do regime” (em terminologia comunalista).

Para a maioria das facções da Direita americana, os Antifa equivalem ao ISIS. George Floyd é visto não apenas como um “mártir comunista antifa”, como me disse um agente da área de inteligência, mas também como um reles “criminoso e traficante de drogas”.

Então, quando as “forças do regime” irão atacar – neste caso sem a cobertura da força aérea russa? Afinal, como proclamado pelo secretário Esper, cabe ao Pentágono “dominar o campo de batalha” .

Mas temos aqui um problema. A Zona Autônoma de Capital Hill (CHAZ, em inglês) é apoiada pela cidade de Seattle – governada por um democrata, que, por sua vez, tem o apoio do governador do estado de Washington, também um democrata.

Não há a mínima chance de o estado de Washington vir a usar a Guarda Nacional para esmagar a CHAZ. E Trump não pode assumir o controle da Guarda Nacional do estado de Washington sem a aprovação do governador, apesar de ele ter tuitado “Retome sua cidade AGORA. Se você não retomar, eu o farei. Isso não é um jogo”.

É instrutivo observar que a “contra-insurgência” pode ser usada: no Afeganistão e nas áreas tribais; para ocupar o Iraque; para proteger a pilhagem de petróleo-gás no leste da Síria. Mas não em casa. Mesmo que 58% dos americanos de fato apóiem esse uso: para muitos deles, a Comuna talvez seja tão má, se não pior, que os saques.

E então há aqueles que se opõem firmemente a ela. Entre eles: o “Açougueiro de Fallujah” Cão Louco Mattis; os praticantes das revoluções coloridas do NED (o Fundo Nacional para a Democracia); a Nike; a JP Morgan; todo o establishment do Partido Democrata; e virtualmente todo o establishment do Exército dos Estados Unidos.

Bem-vindos ao movimento Ocupem Apenas os Outros.

Mas a pergunta permanece: por quanto tempo o “Idlib” conseguirá desafiar o “regime”? Isso é o que basta para dar ao notório “bully” , o Procurador Geral Barr, muitas noites de insônia.

O VERDADEIRO PODER NEGRO

Trump e Barr já ameaçaram criminalizar os Antifa como uma “organização terrorista” – ao mesmo tempo em que o Black Lives Matter apontava uma adaga amarela no asfalto da Rua 16 do Distrito de Colúmbia em direção à Casa Branca.

E isso nos leva à legitimidade ampla e inquestionada desfrutada pelo Black Lives Matter. Como isso é possível? Aqui é um bom lugar para começar.

O Black Lives Matter, fundado em 2013 por um trio de mulheres negras, lésbicas e de classe média, todas elas muito articuladas contra o “heteropatriarcado”, é um produto daquilo que Peter Dauvergne, da University of British Columbia, define como a “corporativização do ativismo”.

Ao longo dos anos, o Black Lives Matter evoluiu como uma marca comercial, como a Nike (uma apoiadora incondicional). Os protestos generalizados contra o assassinato de George Floyd elevaram o movimento ao status de uma nova religião. No entanto, é possível afirmar que o Black Lives Matter tenha zero de apelo verdadeiramente revolucionário. Não se trata aqui do “Say It Loud, I’m Black and I’m Proud”, de James Brown. E não chega nem perto do Black Power e do “Power to the People” dos Black Panthers (Panteras Negras).

O padrão-ouro dos direitos civis, o Dr. Martin Luther King, em 1968, resumiu de forma concisa o cerne estrutural da questão:

“A revolução negra é muito mais que a luta pelos direitos dos negros. Ela força a América a encarar suas falhas interrelacionadas – racismo, pobreza, militarismo e materialismo. Ela expõe males profundamente enraizados na totalidade da estrutura de nossa sociedade. Ela revela falhas sistêmicas, mais que superficiais, e sugere que uma reconstrução radical da própria sociedade é a verdadeira questão a ser enfrentada”.

Os Black Panthers , intelectuais jovens e extremamente articulados, que misturavam Marx, Lenin, Mao, W.E.B. Du Bois, Malcolm X e Frantz “Os Condenados da Terra” Fanon, levaram o diagnóstico de MLK a um nível muito mais avançado.

Tal como resumido por Eldridge Cleaver, ministro da Informação dos Panthers: “Acreditamos na necessidade de um movimento revolucionário unificado… informado pelos princípios revolucionários do socialismo científico”. Essa frase sintetizava o pensamento de MLK, que propunha, fundamentalmente, o daltonismo racial.

Fred Hampton , alvo de um assassinato pelo estado ocorrido em dezembro de 1969, sempre enfatizou que a luta transcendia a raça: “Temos que encarar alguns fatos. Que as massas são pobres, que as massas pertencem a isso que se chama de classe baixa, e quando falo das massas, falo das massas brancas, falo das massas negras, das massas pardas e das massas amarelas também. Temos que encarar o fato de que algumas pessoas dizem que é melhor combater o fogo com o fogo, mas nós dizemos que a melhor maneira de apagar o fogo é com água. Nós dizemos que não se luta contra o racismo com racismo. Vamos combater o racismo com solidariedade. Dizemos que não se luta contra o capitalismo com a ausência de capitalismo negro, luta-se contra o capitalismo com o socialismo”.

Portanto, não se trata apenas de raça. Não se trata apenas de classe. Trata-se, isso sim, de Poder para o Povo que luta por justiça social, política e econômica em um sistema intrinsecamente desigual. Esse enfoque expande a exaustiva análise de Gerald Horne em The Dawning of the Apocalypse (A alvorada do apocalipse), que disseca em profundidade o século XVI, incluindo-se aí o “mito da criação” dos Estados Unidos.

Horne mostra que uma invasão sanguinária das Américas engendrou uma forte resistência por parte dos africanos e das populações indígenas aliadas a eles, enfraquecendo a Espanha imperial e, por fim, capacitando Londres a despachar colonos para a Virgínia, em 1607.

Compare-se essa profundidade de análise com o slogan “Black Lives Matter”, tão manso e humilde, quase implorando por misericórdia. O que novamente nos faz lembrar da agudeza de Malcolm X : “Tínhamos a melhor organização que homens negros já tiveram – e os niggers (os negros) arruinaram tudo!”

Para desvendar o questão do Black Lives Matter temos que, mais uma vez, seguir o dinheiro.

O Black Lives Matter recebeu, em 2016, a gigantesca dotação de 100 milhões de dólares da Fundação Ford e de outros baluartes do capitalismo filantrópico, como a JPMorgan Chase e a Fundação Kellogg.

A Fundação Ford é muito ligada ao Deep State dos Estados Unidos. Seu conselho-diretor é abarrotado de CEOs empresariais e chefões da Wall Street. Resumindo: o Black Lives Matter, como organização, encontra-se hoje totalmente higienizado, em grande medida integrado à máquina do Partido Democrata e é adorado pela mídia convencional, não representando portanto qualquer ameaça aos 0,001%.

As lideranças do Black Lives Matter, é claro, argumentam que desta vez “é diferente” . Elaine Brown, a formidável ex-presidente dos Black Panthers, não faz por menos: O Black Lives Matter tem uma “mentalidade de senzala” .

TENTEM ATEAR FOGO NA NOITE

Set the Night on Fire (Ateiem fogo na noite) é um livro extraordinariamente absorvente, co-escrito por Jon Wiener e pelo inestimável Mike Davis de City of Quartz e Planet of Slums.

Descrevendo com riqueza exaustiva de detalhes a Los Angeles da década de 60, o livro nos faz mergulhar nos motins de Watts, em 1965; no movimento anti-guerra se unindo aos Black Panthers para formar um singularíssimo Partido Paz e Liberdade californiano; na evolução da unidade dos movimentos de base formando o ethos do Black Power; no clube Che-Lumumba do Partido Comunista – que se converteria na base política da lendária Angela Davis; e na ofensiva maciça do FBI e do Departamento de Polícia de Los Angeles para destruir os Black Panthers.

Tom Wolfe, notória e maldosamente, caracterizou os losangelinos apoiadores dos Black Panthers como “radical chic”. Elaine Brown, mais uma vez, traz a versão correta: “Nós estávamos morrendo, e eles todos, dos mais sólidos aos mais frívolos, nos ajudavam a sobreviver por mais um dia”.

Uma das partes mais angustiantes do livro conta em detalhes como o FBI perseguiu os simpatizantes dos Panthers, inclusive a sublime Jean Seberg, estrela de Santa Joana , de Otto Preminger’s (1957) e À Bout de Souffle Acossado , em português), de Godard (1960).

Jean Seberg contribuía anonimamente com os Panthers sob o codinome de “Aretha” (sim, como em Franklin). O COINTELPRO do FBI não teve dó nem piedade na perseguição a Seberg, convocando a ajuda da CIA, dos serviços de inteligência militar e do Serviço Secreto. Ela foi tachada de “atriz branca com perversões sexuais” que teria tido casos com radicais negros. Sua carreira em Hollywood foi destruída. Ela entrou em depressão profunda, teve um parto natimorto (o bebê não era negro), emigrou, e seu corpo – em decomposição – foi encontrado em seu carro, em Paris, em 1979.

Em um nítido contraste, foram ouvidos na academia rumores que identificavam o mar de convertidos à religião do Black Lives Matter como, principalmente, produtos do casamento da “conscientização” (wokeness) e da interseccionalidade – o conjunto de traços interligados que, desde o nascimento, privilegia os homens brancos heterossexuais, que hoje tentam expiar sua culpa.

A geração Z, que os campus universitários de todo o país despejam em massa no mercado de trabalho, é prisioneira desse fenômeno: na verdade, ela é escrava da política identitária politicamente correta. E, mais uma vez, com zero potencial revolucionário.

Compare-se isso, mais uma vez, aos imensos sacrifícios políticos dos Black Panthers. E também a Angela Davis que, já então um ícone pop, tornou-se a mais famosa prisioneira política da história americana. Aretha Franklin, ao se oferecer para pagar a fiança de Davis, pronunciou uma frase que ficou famosa: “Fui encarcerada por perturbar a paz, e sei que você tem que perturbar a paz quando não há paz para você”.

Elaine Brown: “Eu sei o que era o BPP (o Partido Black Panther). Sei das vidas que perdemos, da luta que travamos, dos esforços que envidamos, dos ataques que sofremos da polícia e do governo – sei de tudo isso. Mas não sei o que é o Black Lives Matter”.

Se o Black Lives Matter é intrinsecamente racista, ou mesmo inerentemente violento, é uma questão aberta a debate.

Pode-se discutir também se a genuflexão, agora um ritual praticado rotineiramente por políticos (ataviados com echarpes kente, de Gana), policiais e corporações, realmente ameaça as fundações do Império.

Noam Chomsky já se aventurou a dizer que a onda de protestos, até agora, tem zero de articulação política – e precisa urgentemente de um direcionamento estratégico que vá muito além da óbvia revolta contra a brutalidade da polícia.

Os protestos estão arrefecendo exatamente no momento em que a Comuna desponta.

Dependendo da maneira como os acontecimentos irão evoluir, ela poderá representar um sério problema para a dupla Trump/Barr. O Presidente simplesmente não pode permitir que uma revolução colorida se desenvolva ativamente na área central de uma das maiores cidades dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, ele é impotente, como autoridade federal, para dissolver a Comuna.

O que a Casa Branca pode fazer é convocar suas próprias unidades de contra-insurgência, na forma de milícias de supremacistas brancos armados até os dentes, ir para a ofensiva e esmagar as já frágeis linhas de fornecimento da turma da conscientização + interseccionalidade.

O movimento Occupy, afinal, dominou áreas de importância-chave em mais de 60 cidades norte-americanas durante meses, para então se dissolver no éter.

Além disso, o Deep State, em seus jogos de guerra, já testou inúmeros cenários para lidar com situações de cerco muito mais complexas que a Comuna.

O que quer que venha a acontecer a seguir, um vetor de importância crucial não irá mudar. Um estado de insurreição permanente só beneficia a plutocracia dos 0,00001%, refastelada em seus confortáveis esconderijos, enquanto o populacho ateia fogo na noite.

Anticomunismo, uma religião fundamentalista

Por: Andre Vitchek

Há 150 anos, em 21 de abril de 1870, nasceu Vladimir Ilyich Ulyanov, também conhecido como Lenine. Segundo muitos, ele foi o maior revolucionário de todos os tempos, um homem que deu origem ao internacionalismo e ao anti-imperialismo.

É tempo de “revisitar o comunismo”. Também é tempo de fazer algumas perguntas básicas e essenciais:

“Como é possível que um sistema tão lógico, progressivo e tão superior ao que ainda hoje governa o mundo, não tenha derrubado permanentemente o niilismo e a brutalidade do capitalismo, imperialismo e neocolonialismo?”


Sem qualquer dúvida, foram-nos ditas coisas horríveis sobre o Comunismo, especialmente se se vive no Ocidente ou num dos países totalmente sob o controlo dos centros do anticomunismo: Washington, Londres ou Paris.

Fomos forçados a ler, repetidas vezes, acerca do “estalinismo”, do massacre da Praça da Paz Celestial e do genocídio dos Khmer Vermelhos. Repetidas vezes foi elaborada uma mistura de meias-verdades, completas invenções e interpretações distorcidas da História mundial.

As probabilidades são de que muito poucos tenham estado na Rússia, China ou Camboja e feito aí alguma investigação séria.

Fomos informados de que o Camboja seria o melhor exemplo de Comunismo selvagem. Porém, nunca se percebeu que Pol Pot e seus extremistas Khmer Vermelhos eram totalmente apoiados pelos Estados Unidos, não pela União Soviética e nunca com entusiasmo pela China. Eles nunca foram realmente “Comunistas” (fiz uma pesquisa detalhada no país, e até os guardas pessoais de Pol Pot me disseram que não tinham ideias acerca do Comunismo e apenas tinham reagido ao monstruoso bombardeio americano nos campos do Camboja e à colaboração do capital com o Ocidente).

Nesse período, a maioria das pessoas morreu em resultado exatamente dos bombardeios cometidos pelos B-52 dos EUA e em resultado da fome. Fome que veio depois de milhões de camponeses se terem deslocado devido à selvajaria do bombardeio e pelos materiais que não haviam explodido, deixados por todo o lado nos campos.

Nunca foi dado conhecimento de que várias sondagens, uma após outra realizadas na Rússia, ainda mostram que a maioria das pessoas gostaria de ter a União Soviética Comunista de volta. E mesmo nos ex-Estados de maioria muçulmana, incluindo o Quirguistão e o Uzbequistão, uma tremenda maioria das pessoas que lá encontrei, recordava o tempo da União Soviética como uma idade de ouro.

E a chamada ocupação soviética do Afeganistão? Trabalhei, filmei e fiz reportagens em três ocasiões, relativamente recentes. Incontáveis pessoas afegãs, indignadas com a continuada ocupação ocidental do seu país, contaram-me histórias, ilustrando o contraste entre sua era socialista, tolerante, progressista e otimista e o horror atual, durante o qual o seu país se afundou ao nível mais baixo da Ásia, de acordo com o PNUD e a OMS. Trabalhei em Cabul, Islamabad, Herat, Bagram; ouvi as mesmas histórias e a mesma nostalgia dos professores, enfermeiras e engenheiros soviéticos.

Inundados pela implacável propaganda ocidental, as pessoas nunca perceberam realmente quão popular é o Partido Comunista da China no seu próprio país e como a ideologia comunista é apoiada no Vietname, Laos e Coreia do Norte.



Se alguém for à sua livraria local na América do Norte, Europa ou mesmo em Hong Kong, para não falar da Austrália, as hipóteses são de que apenas descubra livros escritos por “dissidentes” chineses ou russos anticomunistas, pessoas que vivem de subsídios ocidentais, recebendo inúmeros prémios para que gastem toda a sua energia manchando o Comunismo e glorificando a contra-revolução. Escritores como a ucraniana Svetlana Alexievich, que recebeu o Prémio Nobel de literatura, por cuspir nas sepulturas dos soldados soviéticos que morreram em defesa do socialismo afegão.


Os filmes a que poderia assistir, em canais comerciais, não seriam diferentes dos livros que tinha sido encorajado a ler.

O anticomunismo no Ocidente e nas suas colónias é uma indústria tremenda. É facilmente a maior e mais continuada campanha de propaganda na história do mundo. Suas metástases espalham-se até ao âmago dos próprios países Comunistas e socialistas.

Tudo isto porque os países imperialistas ocidentais sabem perfeitamente que seu império só pode sobreviver se o Comunismo entrar em colapso. Porque a própria essência do Comunismo é a luta perpétua contra o imperialismo.

Slogans falsos, mas muito eficazes, como vírus informáticos (bugs), estão sendo implantados nos cérebros. São repetidos constantemente, às vezes centenas de vezes por dia, sem que ninguém se aperceba: “O Comunismo está morto!”. “Está desatualizado, é aborrecido “. “A China já não é Comunista.” “O Comunismo é cinzento. A vida sob o Comunismo é controlada e monótona”. “As pessoas sob o Comunismo não têm liberdade nem democracia”.

O oposto é a verdade. Construir confiante e entusiasticamente uma sociedade nova e melhor para o povo, é definitivamente mais satisfatório (e “mais divertido”) do que apodrecer na agonia constante do medo, preocupando-se com hipotecas, empréstimos estudantis e emergências médicas. Competindo com os outros, pisando os outros e até arruinando outros seres humanos. Vivendo vidas vazias, tristes e egoístas.

De maneira absurda e paradoxal, a propaganda ocidental acusa constantemente o Comunismo de violência. Mas o Comunismo é o maior adversário do sistema mais violento da Terra: o colonialismo e o imperialismo ocidental. Centenas de milhões de seres humanos desapareceram em seu resultado, ao longo dos séculos. Centenas de culturas avançadas foram arruinadas. Continentes inteiros foram saqueados.

Antes do Comunismo soviético, antes da própria URSS, não havia oposição verdadeira e poderosa ao imperialismo ocidental. O colonialismo e o imperialismo eram um dado adquirido; eles eram “a ordem mundial”.

A União Soviética e a China ajudaram a descolonizar o mundo. Cuba e a Coreia do Norte, dois países Comunistas, lutaram heroicamente e com sucesso e trouxeram a independência para África (algo que o Ocidente nunca esqueceu nem perdoou).

Mas lutar pela liberdade e pelo fim do colonialismo não é violência; é defesa, resistência e luta pela independência.

Como regra, o Comunismo não ataca. Ele defende-se e defende os países que estão sendo brutalizados. Num trabalho futuro abordarei duas “exceções”; e explicarei dois casos que são constantemente mal interpretados pela propaganda da direita: Hungria e Checoslováquia.

Mas voltando à chamada “violência Comunista”. O meu amigo e camarada, o lendário intelectual e professor russo Alexander Buzgalin escreveu no seu recente trabalho, “Lenine: Teoria como Prática, Prática como Criatividade” (para assinalar o 150º aniversário do nascimento de Lenin):

“Há um princípio em ação aqui: não é a revolução socialista que provoca violência em massa, mas a contra-revolução burguesa, que começa quando o capital percebe que está perdendo as suas propriedades e o poder. Em resposta à vitória geralmente pacífica e, em muitos casos, legítima da esquerda, o capital desencadeia violência selvagem e bárbara. A esquerda é confrontada com a questão de responder ou não a essa violência. Se acontecer a guerra, a partir daí as leis da guerra aplicam-se, e centenas de milhares são enviados para a morte, para que milhões possam ser vitoriosos. Esta é a lógica da guerra.”

“A revolução foi realizada. Foi vitoriosa. Na perspetiva mais ampla, os vencedores não eram tanto os bolcheviques quanto os sovietes, nos quais a maioria apoiava a posição dos bolcheviques. A revolução foi substancialmente pacífica, prevalecendo quase sem derramamento de sangue. Os combates mais violentos ocorreram em Moscovo, onde os mortos de ambos os lados foram de alguns milhares. Além disso, a imagem era de uma “procissão triunfal do poder soviético” (este destaque nos livros didáticos soviéticos não foi acidental).”

“No inverno de 1917-1918, a relação de forças viu meio milhão de membros da milícia operária, a Guarda Vermelha, colocados frente a algumas dezenas de milhares de membros da Guarda Branca no sul da Rússia. Tudo ficou calmo até a contra-revolução receber grandes somas de dinheiro da Tríplice Aliança (principalmente da Alemanha) e da Entente, e todos esses países imperialistas lançaram agressões contra o jovem poder soviético”.

Esta é uma visão brilhante de Aleksandr Buzgalin. Abordei este tópico em muitas ocasiões, mas nunca de forma tão coerente. E isso aplica-se a inúmeros exemplos, por todo o mundo em que o Ocidente provocou e brutalmente antagonizou países socialistas ou comunistas, depois acusou-os de crueldade e finalmente “libertou-os” em nome da liberdade e da democracia, literalmente violando a vontade de o seu povo. Tudo isso para o imperialismo europeu e norte-americano sobreviver e prosperar.

Vamos relembrar apenas alguns exemplos: URSS, Indonésia 1965, Chile 1973, Bolívia 2019. E a maior tentativa até hoje: desestabilizar e derrubar o sistema chinês de enorme sucesso. Mas existem, é claro, inúmeros outros exemplos em todos os cantos do globo.


Ron Unz, editor da The Unz Review , escreveu num seu relato em ” American Pravda Series “: “A catástrofe de coronavírus será uma reviravolta na guerra biológica?”, recordando quando a China protestou em 1999, contra o bombardeio da NATO à sua embaixada em Belgrado:

“Quando considerei que o governo chinês ainda estava teimosamente a negar o massacre dos estudantes em protesto na Praça Tiananmen uma década antes, concluí que era de esperar tal comportamento irracional por funcionários da RPC” (….)

“Tais eram os meus pensamentos sobre o assunto há mais de duas décadas. Mas nos anos que se seguiram, a minha compreensão do mundo e de muitos eventos cruciais da História moderna sofreu transformações abrangentes que descrevi na minha série “American Pravda”. Algumas das minhas suposições dos anos 90 estavam entre elas”.

“Considere-se, por exemplo, o Massacre da Praça da Paz Celestial que no dia 4 de junho ainda é evocado numa onda anual de duras condenações, nas páginas de notícias e opiniões de nossos principais jornais. Eu nunca duvidei desses factos, mas há um ano ou dois encontrei um pequeno artigo do jornalista Jay Matthews intitulado “O Mito de Tiananmen” que inverteu completamente essa aparente realidade”.

“Segundo Matthews, o infame massacre aparentemente nunca aconteceu, foi apenas um artifício dos media, produzido por repórteres ocidentais embaraçados e propaganda desonesta, uma crença equivocada que rapidamente foi incorporada nas histórias dos media, repetida sem cessar por tantos jornalistas ignorantes que acabaram por acreditar que fosse verdade. Em vez disso, o mais próximo possível de ser determinado, foi que todos os estudantes que protestavam deixaram a Praça da Paz Celestial pacificamente, exatamente como o governo chinês sempre manteve. De facto, importantes jornais como o New York Times e o Washington Post ocasionalmente reconheceram esses factos ao longo dos anos, mas geralmente enterraram essas escassas admissões tão profundamente que poucos notaram. Enquanto isso, a maior parte dos media convencionais caíram numa evidente fraude”.

“O próprio Matthews tinha sido chefe da delegação em Pequim do Washington Post, cobrindo pessoalmente os protestos na época. O seu artigo apareceu na Columbia Journalism Review, a publicação de maior prestígio quanto a críticas aos media”.

Além disto, o que os grandes media ocidentais descreviam como um grupo de “combatentes da liberdade” e “movimento pró-democracia” tinha um número substancial de radicais nas suas fileiras, até mesmo racistas, que protestavam contra a presença de negros nas universidades chinesas. Exigiram a proibição dos seus relacionamentos com mulheres chinesas. Foram totalmente apoiados e, pelo menos, parcialmente financiados pelo Ocidente, simplesmente devido ao seu anticomunismo selvagem, agressivo e fundamentalista.

O governo chinês não quer mais tocar neste assunto. Acha que, perante a propaganda maciça do Ocidente, não é possível entender a História. Em resumo, no Ocidente perdeu-se o conteúdo das narrativas.


Anticomunismo, uma religião fundamentalista (continuação)

Agora avancemos para 2019 e 2020 em Hong Kong. Mais uma vez, o que testemunhamos é um anticomunismo ultrajante e extremista. Manifestantes fascistas marcham, destruindo edifícios públicos e atacando a Polícia, sob bandeiras dos EUA, do Reino Unido e da Alemanha, são aclamados pelos media ocidentais como “ativistas pró-democracia”. Atacam fisicamente os apoiantes de Pequim. São pagos, são glorificados. Conversei com eles em muitas ocasiões. Mostram uma total lavagem ao cérebro. Não sabem nada sobre factos. Negam os crimes cometidos pelos colonialistas britânicos e norte-americanos. Eles admiram tudo o que é ocidental e desprezam seu próprio país. O Ocidente promove-os como “revolucionários”, em todo o mundo!

Outro grupo desencadeado contra a China Comunista, são os uigures. Muitos deles juntaram-se a organizações terroristas em Idlib, Síria, Indonésia e outros lugares. Ou, mais precisamente, foram injetados lá. O motivo? Para fortalecê-los nos campos de batalha, para que um dia possam voltar à China e tentar quebrar o Comunismo, bem como a “Belt and Road Initiative”, o projeto mais internacionalista da Terra. Cobri as suas atividades na Síria, Indonésia, Turquia e outros lugares. Escrevi extensivamente sobre as atrocidades que cometeram. Mas a propaganda anticomunista é massiva e muito “profissional”. Fabrica uma “narrativa à prova de bala”. Retrata os uigures como vítimas!


Pergunte-se aos homens e mulheres comuns em Londres, Paris ou Nova York, o que sabem sobre a época de Estaline, ou a fome nos primeiros anos da URSS ou da China Comunista?

99,99% não sabem de nada. Onde essas fomes ocorreram e por quê? Mas estão absolutamente certos de que ocorreram. Sem dúvidas sobre o que quer que seja. Não têm dúvidas de que aconteceram “por causa do Comunismo”. Os ocidentais são intelectualmente obedientes, como ovelhas. A maioria deles não questiona a propaganda desencadeada pelo seu regime. Serão realmente “livres”?

A fome na União Soviética realmente ocorreu porque o jovem país revolucionário foi totalmente devastado pelas invasões ocidentais e japonesas, que tentaram vergar e saquear o país. Invasões britânicas, francesas, americanas, checas, polacas, alemãs e japonesas, para citar apenas algumas.

Pergunte-se, por exemplo, aos checos, o que sabem sobre as suas legiões que controlavam a ferrovia Transiberiana, da Europa para Vladivostok. Pilhagem, estupro e matança em massa. Eu tentei. Eu perguntei, em Praga e Pilsen. Eles pensavam que eu era um lunático. As legiões são retratadas como heróicas, nos seus livros de História. Uma narrativa à prova de bala. Não há dúvida.

E “estalinismo”? Este autor planeia escrever muito mais sobre este assunto. Mas aqui, resumidamente: que tipo de país Estaline realmente herdou? Um país completamente saqueado por invasores estrangeiros, um país devastado pela guerra civil. Um país onde as forças contra-revolucionárias foram, até recentemente, financiadas pelo Reino Unido, França, EUA e outros. Como resultado dessa brutal guerra desencadeada do exterior, bandos de criminosos percorreram os vastos campos e cidades.

Desde o início, os comunistas russos queriam paz, irmandade de nações e desenvolvimento pacífico para seu povo. Escrevi em 2017, no meu livro Great October Socialist Revolution. Impact on the World and Birth of Internationalism .

“Os revolucionários queriam acabar com todas as guerras imediatamente. Os soldados russos deixaram as suas trincheiras e abraçaram seus inimigos. “Somos todos irmãos!”, gritaram. “Fomos obrigados a lutar uns contra os outros por monarcas cruéis, padres e homens de negócios. Deveríamos combater inimigos reais, não uns aos outros! Proletariado do mundo, uni-vos!” Mas os oficiais e comandantes ocidentais estavam determinados: forçaram seus homens de volta às trincheiras, acusando-os de traição, empurrando-os para os campos de batalha.

“Mais significativamente, as inúmeras invasões estrangeiras foram esmagadoras quer para as principais cidades russas e como para as áreas rurais. Como sempre, ao longo dos séculos anteriores, os europeus nunca pensaram duas vezes antes de colocarem as suas botas militares em solo russo. De certa forma, a Rússia foi tratada e percebida como uma nação “bárbara” que poderia ser atacada, colonizada e saqueada à vontade e sem muita justificação, não muito diferente das inúmeras nações infelizes em todo o mundo: localizadas na América do Sul, Médio Oriente, África, Ásia e Oceania”.

“Muitos russos pareciam brancos, europeus, mas para os ocidentais nunca eram “brancos o suficiente”, nunca realmente faziam parte da cultura dos conquistadores e saqueadores. A Rússia sempre teve sua própria alma, sua maneira de pensar e sentir, sua maneira distinta de agir e reagir”.

No meu livro, revisitei as táticas de subversão do imperialismo ocidental e do anticomunismo militante:

“A estratégia da subversão imperialista ocidental é essencialmente muito simples: identificar todos os pontos fortes e fracos do país que se tenta liquidar e tentar compreender sua ideologia. Estudar e aprender tudo sobre a sua liderança progressista: os seus planos e o que a revolução está a fazer pelo povo: como dar-lhes liberdade, direitos iguais, maior expectativa de vida, altos padrões de educação, assistência médica, habitação, infraestruturas, artes e, em geral, uma qualidade de vida decente. Em seguida, atacar onde mais dói: intervenções diretas, sabotagem, ataques terroristas ou patrocínio de grupos extremistas e mesmo fundamentalistas religiosos, a fim de espalhar o medo e a insegurança para retardar o processo de mudança social e crescimento económico.

“Aplicar golpes tão fortes que, a certa altura, o sistema democrático revolucionário terá que reagir, seja para proteger o seu povo, as suas realizações e até as próprias vidas. Onde quer que o Ocidente tente destruir um país socialista, seja na Nicarágua ou no Afeganistão nos anos 80, tem como alvo hospitais e escolas, destruindo as grandes realizações sociais do governo, espalhando a desesperança entre a população. Então, desencadeiam-se ataques ainda mais fortes, obrigando o governo a reagir. Imediatamente declara-se: “Vejam, esta é a verdadeira face do socialismo e do comunismo! Querem uma revolução? Tudo bem: o que se obtém é isto: opressão, julgamentos políticos, gulags, falta de liberdade e mesmo algumas execuções brutais!”

“As armas da desinformação e propaganda negativa são amplamente usadas, para que a revolução num país progressista, cruelmente sujeito ao terrorismo, nunca tenha hipóteses de influenciar o resto do mundo- E mesmo o país começar a sofrer demasiada pressão. …

… Estas táticas hediondas do Ocidente feriram profundamente a União Soviética antes da Segunda Guerra Mundial, mas falharam em destruir o país.”


A fome chinesa ocorreu em parte porque durante a ocupação japonesa, o Exército Imperial interrompeu o fornecimento da cadeia alimentar, bem como o sistema agrícola, que havia sido formado e desenvolvido ao longo de milhares de anos. O Japão estava interessado apenas numa coisa: alimentar as suas tropas que ocupavam grande parte da Ásia.

Nos dois casos, a propaganda ocidental fez as pessoas acreditarem que a verdadeira causa da perda de vidas na Rússia e na China era o comunismo! A lavagem cerebral foi tão bem-sucedida que, mesmo na Rússia e na China, milhões de pessoas foram totalmente doutrinadas por essas incontáveis e repetidas mentiras vindas do Ocidente.

Mas pergunte-se em Londres, se as pessoas sabem alguma coisa sobre o facto de que, sob a ocupação britânica da Índia, dezenas de milhões de pessoas morreram de fome; vitimas da fome provocada por Londres , por muitas razões, uma delas a tentativa de diminuir a população. Mais de 50 milhões de indianos, cumulativamente, morreram nessas fomes, entre 1769 e 1943, na Índia administrada pelos britânicos.

Como resultado, devemos proibir o sistema político britânico? Estou convencido de que deveríamos! Mas isso geralmente não é o que as pessoas do mundo, incluindo as vítimas da barbárie colonialista britânica, exigem.

Voltando ao público britânico ou francês. O que sabem sobre o seu passado e até sobre o seu presente neocolonialista? Sabem apenas o que tiveram ordem para acreditar. Em resumo: não sabem nada. Zero. Apenas contos de fadas. Mas estão convencidos de estar bem informados e que têm o direito de ensinar o mundo inteiro.

Eles não sabem absolutamente nada sobre a URSS e a China. Não têm ideia da razão pela qual a Coreia do Norte e Cuba são continuamente demonizados (como dissemos, os dois, de mãos dadas, libertaram a África do colonialismo ocidental).

Vivi e trabalhei por toda a África, durante anos, fiz filmes e escrevi incontáveis ensaios. O envolvimento cubano e norte-coreano, enormemente positivo, internacionalista e indubitavelmente Comunista, na Namíbia e Angola, do Egito à Maurícia, foi muito bem documentado. Mas diga-o num café parisiense ou em um bar de Londres, e os queixos caem. Olhares em branco, vazios.

Até mesmo a “esquerda anticomunista”, composta por anarco-sindicalistas e trotskistas (na realidade, principalmente produtos pseudo-revolucionários dos EUA e britânicos), não sabe nada, ou não quer saber nada, sobre o verdadeiro Comunismo revolucionário.


Em 23 de abril de 2020, o jornal Brasil de Fato citou o vice-ministro venezuelano Carlos Ron:

“É muito interessante a cultura norte-americana acreditar num “destino revelado”, pensar que têm uma missão messiânica. Acreditam que a sua missão é acabar com o comunismo na América Latina, e para isso têm de derrubar a Venezuela, Cuba e tudo o que é vermelho, porque tudo o que é vermelho é comunista.”

Na Indonésia, um Estado religioso completamente fracassado, miserável e deprimente é baseado em dogmas anticomunistas. Ninguém entende claramente por que são anticomunistas, mas quanto mais ignoram o assunto, mais agressivamente agem; banindo todos os conceitos e léxico Comunistas, construindo “museus” anticomunistas e produzindo filmes anticomunistas. Depois de matar milhões de Comunistas em nome do Ocidente, o anticomunismo tornou-se a essência da sua existência. No passado, baniram as línguas chinesa e russa. Tudo apenas para silenciar o passado, quando o presidente Sukarno e o PKI (Partido Comunista da Indonésia), antes do golpe de 1965 apoiado pelos EUA, estavam construindo uma grande nação progressista, socialista e não alinhada.

De facto, em grande parte do sudeste da Ásia, talvez a parte mais grotescamente turbo-capitalista do mundo, o Comunismo foi banido ou pelo menos demonizado. Eis o resultado: nações confusas, consumistas, religiosas e sombrias. O Vietname Comunista é uma estrela brilhante, mas nunca é retratado como tal, definitivamente não é no exterior.

Vamos celebrar o 150º aniversário de Vladimir Ilyich Lenin! Vamos celebrá-lo revisitando a História e o presente.

O sistema político mais brutal é o imperialismo ocidental e o colonialismo. Já matou centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Este facto deve ser repetidamente divulgado.

O objetivo da propaganda ocidental sempre foi igualar o Comunismo ao fascismo, os dois sistemas mais antagónicos da História do mundo. Foi o sistema Comunista soviético, que quebrou o nazismo em pedaços, salvando o mundo, a um custo enorme de aproximadamente 25 milhões de vidas humanas.

Somente o imperialismo ocidental pode ser comparado ao nazismo alemão. Os dois são feitos da mesma massa.

Para mim, para muitos de nós, o Comunismo significa a luta perpétua contra o intervencionismo ocidental, o colonialismo. Nesse momento terrível da história da humanidade, é importante entender claramente essa realidade.

Se o Comunismo fosse derrotado, seria o fim da luta pela liberdade. Somente o sistema Comunista poderoso, centralizado e ideologicamente consistente pode combater e libertar a raça humana das correntes colonialistas, do capitalismo selvagem e de uma existência vazia, niilista.

Os propagandistas dizem mentiras insanas, que o Comunismo é ultrapassado e chato. Não se acredite neles: o Comunismo é o sistema, ainda jovem, mais esperançoso e otimista do mundo. E, ao contrário do imperialismo e do capitalismo, o Comunismo está em constante evolução. Não na Europa ou na América do Norte, mas no resto do mundo.

Basta olhar para o Ocidente e suas colónias. Veja-se a miséria e a privação trazidas à humanidade pelo regime ditatorial opressivo ocidental.

Feliz aniversário, camarada Lenine! A luta continua!