A FRAUDE HISTÓRICA DA GUERRA DOS SEIS DIAS

Passam nestes dias 53 anos sobre a chamada Guerra dos Seis Dias, na qual, segundo reza a história oficial, Israel desmontou uma ameaça à sua existência derrotando os países árabes vizinhos e ocupando os territórios árabes de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Leste e Montes Golã. Uma história oficial que é uma fraude, como prova o conteúdo de documentos oficiais partilhados por Miko Peled, cidadão israelita e filho do general Matti Peled, um dos inspiradores da operação. Israel consumou então um plano de ocupação de toda a Palestina histórica que já vinha de trás e que se vem transformando, passo-a-passo, em anexação – o que viola o direito internacional sobre a questão da Palestina. Um plano que o actual governo israelita ameaça acelerar e tornar irreversível. Para a história fica a história de uma fraude, o desmantelamento de um mito.

Por: Miko Peled

2 de Junho de 1967 foi um dia tenso na sede do exército israelita. Durante várias semanas, os generais das Forças de Defesa de Israel (FDI) pressionaram o governo a desencadear uma guerra; por isso, vivia-se uma atmosfera de tensão. O primeiro-ministro de Israel, Levi Eshkol, que acumulava o cargo com o de ministro da Defesa, visitou os generais no centro de comando das FDI, um encontro onde estiveram presentes todos os membros do comando. Esta reunião ficou conhecida como “o confronto”. Alguns anos mais tarde surgiram acusações ao exército de que teria preparado uma tentativa de golpe de Estado.

Uma fraude

Uma das maiores fraudes cometidas pelos militares israelitas é a alegação de que a Guerra dos Seis Dias foi iniciada por Israel devido a ameaças que punham em causa a existência do país. A realidade, porém, é que em 1967 o exército israelita enfrentou um governo civil eleito e que estava menos empolgado com as perspectivas de guerra que os generais. Isto deduz-se claramente das actas das reuniões realizadas naqueles dias por generais das FDI – documentos disponíveis nos arquivos das FDI – uma vez que o governo estava hesitante. Os militares decidiram então semear o medo e fizeram-no com muita eficácia alegando que o Estado hebraico enfrentava uma ameaça existencial e o exército deveria agir de maneira decidida.

A pressão funcionou e três dias depois Eshkol foi obrigado a ceder. Renunciou ao cargo de ministro da Defesa e entregou-o ao chefe de Estado Maior General, general Moshe Dayan. Os generais das FDI conseguiram então a guerra que desejavam. Iniciaram um ataque em massa contra o Egipto reduzindo o exército deste país a cinzas e apoderando-se de toda a Península do Sinai. Como consequência, as FDI conseguiram capturar o maior arsenal de material militar de fabrico soviético existente fora da União Soviética.

Israel viria a tirar proveito dos conhecimentos obtidos através desse saque.

As tropas israelitas também capturaram milhares de soldados egípcios que se encontravam no deserto do Sinai e foram apanhados desprevenidos. Segundo testemunhos dos oficiais israelitas, pelo menos dois mil desses presos de guerra egípcios foram executados no local e enterrados nas dunas.

Mas os generais não estavam satisfeitos. Aproveitaram a oportunidade que lhes foi dada e decidiram tirar dela o máximo proveito. Sem qualquer discussão e sem a aprovação do governo civil eleito, o exército assumiu o controlo da Faixa de Gaza (administrada pelo Egipto), da Cisjordânia ou Margem Ocidental do Jordão (administrada pela Jordânia), de Jerusalém Leste (administrada pela Jordânia) e também – coisa que os generais vinham encarando há muito tempo – dos férteis Montes sírios dos Golã, ricos em água. Triplicaram assim as dimensões do Estado de Israel. Finalmente conseguiram completar a conquista da Palestina, empurrando a fronteira oriental de Israel até ao rio Jordão.

Os generais movimentaram-se como um buldozzer, destruindo cidades, aldeias e pequenos lugares, tanto nos Montes Golã como na Cisjordânia. Em consequência, numerosos sírios que viviam nos Montes Golã e centenas de milhares de residentes na Cisjordânia e em Jerusalém Leste tornaram-se refugiados.

O mito da ameaça

Como os próprios generais declararam durante reuniões anteriores à guerra, toda a situação esteve relacionada com a oportunidade de iniciar um conflito de que sabiam ser vencedores e não com a necessidade de evitar alguma ameaça à existência de Israel. De facto, a palavra “oportunidade” é mencionada várias vezes durante as suas discussões, nas quais nunca foi pronunciada a palavra “ameaça”.

Um general que esteve presente na reunião de 2 de Junho foi meu pai, o general Matti Peled. De acordo com os relatos de alguns dos companheiros que estiveram presentes, relatos que mais tarde comprovei lendo as actas das reuniões, ele levantou-se e disse ao primeiro-ministro Eshkol que o exército egípcio era um corpo mal preparado e, portanto, Israel deveria aproveitar a oportunidade para destruí-lo. O general Peled afirmou que o exército egípcio, na altura a recuperar de uma guerra no Iémen, necessitaria de pelo menos ano e meio a dois anos para estar pronto para a guerra. Os outros generais concordaram. O meu pai foi mais longe e disse que o comando das FDI “exige saber a razão pela qual um exército que nunca perdeu uma batalha” está a ser contido. Não pronunciou qualquer palavra sobre uma ameaça.

Mais actas da reunião em que o general Peled esteve presente estão incluídas no meu livro “O Filho do General”, mas é claro que Israel iniciou a guerra não por qualquer preocupação com a segurança do país mas por vontade de demonstrar o seu poder e de o usar para obter ganhos territoriais. Para quem tenha prestado atenção, o resultado da guerra demonstrou que não poderia haver uma ameaça militar contra Israel. No entanto, as pessoas ficaram tão comovidas com a história do pequeno David defendendo-se do maléfico Golias que se deixaram arrastar pela fraude.

Intervenção divina

Existe uma história que escutei a Moishe Beck, um rabino ultraortodoxo muito reverenciado que habitava em Jerusalém e se mudou para Nova York. Perguntei-lhe a razão pela qual decidiu ir-se embora depois da Guerra dos Seis Dias. Contou-me que quando estava sentado no interior de um abrigo antiaéreo no bairro Mea Sharim, em Jerusalém, ouvia sons de bombardeiros não muito longe dali. A certa altura as pessoas conseguiam ouvir os aviões da Força Aérea voando nos céus e foi quando começaram a falar dos êxitos das FDI como um sinal de intervenção divina. O rabino achou abominável que as pessoas vissem a força militar sionista, que ele considerava criminosa, como um sinal de intervenção divina. Assim que conseguiu, reuniu a família e, com muito poucos meios, abandonou Jerusalém. Não queria que os seus filhos crescessem numa atmosfera de idolatria dos militares israelitas ou de quaisquer outros militares.  

Muitos anos mais tarde, quando conversava com amigos ultraortodoxos em Nova York, perguntaram-me se era verdade que a vitória de 1967 poderia considerar-se tão imprevisível que até as pessoas de orientação secular a julgaram como intervenção divina. Respondi que nada havia de divino no ataque israelita e no roubo de terras árabes. Em 1967 e em qualquer outra ocasião. O exército israelita estava bem preparado, bem armado e bem treinado e os generais sabiam que a vitória era inevitável.

Escrito nas paredes

Na realidade, Israel pretendia ocupar a Cisjordânia e os Montes Golã muitos anos antes de 1967 e a guerra era a oportunidade perfeita. Nas memórias do segundo primeiro-ministro de Israel, Moshe Sharet, ele descreve uma reunião realizada em Jerusalém em 1953 e na qual estiveram presentes dignitários de todo o mundo. Nela participou igualmente o primeiro primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion.

Uma das apresentações feitas nesse encontro foi do meu pai, então um jovem e promissor oficial das FDI. Fez a intervenção em inglês, idioma que dominava, e, entre outras coisas, afirmou em termos inequívocos que as FDI estavam preparadas para o momento em que recebessem a ordem de “empurrar a fronteira oriental de Israel para o seu lugar natural, o rio Jordão”. Por outras palavras, apropriar-se da Cisjordânia e completar a conquista da Palestina histórica.

Hoje sabemos que Israel tinha planos para ocupar e impôr o seu próprio regime militar na Cisjordânia no início de 1964. Também é sabido que Israel iniciou escaramuças com o exército sírio nos inícios dos anos sessenta com a esperança de que a Síria provocasse uma guerra.

O USS Liberty

Na manhã de 8 de Junho de 1967, em plena guerra, o navio militar norte-americano USS Liberty estava a cerca de 27 quilómetros da costa de Gaza, em águas internacionais. Sendo um navio vocacionado para a recolha de informações, não tinha potencial para intervir em acções de guerra e estava equipado apenas com quatro metralhadoras de calibre cinquenta para afastar curiosos indesejados. Durante várias horas ao longo do dia os aviões de reconhecimento da Força Aérea de Israel sobrevoaram o Liberty em acções que pareciam tentativas de identificação. A tripulação não se sentiu ameaçada – pelo contrário, Israel era aliado dos Estados Unidos.

Então, às 14 horas locais e sem qualquer aviso caças e navios israelitas lançaram um ataque contra o USS Liberty. O ataque incluiu mísseis, disparos de canhões e até napalm, uma combinação química tóxica e inflamável de gel e petróleo que adere à pele e provoca queimaduras graves.

Quando o ataque terminou, havia 34 marinheiros norte-americanos mortos e 174 feridos, muitos deles gravemente. Enquanto os feridos eram evacuados, um oficial do Gabinete de Inteligência Naval instruiu os homens para não darem informações à imprensa sobre o que acontecera.

Três semanas depois do ataque, a Marinha dos Estados Unidos divulgou um relatório de 700 páginas isentando os israelitas de responsabilidades, alegando que o ataque fora acidental e os israelitas recuaram logo que perceberam o erro. O secretário norte-americano da Defesa, Robert McNamara, sugeriu que o caso deveria ser esquecido. “Erros como este acontecem”, concluiu McNamara. A vontade norte-americana de ter acesso às armas de fabrico soviético capturadas por Israel teve algo a ver com a facilidade com que o Pentágono varreu o incidente para debaixo do tapete.

Em 2003, quase 40 anos depois dos acontecimentos, foi criada a “Comissão Moorer”, entidade independente presidida pelo almirante na reserva Thomas H. Moorer, da Marinha dos Estados Unidos. O seu objectivo foi investigar o ataque. A comissão incluiu um ex-chefe da Junta de Estados-Maiores, um ex-comandante assistente do Corpo de Fuzileiros Navais (Marines), almirantes na reserva e um ex-embaixador. Entre as suas conclusões estão as seguintes:

“Navios torpedeiros israelitas metralharam os sapadores, as macas e os barcos salva-vidas do Liberty que tinham sido lançados à água para resgatar os feridos mais graves”.

Por temer um conflito com Israel, a Casa Branca impediu deliberadamente a Marinha dos Estados Unidos de defender o USS Liberty, revogando a ordem de apoio naval da Sexta Esquadra enquanto o navio estivesse sob ataque (…) nunca antes na história naval norte-americana uma missão de resgate fora cancelada quando um navio norte-americano estava sob ataque”. 

Que os tripulantes sobreviventes foram ameaçados com ‘tribunal marcial, prisão ou coisa pior’ se expusessem a verdade”.

Que devido à pressão contínua do lobby pró-Israel nos Estados Unidos, esse ataque continua a ser o único incidente naval sério que nunca foi completamente investigado pelo Congresso”.

Tudo acabou em cinco dias. Como se esperava, a guerra terminou com uma vitória massiva de Israel. As FDI destruíram os exércitos dos países árabes à sua volta. O número de mortos foi de 18 mil soldados árabes e 700 israelitas.

Em retrospectiva, seria correcto deixar de qualificar o que aconteceu em Junho de 1967 como uma guerra, mas sim como um ataque israelita contra os países vizinhos. A designação Guerra dos Seis Dias não foi coincidência. Israel extraiu o nome das escrituras hebraicas, mais especificamente do livro onde existem sucessivas referências à Criação divina ou aos Seis Dias da Criação.

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