Dançando à beira do abismo: a crise sistêmica global emerge novamente!

a crise sistêmica global emerge novamente! Cavalothetroia

Por: Edmilson Costa

O sistema capitalista enfrenta o epicentro da mais grave, profunda e devastadora crise sistêmica de sua história, muito mais grave que as duas crises sistêmicas anteriores, cujos eventos provocaram mudanças quantitativas e qualitativas nesse modo de produção. [2] Trata-se de um período difícil, no qual os gestores do capital estão desarticulados, sem horizonte, sem bússola ou instrumentos, e viajando rumo ao desconhecido por mares nunca dantes navegados. Todas as receitas, fórmulas e agendas já foram experimentadas pelos governos, no período 2008-2020, e nenhuma delas conseguiu restaurar a estabilidade do sistema nem a retomada sustentada da economia mundial. A enorme quantidade de dinheiro colocada na economia apenas serviu para adiar o desenlace do processo. Isso ocorre porque as crises sistêmicas têm uma diferença quantitativa e qualitativa em relação às crises cíclicas clássicas do capitalismo e, especialmente, porque nenhum dos problemas que emergiram em 2007/2008 foi resolvido. Pelo contrário, o sistema realizou uma fuga para frente, aumentando de maneira extraordinária o volume do capital fictício em circulação: os bancos centrais colocaram cerca de US$30 milhões de milhões na economia, recursos que serviram muito mais para evitar temporariamente o colapso dos grandes bancos e grandes empresas e para tornar mais ricos os rentistas do que para restabelecer efetivamente a demanda agregada do sistema econômico.

Essa enorme massa de dinheiro (sem lastro na produção do valor), conseguiu proporcionar ao sistema capitalista uma sobrevida semelhante a uma vitória de Pirro, porque na prática os gestores do capital construíram uma economia frágil, baseada nos setores pouco produtores da riqueza material, e com um sistema financeiro ganhando rios de dinheiro nos frenesis da especulação mundial, além de empresas-zumbis buscando norte em meio à tempestade. Gerou também para os eternos otimistas e crentes no milagre do capitalismo uma euforia típica dos enfermos próximos à fase terminal. Ou seja, a dramaticidade da crise anterior não foi uma boa conselheira para os capitalistas, como foi a segunda guerra mundial. Enebriados pelas tonterias do capital fictício e a sede de lucro fácil e rápido, esgarçaram ainda mais as contradições do sistema, ao aprofundar a agenda neoliberal, destruir as redes de proteção social, avançar sobre o fundo público, realizar um brutal ataque contra os salários, direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas, privatizar os serviços públicos e mercantilizar a vida. Quando a pandemia chegou encontrou um campo fértil para avançar avassaladoramente sobre a população, especialmente os mais pobres, e desmoralizar toda a narrativa das últimas quatro décadas neoliberal. Portanto, o vírus não é a causa da crise: a causa da crise é o sistema capitalista e suas contradições imanentes.

É importante enfatizar ainda que os sinais obscurecidos da conjuntura anterior à pandemia levaram muitos analistas a imaginar que o capitalismo poderia se desenvolver tranquilamente driblando a lei do valor e evitando o ajuste de contas entre o extraordinário desenvolvimento das forças produtivas, baseado nas tecnologias da informação, inteligência artificial, robótica e microeletrônica, engenharia genética, biotecnologia, nanotecnologia, entre outras, e as velhas relações de produção construídas no pós-guerra e mantidas na atualidade. [3] Imaginaram que a criação do dinheiro a partir do nada seria suficiente para regenerar um sistema doente e esqueceram-se de que, se a pura e simples emissão de moeda resolvesse os problemas das crises, o capitalismo seria um regime eterno. Nunca é demais lembrar que o sistema capitalista alimenta o processo de acumulação através da apropriação do mais-valor gerado pelos trabalhadores. Quando setores capitalistas hegemônicos optaram majoritariamente pelo mecanismo de acumulação a partir da órbita da circulação, na verdade estavam conspirando contra os interesses de longo prazo do capital, porque nessa esfera, por mais que os capitalistas desejem, não se cria riqueza real na sociedade, afinal somente o trabalho social é capaz de criar o valor. Isso explica o desastre da chamada financeirização da economia. Da mesma forma, o que estamos observando, desde 2008, é uma rebelião generalizada das sofisticadas forças produtivos criadas pelo capitalismo atual contra as velhas relações de produção, cujo desfecho só será resolvido com uma mudança profunda no sistema, como ocorreu no passado, ou com a revolução mundial.

Na verdade, as injeções de recursos por parte dos Bancos Centrais, as políticas de flexibilização quantitativa, a compra de títulos tóxicos para evitar as quebras generalizadas e outros truques macroeconômicos realizados pelos governos dos países centrais apenas contribuíram para reproduzir em bases ampliadas todas as contradições sistêmicas que emergiram na crise de 2008 e para transformar a crise atual num fenômeno muito mais devastador do que a crise anterior. O vírus pode ser uma boa desculpa para apaziguar a mentes mais desesperadas dos escribas do capital, mas não resolve a crise e a devastação que está em curso. O sistema financeiro, diante das taxas de juros praticamente negativas e do risco de crédito em função das dívidas empresariais e dos consumidores, preferiu alocar os recursos recebidos praticamente de graça dos Tesouros dos países centrais na alavancagem de seus negócios especulativos. A grande massa de recursos lançada na economia não irrigou o sistema produtivo, exatamente a base motora do crescimento econômico. Pelo contrário, foi apropriada pelas grandes corporações financeiras e monopólios em geral para especular a partir da arbitragem entre a taxa de juros praticamente negativa definida pelo FED e bancos centrais europeus e as aplicações nas Bolsas de Valores, em mercados futuros e de países emergentes e, inclusive, na compra de títulos do próprio Tesouro norte-americano. Resultado desse processo foi a longa euforia das bolsas e dos mercados especulativos. Isso de certa forma explica porque, enquanto a economia mundial enfrentava sérios problemas, os multimilionários aumentavam a sua riqueza e a concentração da renda crescia exponencialmente. Mas essas bolhas especulativas refluirão dramaticamente com o aumento da crise e a maior parte desses recursos será esterilizada em futuro não muito distante.

Em outras palavras, a crise atual está umbilicalmente associada à emergência da crise sistêmica global em 2008, com uma particularidade muito especial: na atual crise um elemento exógeno (a pandemia do Coronavirus) veio aprofundar, potencializar, acelerar e universalizar um processo que já estava maduro na economia mundial capitalista, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, e transformar a crise já inscrita num horizonte próximo numa hecatombe social, econômica e política, cujas consequências e resultados ainda não temos uma dimensão plena. A pandemia apenas acelerou e dramatizou um processo que já era objetivamente inevitável nas principais economias do mundo. Foi uma espécie de detonador, uma centelha flamejante num ambiente que já estava extraordinariamente inflamável, tanto do ponto de vista econômico quanto social. Seria até irônico imaginar que um nano-vírus, menor que uma bactéria, tivesse condições de por de joelho um sistema mundial com a pujança de mais de três séculos de hegemonia no planeta. Se está produzindo essas consequências dramáticas é porque o sistema já estava muito enfermo. Caso contrário, a crise não seria tão devastadora, afinal países como a China e Vietnã, que também enfrentaram a pandemia, não registraram os resultados dramáticos que estão sendo observados no centro do capitalismo.

Os elementos da nova crise

Grande parte dos analistas das organizações multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, bem como institutos especializados e muitos economistas, já identificavam ainda em 2019 uma desaceleração da economia global e outros previam que uma nova crise seria inevitável em função dos indicadores de um conjunto de variáveis da economia mundial, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, os centros do capitalismo mundial. As Bolsas de Valores já vinham apresentando grande volatilidade desde 2018, após um boom alimentado pelo dinheiro dos Bancos Centrais injetados na economia e das posteriores flexibilidades quantitativas. Além disso, a queda do crescimento econômico chinês, que ao longo desse período contribuiu de maneira acentuada para manter índices positivos da economia mundial, já indicava que sérios problemas estavam por vir na economia mundial. Afinal, a China é responsável por cerca de um quarto da produção mundial, por 20% da produção de peças e componentes e 12% do comércio mundial. [4] Um indicador fundamental para expressar o fato de que a economia já vinha se desacelerando pode ser observado nas taxas de crescimento globais. Dados levantados por Michael Roberts já anunciavam uma queda no nível de crescimento da economia global, desde 2010, conforme se pode observar na tabela 1. [5] Essa performance ocorreu em função da estagnação das taxas de investimentos, que no mesmo período se mantiveram menores que 2007. Mas o dado que melhor expressa as dificuldades da economia mundial pode ser medido pela queda da lucratividade desde 2010. Ainda de acordo com Roberts, a taxa interna de retorno do capital do G7, que pode ser considerada uma proxy da taxa de lucro, vem caindo desde 1998, quando o período neoliberal atingiu seu ápice (Gráfico1). [6]

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Se observarmos também o setor produtivo das principais economias dos países centrais, poderemos constatar que já vinha ocorrendo problemas em vários ramos da produção, especialmente na indústria automobilística da Alemanha, Índia, Inglaterra. Ainda na Alemanha ocorreu também queda no setor de máquinas e equipamentos. “No segundo semestre de 2019 começou uma recessão no setor da produção industrial da Alemanha, Itália, Japão, África do Sul, Argentina e vários setores industriais dos Estados Unidos”. [7] A redução no ritmo de crescimento da China impactou também de maneira bastante negativa os produtores dos chamados países emergentes que exportavam matérias-primas para os chineses. Outros indicadores demonstram ainda enorme fragilidade da economia mundial e da economia dos Estados Unidos em particular. Segundo Plender, que se baseou em cálculos do Instituto Internacional das Finanças (IIF), o quantum de endividamento mundial alcançou U$$253 milhões de milhões no terceiro trimestre de 2019, quantia correspondente a 322% do PIB mundial. [8] Outras fontes indicam um endividamento ainda maior na economia mundial: de acordo com Hedgs, o endividamento mundial já alcançara U$$325 milhões de milhões, ressaltando-se que a dívida das famílias nos EUA atinge U$13,2 milhões de milhões e as dívidas dos estudantes também nos EUA atinge U$1,5 milhão de milhões. [9] Vale lembrar ainda que a dívida externa norte-americana alcança aproximadamente 100% do PIB (gráfico 2), que sua infraestrutura está bastante deteriorada e o setor de petróleo, no qual o País imaginava adquirir auto-suficiência a partir do xisto betuminoso, está em bancarrota, assim como todo o setor petroleiro mundial, em razão da queda dos preços e da demanda.

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Como na crise anterior não ocorreu a queima de capitais suficientes para regenerar o sistema econômico, o truque de injeções maciças de recursos por parte dos bancos centrais criou um sistema econômico baseado em fundamentos frágeis, um boom artificial e um sistema financeiro que ampliou de maneira impressionante o processo especulativo. Isso ocorreu porque os bancos, diante da montanha de recursos em seus encaixes monetários, decidiram obter lucros muito mais rápido e fácil na especulação do que colocar esse dinheiro no setor produtivo. Direcionaram esses recursos para a compra de ações, para a compra de títulos da dívida dos países periféricos, para o mercado futuro de derivativos e todo tipo de negócio especulativo. Esses negócios criaram uma atmosfera otimista, na qual os agentes do capital, especialmente nos meios de comunicação, difundiam a narrativa de que a economia tinha se recuperado e estava crescendo a todo vapor. A crise teria sido apenas um acidente de percurso e o sistema recuperara a normalidade como no passado. Ledo engano: esqueceram-se de que o capitalismo é um sistema que não pode se desenvolver se não extrair o mais-valor dos trabalhadores; que a dinâmica capitalista implica investimento no processo de produção, realização das mercadorias e apropriação do valor para acumular o do capital. Querer fugir dessa lógica imanente do capitalismo é uma miragem semelhante à dos alquimistas buscando descobrir o elixir da juventude. Como de costume, as crises emergem para relembrar a todos os caprichos implacáveis da lei do valor.

Na principal economia do mundo, a crise até agora está sendo devastadora. Não se pode afirmar com exatidão quais as consequências no ritmo de crescimento dos Estados Unidos, mas as perspectivas indicam que esta crise será tão ou mais grave que a grande depressão porque combinou, num mesmo coquetel tóxico, a emergência de um nova erupção da crise sistêmica global com uma pandemia mundial que potencializou e acelerou todas as contradições de um sistema enfermo. Concentrando-se a investigação nos Estados Unidos, o coração do sistema imperialista, como uma proxy do que acontecerá nas outras regiões do mundo, podemos dizer que estão em cursos fenômenos dramáticos nunca dantes observados na economia norte-americana e, por extensão, na economia mundial. Os organismos internacionais preveem uma queda no PIB entre 5 e 10 pontos percentuais negativos, enquanto o ex-secretário do Tesouro norte-americano e experiente representante do establishment, Larry Sammers, avalia que esta será a maior crise desde a segunda guerra, cujo desemprego deverá atingir 20% dos trabalhadores. [10] De concreto, agora em maio, 40 milhões de trabalhadores já perderam o emprego, número que deverá aumentar à medida em que a crise se agrava. De fato, a economia está numa espiral descendente: o setor de petróleo está em bancarrota, com dezenas de empresas indo à falência em função da queda da demanda e dos preços do óleo. No setor do comércio, milhares de empresas também estão falindo por falta de compradores, o que significa que todas as cadeias de fornecedores também sofrerão o impacto da queda. Da mesma forma, os setores da aviação, do turismo, bares, restaurantes, shoppings, cinemas e entretenimento em geral também estão a caminho do colapso. Em breve a crise também chegará ao núcleo duro da produção, em função da insuficiência estrutural da demanda agregada, e as dívidas impagáveis de empresas e consumidores sufocarão o sistema financeiro, cuja queda será muito expressiva.

Essa crise ocorre num momento que a economia norte-americana, do ponto de vista social, também vive uma situação difícil, levando-se em conta ser esta a principal economia do planeta. Como vimos, o crescimento econômico do período anterior foi realizado a partir de fundamentos artificiais, tendo como lógica de crescimento a órbita da circulação, cujos setores não produzem valor. Da mesma forma, o chamado boom dos empregos, criados entre 2009 e a emergência da crise atual, também estava baseado em fundamentos frágeis, com salários estagnados e um elevado contingente da força de trabalho não registrado pelas estatísticas oficiais, o que permitiu uma sofisticada manipulação estatística. “A taxa de participação da força de trabalho – a proporção da população total de 18 a 64 anos que trabalha ou procura emprego – caiu acentuadamente no momento em que a crise ocorreu, e ainda está longe de retornar ao seu nível de 2007… Os salários, como muitos já sabem, não são muito maiores do que eram no final dos anos 1970. Tivemos uma geração inteira experimentando estagnação salarial – e desde a Grande Recessão (de 2008, E.C.), tem sido ainda pior”. [11] Em outras palavras, o nível de emprego propagado pelo governo, em relação à população em idade de trabalhar, não refletia a real situação dos trabalhadores norte-americanos, ressaltando-se o fato de que se tratava de empregos precários e mal remunerados, bastando dizer que cerca de 50% dos trabalhadores dos Estados Unidos ganham menos que U$33 mil por ano, um nível muito baixo para os padrões daquele País. [12] Vale lembrar ainda que existem hoje mais de 40 milhões com rendimento abaixo da linha de pobreza, e 550 mil sem teto, dos quais 358 mil vivendo em abrigos precários e 195 mil morando na rua. [13] Para um País das oportunidades e das liberdades, esse não é um dos mais belos cartões postais.

Do ponto de vista sanitário, a crise veio demonstrar a falência do sistema de saúde privado no País. Atualmente, mais de 2,5 milhões estão contaminados pelo coronavirus, com mais de 120 mil mortos, número mais de duas vezes maior que na guerra do Vietnã. A pandemia revelou de maneira brutal as mazelas da sociedade norte-americana, como a desigualdade, a pobreza, a miséria, a iniquidade de um sistema de saúde onde quem não tem dinheiro morre na porta dos hospitais, a concentração de renda, o racismo estrutural, os milhares de sem teto e moradores de rua, mas também revelou a disposição de vários setores da população para a luta pelas mudanças, especialmente os jovens, negros e latinos. Se o presidente Trump não tivesse subestimado a pandemia, a partir de um negacionismo típico dos fundamentalistas neopentecostais, o número de mortos poderia ter sido bem menor. Se o País tivesse um sistema de saúde público, onde todos pudessem ter acesso gratuito à saúde, milhares de vidas teriam sido poupadas. Dito de outra forma, a crise veio demonstrar com rudeza que o sistema capitalista, especialmente na sua fase neoliberal, é hoje o principal inimigo da humanidade porque só tem a oferecer aos povos a miséria e a desigualdade. As manifestações que estão ocorrendo em todo o País, mesmo diante da pandemia, demonstra a insatisfação profunda da maioria da população e que pode aumentar à medida em que a crise for se agravando.

A desmoralização do discurso neoliberal

A crise demonstrou também de maneira pedagógica a natureza desumana do sistema capitalista e os crimes de sua fase mais agressiva, o neoliberalismo. As políticas neoliberais, ao longo dos últimos 40 anos, sob o pretexto da ineficiência do Estado e do equilíbrio fiscal, transformaram o mercado numa entidade mítica, com interesses superiores aos da espécie humana, numa ofensiva mundial articulada desde as organizações multilateriais, aos diversos governos capitalistas e, especialmente, aos meios de comunicação. Diariamente as TVs, os jornais, o rádio e os meios digitais promoveram as virtudes do livre mercado e da livre concorrência, da iniciativa privada, das reformas econômicas, trabalhistas e previdenciárias e do individualismo como a única alternativa para a vida em sociedade. Desregulamentaram a legislação econômica, as atividades financeiras, o mercado de trabalho, os direitos sociais, e colocaram toda a estrutura do Estado a serviço da nova ordem, mesmo que para tanto se utilizassem de regimes autoritários ou alianças com bandos fascistas. Em outras palavras, transformaram o neoliberalismo num pensamento único, a partir do qual qualquer discordância era desqualificada e inviabilizada. O polo financeiro do grande capital passou a hegemonizar o sistema econômico, a controlar parcela expressiva das empresas produtivas, a hegemonizar politicamente o orçamento do Estado e alavancar de maneira exponencial o processo de especulação. Por trás desse discurso e dessas ações, evidentemente, estavam os interesses da oligarquia financeira e do grande capital buscando superar a crise capitalista e colocar todo o ônus do ajuste na conta dos trabalhadores.

Dessa maneira, a política neoliberal avançou contra os direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas, direitos conquistados por nossos avós, e reduziu os salários, tanto dos trabalhadores do setor privado quanto dos funcionários públicos. Em nome da austeridade e equilíbrio das finanças públicas cortou gastos sociais, reduziu a participação do Estado na economia, avançou sobre as empresas estatais mediante o processo de privatização e amealhou parcelas expressivas do fundo público em função da dívida dos Estados. Devastou os serviços públicos, como a saúde, a educação e o saneamento. Na ânsia de acumular a qualquer custo, a selvageria neoliberal desmantelou as redes de proteção social, destruiu parcela importante da biodiversidade, das florestas, contaminou o solo e os rios e até mesmo o ar que respiramos.

O resultado desse processo foi a precarização no mundo do trabalho, a redução da massa salarial, o empobrecimento de largas parcelas da população, a dificuldade para acessar os serviços públicos, especialmente a educação e a saúde, e uma concentração de rendimento obscena, na qual 1% da população mundial detém a mesma riqueza que os 99% restantes. [14] Em outros termos, por trás das ações e do discurso neoliberal, evidentemente, estava a ação da oligarquia financeira e do grande capital para se apropriar dos recursos públicos e do rendimento expropriados dos trabalhadores pelas contrareformas.

Mas as falácias neoliberais se transformaram em conto de fadas com a crise sistêmica que emergiu em 2008, cujos resultados colocaram em cheque toda a agenda neoliberal e sua narrativa teórica. Os gestores do capital, sem a menor cerimônia, recorreram alegremente ao Estado para salvar do colapso os bancos e as grandes empresas. Todo o velho discurso do livre mercado, da eficiência da iniciativa privada, da maldição do Estado foi abandonado, enquanto os Bancos Centrais colocavam montanhas de dinheiro para salvar o sistema. Mas quem imaginava que as classes dominantes iriam tirar lições do fracasso do neoliberalismo e da gravidade da crise, deve ter ficado bastante decepcionado porque o que se verificou posteriormente foi o aprofundamento das políticas neoliberais, agora mais agressivas e depredadoras que no período anterior.

Os gestores do capital retomaram, também sem a menor cerimônia, o discurso da austeridade, dos ajustes fiscais, do corte dos gastos públicos, dos salários, da necessidade das privatizações, além do controle da política econômica dos governos, para efetivar mais reformas trabalhistas e previdenciárias e maior saque ao fundo público. Como se tratava de medidas ainda mais impopulares que as do período anterior, pelos impactos dramáticos sobre os trabalhadores, a juventude e a população mais pobre, e que tenderiam a gerar reação dos trabalhadores, as classes dominantes mundiais resolveram radicalizar as restrições às liberdades democráticas, a partir da eleição de dirigentes fundamentalistas de direita ou mesmo se aliando a bandos fascistas para manter a ordem. Na prática, as liberdades democráticas se tornaram um obstáculo às políticas neoliberais em todo o mundo. Como se pode observar desde 2009, aumentou a brutalidade contra as manifestações populares, a criminalização dos movimentos sociais e a perseguições a líderes sindicais, populares e dirigentes políticos de esquerda.

Na crise atual o processo se repete em bases ampliadas. Sob o argumento de que o Coronavirus, e não as contradições do capitalismo, é a origem da atual crise, os bancos centrais do mundo inteiro e dos países centrais em particular, especialmente o dos Estados Unidos, liberaram novamente uma quantidade de recursos para bancos e grandes empresas semelhante à crise passada, agora com paz na consciência, pois aparentemente a crise teria origem a partir de um elemento exógeno ao sistema. O FED já avisou que a ajuda ao sistema econômico não terá limites. Pelos cálculos de diversas fontes, até gora já foram emitidos mais de US$20 milhões de milhões pelos bancos centrais em todo o mundo. Na maior parte dos países e, especialmente nos Estados Unidos, o dinheiro recebido a taxas de juro praticamente zero tem se destinado muito mais à especulação do que ao sistema produtivo como no passado.

Os bancos, grandes fundos e grandes empresas com acesso a esses recursos estão preferindo comprar ações nas bolsas e investir em negócios especulativos. As grandes corporações estão recomprando suas próprias ações. O próprio FED tem resgatado dívida de empresas em dificuldades financeiras e adquirido títulos tóxicos. Essa farra com dinheiro criado do nada explica o paradoxo do aumento das cotações das Bolsas de Valores no momento em que a crise mais se agrava. Enquanto isso, a população pobre e desamparada, que agora ficou visível para todos, recebe apenas uma ínfima parte do botim destinado ao grande capital. Cada vez mais fica claro também o papel do Estado não só como instrumento, mas especialmente como organizador coletivo dos interesses das classes dominantes.

O significado político da crise

Mas essa crise veio também colocar na ordem do dia algumas velhas questões da economia política há muito esquecidas pelas classes dominantes e por certa esquerda reformista, que se acomodou no marxismo bastardo, na gestão pretensamente humana do capitalismo e nos encantos do poder político burguês. Nada como uma grande crise para colocar a realidade da luta de classes no posto de comando. O primeiro grande significado político desta crise é muito especial: só os trabalhadores criam o valor. A riqueza criada no sistema capitalista não é resultado da habilidade gerencial dos gestores do capital, nem das máquinas e equipamentos e muito menos do espírito empreendedor dos capitalistas: a única forma de criação de riqueza no capitalismo é o trabalho humano. Como já definia Engels em seu trabalho “A humanização do macaco pelo trabalho” onde define com clareza a importância do trabalho para o ser humano: “O trabalho é a fonte de toda a riqueza, afirmam os economistas, e o é de fato, ao lado da natureza, que lhe fornece a matéria prima por ele transformada em riqueza. Mas é infinitamente mais que isso. É a condição fundamental de toda a vida humana. E o é num grau tão elevado que, num certo sentido, pode-se dizer que o trabalho, por si mesmo, criou o homem”. [15] Poderíamos dizer que o trabalho é tão importante que, se a humanidade deixasse de trabalhar, a espécie humana se extinguiria, pois deixariam de existir bens e serviços para a satisfação das necessidades humanas.

E o velho Marx já dizia que as mercadorias têm valores porque são a cristalização do trabalho social. [16] E ainda no primeiro capítulo de O Capital, citando um panfleto anônimo escrito possivelmente entre 1739 ou 1740, muito antes de Adam Smith, já enfatizava claramente que o valor de todas as mercadorias é resultado do trabalho socialmente necessário do ser humano. ” É apenas a quantidade de trabalho socialmente necessário ou o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor de uso que determina a grandeza de seu valor … Uma quantidade maior de trabalho constitui, por si mesma, uma maior riqueza material”. [17] Nessa crise a vida se encarregou mais uma de provar essa verdade da economia política: quando os trabalhadores ficaram em casa, em função da pandemia, ou quando as empresas demitiram por causa da crise, a economia entrou em colapso. Os capitalistas, em desespero, se articularam de todas as formas com o Estado para pressionar os trabalhadores a voltar ao trabalho. Nada mais claro, objetivo e pedagógico do que o que estamos presenciando nesses tempos de pandemia para provar que só os trabalhadores são os responsáveis pela criação da riqueza em nosso planeta. Os capitalistas só podem se apropriar do mais-valor e acumular riquezas se passar pelo processo de produção. Sem isso, trata-se apenas de riqueza fictícia que será esterilizada nas crises. Por mais que os capitalistas queiram abstrair essa realidade, para eles dolorosa, por mais que a propaganda burguesa busque desviar a atenção para esta verdade cristalina, os capitalistas não podem escapar à lei do valor. Bom, também agora se torna mais fácil argumentar com mais precisão: se os trabalhadores são os responsáveis pela criação da riqueza, por que essa riqueza é apropriada, em sua maior parte, pelos capitalistas e não pelos trabalhadores? A essa pergunta e sua necessária resposta as forças de esquerda têm a obrigação de explicar para os trabalhadores tanto agora quanto no pós-pandemia.

A crise também demonstrou a enorme superioridade dos serviços públicos de saúde em relação aos serviços privados. Nos países com sistemas públicos e com dirigentes que obedeceram as recomendações da Organização Mundial da Saúde, da ciência, dos infectologistas as perdas humanas foram bem menores do que naqueles em que os dirigentes ignoraram o perigo da pandemia. Nos países em que os serviços de saúde são privados, como nos Estados Unidos, e epidemia avançou avassaladoramente e, neste momento, os Estados Unidos se tornaram campeões mundiais de mortalidade e de infectados pelo coronavirus. Ao contrário da principal economia do mundo, a China, Vietnã e Cuba demonstraram muito mais eficiência no combate e controle da doença. A China, primeiro país onde o vírus apareceu, tomou todas as medidas de precauções, com o isolamento social de regiões inteiras, a mobilização nacional de pessoal, recursos e medicamentos para combater a pandemia. O pequeno Vietnã também foi exemplar na mobilização e organização da sociedade no combate ao vírus, da mesma forma que Cuba. Mesmo boicotada selvagemente, também mobilizou recursos, pessoal e medicamentos para proteger a população e vencer a doença. E ainda enviou médicos para dezenas de países para contribuir na luta contra a pandemia, mesmo em países, como a Itália, que participa do boicote a Cuba. Esses fatos revelam, de um lado, que as economias com planejamento e sistemas públicos de saúde, têm mais condições de intervenção em larga escala no combate a pandemias do que as economias privadas, onde o lucro se sobrepõe às necessidades humanas. Por isso, muitos morrem em frente aos hospitais porque não têm dinheiro para pagar um leito. Além disso, os governos capitalistas são mais maleáveis a pressões do capital para retomar os negócios do que os governos de economias planificadas. Como se pode constatar, muitas vezes esses governos autorizaram a abertura das atividades econômicas e logo depois foram obrigados a voltar às medidas de distanciamento social em função da retomada da doença, mas nesse vai e vem muitas pessoas morreram.

A crise também desmoralizou mais uma vez o discurso neoliberal sobre austeridade, ajustes fiscais, cortes nos gastos, privatizações e escancarou de maneira didática as mentiras que diariamente os meios de comunicação veiculavam para impor aos trabalhadores, à juventude e ao povo pobre das periferias a agenda neoliberal radicalizada das classes dominantes globais. Eles diziam que os Estados estavam quebrados e endividados e que era necessário reduzir o déficit público; que não tinham recursos suficientes para pagar as aposentadorias e os funcionários públicos, uma vez que a máquina pública estava inchada; que o Estado estava gastando muito com saúde educação e saneamento; que as empresas públicas eram mal geridas e ineficientes e que era necessário deixar o mercado funcionar em todas as áreas da vida social porque o mercado alocaria os recursos escassos de maneira mais eficiente; que era necessário a austeridade nas contas públicas, porque do contrário haveria um desequilíbrio fiscal e uma escalada inflacionária. A partir dessa narrativa, destruíram as redes de proteção social, reduziram os gastos sociais, sucatearam os serviços públicos e avançaram sobre os direitos dos trabalhadores. Quando veio a crise, esse discurso desmoronou: rapidamente apareceram aos os recursos para salvar os bancos e grandes empresas, os bancos centrais emitiram montanhas de dinheiro para comprar dívidas e títulos tóxicos de corporações endividadas e até sobrou uma pequena parte para a população mais pobre. De uma hora para outra, todos se transformaram em radicais keynesianos, defensores da intervenção do Estado para salvar a economia do colapso e até do rendimento básico para a população pobre. Acabou o discurso de que a inflação explodiria se o Estado gastasse mais do que arrecadava. Mas todos devem ficar atentos: tão logo acabe a pandemia, eles voltarão cinicamente com os mesmos discursos como se nada tivesse acontecido.

Para onde vai a crise?

Qualquer previsão sobre as consequências da crise pode ser apenas um exercício de imaginação, mas traçar tendências e cenários possíveis pode contribuir para compreendermos melhor o significado desta crise para o sistema capitalista e as prováveis consequências econômicas e sociais para os trabalhadores e a juventude. Mas é importante também realizarmos um exercício prospectivo sobre as consequências políticas da crise, seus possíveis desdobramentos em termos de movimentos sociais, bem como os impactos na geopolítica tanto nos países centrais quanto nos países periféricos. Podemos dizer que o mundo pós-pandemia, apesar dos desejos e manipulações das classes dominantes e seus meios de comunicação, não será o mesmo para o sistema capitalista. A história nos tem ensinado que todas as grandes crises desencadeiam fenômenos econômicos, sociais e políticos novos e inesperados – e essa não será diferente. Antes de analisarmos os possíveis desdobramentos da crise, é importante atentarmos para dois elementos macroestruturais que permeiam o desenvolvimento da conjuntura no pós-pandemia e um político-social que poderá emergir desse processo: a) a questão geopolítica, envolvendo a disputa entre China e Estados Unidos, o papel da Rússia e as mudanças geopolíticas que poderão ocorrer no próximo período; b) a recessão profunda nos países centrais e, especialmente, nos Estados Unidos, além, da possível desarticulação do sistema monetário internacional e do poder do dólar como moeda mundial; c) a possibilidade de revoltas sociais em várias regiões do planeta em função das condições sociais e da desigualdade nos países capitalistas. Essas três variáveis influenciarão de maneira decisiva a ordem internacional construída em Breton Woods e poderemos ter uma transição de hegemonia, que pode ocorrer de maneira ordenada ou a partir da guerra, bem como a possibilidade de rupturas da velha ordem em vários países.

a) Antes da pandemia a China já vinha exercendo um papel central na economia mundial, tornando-se a segunda maior economia do planeta, muito embora já seja a primeira em termos de paridade do poder de compra [18] . A China hoje é a maior parceira comercial da Ásia, tem intensificado fortemente suas relações econômicas com a África e avança no relacionamento com a Europa e América Latina. Após a construção do projeto da nova rota da seda, um instrumento que interligará as relações comerciais dos chineses com dezenas de países de vários continentes, a China tem se destacado também nas áreas das tecnologias de ponta, como a internet 5G, satélites e a computação quântica. Esse desenvolvimento tem despertado certo desespero dos Estados Unidos, tanto que a principal empresa de tecnologia da informação chinesa, a Huawei, que está desenvolvendo a tecnologia 5G alguns anos à frente dos Estados Unidos, vem sendo objeto de perseguição e boicote em vários países por pressões dos Estados Unidos. Com o fim da pandemia, a disputa pela hegemonia da economia mundial será intensificada, especialmente porque a China já superou a doença há alguns meses e está retomando as atividades econômicas, enquanto os Estados Unidos estão mergulhados na crise sanitária e também numa crise econômica e social profundas. A conjuntura pós-pandemia com certeza tende a reduzir a hegemonia norte-americana e fortalecer o papel da China como séria candidata a se tornar, num futuro não muito distante, a primeira economia do mundo, fato que terá consequências geopolíticas bastante fortes na ordem econômica e política internacional. Não se pode prever qual será a reação dos Estados Unidos diante dessa nova conjuntura porque, ao longo da história, as mudanças de hegemonia sempre foram realizadas a partir de tensões políticas, econômicas e guerras. Mas a guerra não é um dado definitivo, porque a China possui armas nucleares capazes de atingir os Estados Unidos e, ultimamente, tem realizado uma aliança estreita com a Rússia, que tem paridade estratégica em armas nucleares com os norte-americanos. Uma guerra nessas condições seria uma catástrofe que poria em risco a própria existência da espécie humana. De qualquer forma, está no horizonte próximo uma transição tensa de hegemonia na economia mundial.

b) A crise econômica nos Estados será muito mais grave que primeira erupção em 2008 e possivelmente semelhante ou maior que a grande depressão dos anos 30. Os cálculos realistas indicam que o Produto Interno Bruto do País deverá cair para cerca de -10%, o desemprego poderá atingir 50 milhões de trabalhadores, dezenas milhares de empresas irão à falência em praticamente todos os setores da economia, especialmente nas áreas de comércio e de serviços e, num ritmo um pouco menor, na área produtiva. Com as empresas indo à falência os bancos também serão impactados fortemente em função da cadeia de dívidas que atinge empresas e consumidores. Além disso, a crise não será intensa apenas em 2020: a principal economia mundial continuará em crise por muitos anos, pois as taxas de juros já estão praticamente negativas e não têm mais para onde baixar; os recursos que os bancos centrais estão destinando ao sistema econômico estão encontrando um ambiente encharcado de dinheiro. Os bancos não vão emprestar para as empresas produtivas porque estas não têm demanda suficiente para absorver a produção, em função da queda na renda da população. Só numa conjuntura dessa ordem se pode explicar a inflação dos ativos financeiros enquanto a economia desaba: os grandes conglomerados e os próprios bancos estão recomprando suas próprias ações. No caso dos Estados Unidos, mesmo que o Tesouro continue resgatando as dívidas empresariais e comprando títulos tóxicos das grandes companhias e bancos, essa prática tem um limite. Em outros termos: essa farra em algum momento vai acabar tanto em função da chamada armadilha da liquidez [19] , quanto no momento em que um elo forte na cadeia de crédito e das dívidas for quebrado. O que resultará dessa conjuntura será a quebra de grandes empresas, calote de dívidas, queda nos preços dos ativos financeiros e os próprios grandes bancos também irão à bancarrota porque nenhum setor pode permanecer imune a uma crise dessa ordem.

b1) Uma economia em frangalhos, com fundamentos destroçados, não pode ter uma moeda com o privilégio exorbitante de poder imprimir dinheiro sem um lastro em sua base material. Ou como diz Eichengreen: “O Bureau of Engravind and Printing (a casa da moeda dos Estados Unidos) gasta apenas alguns cents para produzir uma nota de US$100, mas os outros países precisam fornecer US$100 em bens e serviços para obter a mesma nota de US$100. [20] Realmente, essa é uma artimanha muito mais vantajosa que os antigos e melhores negócios da China. Mas esse privilégio pode também acabar com a crise. Se observarmos os fundamentos da economia norte-americana veremos uma situação aterradora: o déficit em conta corrente [21] está acima de 4,5% do PIB, a dívida pública por volta dos 100% do produto, há ainda enorme dívida dos Estados e Municípios, dos consumidores, dos estudantes e das empresas [22] . A infraestrutura do País está aos frangalhos, a economia em queda livre, bem como o mercado de trabalho. Esse conjunto de adversidades vai se refletir na confiança internacional do dólar, afinal uma economia com esse conjunto de problemas, embora seja a maior economia do mundo, com o maior poder militar, e a emissora do dinheiro mundial, em algum momento os investidores podem decidir abandonar o barco e deixar de financiar o déficit dos Estados Unidos. Necessário lembrar que a força e a hegemonia de uma moeda são os fundamentos da nação emissora. Em outros termos: caso ocorra o enfraquecimento do dólar as nações irão procurar outra moeda para realizar suas transações comerciais e nenhum País vai querer comprar títulos de um País em bancarrota. Os bancos centrais vão querer desfazer-se de suas reservas em dólar, afinal nenhuma nação quer ter suas reservas baseadas numa moeda desvalorizada. Não se pode esquecer que cerca de 65% do comércio mundial é feito em dólar, mas isso pode também mudar rapidamente numa grande crise, especialmente se levarmos em conta a ascensão da China e se a sua nova criptomoeda – o yuan digital – for aceita pelos parceiros comerciais da China para suas transações comerciais. Numa situação dessa ordem teríamos uma desarticulação do velho sistema financeiro internacional e a construção de um novo sistema possivelmente baseado numa cesta de moedas.

c) A terceira das grandes questões que esta crise está impondo ao sistema capitalista é uma espécie de imponderável em construção, onde todas as possibilidades estão abertas. Vale lembrar que as grandes crises são o momento da verdade para todos: governos, partidos políticos, movimentos sociais e populares. Nesses períodos todos são obrigados a expor com clareza suas ações, projetos, comportamentos, opiniões e a própria conjuntura se encarrega de definir o rumo dos acontecimentos e aferir quais as propostas que tinham aderência à realidade e quais estavam incorretas. Crises dessa dimensão cobram um alto preço pelos erros dos agentes econômicos, sociais e políticos. Nesses momentos, os acontecimentos são velozes, a conjuntura muda bruscamente. Aquilo que parecia impossível em dias anteriores se torna realidade cotidiana no dia seguinte. Para o senso comum, é como se o mundo estivesse virando de cabeça para baixo. Mas é assim mesmo. São essas conjunturas que abrem as janelas de oportunidades para as grandes mudanças – no caso dessa crise tanto para os nossos inimigos de classe quanto para os trabalhadores. Geralmente, as pessoas temem as crises pela imponderabilidade e pela desagregação que ocorre com a velha ordem, afinal é mais cômodo se conviver com a normalidade. Mas à medida em que a velha ordem vai sendo derrotada e a nova ordem estabelecida, a maioria toma conhecimento das vantagens objetivas dos novos tempos e então se coloca em movimento para conseguir seus objetivos. Caso seja orientada por uma direção política consequente e com objetivos estratégicos, podem construir a nova ordem num patamar bastante superior.

c1) As grandes manifestações nos Estados Unidos são resultado das contradições profundas que vinham se acumulando nessa sociedade desde o final dos anos 70. A morte de George Floyd foi apenas o estopim que acendeu a revolta que estava madura na sociedade. Estas manifestações podem ser a senha para levantes em várias regiões do planeta, inclusive na Europa e na América latina, pois os problemas revelados pela crise são semelhantes em todas as partes do mundo capitalista. Além disso, as manifestações nos Estados Unidos possuem um valor simbólico: estão sendo realizadas no coração do sistema capitalista. O choque psicológico que a sociedade norte-americana está sentindo com os problemas revelados dramaticamente pela crise terá um impacto profundo na consciência das massas (tanto no curto quanto no médio prazo), especialmente na população mais pobre e na juventude, para a qual ficou claro que o discurso vendido pelas classes dominantes era uma mentira longamente cultivada pelos meios de comunicação. O rei se encontra completamente despido: o País das liberdades, das oportunidades, que se comportava como palmatória do mundo para impor os seus valores, agora não consegue proteger a saúde da população diante de uma pandemia, enquanto países muito mais pobres controlaram a doença. Em outras palavras, quando a ira popular emergir das ruínas dessa crise o coração da maior cidadela imperialista vai bater num compasso descontrolado. Mesmo antes da pandemia já se podia sentir um grande descontentamento entre os trabalhadores dos Estados Unidos, tanto que ano passado ocorreram várias greves na categoria dos professores, nos trabalhadores de cadeias de fast food e anteriormente as manifestações dos jovens do Occupy Wall Street. Portanto, as manifestações que estamos assistindo agora podem ser apenas a ponta de um iceberg em direção ao Titanic. Mas não basta a revolta pura e simples contra o racismo, a brutalidade policial e as desigualdades. O sistema é muito forte e pode absorver, cooptar, dividir e derrotar o movimento. Vale lembrar que o Occupy chegou a se organizar em cerca de 60 cidades e se dissolveu por falta de objetivos políticos estratégicos. Portanto, se as manifestações não evoluírem para propostas políticas para mudar o sistema, mediante a construção de uma organização politica, baseada em forte movimento de massas organizado, pode-se novamente perder uma grande oportunidade histórica.

O acirramento das lutas de classe em caráter mundial

Portanto, estamos diante de uma conjuntura em que haverá, no pós-pandemia, um acirramento da luta de classes em caráter mundial. Como avaliarmos em trabalhos anteriores, a luta de classes só ganhará um caráter internacional quando atingir o coração do imperialismo – os Estados Unidos, a Europa e o Japão. Nos elos débeis dos países periféricos também ocorrerão jornadas extraordinárias de lutas porque o imperialismo, ferido em seu próprio território, não terá a mesma força para impor sua hegemonia ao resto do mundo, até mesmo porque está emergindo da crise um competidor à altura desse momento histórico. O mundo viverá uma nova conjuntura com grande lutas de massas nos Estados Unidos, na Europa e, especialmente, na América Latina, onde os levantes sociais já vinham ocorrendo antes mesmo da pandemia, como no Chile, Equador e Colômbia. Mas aqui no lado de baixo do equador, onde a luta de classes terá um papel decisivo será no Brasil, tanto pela dimensão geográfica e populacional do País, quanto pelo tamanho da economia, do proletariado e, fundamentalmente, pelo acúmulo de contradições sociais do País.

A burguesia e seu principal aliado estratégico, o Estado, irão articular estratégias de todas as formas para conter as revoltas sociais, tanto pela repressão aberta e generalizada, criminalização dos movimentos sociais e populares, quanto por métodos mais sofisticados de desinformação, cooptação e manipulação dos meios de comunicação. A retórica deverá ser a mesma: o Estado gastou muito com a pandemia, está quebrado, e todos precisam fazer sacrifícios para que se encontre o equilíbrio fiscal, como forma de garantir a estabilidade econômica, a retomada do crescimento e dos empregos. Mas a tendência é que esse discurso tenha poucas chances de convencer a maioria da população porque a realidade da crise terá sido tão violenta que pode neutralizar essa velha catilinária, ao mesmo tempo em que a própria experiência prática das massas nesse período pode gerar um efeito pedagógico muito mais relevante para desmoralizar e deslegitimar um discurso que vem se repetindo a cerca de 40 anos e que só serviu para concentrar renda, reduzir os salários e aumentar a pobreza em todo o mundo.

Não se pode afirmar com certeza qual deverá ser o desfecho de curto e médio prazo no próximo período, mas algumas hipóteses podem ser exploradas: a) caso as manifestações no coração do sistema capitalista (Estados Unidos) se mantenham, o ritmo da luta de classes nas outras regiões será muito mais intenso, tanto pelo exemplo, quanto pelo próprio enfraquecimento do imperialismo mundial; b) independentemente do que ocorra em termos de lutas sociais nos países centrais, a luta de classes na América Latina se intensificará de maneira extraordinária porque a paciência das massas com a política neoliberal está esgotada, o que já vinha sendo demonstrado no período anterior à pandemia. Agora, com a devastação social provocado pelas políticas neoliberais, escancaradas e intensificadas para a população com a pandemia, a luta de classes na região será muito mais intensa e violenta que nos outros continentes, tanto pela feroz resistência das classes dominantes, viciadas na barbárie social e na exclusão dos trabalhadores das decisões econômicas e políticas, quanto pela disposição dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre das periferias em mudar o estado de coisas na América Latina. Vale lembrar que nas grandes crises as massas realizam um aprendizado rápido (e a pandemia está contribuindo muito para isso), o estado de ânimo das massas muda rapidamente. Fenômenos que pareciam impossíveis se tornam realidade. Como quase todos os governos da região se alinharam com a política neoliberal e se comportaram de maneira criminosa em relação à pandemia, poderão sair da crise desmoralizados junto à população, perderão força política e terão poucas opções além de reprimir barbaramente a população esfomeada e raivosa nas ruas ou serem derrubados pelos movimentos sociais. Tudo depende do papel que as direções políticas revolucionárias terão nessa conjuntura. Como sou um otimista histórico, torço para que a segunda opção se transforme em realidade.
Notas
2 – O sistema capitalista mundial registrou apenas duas grandes crises sistêmicas anteriores a esta: a de 1873-1896, cujo resultado foi a passagem do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista; e a crise de 1929-1945, que levou à segunda guerra mundial, à divisão do mundo em dois sistemas (socialista e capitalista) e, no interior do sistema capitalista, os trabalhadores conquistaram o Estado do Bem Estar Social. Para melhor compreensão do significado das crises sistêmicas (em relação às crises cíclicas do capital), consultar: COSTA, E. A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil. Rio de Janeiro: Edições ICP, 2013.
3 – Para melhor compreensão sobre as contradições entre o desenvolvimento das modernas forças produtivas do capitalismo atual e as velhas relações de produção, consultar Costa. E. em: A natureza da crise sistêmica global: às vésperas do choque das placas tectônicas do capital . Resistir. info
4 – GRUPO DE ESTUDOS E ACOMPANHAMENTO DA CONJUNTURA ECONÔMICA. Coronavirus e a crise mundial: um olhar para os antecedentes da tormenta. Tricontinental, Brasil, 24 mar. 2020. Disponível em: www.thetricontinental.org/… . Acesso em 30 mar. 2020.
5 – ROBERTS, Michael. Lucratividade: o investimento e a pandemia. Economia e Complexidade, 22 maio. 2020. Disponível em: eleuterioprado.blog/2020/05/25/lucratividade-o-investimento-e-a-pandemia/ . Acessado em: 30 maio.2020.
6 – ROBERTS, op. cit.
7 – TOUSSAINT, Eric. A pandemia do capitalismo, o coronavirus e a crise econômica. CADTM, 23 mar. 2020. Disponível em: www.cadtm.org/A-Pandemia-do-Capitalismo-o-Coronavirus-e-a-Crise-Economica . Acesso em: 26 jun. 2020.
8 – PLENDER, John. Há um temor de escassez no crédito global. Valor Econômico, 06 mar. 2020. Disponível em: valor.globo.com/… . Acesso em: 01 jun. 2020.
9 – HEDGES, Cris. Assim arma-se a próxima crise financeira. Outras Palavras, 15 ago. 2019. Disponível em: outraspalavras.net/… . Acesso em 26 jun. 2020.
10 – BORGES, Robinson. Líderes que negam a gravidade da pandemia não salvam a atividade econômica nem vidas, diz Larry Sumers. Valor Econômico, São Paulo, 22 maio. 2020. Disponível em: valor.globo.com/… . Acesso em 26 jun. 2020.
11 – WEISSMAN, Suzi; BRENNER, Robert. Por trás da turbulência econômica. Portal da Esquerda em Movimento,29 ago. 2019. Disponível em: portaldelaizquierda.com/pt_br/2019/08/por-tras-da-turbulencia-economica/ . Acesso em 26 jun. 2020.
12 – SNYDER, Michael. Prepare-se para a colisão! A economia dos EUA está caindo e caindo com força. Blog Pos. 20 nov. 2019. Disponível em: www.clubpos.club/… . Acesso em 26 jun. 2020.
13 – THE COUNCIL OF ECONOMICS ADVISERS. The State of Homelessness in America. [s.l]: [s.e.], 2019. Disponível em: www.whitehouse.gov/… . Acesso em 26 jun. 2020.
14 – ROUBEN, Anthony. 1% da população global detém a mesma riqueza que os 99% restantes, diz estudo. BBC News, 18 jan. 2016. Disponível em: www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn . Acesso em 20 maio. 2020.
15 – ENGELS, Friedrich. A humanização do macaco pelo trabalho. In: ENGELS, Friedrich. A dialética da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
16 – MARX, Karl. Salário, preço e lucro. São Paulo: Edipro, 2004.
17 – Cf. MARX, Karl. O Capital: livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. p. 117-123. Nessa passagem Marx cita um panfleto anônimo que possivelmente tenha sido escrito em 1739 ou 1740 que naquela época já afirmava o seguinte; “O valor deles (os meios de subsistência) quando são trocados uns pelos outros, é regulado pela quantidade de trabalho necessariamente requerida para a sua produção e geralmente nela empregada”.
18 – Método alternativo à avaliação pela taxa de câmbio, formulado pelo economista sueco Gustav Cassel, que busca aferir o poder de compra real na moeda de cada país.
19 – Conceito keynesiano no qual, quando a economia encontra-se numa situação em que as taxas de juros se encontram em zero ou próximas de zero, e a política monetária se torna inócua, ou seja, não adianta injetar dinheiro na economia porque não se alcançará nenhum resultado expressivo.
20 – EICHENGREENN, B. Privilégio exorbitante: ascensão e queda do dólar e o futuro do sistema monetário internacional. Rio de Janeiro: Campus, 2010.
21 – A conta-corrente envolve a balança comercial de um país, a balança de serviços, além das transferências unilaterais.
22 – Os números oficiais indicam uma dívida pública de US$21 milhões de milhões. Mas cálculos do economista Laurence Kotlikoff, da Universidade de Boston e ex-economista senior do Conselho de Economistas do presidente Reagan, indicam que a dívida de longo prazo dos Estados Unidos, incluindo os passivos dos seguros sociais, do Medicare, Medicaid, estudantes consumidores, (inclusive levando em conta a arrecadação de impostos no período), atinge 222 milhões de milhões. Confira o blog The end of the American Dream, de Michael Snyder.

Não é só a morte de uma juíza; contrapesos ao fascismo recuam nos EUA. Chomsky vê guerra civil

Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos” - Cavalothetroia

Por: Carlos Eduardo Silveira 

1 – NOTÍCIAS INTERNACIONAIS SOBRE O BRASIL

PANTANAL. Incêndios em áreas úmidas brasileiras provocados por humanos e agravados pela seca. A nuvem de fuligem do incêndio dirige-se para São Paulo como quase um quinto do Pantanal destruído pelo fogo. Os incêndios que devastaram uma região de pântanos tropical brasileira famosa por sua vida selvagem foram iniciados por humanos e exacerbados por sua pior seca em quase 50 anos, de acordo com autoridades brasileiras, bombeiros e grupos ambientalistas. Imagens de cobras cremadas, antas cozidas até a morte e onças com patas queimadas e enfaixadas na região do Pantanal, no centro-oeste do Brasil, horrorizaram os brasileiros em uma época em que os incêndios também devastam as florestas na Amazônia. Uma nuvem negra de fuligem de incêndios se dirige para São Paulo. (The Guardian, Inglaterra; El Periódico, Espanha) |bit.ly/3cfocJu|bit.ly/3iZT8Qk

BOLSONARO. Para Jair Bolsonaro, respeitar o isolamento é para “os fracos”. Enquanto isso, o Brasil é o segundo país com mais mortes por Covid-19 no mundo. Com 135.000 mortes em seus ombros, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro minimizou mais uma vez a crise de saúde que está causando o vírus Covid-19 e garantiu que respeitar o isolamento social e preventivo “é para os fracos”. “O vírus, eu sempre disse, era uma realidade e tínhamos que enfrentá-lo, nada para nos encolhermos do que não podemos escapar”, disse o presidente de extrema direita. (Página 12, Argentina; La Vanguardia, Espanha; el Clarín, Argentina)) |bit.ly/35U5HcC|bit.ly/3cdKM5l|bit.ly/3kwHJrO

ACORDO EU/MERCOSUL. Incêndios no Pantanal, outra calamidade que ameaça o acordo UE-Mercosul. Os estragos causados pelos incêndios no Pantanal, onde as chamas já devastaram 22% do gigantesco pantanal brasileiro, colocaram mais uma vez em destaque o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, abalado pelas políticas ambientais do governo de Jair Bolsonaro. Os eventos geraram inquietação em relação às políticas ambientais do governo Bolsonaro, consideradas frouxas e benéficas para o agronegócio, algo pelo qual países europeus, centenas de organizações ambientais e até empresas brasileiras começaram a pressionar nesta semana.(La Vanguardia, Espanha; La; La Diária, Uruguai) |bit.ly/2FURLUq|bit.ly/3ced3J3

VACINA OXFORD. AstraZeneca, sob suspeitas pela segurança da vacina, lança planos de ensaio. Os especialistas estão preocupados com o fato de a empresa não ter sido mais aberta sobre dois participantes que ficaram gravemente doentes após receber sua vacina experimental. Os estudos foram retomados na Grã-Bretanha, Brasil, Índia e África do Sul, mas ainda estão em pausa nos EUA. Cerca de 18.000 pessoas em todo o mundo receberam a vacina da AstraZeneca até agora. (The New York Times, EUA) |nyti.ms/2EgmnPQ

PANTANAL Abandono do Pantanal e da Amazônia ameaça investimentos no Brasil. Oito países da UE alertam para a dificuldade de fazer negócios. Agroindustriais exigem ações contra o desmatamento na Amazônia. (El País, Espanha) |bit.ly/35Rnz7K

PANTANAL. Fumaça dos incêndios no Pantanal obriga avião de Bolsonaro a abortar aterragem. Bolsonaro encontrou-se com representantes da indústria agrícola e rejeitou as críticas à gestão ambiental do seu Governo. (Público, Portugal) |bit.ly/32O69H2

COVID-19. O Brasil confirmou 858 novos óbitos por Covid-19 nas últimas 24 horas, com os quais o número total de óbitos chegou a 135.793, enquanto o número de infectados já está próximo a 4,5 milhões, informou o Ministério da Saúde nesta sexta-feira. De acordo com o boletim epidemiológico divulgado diariamente pela carteira, no mesmo período foram registradas 39.797 novas infecções, de forma que o número total de casos no país foi de 4.495.183. (La Vanguardia, Espanha) |bit.ly/3chPa3m

GOVERNO BOLSONARO. Suposto financiamento governamental de sites de extrema direita é investigado. A Polícia Federal teria indícios de que o Governo de Jair Bolsonaro financiou pessoas e páginas na Internet. A Polícia Federal brasileira está investigando supostos financiamentos que o governo Jair Bolsonaro teria feito para sites de extrema direita que promoveriam atos antidemocráticos E que promovem causas que ameaçam a independência do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. (El Espectador, Colômbia) |bit.ly/3mxdRgR

VENEZUELA. A Venezuela denuncia que o Brasil suspendeu as credenciais de seu pessoal diplomático. Pompeo reafirma no Brasil o apoio dos Estados Unidos aos migrantes venezuelanos. O chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, denunciou nesta sexta-feira que o Itamaraty suspendeu as credenciais de seu corpo diplomático, o que está vinculado à visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo. para o país. (El Telégrafo, Equador; El Mercurio, Chile) |bit.ly/2RFAql8|bit.ly/2RJ7jNP

MAIA. A visita de Pompeo ataca a tradição da política externa brasileira. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmou nesta sexta-feira que a visita do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, “não coincide com as boas práticas diplomáticas internacionais e ataca as tradições de autonomia e altivez de nossa política externa e defesa”. (Últimas Notícias, Venezuela) |bit.ly/35U5Cpk

FLORDELIS. Dinheiro, sexo e religião por assassinato de família no Rio. A cantora Flordelis, também parlamentar, pastora e mãe adotiva de 50 filhos, é suspeita de ter organizado a morte de seu marido, Anderson. Família é “meu bem mais querido”, disse Flordelis dos Santos de Souza, 59. Agora, ela aparece em um papel mais sombrio. A de uma manipuladora acusada de planejar como família o assassinato de seu marido, Anderson de Carmo, de 42 anos, executado a tiros após várias tentativas de envenenamento por arsênico. Um total de sete membros do clã, além de um ex-policial e sua esposa, estão na prisão. Flordelis, como é simplesmente chamada no Brasil, deve sua liberdade apenas à sua imunidade parlamentar. (Le Figaro, França) |bit.ly/35Sf78j

2 – NOTÍCIAS DO MUNDO

INTERNACIONAL PROGRESSISTA. A primeira cúpula do ‘Progressive International’ começou na sexta-feira. Este movimento reúne inúmeras organizações políticas e sociais, e visa criar uma frente mundial para conter o avanço do autoritarismo. De sexta a domingo, acontecerá de forma virtual a primeira cúpula da organização denominada Internacional Progressista, cujo objetivo é “promover a união, coordenação e mobilização de ativistas, associações, sindicatos, movimentos sociais antes do avanço do autoritarismo ”. Originalmente, essa cúpula seria realizada pessoalmente em Reykjavik, capital da Islândia, mas, devido à pandemia de 19, foi organizada virtualmente. (La Diária, Uruguai) |bit.ly/32LQ5FL

LAWFARE: JULIAN ASSANGE. ‘Associados’ de Trump ofereceram perdão a Assange em troca da fonte de e-mails. No Tribunal, o fundador do WikiLeaks foi solicitado a revelar a fonte do vazamento que causou danos a Hillary Clinton, disse a audiência. Duas figuras políticas que alegam representar Donald Trump ofereceram a Julian Assange um acordo “ganha-ganha” para evitar a extradição para os EUA e a acusação, ouviu um tribunal de Londres. Segundo o acordo proposto, segundo a advogada de Assange, Jennifer Robinson, o fundador do WikiLeaks receberia um perdão se revelasse quem vazou e-mails do Partido Democrata para seu site, a fim de ajudar a esclarecer as alegações de que eles haviam sido fornecidos por hackers russos para ajudar na eleição de Trump em 2016. (The Guardian, Inglaterra) |bit.ly/3myWdtb

LAWFARE: AMÉRICA LATINA. Luis Arce e Andrés Arauz denunciaram manejo da lei na Bolívia e Equador. Candidatos presidenciais de esquerda refletem sobre o contexto latino-americano. As apresentações de ambos os candidatos abordaram os desafios que o progressismo enfrenta neste contexto urgente de crise democrática. Junto com eles estavam o ex-candidato a presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e a ex-embaixadora argentina, Alicia Castro. (Página 12, Argentina) |bit.ly/32KMnMI

BOLÍVIA. O movimento de “indignados” que nos últimos meses saíram às ruas da Bolívia para resistir e denunciar as violações dos direitos do governo de facto de Jeanine Añez, fez uma campanha massiva na qual apelam ao voto contra a direita, Inspirado em um “hit” popularizado na cidade de Buenos Aires, durante as eleições de 2019, ao ritmo de “Añez já foi / Mesa já foi / se quiser, Camacho também”, canta a cumbia retirada do flashmob espontâneo que no ano passado soou e dançou em espaços públicos de Buenos Aires. (Página 12, Argentina) |bit.ly/2FNQIWt

BOLÍVIA. Evo após o anúncio de Áñez de não se candidatar às eleições: “É uma dupla traição a seus militantes e candidatos” O ex-presidente boliviano garantiu que a renúncia do interino “já estava decidida há muito tempo, a única coisa que resta a fazer é negociar sua impunidade”. (El Mercúrio, Chile) |bit.ly/35T8YZq

PERU. O presidente peruano, Martin Vizcarra, escapou do impeachment na sexta-feira (18 de setembro) depois que seus oponentes no parlamento não conseguiram reunir votos suficientes para derrubá-lo por “incapacidade moral”. Depois de dez horas de debate no parlamento unicameral do Peru, apenas 32 deputados votaram pelo impeachment, enquanto 78 votaram contra e 15 se abstiveram. Um mínimo de 87 votos de um total de 130 deputados. (Le Monde, França) |bit.ly/3ceAGRu

FOME. ONU: Fome no mundo atingiu o maior número de sempre. Os conflitos armados, alterações climáticas e a pandemia podem fazer a situação piorar ainda mais, diz o responsável pelo Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas. Só no Brasil há mais de dez milhões sem acesso regular a alimentação. Em todo o mundo, neste momento 138 mil pessoas rapadas pela fome. “Este é o maior número da nossa história”, explicou. Junto com esses números, 270 milhões de pessoas estão “cada vez mais perto” de situações de acolhimento. (Esquerda.net, Portugal) |bit.ly/3hNMprw

EUA. Republicanos entre a pressa e a contradição para nomear um novo juiz para Supremo dos EUA. Mitch McConnell, líder do Senado, quer aprovar o nome proposto por Trump antes da tomada de posse do novo Presidente, mas há senadores republicanos que temem o impacto dessa decisão nas suas eleições. (Público, Portugal) |bit.ly/3cdctv2

EUA. Morre Ruth Bader Ginsburg: uma nova frente na campanha norte-americana. A decana do Supremo Tribunal morreu aos 87 anos. Seu último desejo: que seu sucessor seja nomeado pelo presidente eleito em 3 de novembro. Os republicanos parecem querer aproveitar a oportunidade para derrubar permanentemente o mais alto órgão judicial dos Estados Unidos, procedendo à sua substituição o mais rápido possível. (L’Humanité, França) |bit.ly/3iOxTB1

ITÁLIA. A região de Florença, um bastião comunista e então democrático, pode cair nas mãos da extrema direita nas eleições parciais de domingo e segunda-feira. O partido de Salvini aposta na vitória com os jovens. O prefeito democrático de Florença evoca o cerco à cidade de 1529 liderado pelas tropas do Santo Império. Outras autoridades eleitas relembram os antigos confrontos entre as cidades toscanas e a cidade dominante dos Medici. De acordo com as últimas pesquisas, o bastião vermelho da Toscana, governado desde a guerra pela esquerda, pode de fato cair nas mãos da extrema direita de Matteo Salvini. (Libération, França) |bit.ly/3kzCd7G

TAILÂNDIA. Tailândia, milhares nas ruas contra o governo e a monarquia: “Um primeiro passo histórico para a democracia”. Os organizadores aguardam uma multidão de 50.000 pessoas prontas para marchar na primeira luz da madrugada de domingo em direção ao prédio do governo. Eles exigem a dissolução do parlamento, novas eleições, mudanças na Constituição, o fim da intimidação de ativistas políticos. Mas também a reforma da monarquia, considerada sagrada . (La Repubblica, Itália) |bit.ly/3iPFQpx

3 – ARTIGOS/ENTREVISTAS/REPORTAGENS

Eric Nepomuceno – Brasil (Página 12, Argentina) | “Brasil: modelo de destruição” |bit.ly/3cdczmo

Noam Chomsky– EUA (Página 12, Argentina) | “Há riscos iminentes de uma guerra civil nos Estados Unidos”. Fala no âmbito do encontro virtual da Internacional Progressista |bit.ly/3hNx4XZ

Naomi Klein ­– EUA (Página 12, Argentina) | “Lições da pandemia e da urgência de um plano de reparação do milhões de dólares”. Fala no âmbito do encontro virtual da Internacional Progressista |bit.ly/3kwGdG6

James Doward, reportagem – Extrema Direita (The Guardian, Inglaterra) | “A conspiração QAnon – Tudo começou nos Estados Unidos com reivindicações terríveis e um ódio ao “estado profundo”. Agora ele está crescendo no Reino Unido, resultando em protestos antivacinas e 5G, alimentados por desinformação online. Jamie Doward examina a ascensão de um movimento de culto de direita” |bit.ly/3iQTEQE

Arwa Mahdawi – EUA (The Guardian, Inglaterra) | “A comissão de Trump sobre 1776 é a prova de que os EUA estão numa espiral em direção ao fascismo. Trump está criando uma comissão para ensinar aos alunos ‘o milagre da história norte-americana’“. |bit.ly/32O6dqg

Alfredo Zaiat – Argentina (Página 12, Argentina) | “O dólar Macri: guerra financeira e política. O desastre financeiro de Macri à base das pressões por uma forte desvalorização” |bit.ly/3cdczTq

Mario Wainfeld – Argentina (Página 12, Argentina) | “Saúde, economia, educação diante da crise. Vencedores e perdedores da nova anormalidade” |bit.ly/33Ht4U0

Vladimir Cares – Economia (Página 12, Argentina) | “O falso postulado de igualdade entre salários e produtividade do trabalho. Baixa sindicalização e hegemonia do pensamento neoliberal” |bit.ly/3iNo4U3

Manuel Castells, entrevista – Espanha (El Diário, Espanha) | “A direita perdeu um poder que sempre acreditou ser seu e não o recuperará por muito tempo” |bit.ly/2ZUon7Z

Democracy Now, editorial – Julian Assange (Democracy Now, EUA) | “Julian Assange e a liberdade de imprensa, em julgamento em Londres” |bit.ly/3cgXnod

Adriana Guzmán – Bolívia (Jacobin, EUA) | “Um golpe contra o povo” |bit.ly/32NnX5b

Julian Assange, Prometeu acorrentado

Assange saiu arrastado da embaixada mas com um livro na mão. Porquê?

Por: Pepe Escobar

Ele está sendo punido não por roubar o fogo, mas por expor os poderosos à luz da verdade e provocar o deus do Excepcionalismo.

Este é o conto de uma tragédia da Grécia Antiga, reencenada na Anglo-América.

Em meio ao silêncio estrondoso e à indiferença quase universal, acorrentado, imóvel, invisível, um esquálido Prometeu foi transferido da forca para um julgamento-espetáculo em um falso tribunal gótico construído no local de uma prisão medieval.

Cratos, personificando o Poder, e Bia, personificando a Violência, haviam devidamente acorrentado Prometeu, não a uma montanha no Cáucaso, mas ao confinamento solitário em uma prisão de segurança máxima, subjugado à implacável tortura psicológica. Em nenhuma das torres Ocidentais de vigilância, nenhum Hefesto se ofereceu para forjar qualquer grau de relutância ou mesmo uma migalha de piedade.

Prometeu está sendo punido não por roubar o fogo – mas por expor os poderosos à luz da verdade, provocando, assim, a ira desenfreada de Zeus, o Excepcionalista, que só é capaz de orquestrar seus crimes sob múltiplos véus de segredo.

O mito do sigilo – que envolve a capacidade de Zeus controlar o espectro humano – foi rompido por Prometeu. E isso é anátema.

Durante anos, estenógrafos degradados trabalharam incansavelmente para retratar Prometeu como um reles trapaceiro e falsificador leviano.

Abandonado, difamado, demonizado, Prometeu foi consolado por apenas um pequeno grupo de Ninfas – Craig Murray, John Pilger, Daniel Ellsberg, guerreiros Wiki, escritores do Consortium. A Prometeu foram negadas até mesmo as ferramentas básicas para organizar uma defesa que pudesse pelo menos abalar a dissonância cognitiva da narrativa de Zeus.

Oceano, o titã pai das Ninfas, para satisfazer Zeus, não poderia incitar Prometeu.

Fugazmente, Prometeu revelou ao grupo de Ninfas, que expor segredos não era o que lhe daria a verdadeira satisfação pessoal. A longo prazo, sua causa poderia reavivar o apreço popular às artes civilizatórias.

Um dia, Prometeu foi visitado por Io, uma donzela humana. Ele teria previsto que ela não se envolveria em nenhuma viagem futura, e que ela lhe daria dois descendentes. Teria igualmente previsto que um de seus descendentes – um descendente anônimo de Hércules – muitas gerações depois, o libertaria, figurativamente, de seu tormento.

Zeus e seus lacaios da promotoria nada têm de muito concreto contra Prometeu, além da posse e disseminação de informações confidenciais Excepcionais.

Ainda assim, caberia a Hermes – o mensageiro dos Deuses e, significativamente, seu canal de Notícias – ser enviado por Zeus, tomado de raiva incontrolável, para exigir que Prometeu admitisse ser culpado de tentar derrubar a ordem baseada em regras estabelecidas pelo Supremo Excepcional.

Isso é o que está sendo ritualizado no julgamento-espetáculo atual, que nunca disse respeito à Justiça.

Prometeu não será domesticado. Em sua mente, ele libertará o Ulisses de Tennyson: “se esforçar, procurar, encontrar e nunca ceder”. 

Então Zeus pode finalmente atingi-lo com o raio do Excepcionalismo, e Prometeu será lançado ao abismo.

Porém, o roubo de Prometeu do segredo dos poderosos foi irreversível. Seu destino certamente levará ao aparecimento, mais tarde, de Pandora e sua caixa de males – com consequências imprevistas.

Qualquer que seja o veredicto declarado naquele tribunal do século XVII, está mais do que certo de que Prometeu entrará na História apenas como um mero objeto de culpa pela loucura humana.

Porque agora o cerne da questão é que a máscara de Zeus caiu.

Um país e uma economia em dificuldades

Por: Eugénio Rosa

– Não preparação para enfrentar a crise do coronavirus
– Um governo que adia atuar
– A situação dramática dos desempregados cujo número não para de aumentar

Para se poder compreender a verdadeira situação que o país e os portugueses enfrentam atualmente, assim como as dificuldades que se verificam para ultrapassar uma crise grave como a atual, é necessário ter presente dados importantes que dão uma ideia clara, objetiva e global da situação do país e da economia Ela é determinada por politicas seguidas durante anos que fragilizaram muito o país e que agora a crise causada pelo “coronavírus” veio apenas tornar visível.

O DESINVESTIMENTO NA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL É CAUSA PARA QUE MAIS DE 40% DA POPULAÇÃO EMPREGADA TENHA SÓ O ENSINO BÁSICO OU MENOS, QUASE O DOBRO DA MÉDIA DOS PAÍSES DA UE

O quadro 1, com dados oficiais do INE, mostra a situação real do país neste momento:

No 2º Trimestre de 2020, ainda 1.929.000 portugueses empregados tinham apenas o ensino básico ou menos, o que corresponde a 40,8% da população total empregada. A média nos países da UE é pouco superior a 20%. Contrariamente também ao que acontece em outros países da UE a população empregada com o ensino superior é mais elevada do que a com o ensino secundário, o que revela uma distorção causada por um sistema de ensino não adequado ao desenvolvimento do país. Segundo os Relatórios do OE, entre 2010 e 2020, a despesa publica com o funcionamento do ensino básico e secundário, a preços constantes de 2010, sofreu uma redução de 2.200 milhões €. O desinvestimento dos sucessivos governos no aumento do nível de escolaridade e de qualificação dos portugueses é claro, quando é o mais importante para desenvolver o país. Para além disso, durante as crises os mais atingidos pelo desemprego são os trabalhadores de baixa escolaridade. Entre 2011 e 2015, com a “troika” e com Passos Coelho, o emprego diminuiu em 191.000, mas os trabalhadores com o ensino básico ou menos que perderam o emprego atingiu 631.000. Com a crise atual, entre o 4º trim.2019 e o 2º trim.2020 já foram destruídos 205.000 empregos mas o número de trabalhadores com o ensino básico ou menos que perderam o emprego já atinge 182.000.

O “STOCK” DE CAPITAL, OU SEJA, O INVESTIMENTO EM EQUIPAMENTOS E OUTROS MEIOS NECESSÁRIOS A PRODUÇÃO POR TRABALHADOR TEM DIMINUÍDO EM PORTUGAL

O desinvestimento em Portugal em equipamentos e outros meios necessários ao aumento da produtividade do trabalhador tem sido enorme com revelam os dados da Comissão Europeia.

Entre 2013 e 2019, o “stock” de capital líquido por trabalhador em Portugal diminuiu em 11,7%, pois a preços constantes passou de 124.564€ para apenas 110.034€. No lugar do investimento em equipamentos e outros meios materiais aumentar para que a produtividade por trabalhador aumentasse, o que se tem verificado em Portugal é precisamente o contrário. O novo investimento nem tem compensado aquele que desaparece por obsolescência e pelo uso. E o Estado tem dado o pior exemplo. Entre 2015 e o 2019, o investimento publico (FBCF) somou 18.192 milhões € mas o Consumo de Capital Fixo (amortizações), ou seja, o que se desgastou ou foi destruído pelo uso ou degradação somou 26.444 milhões €, portanto investiu-se menos 8.252 milhões do que se “consumiu”. É essa a causa da degradação profunda de muitos equipamentos públicos (escolas, hospitais, transportes, etc.). Como consequência, a produtividade aparente do trabalho (PIB por trabalhador) teve a evolução revelada pelos dados do INE do gráfico 2.

A produtividade aparente do trabalho que já tinha diminuído no 1º trimestre de 2020, caiu no 2º trimestre de 2020 para apenas 8.876€, ou seja, um valor que é praticamente o verificado no 1º trimestre de 2000 (neste trimestre a riqueza criada em média por trabalhador – PIB por trabalhador – foi apenas de 8.821€), portanto no 2º trimestre de 2020 verificou-se um recuo de 20 anos

O GANHO MÉDIO LÍQUIDO DOS TRABALHADORES EM PORTUGAL ERA APENAS 980€ EM 2019, O MAIS BAIXO DA UE – E COM A CRISE AINDA POR CIMA SOFREU UMA FORTE REDUÇÃO

Consequência do desinvestimento verificado na educação e em equipamentos, quer da administração publica quer do setor privado, o nosso país tem um perfil de economia assente em baixa produtividade e em baixos salários. O quadro 2 completa o gráfico anterior:

Segundo o Eurostat, em 2019, o ganho médio liquido mensal em Portugal era apenas de 980€, enquanto a média na União Europeia era de 1808€ (+84,4%), na Zona euro de 1.899€ (+93,7%), na Alemanha de 2.262€ (+130,7%), no Luxemburgo de 3.042€ (+210,2%), na Noruega de 3.240€ (+230,4%), etc., etc.. As diferenças de ganhos líquidos entre Portugal e a maioria dos países das União Europeia constantes do quadro 2 são enormes. É evidente que Portugal é um país em que a esmagadora maioria da população tem ganhos muitos baixos, quando comparado com outros países da UE, o que causa que o impacto da crise económica e social seja maior e mais grave.

EM JUL/2020 APENAS 32 EM CADA 100 DESEMPREGADOS RECEBIAM SUBSÍDIO DE DESEMPREGO

E esta gravidade da crise económica e social é ainda aumentada pelo crescimento rápido do desemprego e pelo reduzido número de desempregados que que recebem subsídio de desemprego.

Em apenas quatro meses (março/julho de 2020), o desemprego real em Portugal aumentou de 519.500 para 678.500, enquanto o número de desempregados a receber subsídio de desemprego subiu apenas de 173.815 para 221.765. O aumento do número desempregados em apenas quatro meses (+159.000) foi três vezes superior ao número daqueles que receberam o subsídio de desemprego (+47.950). A miséria está a alastrar rapidamente em Portugal

A NECESSIDADE URGENTE DE RETOMAR A ATIVIDADE E DE NORMALIZAR A ECONOMIA MAS COM SEGURANÇA – CASO CONTRARIO É O CAMINHAR PARA O ABISMO

Os últimos dados divulgados pelo INE revelam uma preocupante quebra na atividade económica. No 2º trimestre 2020, quando comparado com idêntico trimestre de 2019, registou-se uma quebra no PIB de -16,3% (menos 8.500 milhões € de riqueza produzida), uma quebra no consumo privado de -14,5% (sem consumo o país não recupera), uma quebra no investimento de -10,8% (sem investimento o pais não se moderniza nem aumenta a produtividade) e uma quebra nas exportações de -39,5%. São quebras que a continuar conduzirão inevitavelmente o país a um desastre económico e social. É necessário inverter este caminhar para o abismo, mas o governo tem-se revelado incapaz de falar com a verdade que é necessário e de tomar as medidas adequadas que permitam uma retoma gradual do país à normalidade possível mas com a segurança mínima que é indispensável. Mesmo nas áreas de sua responsabilidade direta, como é a Administração Pública, o governo parece ausente, deixando ao arbítrio das respetivas chefias não havendo ainda qualquer orientação clara por parte do governo.

É urgente a reorganização do trabalho de toda a administração publica integrando de uma forma planeada e organizada o teletrabalho, construindo instrumentos de enquadramento, de acompanhamento e de avaliação do trabalho realizado pelos trabalhadores que não existe, assim como o respeito dos seus direitos (ao descanso, à sua vida privada, ao horário de trabalho, etc), mas até a esta data nada foi feito deixando tudo à deriva com consequências graves nos serviços prestados à população cujo acesso é cada vez mais difícil.

É urgente normalizar a economia com um mínimo de segurança. Para isso é necessário introduzir horários desfasados quer na administração publica quer no setor privado para reduzir os ajuntamentos nomeadamente nos transportes públicos, e assim tornar possível o distanciamento físico mas até à esta data nada foi feito; é preciso, pelo menos a nível da Administração Pública, em muitos serviços, em que o teletrabalho foi introduzido de uma forma desorganizada, improvisada e sem qualquer preparação, dividir os trabalhadores em dois grupos que se alternam (regime presencial/teletrabalho) de forma a existirem sempre trabalhadores em regime presencial para assegurar pelo menos um mínimo de normalidade no funcionamento dos serviços que não existe atualmente e garantir aos trabalhadores o distanciamento físico necessário indispensável à sua segurança. Mas tudo isto está por fazer, e o governo tem-se revelado incapaz. Até parece que nem pensa nisso ou que tem medo de atuar porque teme perder popularidade. E são os cidadãos que sofrem com a desorganização dos serviços públicos. Assim é o caminho para o abismo.

Os EUA à beira da guerra civil

Por: Thierry Meyssan

No presente artigo, o autor procura chamar a nossa atenção sobre um facto difícil de conceber para os Ocidentais : o povo norte-americano vive uma crise de identidade. Ele está tão profundamente dividido que a eleição presidencial não visa apenas eleger um chefe, mas também determinar o que deve ser o país (império ou nação ?). Nenhum dos dois campos está disposto a aceitar perder, tanto e de tal forma que qualquer um deles poderá recorrer à força para impor o seu ponto de vista.

uando se aproxima a eleição presidencial nos Estados Unidos, o país divide-se em dois campos que mutuamente se atribuem a desconfiança de preparar um golpe de Estado. De um lado o Partido Democrata e os Republicanos extra-partido, do outro os Jacksonianos, que se tornaram a maioria no seio do Partido Republicano sem partilhar a sua ideologia.

Lembram-se, certamente, já em Novembro de 2016, que uma empresa de manipulação dos média (mídia-br) dirigida pelo mestre de Agit-Prop, David Brock, recolhia mais de 100 milhões de dólares para destruir a imagem do Presidente-eleito antes mesmo dele ter sido investido [1]. Desde essa data, quer dizer antes de ele poder fazer fosse o que fosse, a imprensa internacional descreve o Presidente dos Estados Unidos como um incapaz e um inimigo do povo. Certos jornais foram ao ponto de apelar ao seu assassinato. Durante os quase quatro anos seguintes, a sua própria Administração não parou de o denunciar como um traidor pago pela Rússia e a imprensa internacional criticou-o ferozmente.

Actualmente, um outro grupo, o Transition Integrity Project (TIP), planeia (planeja-br) cenários para o derrubar durante a eleição de 2020, quer ganhe ou perca. Este caso tornou-se assunto nacional desde que a fundadora do TIP, a professora Rosa Brooks, se espalhou num longo artigo no Washington Post, da qual ela é uma colaboradora regular [2].

Em Junho último o TIP organizou quatro jogos de simulação. Simulou vários resultados para antecipar as reacções dos dois candidatos. Todo o conjunto dos participantes era de Democratas e “Republicanos” (ideologicamente falando e não «republicanos» no sentido de filiação partidária), nenhum era Jacksoniano. Sem surpresa, todas essas personagens consideraram que « a Administração Trump sabotou regularmente as normas fundamentais da Democracia e do Estado de Direito. Que adoptou inúmeras práticas corruptas e autoritárias». Concluíram pois que o presidente Trump tentaria um Golpe de Estado e imaginaram que era seu dever conceber preventivamente um Golpe de Estado «democrático» [3].

É uma característica do pensamento político contemporâneo proclamar-se a favor da democracia, mas rejeitar as decisões que vão contra os interesses da classe dirigente. A propósito, os membros do TIP admitem francamente que o sistema eleitoral dos EUA, que eles defendem, é profundamente «antidemocrático». Lembremos que a Constituição não atribui a eleição presidencial aos cidadãos, mas a um colégio eleitoral composto por 538 pessoas designadas pelos governadores. A participação dos cidadãos, que não foi prevista aquando da independência, impôs-se progressivamente na prática, mas unicamente a título indicativo para os governadores. Assim, em 2000, durante a eleição de George W. Bush, o Supremo Tribunal da Florida relembrara que não tinha que levar em consideração a vontade dos cidadãos do Estado, mas unicamente a dos 27 eleitores designados pelo seu governador da Florida.

Contrariamente a uma ideia feita, a Constituição dos Estados Unidos não reconhece a soberania popular, apenas uma soberania aos governadores. Por outro lado, o Colégio Eleitoral concebido por Thomas Jefferson já não funciona correctamente desde 1992: o candidato eleito já não reúne a maioria dos votos dos cidadãos nos Estados que fazem balançar a eleição (os “Swing States»-ndT) [4].

O TIP pôs à vista quase tudo o que poderá acontecer durante os três meses que separam o escrutínio da investidura. Ele admite que será muito difícil apurar os resultados, dado o recurso ao voto por correspondência em período de epidemia. Intencionalmente o TIP não explorou a hipótese de que o Partido Democrata anuncie a eleição de Joe Biden apesar de uma contagem insuficiente e que a Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, o faça prestar juramento antes que Donald Trump tenha podido ser declarado perdedor. Num tal cenário, haveria dois presidentes rivais, o que marcaria o início de uma Segunda Guerra Civil.

Esta eventualidade encoraja alguns a considerar lançar secessões, a proclamar unilateralmente a independência do seu Estado. Isto é especialmente verdadeiro na Costa Oeste. Para prevenir este processo de desintegração, alguns defendem a divisão da Califórnia a fim de atribuir mais membros do Colégio Eleitoral à sua população. No entanto, esta solução é já uma tomada de posição no conflito nacional porque ela favorece a representação popular em detrimento do Poder dos governadores.

Por outro lado, eu tinha evocado, em Março último, a tentação putschista de certos militares [5] à qual, em seguida, vários oficiais superiores fizeram referência [6].

Estes diferentes pontos de vista atestam a profunda crise que os Estados Unidos atravessam. O «Império Americano» deveria ter-se dissolvido após a desintegração da União Soviética. Mas nada disso se passou. Ele deveria ter-se reinventado com a globalização financeira. Mas nada disso aconteceu. De cada vez, um conflito surgiu (a divisão étnica da Jugoslávia, os ataques de 11 de setembro) para fazer reviver o morto-vivo. No entanto, já não será possível protelar as coisas por muito mais tempo [7].

Referências

[1] “O dispositivo Clinton para desacreditar Donald Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 1 de Março de 2017.

[2] “What’s the worst that could happen? The election will likely spark violence — and a constitutional crisis”, The Washington Post, September 3, 2020.

[3Preventing a disrupted presidential election and transition, Transition Integrity Project, August 3, 2020.

[4Presidential elections and majority rule, Edward B. Foley, Oxford University Press, 2020.

[5] “Golpistas na sombra do coronavirus”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 1 de Abril de 2020.

[6] “O Pentágono contra o Presidente Trump”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2020. Do we risk a miltary coup?, by Colonel Richard H. Black, August 24, 2020.

[7] “Os Estados Unidos vão reformar-se, ou dilacerar-se?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Outubro de 2016.

Sobre o Autor

Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).