Extradição de Assange, audiência do dia 17 – Um julgamento quase secreto e com blackout informativo

ONU, há 75 anos em busca da paz - Arquidiocese de Cascavel

Por: Craig Murray

 Silêncio total dos media corporativos acerca do processo de extradição de Assange para os EUA
– Conivência dos jornalistas britânicos (e portugueses) com o crime que se prepara
– O maior ataque à liberdade de imprensa de toda a história do jornalismo

Durante a audiência de evidências médicas nos últimos três dias, o governo britânico foi apanhado duas vezes a contar directamente mentiras importantes acerca de acontecimentos na prisão de Belmarsh, cada mentira provada por evidências documentais. O factor comum foram os registos médicos mantidos pela Dra. Daly, chefe dos serviços médicos da prisão. Também houve, para dizer o mínimo, uma aparente deturpação da Dra. Daly. Pessoalmente, desconfio do tipo de pessoa que impressiona Ross Kemp.

Aqui está uma foto da Dra. Daly, extraída do documentário de Ross Kemp sobre o presídio de Belmarsh.

Isto é a descrição do Sr. Kemp da ala médica em Belmarsh:   “Aqui a segurança está em outro nível, com seis vezes mais funcionários por preso do que no resto da prisão.”

Enquanto na ala médica ou de “cuidados de saúde”, Julian Assange esteve de facto em confinamento solitário e três psiquiatras e um médico com vasta experiência no tratamento de traumas testemunharam todos no tribunal que a condição física e mental de Assange deteriorou-se enquanto esteve em “cuidados de saúde” durante vários meses. Eles também disseram que ele melhorou depois de ter deixado a “área de saúde”. Isso diz algo de profundo acerca dos “cuidados de saúde” que lhe foram prestados. Os mesmos médicos testemunharam que Assange tem um relacionamento mau com a Dra. Daly e não confidenciará seus sintomas ou sentimentos a ela e isso também foi asseverado pelo conselho de defesa.

Isto é o pano de fundo essencial para as mentiras. Agora deixem-me falar das mentiras. Infelizmente, para fazer isso, devo revelar pormenores da condição médica de Julian que eu não havia revelado, mas penso que a situação é tão grave que agora devo fazer isso.

Não contei que o professor Michael Kopelman deu provas de que, entre outros preparativos para o suicídio, Julian Assange havia ocultado uma lâmina de barbear nas dobras da sua cueca, mas isso fora descoberto numa busca em sua cela. Como informei, Kopelman foi submetido a um interrogatório extremamente agressivo por James Lewis, o qual na parte da manhã concentrara-se na noção de que a doença mental de Julian Assange era simplesmente fingimento e que Kopelman não conseguira detectar isso. A lâmina de barbear foi um fator-chave na intimidação de Lewis contra Kopelman e ele atacou-o repetidas vezes.

Lewis declarou que Kopelman “confiou” na narrativa da lâmina de barbear para o seu diagnóstico. Ele então passou a retratar isto como uma fantasia tramada por Assange para apoiar a sua simulação. Lewis perguntou repetidamente a Kopelman por que, se a história fosse verdadeira, não estava nas notas clínicas da Dra. Daly? Certamente, se um prisioneiro, conhecido por estar deprimido, tivesse uma lâmina de barbear descoberta na sua cela, isto estaria nos registos médicos da prisão? Por que o professor Kopelman deixou de notar no seu relatório que não havia evidência da lâmina de barbear nos registos médicos do Dra. Daly? Estava ele a esconder essa informação? Não era muito estranho que este incidente não estivesse nas notas médicas?

Numa tentativa de humilhar Kopelman, Lewis disse: “O senhor diz que não confia na lâmina de barbear para o seu diagnóstico. Mas o senhor confia nela. Vamos então examinar o vosso relatório. O senhor confia na lâmina de barbear no parágrafo 8. O senhor a menciona novamente no parágrafo 11a. Então no 11c. A seguir, no parágrafo 14, parágrafo 16, 17b, 18a. Então, chegamos à secção seguinte e a lâmina de barbear está ali nos parágrafos 27 e 28. Então, outra vez no sumário está nos parágrafos 36 e novamente no parágrafo 38. Diga-me, Professor, como o senhor pode dizer que não confia na lâmina de barbear?”
[Não forneço os números reais dos parágrafos; estes são ilustrativos].

Lewis então prosseguiu convidando Kopelman a mudar o seu diagnóstico. Ele perguntou-lhe mais de uma vez se o seu diagnóstico seria diferente se não houvesse lâmina de barbear e esta fosse uma invenção de Assange. Kopelman ficou visivelmente enervado com este ataque. Ele concordou que era “muito estranho” não ter sido mencionado nas notas médicas se fosse verdade. O ataque directo de que ele ingenuamente havia acreditado numa mentira óbvia desconcertou Kopelman.

Mas era Lewis quem não estava a dizer a verdade. Houve realmente uma lâmina de barbear escondida e o que Assange havia dito a Kopelman, e que Kopelman havia acreditado, era verdadeiro em todos os pormenores. Numa cena saída de um drama legal da TV, durante o depoimento de Kopelman, a defesa conseguiu obter a folha de acusação da Prisão de Belmarsh – Assange fora acusado pelo delito de lâmina de barbear. A folha de acusação é datada de 09h00 em 7 de maio de 2019, e é o que se lê:

Governador,
No dia 05/05/19, aproximadamente às 15h30, eu e o oficial Carroll estávamos a efectuar uma busca matriz de rotina no 2-1-37 ocupado exclusivamente pelo Sr. Assange A9379AY. Ele foi questionado antes de começarmos a busca se tudo na cela lhe pertencia, ao que ele respondeu “Que eu saiba, sim”. Durante o processo de busca, levantei uma dobra da sua cueca enquanto vasculhava o armário. Quando os levantei, ouvi um objecto metálico cair dentro do armário. Quando investiguei o que era, vi metade de uma lâmina de barbear escondida na sua cueca. Esta foi agora colocada no saco de evidência número M0001094.
Isto conclui meu relatório
Assinado
Locke

Posteriormente, mostraram-me uma cópia e fiz um instantâneo:
Auto de apreensão.

Quando, na terça-feira, o advogado Edward Fitzgerald apresentou este auto de acusação no tribunal, ele não parecia ser novidade para a promotoria. James Lewis entrou em pânico. Rapidamente, Lewis levantou-se de um salto e pediu ao juiz que deveria ser notado que ele nunca dissera que não havia lâmina de barbear. Fitzgerald respondeu que não fora a impressão que recebera. Do banco das testemunhas e sob juramento, Kopelman declarou que também não fora essa a impressão que tivera.

E certamente não foi a impressão que tive na galeria pública. Ao afirmar repetidamente que, se a lâmina de barbear existisse, ela estaria nas notas médicas, Lewis havia, no mínimo, confundido a testemunha sobre uma questão de facto material, que realmente afectou a sua prova. E Lewis havia feito isso precisamente para afectar a evidência.

Entrando em pânico, Lewis entregou o jogo ainda mais ao fazer a afirmação desesperada de que a acusação contra o Sr. Assange havia sido rejeitada pelo Governador [do presídio]. Assim, a acusação definitivamente sabia muito mais sobre os eventos em torno da lâmina de barbear do que a defesa.

[A juíza] Baraitser, que estava ciente de que se isto era um grande contratempo, agarrou-se à mesma palha à qual Lewis se agarrara em desespero e disse que, se a acusação tivesse sido rejeitada, então não havia prova de que a lâmina de barbear existira. Fitzgerald destacou que isto era absurdo. A acusação pode ter sido rejeitada por numerosas razões. A existência da lâmina não estava em dúvida. Julian Assange atestou isto e dois carcereiros atestaram. Baraitser disse que só poderia basear sua opinião na decisão do Governador da Prisão.

No entanto, Baraitser pode tentar escondê-lo, Lewis atacou o Prof. Kopelman sobre a existência da lâmina quando Lewis deu todas as aparências subsequente de um homem que sabia muito bem o tempo todo que havia evidências convincentes de que a lâmina existiu. Para Baraitser tentar proteger tanto Lewis como a acusação pretendendo que a existência da lâmina está dependende do resultado da acusação subsequente, quando todas as três pessoas na cela no momento da busca concordaram com sua existência, incluindo Assange, é talvez o abuso mais notável de Baraitser do procedimento legal.

Após a apresentação da sua prova, fui tomar um gim-tónica com o professor Kopelman, que é um velho amigo. Não tivemos nenhum contacto durante dois anos, precisamente por causa de seu envolvimento no caso de Assange como perito médico. Michael estava muito preocupado por não ter tido um desempenho forte na sua sessão de evidências pela manhã, embora tivesse sido capaz de responder com mais clareza à tarde. E sua preocupação com a manhã era porque ficara incomodado com a questão da lâmina de barbear. Ele havia entendido firmemente que Lewis estava a dizer que não havia lâmina de barbear nos registos da prisão e, portanto, que fora enganado por Julian. Se ele tivesse sido enganado, naturalmente teria sido uma falha profissional e Lewis provocou-lhe ansiedade enquanto estava no banco das testemunhas.

Devo deixar claro que não acredito nem por um momento que o lado do governo não estivesse ciente de que a lâmina de barbear era real. Lewis fez um exame cruzado (cross-examined) utilizando notas preparadas pormenorizadas sobre a lâmina de barbear e com todas as referências a ela dispostas em tabela no relatório de Kopelman. O facto de isto ter sido realizado pela promotoria sem perguntar à prisão se o incidente era verdade, desafia o senso comum.

Na quinta-feira, Edward Fitzgerald entregou a Baraitser o registo da audiência na prisão onde a acusação foi discutida. Era um longo documento. A decisão do Governador estava no parágrafo 19. Baraitser disse a Fitzgerald que ela não podia aceitar o documento porque era uma nova prova. Fitzgerald disse-lhe que ela própria pedira o resultado da acusação. Ele disse que o documento continha informação muito interessante. Baraitser disse que a decisão do governador estava no parágrafo 19, que era tudo que ela havia pedido, e que se recusaria a tomar o resto do documento em consideração. Fitzgerald disse que a defesa pode desejar fazer uma apresentação formal sobre isso.

Não vi este documento. Com base nos pronunciamentos anteriores de Baraitser, tenho quase certeza de que deste modo ela está a proteger Lewis. No parágrafo 19, a decisão do governador provavelmente rejeita as acusações como disse Lewis. Mas os parágrafos anteriores, que Baraitser se recusa a considerar, quase certamente deixam claro que a posse da lâmina de barbear por Assange era indiscutível, e muito provavelmente explica sua intenção de utilizá-la para suicídio.

Assim, para citar o próprio Lewis, por que isso não estaria nas notas médicas da Dra. Daly?

Apesar daquela história assustadora não a considerei suficientemente poderosa para justificar a publicação dos alarmantes pormenores pessoais acerca de Julian. Mas depois voltou a acontecer.

Na manhã de quinta-feira, o Dr. Nigel Blackwood, Professor Adjunto de Psiquiatria Forense do Kings College London, deu depoimento para a acusação. Ele essencialmente minimizou todos os diagnósticos de doença mental de Julian e contestou que ele tivesse o [síndrome de] Asperger. No decorrer desta minimização, ele afirmou que quando Julian foi admitido na ala de cuidados de saúde em 18 de Abril de 2019, não havia sido por qualquer razão médica. Havia sido puramente para isolá-lo dos outros prisioneiros por causa do vídeo dele que foi filmado e divulgado por um prisioneiro.

Fitzgerald perguntou a Blackwood como ele sabia disso e Blackwood disse que a Dra. Daly lhe havia contado para o seu relatório. A defesa agora apresentou outro documento da prisão a mostrar que o governo estava mentindo. Era um relatório do pessoal da prisão datado das 14h30 do dia 18 de Abril de 2019 e dizia especificamente que Julian estava “muito abatido” e tendo impulsos suicidas incontroláveis. Sugeria transferi-lo para a ala médica e mencionou um encontro com a Dra. Daly. Julian foi de facto transferido naquele mesmo dia.

Fitzgerald afirmou a Blackwood que claramente Assange fora transferido para a ala médica por razões médicos. Sua evidência estava errada. Blackwood continuou a asseverar que Assange fora movido só por causa do vídeo. As notas médicas da Dra. Daly não diziam que ele fora transferido por razões médicos. A juíza repreendeu Fitzgerald por dizer “absurdo” (“nonsense”), embora ela tivesse permitido que Lewis fosse muito mais duro do que isso com as testemunhas de defesa. Fitzgerald perguntou a Blackwood por que Assange seria transferido para a ala médica por causa de um vídeo feito por outro prisioneiro? Blackwood disse que o Governador considerou o vídeo “embaraçoso” e estava preocupado com “danos à reputação” para a prisão.

Então, vamos dar uma olhada nisso. A Dra. Daly não colocou nas notas médicas que Assange havia escondido uma lâmina para suicídio na sua cela. A Dra. Daly não colocou nas notas médicas que, no mesmo dia em que Assange foi transferido para a ala médica, uma reunião da equipe havia dito que ele deveria ser transferido para a ala médica devido a impulsos suicidas incontroláveis. A seguir, Daly dá a Blackwood uma narrativa inventada sobre as razões para a remoção de Assange para a ala médica, para assisti-lo na subestimação da condição médica de Assange.

Ou vejamos a narrativa alternativa. A narrativa oficial é que os cuidados de saúde – para citar Ross Kemp, onde “a segurança está em outro nível” – é usada para manter prisioneiros em isolamento por razões totalmente não médicas. Na verdade, para evitar “embaraço”, para evitar “danos à reputação”, Assange foi mantido em isolamento nos “cuidados de saúde” durante meses enquanto, de acordo com quatro médicos, incluindo neste ponto até Blackwood, sua saúde se deteriorou por causa do isolamento. Enquanto estava sob os “cuidados” da Dra. Daly. E esta é a narrativa oficial. O melhor que eles podem dizer é “ele não estava doente, nós o colocamos nos “Cuidados de Saúde” por razões totalmente ilegítimas como uma punição”. Para evitar “embaraço” se prisioneiros tirassem sua foto.

Estou em vias de escrever à juíza Baraitser solicitando uma cópia da transcrição do contra-interrogatório de Lewis ao Professor Kopelman sobre a lâmina de barbear, com o objectivo de denunciar Lewis ao Conselho da Ordem. Eu me pergunto se o Conselho Médico Geral não teria razão para considerar a prática da Dra. Daly neste caso.

A testemunha final foi o Dr. Sondra Crosby, o médico que tratava de Julian desde seu tempo na Embaixada do Equador. O Dr. Crosby parecia uma pessoa maravilhosa e embora suas evidências fossem muito convincentes, mais uma vez não vejo nenhuma razão forte para revelá-las.

No final dos procedimentos de quinta-feira, houve dois depoimentos de testemunhas lidos rapidamente nos autos. Isso era realmente muito importante, mas passou quase despercebido. John Young, da cryptome.org , deu provas de que a Cryptome publicou os telegramas não editados (unredacted) em 1 de Setembro de 2011, crucialmente um dia antes de a Wikileaks os ter publicado. A Cryptome tem sede nos Estados Unidos, mas eles nunca foram abordados pelas autoridades sobre estes telegramas não editados, nem solicitados a retirá-los. Os telegramas permaneceram online na Cryptome.

Da mesma forma, Chris Butler, administrador do Internet Archive, deu evidência de que telegramas não editados e outros documentos confidenciais estavam disponíveis na máquina Wayback. Nunca lhes pediram para removê-los nem foram ameaçados de processo.

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Sobre o Autor

Ex-diplomata britânico que se tornou activista político, defensor dos direitos humanos, blogueiro e denunciante.   Entre 2002 e 2004, foi o embaixador britânico no Uzbequistão, período durante o qual expôs as violações dos direitos humanos naquele país pelo governo Karimov.
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