A NATO ASSUME A SUA AMBIÇÃO IMPERIAL

Por: Manlio Dinucci

O processo de alargamento da NATO à zona Indo-Pacífico já começou. Foi criado oficialmente um grupo de trabalho para o efeito, não para reflectir a estratégia considerada mais adequada contra a China mas para a tornar pública e a justificar a posteriori, uma vez o trabalho concluído. Não existe qualquer diferença em relação ao período colonial, uma vez que se trata de conter a China, isto é, impedir o seu desenvolvimento. Tudo isto no âmbito imperial da Grande NATO Mundial no horizonte de 2030 – agregando Austrália, Nova Zelândia, Japão e outros países asiáticos.

Os ministros da Defesa da NATO reuniram-se em videoconferência nos dias 17 e 18 de Junho e tomaram uma série de “decisões para reforçar a dissuasão da Aliança”. Mas disso pouco se fala nos países da organização, nem mesmo na comunicação social (incluindo as redes sociais) e no mundo político, onde reina sobre tudo isto um silêncio abrangente.

As decisões assumidas, ditadas fundamentalmente por Washington e subscritas em Portugal pelo ministro João Gomes Cravinho, traçam as linhas condutoras não apenas da política militar dos países abrangidos mas também da sua política externa. Antes de mais – anuncia o secretário-geral Jens Stoltenberg – “a NATO está em vias de se preparar para uma possível segunda vaga do COVID-19”, contra a qual já foram mobilizados meio milhão de soldados na Europa.

Stoltenberg não clarifica como a NATO pode prever uma possível segunda vaga da pandemia com um novo confinamento. Mas ele é muito claro num ponto: isso “não significa que outros desafios tenham desaparecido”. O maior – sublinham os ministros da Defesa – tem origem no “comportamento desestabilizador e perigoso da Rússia”, em especial a sua “retórica nuclear irresponsável com o objectivo de intimidar e ameaçar os aliados da NATO”. Ao dizer isto, invertem a realidade tentando apagar o facto de a NATO, uma vez terminada a guerra fria, se ter estendido até às fronteiras com a Rússia através das suas forças e das suas bases nucleares, sobretudo norte-americanas. Desenvolveu-se metodicamente, sob a direcção de Washington, uma estratégia com o objectivo de criar na Europa tensões crescentes com a Rússia.

Para decidir estas novas medidas militares contra a Rússia, os ministros da Defesa reuniram-se no Grupo de Planificação Nuclear, presidido pelos Estados Unidos. Desconhecem-se as decisões em matéria nuclear subscritas pelo ministro Cravinho e em Itália pelo ministro Guerini. Mas é óbvio que participando no grupo e alojando armas nucleares norte-americanas (utilizáveis também pela aeronáutica italiana) a Itália viola o Tratado de Não Proliferação e rejeita o Tratado da ONU de interdição de armas nucleares. Stoltenberg limitou-se a dizer: “Hoje decidimos novas etapas para que a dissuasão nuclear da NATO na Europa continue segura e eficiente”. Entre estas etapas encontra-se seguramente a próxima chegada, incluindo a Itália, das novas bombas nucleares norte-americanas B61-12.

Os “sistemas de mísseis” chineses

O outro “desafio” crescente de que falaram os ministros da Defesa da NATO é o relacionado com a China, que está pela primeira “no topo da agenda da NATO”. A China é o parceiro comercial de numerosos aliados mas, simultaneamente, “investiu fortemente em novos sistemas de mísseis que podem atingir todos os países da NATO”, explica Stoltenberg. A NATO começa assim a presentar a China como uma ameaça militar. Ao mesmo tempo, a aliança considera perigosos os investimentos chineses em países da organização. Com base nestas premissas, os ministros da Defesa actualizaram as linhas condutoras para a “resiliência nacional” com o objectivo de impedir que a energia, os transportes e as telecomunicações, nomeadamente a 5G, não acabem por ficar “sob propriedade e controlo estrangeiros” (leia-se “chinês”).

Eis as decisões subscritas pelos ministros da Defesa, entre os quais o de Portugal, na reunião da NATO. Alienam-se assim os Estados membros da aliança a uma estratégia de hostilidade crescente sobretudo contra a Rússia e a China, expondo os povos a riscos cada vez mais graves e desestabilizando o terreno sobre o qual repousam os próprios acordos económicos.

É uma estratégia a longo prazo, como revela o lançamento do projecto “NATO 2030”, em 8 de Junho, pelo secretário-geral Stoltenberg, para “reforçar a aliança militar e politicamente” incluindo países como a Austrália (já convidada para a reunião dos ministros da Defesa), a Nova Zelândia, o Japão e outros países asiáticos, numa função claramente anti-chinesa.

Para o projecto da Grande NATO Mundial 2030 foi formado um grupo de 10 conselheiros de países como a Dinamarca, Holanda, Estados Unidos, França, Alemanha, Turquia, Canadá, Polónia, Reino Unido e Itália. Do lado italiano foi indicada Marta Dassù, antiga conselheira de política externa do governo D’Alema antes e durante a guerra da NATO contra a Jugoslávia, na qual o país participou em 1999, sob comando dos Estados Unidos, com as suas bases e os seus bombardeiros.

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