Do 11/Set ao Grande Reinício

11 de setembro - O dia marcado pelo terror nos EUA - YouTube

Por: Pepe Escobar

O 11/Set foi a pedra inaugural do novo milênio –, indecifrável como os Mistérios Eleusinos . Há um ano, no Asia Times , mais uma vez formulei numerosas perguntas que ainda não encontraram respostas.

Entre as setas dos arcos e as pedras das fundas que voaram como raios de ultrajante desgraça e rasgaram estas duas décadas, com certeza incluem-se as seguintes:   O fim da história. O breve momento unipolar. A Longa Guerra do Pentágono. A Segurança Nacional. A Lei Patriótica (Patriot Act). Choque e Pavor. A tragédia/derrocada no Iraque. A crise financeira de 2008. A Primavera Árabe. Revoluções coloridas. “Liderar pela retaguarda”. Imperialismo humanitário. Síria, a como guerra por procuração absoluta. A farsa ISIS/Daesh. O Plano Abrangente de Ação Conjunta (Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA), conhecido como “Acordo do Irã” e “Acordo Nuclear”). Maidan. A Era das Operações ‘Psicológicas’ (Psyops). A Era do Algoritmo. A Era dos 0,0001%.



Mais uma vez entramos fundo no território de Yeats: “Os melhores vacilam e os piores andam cheios de irada intensidade.” 

Ao mesmo tempo, a “Guerra ao Terror” – decantação da Longa Guerra – avançou sem trégua, matou multidões de muçulmanos e arrancou das suas próprias terras pelo menos 37 milhões de pessoas.

Chegou ao fim a geopolítica derivada da 2ª Guerra Mundial. Está em andamento a Guerra Fria 2.0. Começou como EUA contra Rússia, transformou-se em EUA contra China; e agora, completamente desmascarada como Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, e com apoio dos dois principais partidos, é EUA contra ambas. O pesadelo absoluto de Mackinder-Brzezinski está à vista:   o muito temido “concorrente” na Eurásia rasteja rumo à [avenida] Beltway para nascer [2] sob a forma da parceria estratégica Rússia-China.


Algo tem de ceder. [3] E então, sem mais nem menos, do nada, aconteceu.

Um impulso planejado na direção de concentração de poder com garras de aço e diktats econômicos foi conceptualizado antes – sob uma fachada de “desenvolvimento sustentável” – já em 2015, na ONU ( aqui, em pormenor ).

Agora, esse novo sistema operacional – ou distopia digital tecnocrática – está sendo finalmente codificado, embalado e “vendido”, desde meados do Verão, mediante campanha abundante, ostensiva e concertada, de propaganda.

Zele pelo seu espaço mental

Toda a histeria no Planeta Confinamento que elevou a Covid-19 a dimensões de moderna Peste Negra já foi consistentemente desmascarada, por exemplo, aqui e aqui , a partir de conhecimento original que vem de uma fonte altamente respeitada, de Cambridge .

A demolição de fato controlada de vastas porções da economia global garantiu ao capitalismo das corporações e abutres, em todo o mundo, lucros indescritíveis, arrancados do colapso e da destruição de empresas e negócios.

E tudo feito com a mais ampla cumplicidade das massas – processo espantoso de servidão voluntária.

Nada disso é acidental. Por exemplo, há mais de dez anos, desde antes da criação de uma Equipe de Percepções Comportamentais [Behavioral Insights Team], o governo britânico já estava muito interessado em “influenciar” comportamentos, em colaboração com a London School of Economics e o Imperial College.



O resultado foi o relatório MINDSPACE . É a ciência do comportamento usada para influenciar os políticos e a política e, sobretudo, para impor controle neo-Orwelliano sobre a população.

Crucialmente importante, MINDSPACE manifestou colaboração estreita entre o Imperial College e a empresa RAND, de Santa Monica. Tradução: os autores dos modelos computacionais absurdamente falhados que alimentaram a paranoia do Planeta Confinamento, operaram em conjunção com o principal think-tank ligado ao Pentágono.

Em MINDSPACE, lê-se que “abordagens comportamentais incorporam uma linha de pensamento que se desloca, da ideia de um indivíduo autônomo que toma decisões racionais, para um tomador ‘situado’ de decisões [‘situated’ decision-maker], cujo comportamento, em grande parte, é automático e influenciado pelo respectivo ‘ambiente de escolha’ [‘choice environment’] “.

Assim, a pergunta chave é quem decide qual é o ‘ambiente de escolha’. Hoje, todo nosso ambiente é condicionado pela [pandemia e vírus] Covid-19. Chamemos de “a doença”. E dá e sobra para estabelecer muito belamente “a cura”: The Great Reset .

O coração pulsante

O Grande Reinício (Great Reset) foi oficialmente lançado no início de junho pelo Fórum Econômico Mundial (FEM) – habitat natural do Homem de Davos. A base conceitual é algo que o FEM descreve como Plataforma de Inteligência Estratégica ( Strategic Intelligence Platform ): “sistema dinâmico de inteligência contextual que capacita os usuários a que tracem relacionamentos e interdependências entre as questões, como suporte para tomar decisões mais bem informadas”.

Essa plataforma promove complexo cruzamento e mútua penetração entre a doença Covid-19 e a Quarta Revolução Industrial – conceptualizada já em dezembro de 2015 e cenário futurista escolhido pelo Fórum Econômico Mundial. Um não pode existir sem o outro. Visa a imprimir no inconsciente coletivo – pelo menos no ocidente – a noção de que só a abordagem “de acionista” autorizada pelo FEM é capaz de superar o desafio da doença Covid-19.

Great Reset é imensamente ambicioso , cobrindo mais de 50 campos de conhecimento e prática. Interconecta tudo, de recomendações para recuperação da economia, até “modelos de negócios sustentáveis”, de restauração ambiental até redesenho de contratos sociais.

O coração pulsante dessa matrix é – e que mais seria? – a Plataforma de Inteligência Estratégica, que reúne literalmente tudo: “desenvolvimento sustentável”, “governação global”, mercados de capital, mudança climática, biodiversidade, direitos humanos, paridade de gênero LGBTI, racismo sistêmico, comércio e investimento internacional, o – duvidoso – futuro das indústrias e viagens e turismo, alimento, poluição do ar, identidade digital, blockchain, 5G, robótica, inteligência artificial (IA).

No final, só um plano geral A faz interagirem todos esses sistemas, sem saltos ou emendas:   o Grande Reinício – abreviatura de uma Nova Ordem Mundial sempre evocada com deslumbramento, mas jamais implementada. E não há Plano B.

O “legado” do Covid-19

Os dois principais atores por trás do Grande Reinício são Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial; e a diretora-gerente do FMI Kristalina Georgieva. Georgieva não tem qualquer dúvida de que “a economia digital é a grande vitoriosa dessa crise”. Crê firmemente que o Grande Reinício deva começar, necessariamente, em 2021.

A Casa de Windsor e a ONU são os principais coprodutores executivos. Principais patrocinadores incluem BP, Mastercard e Microsoft. Desnecessário dizer que todos quantos têm conhecimento de como são tomadas as mais complexas decisões geopolíticas e geoeconômicas sabem que esses dois principais atores só fazem cumprir roteiro decorado. Os autores são, digamos assim, “a elite globalista”. Ou, em homenagem a Tom Wolfe, “Os Senhores do Universo”.

Schwab, como se poderia prever, escreveu o mini-manifesto do Great Reset . Um mês depois, expandiu muitíssimo a conexão-chave:   o “legado” da [doença] Covid-19.

Tudo isso foi devidamente incorporado num livro , escrito em coautoria com Thierry Malleret, diretor da Rede de Risco Global do Fórum Econômico Mundial (WEF’s Global Risk Network). A Covid-19 é descrita como o fator que “criou o grande reinício disruptivo dos nossos sistemas global, social, econômico e político”. Schwab pinta a [doença] Covid-19 não só como “oportunidade” fabulosa, mas, realmente, como fator criador (itálicos meus) do – agora inevitável – Reset.

Tudo isso se encaixa lindamente com a ideia filhote do próprio Schwab: a [doença] Covid-19 “acelerou nossa transição para a era da Quarta Revolução Industrial”. A revolução vem sendo exaustivamente discutida em Davos desde 2016.

A tese central do livro é que nossos mais prementes desafios têm a ver com o meio ambiente – considerado só em termos de mudança climática – e com desenvolvimentos tecnológicos, que permitirão a expansão da Quarta Revolução Industrial.

Em resumo: o Fórum Econômico Mundial está declarando oficialmente morta a globalização empresarial, modus operandi hegemônico desde os anos 1990s. Agora é tempo de “desenvolvimento sustentável”. – E é “sustentável” o que for declarado “sustentável” por um seleto grupo de “acionistas”, idealmente integrados numa “comunidade de interesses, objetivos e ação comuns (sic).”

Atilados observadores do Sul Global não deixarão de comparar a retórica do FEM de “comunidade de interesses comuns” à “comunidade de interesses partilhados” chinesa, que se aplica à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), que, sim, é projeto continental de comércio/desenvolvimento.

O Grande Reinício pressupõe que todos os acionistas – em todo o planeta – alinhem-se perfeitamente. Se não, como Schwab destaca, teremos “mais polarização, mais nacionalismo, mais racismo, agitação social crescente e mais conflitos”.

Assim sendo – mais uma vez – é ultimato tipo “você está conosco ou contra nós” – reminiscência espectral do nosso velho mundo do 11/Set. Ou o Grande Reinício estabelecido pacificamente, com todas as nações devidamente subservientes, obedecendo às novas orientações definidas por um punhado de autonomeados sábios de República neoplatônica, ou o caos.

Se a Covid-19 e respectiva “janela de oportunidade” apareceram por aí por acaso, ou se apareceu por projeto, permanece sempre como questão das mais sumarentas.

Neofeudalismo digital

A reunião ‘real’, cara a cara, em Davos, ano que vem, foi adiada para o Verão de 2021. Mas Davos virtual acontecerá em janeiro, focada no Grande Reinício. .

Já há três meses, o livro de Schwab sugeria que quanto mais todos se deixem prender na paralisia global, mais claramente se verá que não se permitirá (itálicos meus) que as coisas voltem ao que, antes, se considerava normal.



Há cinco ano, a Agenda 2030 da ONU – madrinha do Grande Reinício – já insistia em vacinas para todos, sob patrocínio da Organização Mundial de Saúde e da CEPI – iniciativa fundada em 2016 por Índia, Noruega e a fundação de Bill e Belinda Gates.

timing não poderia ser mais conveniente para o notório Event 201 .



O “exercício de pandemia” efectuado em outubro do ano passado em Nova York, com o Centro para Segurança da Saúde da Universidade Johns Hopkins, em parceria com – adivinhem! – o Fórum Econômico Mundial e a Fundação Bill e Melinda Gates. Os guardiões vigilantes dos media não admitem nenhuma crítica às motivações dos Gates que não seja superficial. Afinal de contas, são os Gates que financiam estes guardiões mediáticos.

Mas já está imposto como consenso mantido com mão de ferro que sem uma vacina que neutralize a Covid-19 não há qualquer possibilidade de coisa alguma que sequer se pareça com normalidade.

E o artigo espantoso publicado no Virology Journal – que também publica o que diz o Dr. Fauci – demonstra muito claramente que “a cloroquina é potente inibidor da infecção e disseminação de infecção por coronavírus na SARS” [NR] . Trata-se de droga “relativamente segura, efetiva e barata” cujo significativo efeito inibitório antiviral quando as células um possível uso profilático e terapêutico.”

Até o livro de Schwab admite que Covid-19 é “uma das pandemias menos mortais nos últimos 2.000 anos” e que suas consequências “serão pouco graves, comparadas às de pandemias anteriores”.

Não importa. O que importa sobretudo é a “janela de oportunidade” que [a doença] Covid-19 oferece, promovendo, dentre outras questões, a expansão do que já descrevi como Neofeudalismo Digital – ou o Algoritmo devora a Política. Não surpreende que instituições político-econômicas, da Organização Mundial do Comércio à União Europeia e à Comissão Trilateral já estejam investindo em processos de “rejuvenescimento”, expressão codificada para “mais concentração de poder”.

Vigie os imponderáveis

O filósofo alemão Hartmut Rosa é um dos raros pensadores que veem o suplício pelo qual estamos passando, como rara oportunidade para “desacelerar” a vida em tempos de turbocapitalismo.



Hoje, não se trata de “ataque contra o estado-civilização” . Trata-se de estados-civilizações – como China, Rússia, Irã – não submetidos ao Hegemon, que tendem a mapear curso bem diferente.

O Grande Reinício, apesar de tantas ambições universalistas, permanece como modelo insular, ocidente-cêntrico, que só beneficia o proverbial 1%. A Grécia Antiga não se via como “Ocidental”. O Great Reset é, essencialmente, projeto derivado do Iluminismo .

Se se examina a trilha pela frente, com certeza a vemos cheia de imponderáveis. Desde o Fed a transferir dinheiro digital diretamente para aplicativos financeiros de smartphones nos EUA, até a China a promover um sistema de comercial/econômico para toda a Eurásia, ao mesmo tempo em que implementa o yuan digital.

O Sul Global dedicará muita atenção ao agudo contraste entre, de um lado, a proposta desconstrução-liquidação da ordem econômica industrial; e, de outro lado, o projeto Iniciativa Cinturão e Estrada – focado num novo sistema de financiamento fora do monopólio ocidental, e que enfatiza o crescimento agroindustrial e o desenvolvimento sustentável de longo prazo.

O Grande Reinício apontará contra nações perdedoras, agregando todas as que se beneficiam da produção e do processamento de energia e agricultura, desde a Rússia, China e Canadá até o Brasil, Indonésia e grandes porções da África.

Hoje, só uma coisa se sabe com razoável certeza: o establishment no cerne do Hegemon e as baleias babonas do Império só adoptarão um Grande Reinício se isso ajudar a adiar o declínio, acelerado na manhã fatídica de 19 anos atrás.

Sobre o Autor

Jornalista. Alguns dos seus livros são encontráveis em Book Depository .

Qual será a política estrangeira do próximo presidente dos EUA ?

Qual será a política estrangeira do próximo presidente dos EUA ?

Por: Thierry Meyssan

Os programas dos candidatos Trump e Biden não se parecem com os dos candidatos precedentes. Já não se trata de ajustar os Estados Unidos às evoluções do mundo, mas, antes de definir o que eles serão. A questão é existencial, de modo que é perfeitamente possível que as coisas degenerem e acabem em violência. Para uns, o país deve ser uma nação ao serviço dos cidadãos, para os outros deve restaurar o seu estatuto imperial.

A campanha presidencial norte-americana de 2020 opõe duas visões radicalmente diferentes dos Estados Unidos : império ou nação ?

De um lado, a pretensão de Washington de dominar o mundo cercando para isso (« containment ») os potenciais competidores —estratégia enunciada por George Kennan, em 1946, e seguida por todos os presidentes até 2016— ; do outro, a recusa do imperialismo e a vontade de melhorar a sorte dos Norte-americanos em geral —estratégia enunciada pelo Presidente Andrew Jackson (1829-37) e retomada apenas pelo Presidente Donald Trump (2017—20).

Cada um destes dois campos maneja uma retórica que mascara a sua verdadeira prática. Democratas e Republicanos apresentam-se como arautos do «mundo livre» face às «ditaduras», contrários a discriminações raciais, de género e de orientação sexual, e defensores da luta contra o «aquecimento global». Os Jacksonianos, esses, denunciam uma e outra vez a corrupção, a perversidade e, em última instância, a hipocrisia dos precedentes ao mesmo tempo que apelam à luta pela nação, não pelo império.

Os dois campos apenas têm em comum o mesmo culto pela força ; esteja ela ao serviço do império (Democratas e Republicanos) ou da nação (Jacksonianos).

O facto de os Jacksonianos, de maneira inesperada, se terem subitamente tornado maioritários no país e terem tomado o controlo do Partido Republicano acrescenta confusão, mas não deve fazer confundir o trumpismo com aquilo que é a ideologia republicana desde a Segunda Guerra mundial.

Na realidade, Democratas e Republicanos são em geral pessoas com boa situação ou profissionais de novas tecnologias, enquanto os Jacksonianos — tal como os «coletes amarelos» em França— são geralmente pobres e ligados profissionalmente à terra, da qual não conseguem escapar.

Para a campanha de 2020, os Democratas e os Republicanos fazem força por trás do antigo Vice-presidente Jo Biden. Este e os seus apoiantes são extremamente volúveis acerca das suas intenções :
- “The Power of America’s Example”, by Joseph R. Biden Jr., Voltaire Network, 11 July 2019.
- “Why America Must Lead Again. Rescuing U.S. Foreign Policy After Trump”, by Joseph R. Biden Jr., Foreign Affairs, March/April 2020.
E, sobretudo, a declaração de altos funcionários de segurança nacional republicanos em favor do democrata Biden :
- “A Statement by Former Republican National Security Officials”, Voltaire Network, 20 August 2020.
Pelo contrário, Donald Trump é evasivo por escrito :
- “Donald Trump Second Term Agenda”, by Donald Trump, Voltaire Network, 24 August 2020 (a política estrangeira é um pequeno paragrafo em fim de texto).

Na minha opinião, os principais litígios não são enunciados, mas ficam constantemente sub-entendidos.

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Animador de televisão, Donald Trump sonha tornar o país do povo tal como fez o Presidente Andrew Jackson.

O programa dos Jacksonianos

Desde a sua entrada em funções, Donald Trump pôs em causa a estratégia Rumsfeld/Cebrowsky de destruição das estruturas estatais de todos os países do «Médio-Oriente Alargado», sem excepção, e anunciou o seu desejo de fazer regressar a casa as tropas extraviadas na «guerra sem fim». Este objectivo permanece à cabeça das suas prioridades em 2020 (« Parem as Guerras Sem Fim e Tragam as Nossas Tropas para Casa » — Stop Endless Wars and Bring Our Troops Home)

Logo a seguir, ele excluiu o Director da CIA e o Presidente do comité de chefes de Estado-Maior das reuniões regulares do Conselho de Segurança Nacional. Ao fazê-lo, privou os partidários do imperialismo da sua principal ferramenta de conquista.

Ver :
- “Presidential Memorandum: Organization of the National Security Council and the Homeland Security Council”, by Donald Trump, Voltaire Network, 28 January 2017. E “Donald Trump dissolve a organização do imperialismo norte-americano”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Fevereiro de 2017.

Seguiu-se uma batalha pela presidência deste Conselho com a inculpação do General Michael T. Flynn, depois a sua substituição pelo General HR McMaster, o excepcionalista John R. Bolton e, por fim, Robert C. O’Brien.

Em Maio de 2017, Donald Trump exortou os aliados dos Estados Unidos a cessar imediatamente o seu apoio aos jiadistas encarregues de aplicar a estratégia Rumsfeld/Cebrowski. Foi o discurso de Riade aos chefes de Estado sunitas, depois aos chefes de Estado e de governo da OTAN. O Presidente Trump declarou a OTAN obsoleta antes de voltar atrás. No entanto, ele não conseguiu o abandono da política de contenção (containment) sobre a Rússia, mas apenas a redução, para metade, dos créditos usados para este efeito e a atribuição dos fundos assim poupados para a luta contra o jiadismo. Ao fazer isso, travou parcialmente a OTAN em fazer de instrumento do imperialismo para a transformar numa aliança defensiva. Exigiu, portanto, que os seus membros aumentassem o seu orçamento para ela. O apoio ao jiadismo foi, no entanto, prosseguido por apoiantes do imperialismo com meios privados, nomeadamente o fundo KKR.

Ver :
- “Presidential Memorandum: Plan to Defeat the Islamic State of Iraq and Syria”, by Donald Trump, Voltaire Network, 28 January 2017.
- “Donald Trump’s Speech to the Arab Islamic American Summit”, by Donald Trump, Voltaire Network, 21 May 2017.
- “Remarks by Donald Trump at NATO Unveiling of the Article 5 and Berlin Wall Memorials”, by Donald Trump, Voltaire Network, 25 May 2017.

Daí as suas palavras de ordem : « Limpem os Terroristas Mundiais Que Ameaçam Atacar os Americanos » (Wipe Out Global Terrorists Who Threaten to Harm Americans) e « Peçam aos Aliados para Pagar a sua Justa Parte » (Get Allies to Pay their Fair Share).

Fixado como os Democratas e os Republicanos no culto da força, o Jacksonian Donald Trump decidiu restaurar as capacidades dos seus exércitos («Manter e Expandir a Força Militar Sem Rival dos Estados Unidos» — Maintain and Expand America’s Unrivaled Military Strength). Ao contrário dos seus predecessores, ele não procurou transformar a gestão delirante do Pentágono privatizando, um a um, os serviços, antes traçou um plano de recrutamento de pesquisadores para, de novo, rivalizar tecnologicamente com os exércitos russo e chinês.

Ver :
- “National Security Strategy of the United States of America”, December 2017. E “A Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 27 de Dezembro de 2017.

Apenas a vontade de Donald Trump em recuperar a primazia em matéria de mísseis é que é apoiada por Democratas e Republicanos, muito embora eles não estejam de acordo quanto à maneira de o conseguir («Construir um Sistema de Defesa de Cibersegurança de Excelência e um Sistema de Defesa Anti-mísseis» — Build a Great Cybersecurity Defense System and Missile Defense System): o locatário da Casa Branca pretende que apenas os Estados Unidos se dotem com estas armas, que poderão eventualmente colocar no território dos seus aliados, enquanto os seus opositores querem envolver os aliados de maneira a conservar o seu controle sobre eles. Do ponto de vista dos Democratas e dos Republicanos, o problema não é, evidentemente, o de se retirarem dos tratados de desarmamento da Guerra Fria para construir um novo arsenal, mas a perda de meios de pressão diplomática sobre a Rússia.

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Político profissional, Joe Biden espera restaurar o estatuto imperial de ex-primeira potência mundial.

O programa dos Democratas e dos Republicanos extra partido

Joe Biden propõe focar-se (se focalizar-br) em três objectivos : (1) revigorar a democracia (2) formar a classe média para fazer face à globalização (3) retomar a liderança (leadership) global.

- Revigorar a Democracia: Trata-se, segundo as suas próprias palavras, de basear a acção pública no «consentimento informado» (informed consent) dos Norte-americanos. Para isso, ele retoma a terminologia de Walter Lipmann, em 1922, segundo a qual a democracia supõe « fabricar o consentimento» (manufacturing consent). Esta teoria foi longamente discutida por Edward Herman e Noam Chomsky em 1988. Ela não tem, evidentemente, qualquer relação com a definição formulada pelo Presidente Abraham Lincoln: « A democracia, é o governo do Povo, pelo Povo, para o Povo».

Joe Biden pensa atingir o seu objectivo restaurando a moralidade da acção pública pela prática do «politicamente correcto».

A título de exemplo, ele condena «a horrível prática [do Presidente Trump] de separar as famílias e de colocar as crianças de imigrantes em prisões privadas», sem dizer que o Presidente Trump se contentou em fazer aplicar uma lei democrata para mostrar a inanidade dela. Ou ainda, anuncia querer reafirmar a condenação da tortura que o Presidente Trump justificou, sem dizer que este último, tal como o Presidente Obama, já proibiu a prática mantendo a prisão em perpetuidade, sem julgamento, em Guantanamo.

Ele anuncia que deseja reunir uma Cimeira (Cúpula-br) pela Democracia a fim de combater a corrupção, de defender o «Mundo Livre» face aos regimes autoritários, e de fazer avançar os Direitos do homem. Considerando a sua definição de democracia, trata-se de unir os Estados aliados acusando bodes expiatórios do mal (os «corruptos») e promovendo assim os Direitos do homem no sentido anglo-saxónico, nunca no francês. Quer dizer, acabar com as violências policiais mas não para ajudar os cidadãos a participar na tomada de decisões. Esta cimeira lançará um apelo ao sector privado para que as novas tecnologias não possam ser utilizadas por Estados autoritários com o fim de vigiar os seus cidadãos (mas os EUA e a sua NSA poderão sempre a elas recorrer no interesse do «Mundo Livre»).

Por fim, Joe Biden conclui este capítulo sublinhando o seu papel na Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral ao lado dos seus amigos, o antigo Secretário-Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, que derrubou a Jamahiriya Árabe Líbia e Michael Chertoff, o antigo Secretário dos EUA para a Segurança Interna, o qual colocou sob vigilância todos os cidadãos Norte-americanos. Sem esquecer John Negroponte que organizou os Contras na Nicarágua e depois o Daesh (E.I.) no Iraque.

- Formar a classe média para fazer face à globalização: constatando que a política seguida desde a dissolução da URSS implica um rápido desaparecimento das classes médias, Joe Biden acredita que formando o que resta da classe média em novas tecnologias evitará a deslocalização dos seus empregos.

- Renovar a liderança norte-americana: trata-se aqui, em nome da democracia, de travar o avanço «de populistas, de nacionalistas e de demagogos». Esta formulação permite compreender que a democracia segundo Joe Biden não é somente a manufactura do consentimento, mas também a erradicação da vontade popular. Com efeito, se os demagogos pervertem as instituições democráticas, os populistas servem a vontade popular e os nacionalistas a colectividade.

Joe Biden especifica então que acabará com as guerras «para sempre» ; uma formulação que parece apoiar o mesmo objectivo dos Jacksonianos, mas que, no entanto, difere na terminologia. Trata-se, com efeito, de validar a adaptação actual do sistema aos limites impostos pelo Presidente Trump: para quê fazer morrer soldados dos EUA no estrangeiro quando se pode prosseguir a estratégia Rumsfeld/Cebrowski com jiadistas a menor custo ? Tanto mais que, quando não passava de um mero senador da oposição, Joe Biden deu o seu nome ao plano de partição do Iraque que o Pentágono tentou impor.

Segue-se um parágrafo sobre o alargamento da OTAN aos aliados latino-americanos, africanos e do Pacífico. Longe de estar obsoleta, a Aliança voltará, assim, a ser o coração do imperialismo dos EUA.

Finalmente, Joe Biden pleiteia pela renovação do acordo dos 5 + 1 com o Irão e dos tratados de desarmamento com a Rússia. O acordo com o Presidente Hassan Rouhani visa dividir classicamente os países muçulmanos em sunitas e xiitas, enquanto os tratados de desarmamento visam confirmar que uma administração Biden não consideraria uma confrontação planetária, mas iria prosseguir a contenção (containment) do seu competidor.

O programa do candidato do Partido Democrata e dos Republicanos extra partido conclui com a garantia de adesão ao Acordo de Paris e do assumir da liderança na luta contra o aquecimento climático. Joe Biden precisa que não dará brindes à China, a qual deslocaliza as suas indústrias mais poluentes ao longo da Rota da Seda. Ele omite, pelo contrário, que o seu amigo Barack Obama, antes de entrar na política, foi o redactor dos estatutos da Bolsa de Chicago para o comércio dos direitos das emissões de carbono. A luta contra o aquecimento climático não é tanto uma questão ecológica mas mais um negócio de banqueiros.

Conclusão

É forçoso constatar que tudo se opõe a uma clarificação. Quatro anos de sacudidelas pelo Presidente Trump apenas conseguiram substituir as «guerras sem fim» por uma guerra privada de baixa intensidade. Há, é certo, muito menos mortes, mas ainda assim a guerra continua.

As elites que beneficiam do imperialismo não estão prontas a abandonar os seus privilégios.

Também se pode considerar que os Estados Unidos poderão ser forçados a passar por um conflito interno, uma guerra civil, e a dissolverem-se tal como anteriormente a União Soviética.

A tranquila e engenhosa operação especial de Putin na Bielorrússia

Manifestação contra Lukashenko e a suposta fraude eleitoral na praça da Independência, em Minsk, nesta terça-feira.

Por: Stalker

Ainda não consegui habituar-me ao facto de que, quando a Rússia enfrenta grandes ameaças e Putin fica em silêncio, isso significa que há outra operação especial, da qual só saberemos mais tarde, quando o ruído da informação diminuir. Não é de admirar que Trump recentemente chamasse Putin de jogador de xadrez genial no tabuleiro geopolítico.

Vamos recordar a cronologia dos acontecimentos importantes na Bielorrússia.

1) Lukashenko tenta reduzir o desenvolvimento das relações da União com a Rússia e tenta sentar-se em duas cadeiras, namorando com o Ocidente e arrancando novos subsídios de cada lado.

2) Na sua maneira habitual, ele tenta limpar o campo político antes das eleições. Ao mesmo tempo, Moscovo vê o assomar da revolução após a eleição e a actividade dos serviços de inteligência ocidentais. Tudo é primitivo e de acordo com a metodologia de Gene Sharp .

3) A Bielorrússia está a enfrentar os maiores protestos da história do país e os subordinados de Lukashenko estão cada vez mais a voltar-se para a oposição.

4) O governo começa a perder o controle sobre os principais meios de governação. Até jornalistas que serviram o governo durante muitos anos o abandonaram.

5) Os EUA e a UE impõem sanções contra a Bielorrússia e representantes do governo.

Em apenas três dias, a oposição conseguiu sacudir as pessoas a tal ponto que no total cerca de 10% da população saiu para protestar, dezenas de grandes indústrias pararam de funcionar, a “cátedra” ocidental, já aquecida por Lukashenko foi eliminada pelos próprios “parceiros” ocidentais ao imporem sanções e não reconhecerem os resultados eleitorais.

A oposição também pressionou o sector bancário, apelando ao povo a que retirasse o dinheiro depositasse e o trocasse por dólares, o que fez com que o rublo bielorrusso caísse e o custo dos empréstimos subisse para a enorme taxa de 11%, enquanto títulos deixavam de ser comprados.

A partir desse momento, as autoridades já não sabem o que fazer e simplesmente tentam apagar o fogo e justificarem-se, e não sabem como estancar o fluxo de provocações. Lukashenko está confuso e não sabe o que dizer e seus subordinados percebem sua fraqueza e passam a apoiar mais a oposição.

A Rússia, entretanto, diz que há sinais de interferência externa, mas isto é um assunto interno da Bielorrússia e quennão iremos interferir.
Início da operação especial

Poucos dias depois, Lukashenko liga a Putin e, após o telefonema, disse que ficou surpreendido com quão bem a Rússia entendia a situação. Não se sabe do que falaram, mas uma hora e meia depois, os dois primeiros aviões decolaram em direcção a Minsk. Esses aviões transportam responsáveis de alto nível.

A seguir, durante toda a semana, novos aviões – FSB e comuns – chegam à Bielorrússia.

Na sexta-feira, um trabalho activo começa a suprimir o clima de protesto. Eles activam a Internet, libertam detidos, novos jornalistas aparecem na TV (a maioria da Rússia, como se descobriu mais tarde), reúnem milhares de manifestações em apoio a Lukashenko, mesmo com pessoas conduzidas voluntariamente-forçadamente, Lukashenko visita fábricas em greve.

Bandeiras que antes eram proibidas na Bielorússia agora voltam a aparecer.

Está a começar o trabalho em todas as frentes para expulsar a oposição do espaço de informação e desacreditar seus líderes. Ou melhor, o governo permite que eles se auto-desacreditem ao publicar um programa de mudanças que são idênticas às reformas ucranianas:

  • Proibição da língua russa;
  • Descomunização;
  • Movimento em direcção à UE;
  • Privatização;

E assim por diante. Agora se entende o significado do programa. Então ele começa a ser analisado nos media e agora a oposição começa a se justificar e retira apressadamente o programa dos seus sítios web e diz que tudo isto é mentira e que não disseram isto.

Os protestos começam a diminuir e os canais da oposição dos canais Telegram dizem que isso não é verdade e que o povo está apenas cansado ou que o tempo está mau e o governo está prestes a desistir.
O facto mais óbvio da intervenção russa foi o conselho de recompensar os militares pelo excelente serviço, deixando claro que eles não abandonariam os militares, porque estes tinham medo de represálias e muitos pensaram que seriam sacrificados ao povo para acalmar os protestos. Muitos portanto passaram a alinhar com os manifestantes, porque a oposição publicava suas informações e as informações de seus familiares e eles estavam preocupados pela sua segurança.
Também havia auto-colantes no Telegram em favor de Lukashenko.

auto-colantes

Em consequência

Putin esperou até que Lukashenko perdesse o apoio do Ocidente e não tivesse qualquer outra opção senão o desenvolvimento da União de Estados. E agora Lukashenko, ao invés de apresentar desculpas, sente-se outra vez muito confiante, mas os políticos russos o agarraram com firmeza, porque agora é o melhor momento para concluir acordos enquanto sua posição é fraca, e o próprio presidente bielorrusso agora declara que as relações com a União são boas e adequadas. Juntamente com bandeiras da Bielorrússia, agora bandeiras russas são a ser exibidas e notícias positivas acerca da Rússia são novamente apresentadas na TV e não vice-versa (isto é importante para preparar o povo para uma reaproximação). Os protestos perderam força em apenas em poucos dias de trabalho da inteligência russa.

Kamala Harris não é pera doce

What you need to know about Kamala Harris – POLITICO

Por: Ricardo Arenales

Obnubilados pela poderosa máquina de condicionamento da opinião pública constituída pelos meios de comunicação e pela imagem de afro-americana – Kamala Harris, a primeira mulher nestas condições que o Partido Democrata apresenta como candidata à vice-presidência, ao lado de Joe Biden – muitos observadores enaltecem a figura desta ex-promotora geral e senadora dos EUA.

Alguns apresentam-na como uma mulher de tendências centristas e creditam-lhe o facto de que nos últimos anos teve alguma relação com o candidato social-democrata Bernie Sanders. Mas não é possível haver engano. Ela própria disse recentemente aos meios de comunicação: “Não estou a tentar reestruturar a sociedade. Só estou a tentar atender aos assuntos que despertam as pessoas no meio da noite”.

Noam Chomsky recordou recentemente que os EUA são dirigidos pelo sector empresarial para seu próprio benefício, que é o que representa Biden, e que Kamala Harris está longe da imagem de “procuradora progressista” que lhe fabricam os media desde a apresentação da sua candidatura presidencial em 2019. Alguns vão mais longe e destacam a figura de Harris pela sua crueldade.

Folha corrida desta candidata

Noam Chomsky refere-se ao tempo de Harris como promotora, no qual manteve gente inocente no cárcere, opôs-se a que réus com possibilidades de alcançar a liberdade pagassem fiança; opôs-se raivosamente a que o Estado reconhecesse o pagamento de indemnizações a pessoas injustamente encarceradas e defendeu a ideia de que os delinquentes não violentos permanecessem na prisão sem a possibilidade de benefícios como a redenção de penas.

Além disso, opôs-se a uma série de benefícios como o cumprimento de penas extra-muros, a fim de que os prisioneiros continuassem a trabalhar e se convertessem em mão-de-obra barata. Ocultou provas deliberadamente para evitar que outros detidos recuperassem a liberdade. Opôs-se a que os prisioneiros de orientação transexual ficassem num sítio de reclusão de acordo com as suas preferências de género.

Contra a esquerda

Para se fazer eleger senadora e depois como pré-candidata presidencial pelo Partido Democrata, Harris reconheceu que nas suas épocas juvenis algumas vezes fumou um charro de marijuana, certamente com a intenção de ganhar simpatias entre sectores juvenis. Contudo, durante a sua gestão como Promotora Geral do Distrito de São Francisco, condenou quase 2000 pessoas por delitos relativos à marijuana.

Para Biden, a fórmula vice-presidencial traz uma dinâmica mais fresca, uma vez que o candidato já tem 77 anos de idade. Assim, na recta final da campanha conseguiu recursos milionários de empresas privadas, da indústria turística, de empresas de tecnologia e do sector financeiro da Wall Street. A presença de Harris de alguma maneira corta o caminho a sectores mais à esquerda no Partido Democrata, que aspiravam a essa nomeação.

A guerra nos Himalaias e o xadrez mundial

Estrada no Himalaia coloca China e Índia à beira de conflito ...

Por: Pepe Escobar

Parecia saído de um thriller orientalista romântico passado nos Himalaias: soldados a lutar com pedras e barras de ferro pela calada da noite, à beira de um precipício a mais de quatro mil metros de altitude, alguns deles mergulhando para a morte num rio quase congelado e morrendo de hipotermia.

Em novembro de 1996, a China e a Índia concordaram em não usar armas de fogo ao longo da sua fronteira de 3800 quilómetros, conhecida como a Linha de Controlo Real (LAC, em inglês) que, ocasionalmente, tende a descambar em Linha Fora de Controlo.

No entanto, a de agora não foi apenas mais uma rixa nos Himalaias. É claro que se ouviram ecos da guerra sino-indiana de 1962 – que começou de maneira bem semelhante, mas que levou Pequim a derrotar Nova Deli no campo de batalha. Mas, agora, o tabuleiro estratégico é muito mais complexo, sendo parte do Grande Jogo do século XXI que está em desenvolvimento.

A situação tem de ser neutralizada. Oficiais militares de primeiro escalão chineses e indianos, por fim, encontraram-se cara-a-cara no passado fim-de-semana. E, na terça-feira, o porta-voz do Ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Zhao Lijian, confirmou que “houve acordo em tomar as medidas necessárias para promover um arrefecimento da situação”.

O Exército indiano concordou: “Houve consenso entre as duas partes quanto à cessação de toda e qualquer fricção no Ladakh Oriental”.

No dia seguinte, 1 de Julho, esse progresso foi confirmado numa reunião por videoconferência dos três ministros dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Índia e China, grupo também conhecido como os RIC’s: Sergey Lavrov, Subrahmanyam Jaishankar e Wang Yi. O presidente Vladimir Putin, o primeiro-ministro Narendra Modi e o Presidente Xi Jinping irão encontrar-se pessoalmente à margem da cimeira do G20, a realizar-se em Novembro próximo na Arábia Saudita.

Esse encontro deverá ser a provável continuação de uma reunião especial que ocorrerá no próximo mês em São Petersburgo durante as cimeiras combinadas dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e da Organização de Cooperação de Xangai (OCX).

Desde 1947…

Como chegámos então até aqui?

O drama nos Himalaias começou há muito tempo, em Outubro de 1947, quando o Marajá de Caxemira assinou um Instrumento de Adesão – juntando-se ao domínio da Índia em troca de apoio militar. Como a maior parte do Raj (“Índia britânica”), a Caxemira também foi dividida: a região Oeste e Norte – agora chamada Caxemira Azad (“Livre”) – e o Gilgit-Baltistan passaram a pertencer ao Paquistão; o Estado de Jamu e Caxemira tornar-se-ia uma parte autónoma da Índia; e, o que é importante para este caso, o Aksai Chin, historicamente parte do Tibete, foi incorporado na China.

Em termos pessoais, esta região, o “topo do mundo”, sempre foi uma das minhas favoritas no trabalho de jornalista-viajante. Não apenas pela sua apoteose geológica inigualável e de parar a respiração, mas também pelos seus povos – os hunzakut, os baltistanis, os caxemires e os tibetanos.

As duas Caxemiras – a paquistanesa e a indiana – têm maioria muçulmana. Por onde quer que nos desloquemos sentimo-nos na Ásia Central e não na Índia. A árida Aksai Chin é praticamente despovoada, com a excepção de postos militares esparsos. O Ladakh Oriental, região integrada na Índia, em termos históricos e culturais sempre fez parte do planalto tibetano. A população é budista e fala um dialecto tibetano semelhante ao do povo de Aksai Chin.

A jogada de Modi

A disputa actual tem origem bem recente, datando de há menos de um ano. Foi em Agosto de 2019 que o Hindutva – o governo hindu nacionalista e para fascista liderado por Modi – revogou unilateralmente partes da Constituição indiana que estabeleciam Jamu e Caxemira como uma região autónoma.

O Estado de Jamu e Caxemira islâmico – herdeiro de uma longa tradição cultural e religiosa – foi então privado de um parlamento e de governo local, e separado de facto do Ladakh budista e da sua extremamente sensível fronteira com a China, ficando sob o controlo directo de Nova Deli.

Desde 1947, as características de Jamu e Caxemira vêm protegendo a região da imigração em massa de hindus. A situação alterou-se agora com o fim da autonomia. Nos planos de Nova Deli, o jogo é arquitectar uma mudança demográfica, fazendo com que Jamu e Caxemira passe de região de maioria muçulmana a região de maioria hindu.

E até mesmo isso talvez não seja o bastante. Na visão do ministro do Interior indiano, Amit Shah, o governo de Nova Deli considera que não apenas a Caxemira ocupada pelo Paquistão mas também o Aksai Chin chinês são parte de Jamu e Caxemira. Nesta perspectiva, todo o vale de Caxemira é encarado como fazendo parte da Índia.

É fácil imaginar como este plano é recebido em Islamabad e Pequim.

Acrescente-se ainda a importância estratégica do sistema do rio Indo, a principal fonte de água do Paquistão: nasce nas montanhas de Jamu e Caxemira. Não é de admirar, portanto, que para Islamabad a totalidade da província deva pertencer ao Paquistão e não à Índia.

Planos militares

Em tempos recentes, toda a Linha de Controlo Real tem vindo a ser palco de incessante actividade militar.

A Índia reformou o campo de aterragem de Daulet Beg Oldie (DBO), localizado na antiga rota de comércio que cruza o Passo de Karakorum, situado – o que é de importância fundamental – a nove quilómetros apenas de Aksai Chin. Acontece que esse é o local exacto onde a Índia se liga fisicamente à China – ao Xinjiang e não ao Tibete.

Paralelamente, a Índia construiu a estrada Darbuk-Shayok-DBO, com 255 quilómetros de extensão, inocentemente descrita como uma via de pista única na fronteira indo-chinesa. O que isso significa, na prática, é que Nova Deli tem agora muito mais espaço de manobra para transportar tropas e equipamento militar através da Linha de Controlo Real. Não é de admirar que Pequim tenha interpretado a iniciativa como mais uma pressão – indesejável – sobre Aksai Chin.

Enquanto a Índia construía essa nova estrada de acesso militar ignorava por completo o facto de os chineses já terem concluído sua própria estrada em Aksai Chin: a rodovia 219, que liga o ultraestratégico Tibete ao Xinjiang e, em seguida, à lendária Estrada de Karakorum – que começa em Kashgar (Xinjiang, China), cruza a fronteira e desce serpenteando até Islamabad.

Uma importante parte de Aksai Chin foi de facto cedida por Islamabad à China em 1963, em troca de apoio financeiro e logístico.

Como seria de se esperar, houve um forte aumento do patrulhamento militar de ambos os lados. Neste momento, 225 mil soldados indianos estão concentrados nas margens da Linha de Controlo. Um número desconhecido de soldados chineses muitíssimo bem equipados contrapõem-se às tropas indianas. O jornal The Hindu mostrou imagens de satélite da movimentação chinesa em Galwan, pouco antes do choque de tropas na fronteira. Nada menos que três subdistritos militares chineses – subordinados às forças armadas do Tibete e de Xinjiang – participaram nas escaramuças em Galwan.

É tudo por causa de um corredor económico

A fronteira China-Paquistão na altura do Passo de Khunjerab e toda a região imediatamente ao Sul, o visualmente estarrecedor Gilgit-Baltistan, coincide exactamente com aquilo a que os indianos chamam a Caxemira ocupada pelo Paquistão.

Não há a menor possibilidade de Pequim vir a permitir qualquer tipo de aventureirismo regional por parte de Nova Deli. Muito especialmente porque esta é uma parte importante do território do Corredor Económico China-Paquistão (CECP) – um dos principais eixos das Novas Rotas da Seda, que segue até Islamabad e desce para o porto de Gwadar, no Oceano Índico.

Num futuro próximo, Gwadar terá solidificado os seus vínculos energéticos directos com o Golfo Pérsico; e a China poderá mesmo ampliá-los mais ainda através da construção de um óleoduto-gasoduto indo até ao Xinjiang.

Contrapondo-se estrategicamente aos eixos das Novas Rotas da Seda chinesas encontramos o ambíguo papel desempenhado pela Índia tanto no Quad (Diálogo Quadrilateral de Segurança juntando informalmente Índia, Estados Unidos, Japão e Austrália) como no esquema “Indo-Pacífico” dos Estados Unidos que, em essência, é um mecanismo visando a contenção da China.

Na prática, e em nome de sua autodesignada “autonomia estratégica”, Nova Deli não é membro pleno do Quad. O Quad é um conceito tão nebuloso que nem mesmo o Japão e a Austrália parecem exactamente entusiasmados.

Os “vínculos” de defesa Estados Unidos-Índia são muitos – mas sem nada de realmente significativo, com a excepção da jogada autodestrutiva de Nova Deli ao cortar as suas importações de petróleo iraniano. Para aplacar Washington, Nova Delhi prejudicou prodigiosamente os seus próprios investimentos no porto de Chabahar – a apenas 80 quilómetros de Gwadar – que até recentemente era louvado como sendo o portão das Novas Rotas da Seda para o Afeganistão e a Ásia Central.

Fora isso, tudo o que encontramos são, como seria previsível, ameaças: o governo Trump está furioso por Nova Deli comprar sistemas de mísseis S-400 à Rússia.

Auto-suficiência ou contenção?

A China é o segundo maior parceiro comercial da Índia. Pequim importa cerca de cinco por cento de tudo o que é produzido na Índia, enquanto Nova Deli importa menos de um por cento da produção chinesa.

Há apenas dois meses, num discurso à nação sobre o COVID-19, o primeiro-ministro Modi insistiu numa “Índia auto-suficiente” e numa globalização “centrada no ser humano”, focada nas manufacturas locais, nos mercados locais e nas cadeias de fornecimento locais. 

Apesar de toda a bazófia de Modi, o aventureirismo na política externa é incompatível com a tradição indiana de não-alinhamento, e desviaria boa parte do esforço necessário para a construção dessa “auto-suficiência”.

Havia muita expectativa em torno da possibilidade de a Índia e o Paquistão virem a tornar-se membros plenos da Organização de Cooperação de Xangai, o que ajudaria a neutralizar muitos dos seus problemas. Não foi isso que aconteceu. Mas a Organização de Cooperação de Xangai – juntamente com os BRICS – é o caminho a seguir caso a Índia queira realmente tornar-se um actor importante no mundo multipolar que está a surgir.

Pequim tem pleno conhecimento das estratégias imperiais de contenção/cerco. Há mais de 200 bases militares norte-americanas no Pacífico Ocidental. As Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cintura e Estrada (ICE), assentam em nada menos que sete corredores de interligação – inclusive a Rota da Seda Polar. Cinco delas são rotas terrestres. A única que inclui a Índia é a BCIM (Bangladesh-China-Índia-Mianmar).

Se a Índia quiser retirar-se, a Iniciativa Cintura e Estrada continuará a funcionar até ao Bangladesh. O mesmo se aplica à Parceria Económica Regional Ampla (RCEP, em inglês) negociada entre 15 países asiático-pacíficos. Todos eles querem que a Índia permaneça. Nova Delhi teme paranoicamente que a abertura dos seus mercados faça inchar o défice comercial com a China. Com ou sem Índia, o RCEP também continuará a funcionar, assim como a Iniciativa Cintura e Estrada e o Corredor Económico China-Paquistão.

Nas classes dominantes de casta alta são muitos os hindus que não conseguem perceber que estão a ser vergonhosamente usados em tempo integral pelos senhores imperiais, a quem interessa criar uma frente de guerra com a China.

Mas Modi terá de entrar no jogo da realpolitik e dar-se conta de que a Índia não é uma prioridade para Washington e sim um peão na batalha pelo domínio de espectro total contra as “ameaças existenciais” representadas pela China, pela Rússia e pelo Irão, que são exactamente os três grandes nós da integração euroasiática.

Washington continuará a tratar a Índia como um mero peão na campanha indo-pacífica visando a contenção da China. A Índia – em tese muito orgulhosa de sua independência diplomática – preferiria usar os seus laços com os Estados Unidos para se contrapor ao poderio da China em todo o Sudeste Asiático, e também como forma de conter o Paquistão.

Modi, no entanto, não tem a menor condição para apostar fortemente na possibilidade de o governo Trump pensar da mesma forma. A única saída seria sentar-se à mesa de negociações e conversar com seu parceiro nos BRICS, Xi Jinping, no mês que vem em São Petersburgo e em Novembro em Riade.