A Rússia disse ao mundo: “Não”

Por Tom Luongo

Existe um poder real na palavra “Não”. Na verdade, eu argumentaria que é a palavra mais poderosa em qualquer idioma.

Em meio ao pior colapso do mercado desde há uma dúzia de anos, com origem nos mercados globais de financiamento em dólar, a Rússia viu-se na posição de exercer o poder do Não.

Múltiplas crises sobrepostas estão agora a acontecer por todo o mundo e todas se entrelaçam produzindo um caos.

Entre a instabilidade política na Europa, as peripécias das primárias presidenciais nos EUA, o coronavírus criando uma histeria em massa e o aventureirismo militar da Turquia na Síria, no leste do Mediterrâneo e na Líbia, os mercados estão finalmente a expor a intrujice dos banqueiros centrais que durante anos tem apoiado o aumento dos preços dos activos.

Mas, no fundo, a crise actual decorre da simples verdade de que esses preços estavam, em todo o mundo, amplamente sobrevalorizados.

Os governos ocidentais e os bancos centrais usaram o poder do dólar para empurrar o mundo para esta situação. E esta situação está, na melhor das hipóteses, para além da estabilidade.

Quando toda esta quantidade de merdas (shits) vai ao encontro de uma realidade assustadora, então… ir de encontro a uma ventoinha era inevitável.

Tudo isto levou a que os russos colocassem uma correcção no pânico em grande escala dizendo: “Não”.

A realidade tem sido evidente nos mercados de commodities desde há meses. O cobre e outros metais industriais tem estado em queda, enquanto os mercados de acções continuavam a crescer. Mas o petróleo era a situação mais confusa de todas.

Durante a maior parte de 2019 vimos os preços do petróleo a comportarem-se de maneira estranha, dado que ocorreram com regularidade eventos para aumentar os preços, mas no final do ano vimo-los a cair.

Desde o pico após o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, os preços do petróleo têm seguido uma via única: a baixa.

Os nossos líderes ineptos estão a tentar culpar o coronavírus como a causa imediata de todo o nervosismo dos mercados. Mas isto mascara a verdade. Os problemas estavam ali há meses, empurrados para segundo plano pela incessante intervenção do FED nos mercados de financiamento em dólar.

A crise financeira de 2008 nunca foi resolvida, apenas encoberta. A crise do mercado repo de Setembro último nunca acabou, ainda está aí. E reapareceu com ferocidade no início de Março, quando as pessoas venderam dólares e compraram Certificados do Tesouro dos EUA, elevando os yields dos EUA para níveis absurdos.

Os mercados de crédito estão a colapsar. Os mercados de acções são a cauda, os mercados de crédito são o cão. E este cão foi atropelado por um autocarro.

O FED intervém para impedir que as taxas de juro de curto prazo subam a fim de preservar a ficção de que ainda estão no controlo. Mas o mercado quer taxas mais altas para acesso a dólares a curto prazo.

O FED tentou ajudar cortando as taxas em 0,5%, mas tudo o que fez foi dizer às pessoas que o FED estava tão assustado quanto elas. A venda foi retomada e o ouro voltou à alta recente, perto de 1 690 dólares por onça, apenas para cair na abertura posterior em Nova York . Isso também não funcionou.

OOPS!

Nesta confusão, a OPEP tentou salvar-se pedindo um corte histórico na produção. A OPEP precisava deste corte para permanecer relevante. O cartel está a morrer. Está a morrer há anos, mantido com um suporte de vida dado pela disposição da Rússia de trocar favores para alcançar outros objectivos geoestratégicos.

Como disse antes, cortes na produção da OPEP não levariam ao aumento dos preços , assim como cortes nas taxas de juro não são inflacionários durante períodos de crise.

Mas finalmente a Rússia disse não. E eles não se equivocaram. Eles disseram a todos que estão preparados para preços mais baixos do petróleo. O pânico foi visível nos relatos da reunião .

O secretário-geral da OPEP, Mohammed Barkindo, disse que a reunião foi adiada, embora as consultas continuassem:

“Em relação aos cortes na produção, dada a decisão de hoje, a partir do dia 1 de Abril, ninguém – nem os países da OPEP nem os países da OPEP+ – são obrigados a diminuir a produção”, disse ele.

“No final do dia, foi tomada a penosa decisão geral da conferência conjunta de adiar a reunião”.

Anteriormente, o analista da Oanda, Edward Moya, sugerira que uma falha em chegar a um acordo poderia significar o fim da OPEP+.

“O não acordo da OPEP+ significa que os três anos de experiência terminaram. A OPEP+ está morta. Os sauditas são os mais empenhados em estabilizar os preços do petróleo e podem precisar de fazer algo extraordinário”, disse Edward Moya.

Há um momento em que a negociação entre adversários acaba, quando alguém finalmente diz: “Basta”. A Rússia foi atacada sem piedade pelo Ocidente pelo crime de ser a Rússia.

Documentei quase todas as reviravoltas de como eles reforçaram habilmente a sua posição, à espera do momento certo para obter o máximo retorno para virar as mesas dos seus atormentadores.

E, para mim, este foi o momento perfeito para eles finalmente dizerem “Não” e obterem o máximo efeito.

Ao lidar com um inimigo mais poderoso, deve-se alvejar onde ele é mais vulnerável para infligir o maior dano. Para o Ocidente, esse lugar é nos mercados financeiros.

Lembremos o primeiro facto básico da teoria económica. Os preços são definidos na margem, ou seja, marginalmente: o único preço que importa é o último registado.

Esse preço define o custo para a próxima unidade desse bem, neste caso um barril de petróleo pronto para a venda.

Num mundo de mercados em cartel por toda a parte, onde os preços são estabelecidos por agentes externos, é fácil esquecer que na economia real (independentemente de sua persuasão política) o mundo é um leilão e tudo está em oferta. O lance mais favorável vence.

Portanto, a questão geoestratégica mais importante é: “Quem produz o barril marginal de petróleo?”

Durante mais de três anos, o presidente Trump apoiou uma política de Dominância energética numa busca quixotesca para que os EUA se tornassem o mais importante fornecedor. Milhões de milhões de dólares foram gastos no desenvolvimento da produção interna para os seus níveis actuais e insustentáveis.

Esta política antecede Trump, certamente, mas ele tem sido o seu mais fervoroso seguidor, aplicando sanções e fazendo embargos a todos os que pudesse a fim de mantê-los afastados.

O que ele nunca pôde fazer, no entanto, foi afastar a Rússia.

A razão pela qual as taxas de produção dos EUA são insustentáveis é porque os seus custos são mais altos por barril do que o preço marginal, especialmente quando todos os outros preços estão em deflação. Teoria económica simples e directa.

Se fossem em geral lucrativos, o sector como um todo não teria queimado algumas centenas de milhares de milhões de dólares em fluxo de caixa sem custos na última década.

É daí que vem o poder dos russos. A Rússia é um dos produtores de menor custo do mundo. Mesmo depois de pagar os seus impostos ao governo, os seus custos são muito mais baixos – perto de 20 dólares por barril, no seu ponto de equilíbrio económico – do que qualquer outro país no mundo quando se consideram os custos externos.

E quando não se deve nada a ninguém, pode dizer-se: “Não”.

Certamente os sauditas produzem com custos semelhantes aos russos, mas consideradas as suas necessidades orçamentais, os números nem mesmo se aproximam, pois eles precisam de algo em torno dos 85 dólares por barril.

Eles não podem dizer: “Não”, porque ficariam sem recursos e a população revoltar-se-ia.

A Rússia pode prosseguir, ou mesmo prosperar, neste regime de preços baixos porque:

1. O rublo flutua para absorver choques de preços em dólares.
2. A maioria de seu petróleo agora é vendido em divisas que não são em dólares – rublos, yuan, euros etc – para diminuir a sua exposição a saídas de capital
3. As principais empresas de petróleo têm poucas dívidas denominadas em dólar
4 – Tem baixos custos de extracção.
5 – O orçamento governamental primário varia e flui com os preços do petróleo.

Tudo isso resulta em que a Rússia pode segurar o chicote sobre o mercado global de petróleo e ter a capacidade de dizer “não”.

E eles terão isso durante os próximos anos quando a produção dos EUA implodir. Porque a Rússia pode produzir o barril de petróleo de custo marginal.

É por isso que os preços do petróleo mergulharam 10% em Março com a notícia de que eles não reduziriam a produção.

Há uma grande quantidade de acontecimentos à espreita neste mercado. Nos Estados Unidos, existe muita exposição de bancos e fundos de pensão ao que é agora, ou irá ser em breve, uma dívida em incumprimento, resultante dos investimentos no gás de xisto (shale gas). As falências começarão ainda este ano. Mas agora o mercado está a por obstáculos nisso.

Não posso exagerar o quão importante e de extremo alcance é este movimento da Rússia. Se eles não fizerem um acordo, podem liquidar a OPEP. Se eles fizerem um acordo, virão com condições para assegurar que a pressão seja aliviada noutras áreas de tensão para a Rússia.

A reacção em cadeia dos preços do petróleo a caírem de 70 dólares por barril para 45 em dois meses será sentida durante meses ou mesmo anos. Não me admiraria que a Rússia mantivesse os preços por aí. Com o contrário, sim, ficaria surpreendido.

Esta foi a oportunidade de Putin finalmente retaliar os que têm atormentado a Rússia e infligir dor real pelo seu comportamento sem escrúpulos em países como Irão, Iraque, Síria, Ucrânia, Iémen, Venezuela e Afeganistão.

Agora ele está em posição de extrair o máximo de concessões dos EUA e das nações da OPEP que apoiam a beligerância dos EUA contra aliados da Rússia como a China, Irão e Síria.

Vimos o início disto nas suas negociações com o presidente turco Erdogan em Moscovo, obtendo um acordo de cessar-fogo que era nada menos que uma rendição turca. Erdogan pediu para ser salvo da sua própria estupidez e a Rússia disse: “Não”.

Esta condição de produtor do barril marginal de petróleo num mundo em deflação coloca a Rússia no assento do condutor para direccionar o comportamento da política externa dos EUA num ano eleitoral. Falem agora acerca de intromissão nas nossas eleições!

O calcanhar de Aquiles do império americano é a dívida. O dólar tem sido a sua maior arma e ainda é rei. E é uma arma com muito poder, mas agora exercido apenas contra os aliados dos EUA, não contra a Rússia.

Os mercados irão ajustar-se e acalmar-se dentro de alguns dias. O pânico diminuirá. Mas voltará em breve numa forma ainda mais virulenta. Agora temos uma repetição de 2007-08, mas desta vez a Rússia está muito melhor preparada para defender-se.

E quando isso acontece, suspeito que não serão os sauditas ou os turcos que correrão para a Rússia a fim de salvá-los, mas os EUA e a Europa.


[*] Investigador e economista analista de mercado, austríaco. Foi editor financeiro sénior da Newsmax Media, escrevendo sobre mercados, bancos centrais, ouro e geopolítica. É editor do Gold, Goats n’Guns.

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