Allende, um reformador revolucionário

Memorial da Democracia - Militares derrubam Allende no Chile

Por: Jorge Arrate 

As eleições de 4 de setembro de 1970 deram a vitória a Salvador Allende. Sua figura vive na consciência do Chile porque seu pensamento e sua prática são um legado e um desafio. Reformista ou revolucionário? Determinado ou hesitante? Realista ou imprudente? Nos últimos cinquenta anos, Allende passou por um exame minucioso. Na manhã do dia da sua derrubada, 11 de setembro de 1973, ele planejava anunciar um plebiscito para mudar a Constituição e fornecer uma solução política para a crise que o país passava. A memória de Allende e os triunfos populares trazem os ensinamentos da história para a memória e para a atualidade.

O legado de Allende teve vida difícil. Desde o início, a ditadura tentou exterminar seus herdeiros, lançou uma campanha hedionda contra a memória de Allende e quiz fazer de seu governo sinônimo de arbitrariedade, fracasso econômico, escassez, desordem, ilegalidade. A Unidade Popular foi apresentada como um projeto monstruoso. Em seguida, veio o silêncio da pós-ditadura, para evitar discórdias entre os membros da Concertación que tinham diferentes pontos de vista sobre o significado do governo popular. Quando se festejou o centenário do nascimento de Allende, em 2008, algumas homenagens destacaram as suas feições de sonhador, de homem bem intencionado, leal e corajoso. Havia um subtexto que poucos se atreviam a sugerir explicitamente: talvez faltasse realismo, talvez tivesse sido vítima do turbilhão de uma época conturbada, palco de projetos revolucionários tolos que alimentavam expectativas impossíveis. O passado não é um projeto e é um erro grosseiro tentar traçá-lo como um molde do futuro. O futuro deve ser inventado com ousadia e risco. No entanto, há uma nostalgia que é preciso reivindicar hoje: a lembrança de uma ação política que não desiste de olhar o horizonte e que tem o vigor necessário para querer mudar uma sociedade tão injusta como a do Chile. Por isso, os debates sobre o que significou a Unidade Popular, quais foram suas reais possibilidades de vitória e como foi seu governo, continuarão em aberto, como ocorre com acontecimentos históricos complexos que deixam sua marca na memória coletiva. É um evento estelar no qual existem chaves para explicar o último meio século no Chile e na América Latina e também para imaginar o futuro.

Três modos de ver Allende

Allende herói, ou socialista de carne e osso, ou líder de um projeto de esquerda. Três modos de ver possíveis. O primeiro está totalmente cristalizado e ultrapassou as fronteiras do Chile e da esquerda chilena. O segundo, o Allende militante, descobre um homem persistente, um lutador incansável por um projeto socialista e por sua própria liderança, atuante em muitos conflitos internos nos quais, por vezes, foi derrotado. Amava e respeitava seu partido para além de suas discrepâncias, em ocasiões graves. Junto com ele estavam outros líderes notáveis, embora nenhum tenha contribuído tanto para desenvolver um movimento com a amplitude e a força que o “allendismo” tinha. Para Allende, a disputa política era também uma disputa de poder, mas, acima de tudo, era uma disputa de ideias. Suas divergências com outros líderes na década de 1940, sua desfiliação do Partido Popular Socialista em 1951 ou seus confrontos internos nas décadas seguintes, tiveram a ver com abordagens políticas. Sob sua liderança surgiu o grande movimento para o qual convergiram organizações sociais e partidárias, militantes e cidadãos sem partido, constituindo um amálgama poderoso e original. O terceiro Allende, o chefe de um projeto revolucionário – “por seus fins”, teria dito seu contemporâneo, o principal ideólogo do socialismo chileno, Eugenio González – e não violento em seus meios, gerou interpretações e debates. Não é estranho. Ao contrário de Ernesto Guevara, que convergiu com um momento em que nada era considerado impossível – os anos sessenta – Allende estava longe de ser uma figura dos “anos sessenta”. Inserido nas instituições, formais quando exigidas, informais até o limite do permitido, desenvolveu-se no Parlamento, em grandes atos democráticos e populares ou no debate político nacional, não nos territórios que então muitos latino-americanos priorizavam para sua luta: as montanhas, os campos, os metrôs das cidades, os lugares remotos dos subúrbios pobres de nossas capitais. As armas de Allende eram sua voz, sua presença, a luz da sua mensagem, a capacidade de abalar e conquistar consciências, o incentivo que dava às organizações populares. Eram a greve, o protesto ou a ocupação de terras que ele apoiava.

Líder de um projeto

Allende concebeu uma expressão política maior que a soma dos dois grandes partidos marxistas, menos sectária, mais abrangente. Também assinalou, sem excessiva especulação teórica, um caminho para a vitória: o árduo confronto democrático, o recurso ao sufrágio universal, a mobilização social, a luta de massas. Em quatro candidaturas presidenciais, percorreu um país onde não existiam os meios audiovisuais ou informáticos de hoje. Construiu a hegemonia de esquerda e a revalidou todos os dias. Desenvolveu sua batalha com partidos sólidos, o Socialista e o Comunista (posteriormente também com radicais e grupos de origem cristã), em momentos promissores de lutas sociais e em um contexto internacional caracterizado pelo confronto entre duas grandes potências e um hemisfério sul rebelde, em processo de descolonização ou luta pelo desenvolvimento com justiça social. A visão de Allende mostrou que ele pôde viver com o espírito daqueles anos e alcançou surpreendentes momentos de síntese: seu apoio e relação especial com a Revolução Cubana e seus dirigentes, seu interesse pelo processo chinês, sua adesão à luta vietnamita, sua fraternal compreensão e estímulo aos movimentos revolucionários armados surgidos na América Latina e no Chile, seu sempre polêmico mas respeitoso diálogo com a esquerda extraparlamentar que criticava seu governo e a Unidade Popular. Allende foi o líder de um projeto que, pela primeira vez na história do Chile, teve como objetivo mudar verdadeiramente o simbolo do poder. O fim dessa experiência está diretamente relacionado com a profundidade do projeto Allende e seu alcance transformador. São esses elementos que explicam a reação das classes dominantes e do imperialismo, e motivam as consequências cruéis do golpe militar. Nossas autocríticas, válidas e necessárias, não podem esquecer este fato: sempre fomos perseguidos por inimigos que utilizaram de todos os meios para impedir o sucesso do projeto liderado por Allende. O que deu tanto potencial a este projeto? O allendismo instalou-se na oposição entre reforma e revolução. Talvez o magnetismo do projeto fosse buscar uma síntese. Nem reformista nem simplesmente revolucionário, Salvador Allende foi antes um “reformador revolucionário” que pensava que a agregação de reformas radicais, em vários campos e realizadas mais ou menos simultaneamente, significava uma mutação qualitativa para um tipo de mudança social que era uma autêntica revolução. A vida política de Allende foi prejudicada pelas tensões inerentes a projetos de longo prazo. Teoria e prática tiveram um encontro complexo durante muitos anos de longas campanhas eleitorais e debates constantes. O pragmatismo compelido do governante teve que ser medido contra o idealismo do revolucionário que quer mudar a sociedade e deu origem a momentos cruciais para a vida política e social chilena. Meios e fins relacionam-se em permanente tensão quando esquemas ideais são confrontados com a realidade problemática. Destemido pelo desafio, Allende procurou sintetizar reforma e revolução, liberdade e igualdade, democracia e socialismo.

Sobre o Autor

Jorge Arrate é economista e ex-candidato à presidência

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