Um país e uma economia em dificuldades

Por: Eugénio Rosa

– Não preparação para enfrentar a crise do coronavirus
– Um governo que adia atuar
– A situação dramática dos desempregados cujo número não para de aumentar

Para se poder compreender a verdadeira situação que o país e os portugueses enfrentam atualmente, assim como as dificuldades que se verificam para ultrapassar uma crise grave como a atual, é necessário ter presente dados importantes que dão uma ideia clara, objetiva e global da situação do país e da economia Ela é determinada por politicas seguidas durante anos que fragilizaram muito o país e que agora a crise causada pelo “coronavírus” veio apenas tornar visível.

O DESINVESTIMENTO NA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL É CAUSA PARA QUE MAIS DE 40% DA POPULAÇÃO EMPREGADA TENHA SÓ O ENSINO BÁSICO OU MENOS, QUASE O DOBRO DA MÉDIA DOS PAÍSES DA UE

O quadro 1, com dados oficiais do INE, mostra a situação real do país neste momento:

No 2º Trimestre de 2020, ainda 1.929.000 portugueses empregados tinham apenas o ensino básico ou menos, o que corresponde a 40,8% da população total empregada. A média nos países da UE é pouco superior a 20%. Contrariamente também ao que acontece em outros países da UE a população empregada com o ensino superior é mais elevada do que a com o ensino secundário, o que revela uma distorção causada por um sistema de ensino não adequado ao desenvolvimento do país. Segundo os Relatórios do OE, entre 2010 e 2020, a despesa publica com o funcionamento do ensino básico e secundário, a preços constantes de 2010, sofreu uma redução de 2.200 milhões €. O desinvestimento dos sucessivos governos no aumento do nível de escolaridade e de qualificação dos portugueses é claro, quando é o mais importante para desenvolver o país. Para além disso, durante as crises os mais atingidos pelo desemprego são os trabalhadores de baixa escolaridade. Entre 2011 e 2015, com a “troika” e com Passos Coelho, o emprego diminuiu em 191.000, mas os trabalhadores com o ensino básico ou menos que perderam o emprego atingiu 631.000. Com a crise atual, entre o 4º trim.2019 e o 2º trim.2020 já foram destruídos 205.000 empregos mas o número de trabalhadores com o ensino básico ou menos que perderam o emprego já atinge 182.000.

O “STOCK” DE CAPITAL, OU SEJA, O INVESTIMENTO EM EQUIPAMENTOS E OUTROS MEIOS NECESSÁRIOS A PRODUÇÃO POR TRABALHADOR TEM DIMINUÍDO EM PORTUGAL

O desinvestimento em Portugal em equipamentos e outros meios necessários ao aumento da produtividade do trabalhador tem sido enorme com revelam os dados da Comissão Europeia.

Entre 2013 e 2019, o “stock” de capital líquido por trabalhador em Portugal diminuiu em 11,7%, pois a preços constantes passou de 124.564€ para apenas 110.034€. No lugar do investimento em equipamentos e outros meios materiais aumentar para que a produtividade por trabalhador aumentasse, o que se tem verificado em Portugal é precisamente o contrário. O novo investimento nem tem compensado aquele que desaparece por obsolescência e pelo uso. E o Estado tem dado o pior exemplo. Entre 2015 e o 2019, o investimento publico (FBCF) somou 18.192 milhões € mas o Consumo de Capital Fixo (amortizações), ou seja, o que se desgastou ou foi destruído pelo uso ou degradação somou 26.444 milhões €, portanto investiu-se menos 8.252 milhões do que se “consumiu”. É essa a causa da degradação profunda de muitos equipamentos públicos (escolas, hospitais, transportes, etc.). Como consequência, a produtividade aparente do trabalho (PIB por trabalhador) teve a evolução revelada pelos dados do INE do gráfico 2.

A produtividade aparente do trabalho que já tinha diminuído no 1º trimestre de 2020, caiu no 2º trimestre de 2020 para apenas 8.876€, ou seja, um valor que é praticamente o verificado no 1º trimestre de 2000 (neste trimestre a riqueza criada em média por trabalhador – PIB por trabalhador – foi apenas de 8.821€), portanto no 2º trimestre de 2020 verificou-se um recuo de 20 anos

O GANHO MÉDIO LÍQUIDO DOS TRABALHADORES EM PORTUGAL ERA APENAS 980€ EM 2019, O MAIS BAIXO DA UE – E COM A CRISE AINDA POR CIMA SOFREU UMA FORTE REDUÇÃO

Consequência do desinvestimento verificado na educação e em equipamentos, quer da administração publica quer do setor privado, o nosso país tem um perfil de economia assente em baixa produtividade e em baixos salários. O quadro 2 completa o gráfico anterior:

Segundo o Eurostat, em 2019, o ganho médio liquido mensal em Portugal era apenas de 980€, enquanto a média na União Europeia era de 1808€ (+84,4%), na Zona euro de 1.899€ (+93,7%), na Alemanha de 2.262€ (+130,7%), no Luxemburgo de 3.042€ (+210,2%), na Noruega de 3.240€ (+230,4%), etc., etc.. As diferenças de ganhos líquidos entre Portugal e a maioria dos países das União Europeia constantes do quadro 2 são enormes. É evidente que Portugal é um país em que a esmagadora maioria da população tem ganhos muitos baixos, quando comparado com outros países da UE, o que causa que o impacto da crise económica e social seja maior e mais grave.

EM JUL/2020 APENAS 32 EM CADA 100 DESEMPREGADOS RECEBIAM SUBSÍDIO DE DESEMPREGO

E esta gravidade da crise económica e social é ainda aumentada pelo crescimento rápido do desemprego e pelo reduzido número de desempregados que que recebem subsídio de desemprego.

Em apenas quatro meses (março/julho de 2020), o desemprego real em Portugal aumentou de 519.500 para 678.500, enquanto o número de desempregados a receber subsídio de desemprego subiu apenas de 173.815 para 221.765. O aumento do número desempregados em apenas quatro meses (+159.000) foi três vezes superior ao número daqueles que receberam o subsídio de desemprego (+47.950). A miséria está a alastrar rapidamente em Portugal

A NECESSIDADE URGENTE DE RETOMAR A ATIVIDADE E DE NORMALIZAR A ECONOMIA MAS COM SEGURANÇA – CASO CONTRARIO É O CAMINHAR PARA O ABISMO

Os últimos dados divulgados pelo INE revelam uma preocupante quebra na atividade económica. No 2º trimestre 2020, quando comparado com idêntico trimestre de 2019, registou-se uma quebra no PIB de -16,3% (menos 8.500 milhões € de riqueza produzida), uma quebra no consumo privado de -14,5% (sem consumo o país não recupera), uma quebra no investimento de -10,8% (sem investimento o pais não se moderniza nem aumenta a produtividade) e uma quebra nas exportações de -39,5%. São quebras que a continuar conduzirão inevitavelmente o país a um desastre económico e social. É necessário inverter este caminhar para o abismo, mas o governo tem-se revelado incapaz de falar com a verdade que é necessário e de tomar as medidas adequadas que permitam uma retoma gradual do país à normalidade possível mas com a segurança mínima que é indispensável. Mesmo nas áreas de sua responsabilidade direta, como é a Administração Pública, o governo parece ausente, deixando ao arbítrio das respetivas chefias não havendo ainda qualquer orientação clara por parte do governo.

É urgente a reorganização do trabalho de toda a administração publica integrando de uma forma planeada e organizada o teletrabalho, construindo instrumentos de enquadramento, de acompanhamento e de avaliação do trabalho realizado pelos trabalhadores que não existe, assim como o respeito dos seus direitos (ao descanso, à sua vida privada, ao horário de trabalho, etc), mas até a esta data nada foi feito deixando tudo à deriva com consequências graves nos serviços prestados à população cujo acesso é cada vez mais difícil.

É urgente normalizar a economia com um mínimo de segurança. Para isso é necessário introduzir horários desfasados quer na administração publica quer no setor privado para reduzir os ajuntamentos nomeadamente nos transportes públicos, e assim tornar possível o distanciamento físico mas até à esta data nada foi feito; é preciso, pelo menos a nível da Administração Pública, em muitos serviços, em que o teletrabalho foi introduzido de uma forma desorganizada, improvisada e sem qualquer preparação, dividir os trabalhadores em dois grupos que se alternam (regime presencial/teletrabalho) de forma a existirem sempre trabalhadores em regime presencial para assegurar pelo menos um mínimo de normalidade no funcionamento dos serviços que não existe atualmente e garantir aos trabalhadores o distanciamento físico necessário indispensável à sua segurança. Mas tudo isto está por fazer, e o governo tem-se revelado incapaz. Até parece que nem pensa nisso ou que tem medo de atuar porque teme perder popularidade. E são os cidadãos que sofrem com a desorganização dos serviços públicos. Assim é o caminho para o abismo.