O jogo de sombras revisitado: como a Eurásia está a ser remodelada

China, 60 años de revolución socialista

– “Negociar com a equipe Trump é como jogar xadrez com um pombo:   o pássaro demente passeia-se por todo o tabuleiro, caga indiscriminadamente, derruba peças, declara vitória e depois foge”.

Por: Pepe Escobar

Vimos como a China está a planear meticulosamente todos os seus movimentos geopolíticos e geoeconómicos cruciais até 2030 e mais além.

Aquilo que está prestes a ler decorre de uma série de discussões multilaterais privadas entre analistas de inteligência e pode ajudar a projectar os contornos do Grande Quadro.

Na China, está claro que o caminho pela frente aponta para a promoção da procura interna e o deslocamento da política monetária rumo à criação de crédito a fim de consolidar a construção de indústrias internas de classe mundial.

Paralelamente, há um sério debate em Moscovo de que a Rússia deveria seguir o mesmo caminho. Como afirma um analista, “a Rússia não deveria importar nada excepto as tecnologias necessárias até que possa criá-las por si própria e exportar apenas o petróleo e o gás que for necessário para pagar importações, as quais deveriam ser severamente restringidas. A China ainda precisa de recursos naturais, o que torna a Rússia e a China aliados únicos. Uma nação deveria ser o mais auto-suficiente possível”.

O que espelha exactamente a estratégia do PCC, delineada pelo presidente Xi na reunião do Comité Central de 31 de Julho.

E isso também vai contra uma forte ala neoliberal do PCC – colaboracionistas? – que sonharia com uma conversão do partido numa social-democracia de estilo ocidental, ainda por cima subserviente aos interesses do capital ocidental.

Comparar a velocidade económica da China agora com a dos EUA é como comparar um Maserati Gran Turismo Sport (com um motor V8 Ferrari) com um Toyota Camry. A China, proporcionalmente, possui um reservatório maior de jovens gerações muito bem educadas; uma migração rural-urbana acelerada; uma acrescida erradicação da pobreza; mais poupanças; um sentido cultural de gratificação adiada; mais disciplina social – confucionista; e infinitamente mais respeito pela mentalidade educada racionalmente. O processo da China de aumentar cada vez mais o comércio consigo própria será mais do que suficiente para manter em andamento o ímpeto do necessário desenvolvimento sustentável.

O factor hipersónico

Enquanto isso, na frente geopolítica, o consenso em Moscovo – desde o Kremlin até ao Ministério dos Negócios Estrangeiros – é que a administração Trump não é “capaz de chegar a acordos”, um eufemismo diplomático que se refere a um bando de mentirosos de facto; e tão pouco é “legalmente capaz”, um eufemismo aplicado, por exemplo, para acções de lobby em favor sanções instantâneas quando Trump já descartou o JCPOA .

O presidente Putin já disse recentemente que negociar com a equipe Trump é como jogar xadrez com um pombo:   o pássaro demente passeia-se por todo o tabuleiro, caga indiscriminadamente, derruba peças, declara vitória e depois foge.

Em contraste, um lobby sério aos níveis mais altos do governo russo é investido na consolidação da aliança euro-asiática definitiva, unindo Alemanha, Rússia e China.

No entanto, isto só se aplicaria à Alemanha pós Merkel. De acordo com um analista americano, “a única coisa que retém a Alemanha é a expectativa de que possa perder suas exportações de carros para os EUA, mas eu lhes disse que isso pode acontecer de imediato devido à taxa de câmbio dólar-euro, com o euro a tornar-se mais caro”.

Na frente nuclear, e indo bem além do actual drama da Bielorrússia – uma vez que não haverá um Maidan em Minsk – Moscovo tem deixado muito claro, em termos inequívocos, que qualquer ataque com mísseis vindo da NATO será interpretado como um ataque nuclear.

O sistema defensivo russo de mísseis – incluindo os já testados S-500s e em breve os já projectados S-600s – pode ter uma eficácia de 99%. Isto significa que a Rússia ainda teria de absorver algumas punições. E é por esta razão que a Rússia tem construído uma extensa rede de abrigos contra bombas nucleares em grandes cidades a fim de proteger pelo menos 40 milhões de pessoas.

Analistas russos interpretam a abordagem defensiva da China da mesma forma. Pequim desejará desenvolver – se ainda não o fez – um escudo defensivo e ainda manter a capacidade de retaliar contra um ataque dos EUA com mísseis nucleares.

Os melhores analistas russos, como Andrei Martyanov , sabem que as três principais armas de uma suposta próxima guerra serão mísseis ofensivos e defensivos e submarinos, combinados com capacidades de guerra cibernética.

A arma chave de hoje – e os chineses entendem isto muito claramente – são submarinos nucleares. Os russos estão a observar como a China está a construir sua frota de submarinos – transportando mísseis hipersónicos – mais rapidamente do que os EUA. As frotas de superfície estão obsoletas. Uma matilha de submarinos chineses pode facilmente afundar uma força-tarefa de porta-aviões. Estes 11 porta-aviões e respectivas forças-tarefa estado-unidenses são de facto inúteis.

Assim, o caso – horripilante – de os mares se tornarem não navegáveis devido a uma guerra, com os EUA, Rússia e China a bloquearem todo tráfego comercial, é a razão estratégica chave que pressiona a China a obter o máximo dos seus recursos naturais por via terrestre, da Rússia.

Mesmo que os oleodutos e gasodutos sejam bombardeados, eles podem ser reparados muito rapidamente. Daí a suprema importância para a China da Energia da Sibéria – assim como o conjunto vertiginoso de projectos da Gazprom .

O factor Ormuz

Um segredo bem guardado em Moscovo é que, logo após a imposição das sanções alemãs relativas à Ucrânia, uma grande operadora global de energia abordou a Rússia com uma oferta de desviar para a China nada menos que 7 milhões de barris por dia de petróleo mais gás natural. Seja o que for que aconteça, a proposta espantosa ainda está sobre a mesa de Shmal Gannadiy, um consultor de topo do presidente Putin sobre petróleo e gás.

Caso isto chegasse a acontecer, garantiria para a China todos os recursos naturais de que precisa da parte da Rússia. Sob esta hipótese, a lógica russa seria contornar as sanções alemãs, comutando suas exportações de petróleo para a China, a qual do ponto de vista russo é mais avançada em tecnologia de consumo do que a Alemanha.

É claro que tudo isto mudou com a conclusão iminente do Nord Stream 2 – apesar de a Equipe Trump não fazer prisioneiros e sancionar todos os que estão à vista.

Discussões secretas na inteligência deixaram bem claro aos industriais alemães que se a Alemanha chegasse a perder sua fonte russa de petróleo e gás natural, juntamente com o estreito de Ormuz encerrado pelo Irão no caso de um ataque americano, a economia alemã poderia simplesmente entrar em colapso.

Tem havido sérias discussões sérias entre inteligências de países acerca da possibilidade de uma Surpresa de Outubro patrocinada pelos EUA que envolveria uma operação de falsa bandeira a ser atribuída ao Irão. A “pressão máxima” da equipe Trump sobre o Irão não tem absolutamente nada a ver com o JCPOA. O que importa é que, mesmo indirectamente, a parceria estratégica Rússia-China tem deixado muito claro que Teerão será protegida como um activo estratégico – e como um nó-chave da integração da Eurásia.

As considerações cruzadas da inteligência centram-se num cenário que pressupõe um colapso – bastante improvável – do governo de Teerão. A primeira coisa que Washington faria neste caso seria pressionar o interruptor do sistema de compensação SWIFT . O objectivo seria esmagar a economia russa. Eis porque a Rússia e a China estão activamente a acelerar a fusão dos sistemas de pagamentos russo Mir e chinês CIPS , além de contornar o dólar americano no comércio bilateral.

Já foi percebido em Pequim que, caso esse cenário chegasse a ocorrer, a China poderia perder de uma só vez dois dos seus aliados chave e, nesse caso, teria de enfrentar Washington sozinha, ainda numa etapa em que não seria capaz de assegurar para si todo o necessário em recursos naturais. Isto constituiria uma ameaça existencial real. E é o que explica a lógica por trás da crescente interconexão da parceria estratégica Rússia-China, bem como o acordo China-Irão de US$400 mil milhões e com duração de 25 anos.

Bismarck está de volta

Outro possível acordo secreto já discutido aos mais altos níveis da inteligência é a possibilidade de um Tratado Bismarckiano de Resseguro a ser estabelecido entre a Alemanha e a Rússia. A consequência inevitável seria uma aliança de facto Berlim-Moscovo-Pequim abrangendo a Estrada da Seda (Belt and Road Initiative, BRI), a par da criação de uma nova divisa euro-asiática – digital? – para toda a aliança da Europa e da Ásia, incluindo actores importantes mas periféricos tais como a França e a Itália.

Bem, Pequim-Moscovo já arrancou. Berlim-Pequim é um trabalho em andamento. O elo que falta é Berlim-Moscovo.

Isto representaria não só o pesadelo final para as elites anglo-americanas encharcadas de Mackinder como, de facto, a passagem definitiva da tocha geopolítica dos impérios marítimos de volta ao coração terrestre da Eurásia.

Não é mais uma ficção. Está em cima da mesa.

Somando-se a isso, vamos viajar um pouco no tempo e remontar ao ano de 1348.

Os mongóis da Horda de Ouro estão na Crimeia, a sitiar Caffa – um porto comercial no Mar Negro controlado pelos genoveses.

Subitamente, o exército mongol é consumido pela peste bubonica.

Eles então começam a catapultar cadáveres contaminados sobre as muralhas desta cidade.

Assim, imagine o que aconteceu quando navios recomeçaram a navegar entre Caffa e Génova:

Transportaram a praga para a Itália.

Por volta de 1360, a Peste Negra estava literalmente por toda a parte – de Lisboa a Novgorod, da Sicília à Noruega. Até 60% da população da Europa pode ter morrido – mais de 100 milhões de pessoas.

Pode-se argumentar que o Renascimento, devido à peste, foi atrasado por todo um século.

O Covid-19 está longe de ser uma praga medieval. Mas é razoável perguntar:

Que Renascença poderia ele estar a atrasar?

Bem, ele poderá muito bem estar a adiantar o Renascimento da Eurásia. Isso está a acontecer exactamente quando o Hegemon – o antigo “fim da história” – está a implodir internamente, “distraído da distracção pela distracção”, para citar T.S. Eliot. Por trás do nevoeiro, nos primórdios dos jogos de sombra, os movimentos vitais para reorganizar a massa de terra eurasiana já arrancaram.

Sobre o Autor

Jornalista, autor de Shadow play (e-book)

China: tudo corre de acordo com o planeado

China cumpre todos os objetivos anuais de desenvolvimento em 2017 |  Resistência

Por: Pepe Escobar

Vamos principiar por uma cimeira cuja história está a desaparecer [dos media] de modo incrível.

Todo mês de Agosto, a liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) converge para a cidade de Beidaihe, uma estação balnear à beira-mar a cerca de duas horas de Pequim, a fim de discutir seriamente políticas que depois se transformam em estratégias de planeamento chave a serem aprovadas na sessão plenária de Outubro do Comité Central do PCC.

O ritual Beidaihe foi criado por nada menos que Grande Timoneiro Mao, que amava a cidade. Não por acaso, o Imperador Qin, o unificador da China no século III aC, mantinha ali um palácio.

Sendo 2020, até agora, um notório Ano de Vida Perigosa, não é nenhuma surpresa que no final Beidaihe ficasse longe das vistas. No entanto, a invisibilidade de Beidaihe não significa que não tenha acontecido.

A prova 1 foi o facto de que o primeiro-ministro Li Keqiang simplesmente desapareceu da vista do público durante quase duas semanas – depois de o presidente Xi ter presidido uma reunião crucial da Comissão Política no fim de Julho, onde o que foi estabelecido era nada menos do que toda a estratégia de desenvolvimento da China para os próximos 15 anos.

Li Keqiang voltou à superfície ao presidir uma sessão especial do todo-poderoso Conselho de Estado, assim como o principal ideólogo do PCC, Wang Huning – que acontecer ser o número 5 da Comissão Política – apareceu como convidado especial numa reunião da Federação da Juventude de Toda a China.

O que é ainda mais intrigante é que, lado a lado com Wang, seria encontrado Ding Xuexiang, nada menos que o chefe de gabinete do presidente Xi, bem como três outros membros da Comissão Política.

Nesta variação “agora você os vê, agora não os vê”, o facto de que todos eles apareceram em uníssono após uma ausência de quase duas semanas levou observadores chineses perspicazes a concluir que Beidaihe de facto havia ocorrido. Mesmo que nenhum sinal visível de acção política à beira-mar tenha sido detectado. O giro semi-oficial é que nenhuma reunião aconteceu em Beidaihe por causa do Covid-19.

No entanto, é o Prova 2 que pode encerrar o assunto para sempre. A já famosa reunião da Comissão Política do final de Julho, presidida por Xi, de facto selou a sessão plenária de Outubro do Comité Central. Tradução: os contornos do mapa estratégico pela frente já haviam sido aprovados por consenso. Não houve necessidade de recuar para Beidaihe para mais discussões.

Balões de ensaio ou política oficial?

A trama se complica quando se leva em consideração uma série de balões de ensaio que começaram a flutuar há poucos dias em media chineses seleccionados. Aqui estão alguns dos pontos chave.

1. Na frente da guerra comercial, Pequim não encerrará empresas americanas que já operam na China. Mas empresas que querem entrar no mercado de finanças, tecnologia da informação, saúde e educação não serão aprovadas.

2. Pequim não vai se desfazer de toda a sua esmagadora massa de títulos do Tesouro (US Treasuries) dos EUA de uma só vez, mas – como já acontece – o desinvestimento irá acelerar. No ano passado, isso montou a US$100 mil milhões. Até o final de 2020, poderia chegar aos US$300 mil milhões.
3. A internacionalização do yuan, também previsível, será acelerada. Isso incluirá a configuração dos parâmetros finais para a compensação (clearing) de dólares americanos através do sistema chinês CHIPS [NR] – prevendo a possibilidade candente de que Pequim possa ser cortada do SWIFT pelo governo Trump ou por quem quer que esteja no poder na Casa Branca após Janeiro de 2021.

4. No que é amplamente interpretado por toda a China como a frente de “guerra de espectro total”, principalmente Guerra Híbrida, o Exército de Libertação Popular (ELP) foi colocado no Estágio 3 de alerta – e todas as licenças para o resto de 2020 foram canceladas. Haverá um esforço coordenado para aumentar os gastos gerais de defesa para 4% do PIB e acelerar o desenvolvimento de armas nucleares. Pormenores devem emergir durante a reunião de Outubro do Comité Central.

5. A ênfase geral está num espírito muito chinês de auto-suficiência e na construção do que pode ser definido como um sistema económico nacional de “dupla circulação”: a consolidação do projecto de integração da Eurásia em paralelo a um mecanismo global de liquidação em yuans.

Intrínseca a esta iniciativa está o que foi descrito como “o abandono firme de todas as ilusões acerca dos Estados Unidos e efectuar uma mobilização de guerra com nosso povo. Devemos promover vigorosamente a guerra para resistir à agressão dos EUA (…) Usaremos uma mentalidade de guerra para pilotar a economia nacional (…) Preparar para a interrupção total das relações com os EUA”.

Não está claro se isto são apenas balões de ensaio disseminados através da opinião pública chinesa ou decisões tomadas na Beidaihe “invisível”. Portanto, todos os olhos estarão voltados para o tipo de linguagem com que esta configuração alarmante será envolvida quando em Outubro o Comité Central apresentar seu planeamento estratégico. Significativamente, isso acontecerá só algumas semanas antes das eleições nos Estados Unidos.

É tudo acerca da continuidade

Tudo o que é dito acima espelha um debate recente em Amsterdam sobre o que constitui a “ameaça” chinesa ao Ocidente. Aqui estão os pontos-chave.

1. A China reforça constantemente seu modelo económico híbrido – o que é uma raridade absoluta, globalmente: nem totalmente público, nem uma economia de mercado.

2. O nível de patriotismo é impressionante: uma vez que os chineses enfrentam um inimigo estrangeiro, 1,4 mil milhões de pessoas actuam como uma só.

3. Os mecanismos nacionais têm uma força tremenda: absolutamente nada bloqueia o uso pleno de recursos financeiros, materiais e de mão-de-obra da China, uma vez definida uma política.

4. A China estabeleceu o mais abrangente sistema industrial do planeta, sem interferência estrangeira (bem, há sempre a questão dos semicondutores para a Huawei a ser resolvida).

A China planeia não apenas em anos, mas em décadas. Os planos quinquenais são complementados por planos decenais e, como a reunião presidida por Xi mostrou, por planos a 15 anos. A Estrada da Seda (Belt and Road Initiative, BRI) é na verdade um plano de quase 40 anos, concebido em 2013 para ser concluído em 2049.

E continuidade é o nome do jogo – quando se pensa que os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica , desenvolvidos pela primeira vez em 1949 e depois expandidos por Zhou Enlai na conferência de Bandung em 1955, estão gravados em pedra como directrizes da política externa da China.

colectivo Qiao , um grupo independente que promove o papel de qiao (“ponte”) pelos estrategicamente importantes huaqia (“chineses ultramarinos”), está a par quando observa que Pequim nunca proclamou um modelo chinês como solução para os problemas globais. O que eles exaltam são soluções chinesas para condições chinesas específicas.

Um ponto também enfatizado é que o materialismo histórico é incompatível com a democracia liberal capitalista, forçando a austeridade e a mudança de regime em sistemas nacionais, moldando-os em modelos pré-concebidos.

O que remete sempre ao núcleo da política externa do PCC: cada nação deve traçar um curso ajustado às suas condições nacionais.

E isso revela todos os contornos do que pode ser razoavelmente descrito como uma Meritocracia Centralizada com Características Confucionistas e Socialistas: um paradigma de civilização diferente que a “nação indispensável” ainda se recusa a aceitar, e certamente não irá abolir pela prática da Guerra Híbrida.

Compreender as relações internacionais (1&2)

Por: Thierry Meyssan

Em matéria de relações internacionais, muitas coisas são evidentes e não precisam de ser ditas. No entanto, elas percebem-se melhor ao ser explicitadas. Nesta primeira parte, o autor trata do sentimento de superioridade que temos todos e de nossos preconceitos inconscientes sobre a má-fé dos nossos interlocutores. No episódio seguinte, ele tratará das especificidades do Médio-Oriente.

o decurso de inúmera correspondência por correio electrónico, aconteceu que muitas coisas que tomava como certas não o são para os meus leitores. Assim queria voltar a analisar certas ideias, das quais algumas vos irão parecer não passar de banalidades, mas em que outras vos irão surpreender.

Somos todos humanos, embora diferentes

É possível viajar para um país distante e frequentar apenas os hotéis e praias ensolaradas. É bom para o bronzeamento, mas é uma oportunidade perdida do ponto de vista humano. Esse país é habitado por pessoas como nós, talvez diferentes na aparência, talvez não, com as quais poderíamos ter interagido. Certamente teríamos feito amizade com algumas delas.

De uma maneira geral, o viajante tratará sempre de dispor de meios mais importantes do que as gentes das terras que visita de maneira a poder fazer face a qualquer problema. Talvez, nesta situação confortável, ele se lance no desconhecido e aborde algumas pessoas. Mas quem irá falar livremente e confiar as suas alegrias e as suas angústias a um rico viajante?

Passa-se o mesmo nas relações internacionais : é sempre muito difícil saber realmente o que se passa no estrangeiro e compreende-lo.

As relações internacionais põem em jogo vários actores que nos são estranhos. Quer dizer, homens que têm traumas e ambições que não conhecemos e que devemos tentar conhecer antes de os poder compreender. O que é importante para eles não é necessariamente aquilo que nos preocupa. Há boas razões para isso, que devemos descobrir se quisermos avançar junto com eles.

Cada um de nós considera os nossos valores como sendo qualitativamente superiores aos dos outros, até entender porque pensam eles de maneira diferente. Os Gregos viam os estrangeiros como «bárbaros». E, todos os povos, por mais educados que sejam, pensam o mesmo. Isso nada tem a ver com racismo, mas com ignorância.

Isso não quer dizer que todas as culturas e civilizações são iguais e que iríeis querer viver em qualquer lugar. Existem lugares onde as pessoas têm olhares inexpressivos e outros onde são luminosos.

O desenvolvimento dos meios de transporte tornou possível chegar a qualquer lugar em algumas horas. Somos projectados de um instante para o outro num outro mundo e continuamos a pensar, e agir, como se estivéssemos em casa. Na melhor das hipóteses, lemos um pouco sobre esses estrangeiros antes de viajarmos para junto deles. Mas antes de os encontrarmos, não podemos saber que autores os compreenderam e que outros passaram ao lado do assunto.

Verdade seja dita, não é necessário ir a um país para entender os seus habitantes. Eles também podem viajar. Mas não se engane sobre os seus interlocutores: aqueles que afirmam ter fugido dos seus pais e falam mal deles são frequentemente mais mentirosos do que heróis. Não são forçosamente pessoas más, podem também só dizer-nos aquilo que imaginam que nos agrada e chegar, quando os conhecemos melhor, a mudar a sua história. É preciso portanto, ser muito desconfiado com os expatriados políticos: não confundir Ahmed Chalabi, em Londres, com Charles De Gaulle. O primeiro fugiu do Iraque após uma escroqueria e mentiu sobre tudo; o segundo tinha um autêntico apoio popular em França. O primeiro abriu as portas do seu país aos invasores, o segundo livrou o seu país de invasores.

As pessoas mudam com a idade. Os povos também, mas são muito mais lentos. O que os caracteriza forma-se com os séculos. Portanto, é necessário estudar longamente a sua história para os compreender, mesmo que eles ignorem o seu passado, como os muçulmanos que consideram erradamente as épocas anteriores à revelação da sua religião como obscuras. De qualquer forma, é impossível compreender um povo sem conhecer a sua história, não em relação à última década, mas ao longo dos milénios. É preciso ser muito enfatuado para crer entender uma guerra indo para o local sem estudar longamente a história e as motivações dos protagonistas.

Aquilo que é bom para conhecer as pessoas é também eficaz para as dominar. É por isso que os Britânicos treinaram os seus mais célebres espiões e diplomatas no Museu Britânico.

Os « maus »

Aquilo que não compreendemos causa-nos muitas vezes medo.

Quando, num grupo humano, uma elite, ou mesmo uma única pessoa, exerce uma opressão sobre os outros, os seus pares, só o pode fazer com o seu próprio consentimento.

É o que se observa nas seitas. Se queremos ir em socorro destes oprimidos, a solução não é aplicar sanções contra o seu grupo ou eliminar o seu chefe, mas dar-lhes outras perspectivas, ajudá-los a tomar consciência que podem viver de outra maneira.

Os grupos sectários representam apenas um perigo relativo para o resto do mundo porque se recusam a comunicar com ele. São acima de tudo um perigo para si próprios, o que pode levá-los à autodestruição.

Não existe ditadura contra uma vontade maioritária. É simplesmente impossível. É, aliás, a origem do sistema democrático: a aprovação dos dirigentes por uma maioria previne qualquer forma de ditadura. O único regime oprimindo a maioria da sua população e que eu experimentei foi a União Soviética de Gorbachev. Este nada tinha a ver com isso e assim acabou ele mesmo por o dissolver.

É este o princípio que os Estados Unidos usaram para organizar as «revoluções coloridas»: nenhum regime pode sobreviver se se recusarem a obedecê-lo. Ele desmorona-se instantaneamente. Basta, portanto, manipular as multidões um curto período de tempo para mudar seja qual for o regime. O final é evidentemente imprevisível quando a multidão retoma o seu senso comum. Essas pretensas revoluções duram apenas alguns dias. Elas nada têm a ver com uma mudança de sociedade que, essa, leva anos, se não mesmo uma geração.

Seja como for, é sempre fácil descrever um país distante como uma abominável ditadura e justificar assim que se vá lá salvar a população oprimida.

Todos os homens são razoáveis. No entanto, podem cair na loucura quando desprezam a sua Razão em nome de uma Ideologia ou de uma Religião. Isso não tem qualquer relação, nem com o projeto dessa ideologia, nem com a fé dessa religião. Os nazis esperavam edificar um mundo melhor que o do Tratado de Versalhes, mas não tomavam consciência dos seus próprios crimes. Desapareceram e esqueceu-se as suas realizações (salvo a VolksWagen e a conquista do espaço por Wernher von Braun). Os islamistas (falo aqui do movimento político, não da religião muçulmana) pensam servir a vontade divina, mas não estão cientes dos seus crimes. Irão desaparecer sem nada ter alcançado. Estes dois grupos têm em comum a sua cegueira. Eles puderam ser facilmente manipulados, os primeiros contra os Soviéticos, os segundos pelo Reino Unido.

Nenhuma religião está imune, seja qual for a sua mensagem. Na Índia, Yogi Adityanath (um próximo do Primeiro-Ministro Narendra Modi) apelou à multidão para destruir a mesquita de Ayodhya, em 1992, e dez anos mais tarde os seus seguidores massacraram os muçulmanos em Gujarat, que injustamente acusavam de terem querido vingar-se. Ou no Mianmar, onde o monge budista Ashin Wirathu (que não nenhuma relação com o exército birmanês e ainda menos com Aung San Suu Kyi) prega a morte dos muçulmanos.

Não há limite para a violência humana quando nos abstraímos da nossa Razão. Aqueles que a praticam são artistas: têm um estilo e imaginam modalidades espetaculares. A crueldade de grupo não é um prazer sádico solitário, mas, sim um ritual colectivo. Ela gela de medo e força à submissão. O Daesh (E.I.) encenou os seus crimes e filmou-os, não hesitando em recorrer a efeitos especiais para aterrorizar ainda mais.

É pouco provável que os nazis tenham tido a intenção de matar os seus prisioneiros aos milhões, talvez pretendessem mais explorar a sua força de trabalho sem respeito pelas suas vidas, pois cometeram os seus crimes em segredo, fazendo desaparecer as suas vítimas « de noite e no nevoeiro» [1]. Pelo contrário, durante a guerra contra os Exércitos Brancos, os Bolcheviques decidiram fazer desaparecer as classes sociais favoráveis ao czarismo. Provavelmente isso nada tinha a ver com a sua ideologia, mas com a guerra civil. Contentaram-se, pois, em fuzilá-los.

Compreender as relações internacionais 2

Depois de ter analisado a igualdade dos homens e a diferença de culturas, depois relembrado que desconfiamos das pessoas que não conhecemos, o autor aborda quatro aspectos do Médio-Oriente : a criação colonial de Estados ; a necessidade das populações em esconder os seus chefes ; o sentido do tempo ; e a utilização política da religião.

Uma região histórica, dividida artificialmente

Contrariamente a uma ideia feita, ninguém sabe muito bem o que são o Levante, o Próximo-Oriente ou o Médio-Oriente. Estes termos têm tido diferentes significados segundo as épocas e as situações políticas.

No entanto, os actuais Egipto, Israel, Estado da Palestina, Jordânia, Líbano, Síria, Iraque, Turquia, Irão, Arábia Saudita, Iémene e os principados do Golfo partilham vários milénios de história comum. Ora, a sua divisão política data da Primeira Guerra Mundial. Ela é devida aos acordos secretos negociados, em 1916, entre Sir Mark Sykes (Império Britânico), François Georges-Picot (Império Francês) e Sergueï Sazonov (Império Russo). Este projecto de Tratado fixara a divisão do mundo entre as três grandes potências da época para o pós-guerra. Todavia, tendo o Czar sido derrubado e não se tendo a guerra desenrolado como esperado, o projecto de Tratado foi aplicado apenas ao Médio-Oriente pelos britânicos e franceses sob o nome de «Acordo Sykes-Picot». Ele foi denunciado pelos bolcheviques que se opuseram aos czaristas, nomeadamente contestando o Tratado de Sèvres (1920) e ajudando o seu aliado turco (Mustafa Kemal Atatürk).

De tudo isso, ressalta que os habitantes desta região formam uma única população, composta por uma multidão de povos diferentes, presentes um pouco por todo o lado e intimamente mesclados. Cada conflito actual prossegue batalhas passadas. É impossível compreender os acontecimentos actuais sem conhecer os episódios precedentes.

Por exemplo, os Libaneses e os Sírios do litoral são Fenícios. Eles dominaram comercialmente o Mediterrâneo antigo e foram ultrapassados pela gentes de Tiro (Líbano), que criaram a maior potência da época, Cartago (Tunísia). Essa foi completamente arrasada por Roma (Itália), depois o General Hannibal Barca refugiou-se em Tiro (Líbano), e na Bitínia (Turquia). Mesmo que não haja consciência disso, o conflito entre a gigantesca, autoproclamada, coligação (coalizão-br) dos «Amigos da Síria» e a Síria prossegue a destruição de Cartago por Roma e o conflito dos mesmos pretensos «Amigos da Síria» contra sayyed Hassan Nasrallah, o chefe da Resistência libanesa, prossegue a caçada de Hannibal durante a queda de Cartago. Com efeito, é absurdo limitar-se a uma leitura de estado sobre os acontecimentos e ignorar as clivagens transestatais do passado.

Ou ainda, ao criar o exército jiadista do Daesh (E.I.), os Estados Unidos ampliaram a revolta contra a ordem colonial franco-britânica (os Acordos Sykes-Picot).

O «Estado islâmico no Iraque e no Levante» pretende, nem mais, nem menos, do que descolonizar a região. Antes de tentar separar a verdade da propaganda, é preciso aceitar compreender como os acontecimentos são experimentados emocionalmente por aqueles que os vivem.

Guerra perpétua

Desde o início da história, esta região é o teatro de guerras e de invasões, de civilizações sublimes, de massacres e mais massacres dos quais quase todos os povos da região foram vítimas, cada um por sua vez. Neste contexto, a primeira preocupação de qualquer grupo humano é a de sobreviver. É por isso que os únicos acordos de paz que poderão durar têm de levar em conta as suas consequências para os outros grupos humanos.

Por exemplo, é impossível desde há setenta e dois anos chegar a um acordo entre os colonos europeus de Israel e os Palestinianos por que se negligencia o preço que teriam que pagar os outros actores da região. A única tentativa de paz que reuniu todos os protagonistas foi a Conferência de Madrid convocada pelos EUA (Bush Sr) e pela URSS (Gorbachev), em 1991. Essa poderia ter sido bem-sucedida, mas a delegação israelita continuou agarrada ao projecto colonial britânico.

Os povos da região aprenderam a proteger-se desta história conflituosa mascarando os seus verdadeiros chefes.

Por exemplo, quando os Franceses exfiltraram o «Primeiro-Ministro» sírio, Riad Hijab, em 2012, acreditaram poder-se apoiar num peixe graúdo para derrubar a República. Ora, este não era constitucionalmente o «Primeiro-Ministro», mas apenas o «presidente do Conselho de Ministros» da Síria. Tal como o chefe de gabinete da Casa Branca nos Estados Unidos, ele era apenas um alto funcionário, secretário-geral do governo, não um político. A sua deserção não teve consequências. Ainda hoje, os Ocidentais se interrogam acerca de quem são os homens que contam à volta do Presidente Bashar al-Assad.

Este sistema, indispensável à sobrevivência do país, é incompatível com um regime democrático.

As grandes opções políticas não devem ser discutidas em público. Assim os Estados da região afirmam-se tanto como Repúblicas, quer como Monarquias absolutas. O Presidente ou Emir encarna a Nação. Na República, ele é pessoalmente responsável perante o sufrágio universal. Os grandes cartazes do Presidente Assad nada têm a ver com o culto de personalidade que se observa em certos regimes autoritários, eles afirmam a sua responsabilidade.

Tudo o que dura leva tempo

Os Ocidentais estão habituados e anunciar o que vão fazer. Pelo contrário, os Orientais declaram os seus objectivos, mas escondem a maneira como pensam lá chegar.

Moldados pelos canais de televisão de informação contínua, os Ocidentais imaginam que qualquer acção tem um efeito imediato. Pensam que as guerras podem ser declaradas de um dia para o outro e resolver de imediato as situações. Pelo contrário, os Orientais sabem que as guerras se planificam com, pelo menos, uma década de antecedência e que as únicas mudanças duradouras são as mudanças de mentalidade que exigem uma ou mais gerações.

Assim, as «Primaveras Árabes» de 2011 não foram erupções espontâneas de raiva para derrubar ditaduras. São a execução de um plano cuidadosamente elaborado pelo Foreign Office (Ministério das Relações Exteriores-br) britânico, em 2004, revelado na época por um denunciante, mas que passou despercebido. Plano este que foi imaginado segundo o modelo da «Grande Revolta Árabe» de 1916-18. Os árabes estavam persuadidos que se tratava de uma iniciativa do xerife de Meca, Hussein ben Ali, contra a ocupação otomana. Foi, na realidade, uma maquinação britânica, executada por Lawrence da Arábia, para controlar os poços de petróleo da Península Arábica e colocar a seita dos Wahhabitas no Poder. Jamais os árabes aí encontraram a liberdade, mas, antes o jugo dos britânicos depois do dos otomanos. Da mesma forma, as «Primaveras Árabes» não visaram libertar fosse quem fosse, mas, sim derrubar governos para colocar os Irmãos Muçulmanos (confraria política secreta organizada no modelo da Grande Loja Unida da Inglaterra) no Poder em toda a região.

A religião é ao mesmo tempo o pior e o melhor

A religião não é apenas uma tentativa de conectar o homem com o transcendente, é também um marcador identitário. As religiões produzem pois, ao mesmo tempo, homens exemplares e estruturam as sociedades.

No Médio-Oriente, cada grupo humano identifica-se com uma religião. Há uma quantidade incrível de seitas nesta região e criar uma religião é frequentemente uma decisão política.

Por exemplo, os primeiros discípulos de Cristo eram judeus em Jerusalém, mas os primeiros cristãos — quer dizer, os primeiros discípulos de Cristo que não se consideravam judeus— estavam em Damasco juntos com São Paulo, de Tarso. De forma idêntica, os primeiros discípulos de Maomé estavam na Península Arábica, eram considerados como cristãos que haviam adoptado um rito beduíno particular. Mas os primeiros seguidores de Maomé a diferenciarem-se dos cristãos e a intitularem-se muçulmanos estavam em Damasco, junto dos Omíadas. Ou ainda, os muçulmanos dividiram-se em xiitas e sunitas, consoante decidiram seguir o exemplo de Maomé ou os seus ensinamentos. Mas o Irão só se tornou xiita quando um imperador safávida decidiu distinguir os Persas dos Turcos convertendo-os a esta seita. É claro, hoje em dia todas as religiões ignoram este aspecto da sua história.

Alguns Estados actuais, como o Líbano e o Iraque, baseiam-se numa repartição de cargos segundo cotas atribuídas a cada religião. No pior dos sistemas, o do Líbano, estas cotas aplicam-se não apenas às principais funções do Estado, mas a todos os níveis da função pública até ao de funcionário do nível mais baixo da escala. Os chefes religiosos são mais importantes do que os chefes políticos. Como resultado, cada comunidade coloca-se sob a protecção de uma potência estrangeira, os xiitas com o Irão, os sunitas com a Arábia Saudita (e talvez proximamente com a Turquia), os cristãos com as potências Ocidentais. De facto, cada um tenta proteger-se dos outros o melhor que pode.

Outros Estados, como a Síria, fundam-se na ideia de que somente a união de todas as comunidades permite defender a Nação, seja qual for o agressor e os seus laços com uma ou outra das comunidades. A religião é um assunto privado. Todos são responsáveis pela segurança de todos.

A população do Médio-Oriente está dividida entre laicos e religiosos. Mas as palavras tem aqui um sentido particular. Não se trata de crer ou não em Deus, mas de colocar o domínio religioso na vida pública ou na vida privada. De modo geral, é mais fácil para os cristãos do que para os judeus e para os muçulmanos considerar a religião uma questão particular, porque Jesus não era um chefe político enquanto Moisés e Maomé eram.

Misturando percepção de Deus e identidade de grupo, as religiões podem provocar reações irracionais e extremamente violentas, como o islão político tem abundantemente mostrado .

O «Estado Islâmico» (Daesh) não é uma fantasia de lunáticos, antes se inscreve numa concepção política de religião. Os seus membros são maioritariamente pessoas normais, inspiradas pela vontade de fazer o bem. É um erro diabolizá-los ou considerá-los como estando embarcados numa seita. Talvez seja mais conveniente perguntar-mos o que os cega face à realidade e os torna insensíveis aos seus crimes.

Conclusão

Antes de fazer um julgamento sobre um determinado actor regional, é preciso conhecer a sua história e os seus traumas para poder compreender as suas reações a um acontecimento. Antes de julgar a qualidade de um plano de paz, convêm interrogar-se não se ele beneficia todos aqueles que o assinaram, mas se ele não irá prejudicar os outros actores regionais.

Sobre o autor

Thierry Meyssan

Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

A Bielorússia poderá tornar-se a próxima Síria?

Oposição da Bielorrússia planeja entrar com ação judicial contra ...

Por: The Saker

Ok, admito que o título é um tanto hiperbólico. Mas aqui está o que estou a tentar dizer: há sinais de que a Rússia está a intervir na crise bielorrussa (finalmente!)

Em primeiro lugar, podemos ver uma mudança verdadeiramente radical nas políticas de Lukashenko: se seu instinto inicial era desencadear uma repressão brutal tanto dos manifestantes violentos quanto dos manifestantes pacíficos, agora ele fez uma volta de 180º e o resultado é bastante surpreendente: no domingo houve grandes manifestações anti-Lukashenko, mas ninguém foi detido. Ninguém. Ainda mais surpreendente é isto:   o canal Nexta Telagram , dirigido pelos polacos (que é o principal meio usado pelo Império para derrubar Lukashenko), inicialmente apelava a um protesto pacífico, mas no fim do dia fez um apelo para a tomada do principal edifício da presidência. Quando os desordeiros (nesta altura estamos a tratar de uma tentativa ilegal e violenta de derrubar o estado – por isso não chamo essas pessoas de manifestantes) chegaram junto ao prédio, depararam-se com uma verdadeira “parede” de polícias de choque plenamente equipados: essa visão (realmente assustadora) foi o suficiente para travar os desordeiros que se detiveram por algum tempo e depois foram embora.

Em segundo lugar, Lukashenko fez algo um tanto estranho, mas que faz muito sentido no contexto bielorrusso: ele vestiu-se com um uniforme completo de combate, empunhou um rifle de assalto AKSU-74, vestiu o seu filho (de 15 anos!) também com um uniforme completo de combate (capacete incluído) e voou no seu helicóptero sobre Minsk e, em seguida, pousou no edifício presidencial. Eles então caminharam até os polícias de choque, onde Lukashenko os agradeceu calorosamente, o que resultou numa ovação de pé por toda a força policial. Para a maior parte de nós, este comportamento pode parecer um tanto estranho, senão totalmente tolo. Mas no contexto da crise bielorrussa, que é uma crise combatida primariamente no domínio informativo, faz todo o sentido.

• Na semana passada, Lukashenko disse que nenhuma outra eleição, muito menos um golpe, acontecerá enquanto ele estiver vivo.
• Desta vez, Lukashenko decidiu mostrar, simbolicamente, que está no comando e que morrerá a combater ao lado do filho, se necessário.

A mensagem aqui é clara: ” Não sou nenhum Ianukovich e, se for preciso, morrerei como Allende”.

Não é preciso dizer que a máquina de propaganda anglo-sionista declarou de imediato que ver Lukashenko a empunhar uma Kalashnikov é um sinal claro de que ele enlouqueceu. No contexto ocidental, se isso fosse, digamos, no Luxemburgo ou na Bélgica, esta acusação de insanidade estaria correcta. Mas, no contexto da Bielorússia, tais acusações têm muito pouco efeito, atribuam isto a diferenças culturais se quiserem.

Para entender quão poderosa é esta mensagem, precisamos ter em mente os dois principais rumores que a operação PSYOP do Império estava a tentar transmitir ao povo da Bielorússia:
• Existem profundas diferenças entre e dentro das elites governantes (especialmente os chamados ” siloviki ” – os “ministérios do poder” se quiser, como o de Assuntos Internos ou KGB).
• Lukashenko ou já fugiu do país ou está prestes a fugir (cada vez que um helicóptero sobrevoa Minsk, os PSYOPs ocidentais dizem que se trata de uma filmagem de Lukashenko “a sentir o país”).

Tenho uma forte suspeita de que o que aconteceu entre Putin e Lukashenko é muito semelhante ao que aconteceu entre Putin e Assad: inicialmente, tanto Assad quanto Lukashenko aparentemente pensavam que a violência pura resolveria o problema. Aquela crença profundamente equivocada resultou numa situação em que as autoridades legítimas quase foram derrubadas (e isto ainda é possível na Bielorússia). Em cada caso, os russos disseram claramente algo como “vamos ajudá-lo, mas terá que mudar radicalmente os seus métodos”. Assad ouviu. Aparentemente, Lukashenko também, pelo menos até certo ponto (este processo mal começou).

As novas Guaidós.
As gentis esposas dos que promovem a revolução colorida na Bielorúria. Da esquerda para a direita: o marido é dono de um blogue pró NATO; o marido é banqueiro e está preso por fraude; o marido foi despedido do corpo diplomático por fraudes em empresas de informática. Este trio foi designado pelo império como as Guaidós da Bielorrússia. De seus nomes, Svetlana Tsikhanouskaya, Veronika Tsepkalo e Maria Kolesnikova.

A verdade é que a oposição está numa situação difícil:   a grande maioria do povo da Bielorrússia claramente não quer um golpe violento, seguido de uma guerra civil sangrenta, uma desindustrialização total do país e uma submissão total ao Império, ou seja, eles não querem seguir o “caminho Ukie”. Mas como derrubar legalmente um governo, especialmente se esse governo agora envia a mensagem clara “morreremos antes de permitirmos que você tome o poder”?

Depois, há o imenso problema com Tikhanovskaia: embora poucos acreditem que ela tenha obtido 10% dos votos e Lukashenko 80% – ninguém acredita sinceramente que ela o venceu. Portanto, embora o Ocidente queira pintar Lukashenko como “o próximo Maduro”, é praticamente impossível convencer alguém “que Tikhanovskaia é o próximo Guaidó”.

Então, para onde vamos a partir daqui?

Bem, Lukashenko não demitiu o ministro das Relações Exteriores, Makei, nem o chefe da KGB, Vakulchik. Verdade seja dita, tendo a concordar com alguns analistas russos quando dizem que Makei não é realmente o problema e que o principal russófobo em Minsk é o próprio Lukashenko (apenas um exemplo:   foi ele quem removeu os quatro Sukhois russos que a Rússia enviara para ajudar a Bielorússia a controlar o seu espaço aéreo). É bem verdade que Lukashenko dirige todos os seus ministérios com mão de ferro e dizer que Makei é de todo mau e negro enquanto Lukashenko é uma vítima branca e inocente não é muito crível. Contudo, ainda que Makei e Vakulchik estivessem apenas a executar as ordens de Lukashenko, agora precisam cair em suas espadas como um sinal de contrição e reparação para com a Rússia. Mesmo assim, os russos provavelmente indicarão a Lukashenko que o Kremlin não trabalhará com estes vira-casacas.

Depois, há as declarações públicas do ministro da Defesa da Bielorrússia, Viktor Khrenin, que diz tudo que está certo e que parece ter uma linha muito dura contra aquelas forças ocidentais que estão por trás desta última tentativa de uma revolução colorida. É bem conhecido na Rússia que, embora os diplomatas bielorrussos pareçam, como direi, preferir sorrisos a uma colaboração substantiva com a Rússia. O caso dos militares bielorrussos é bastante diferente: os militares russos e bielorrussos não só treinam em conjunto como também compartilham inteligência de forma contínua. Além disso, sem a Rússia, os militares bielorrussos estariam completamente isolados, incapazes de obter apoio técnico ou peças, desconectados dos sistemas russos de alerta antecipada e removidos do apoio da inteligência russa.

Os militares bielorrussos são dramaticamente diferentes dos militares ucranianos, que praticamente perderam sua prontidão para o combate décadas atrás, que foram então expurgados de todos os verdadeiros patriotas e que eram fantasticamente corruptos. Em contraste, as comparativamente pequenas forças militares bielorrussas são, segundo todos os relatos, muito bem treinadas, decentemente equipadas e comandadas por oficiais muito competentes. Penso ser uma aposta segura dizer que as forças armadas são leais a Lukashenko e que provavelmente saudariam uma plena reunificação com a Rússia.

Quanto ao próprio Lukashenko, ele, pela primeira vez, permitiu abertamente o registo de um partido pró-russo (no passado, movimentos, organizações e partidos pró-russos eram sistematicamente perseguidos e encerrados). Ele também declarou na TV pública que “seu amigo Putin” o aconselhou sobre como reagir aos manifestantes.

Então a Bielorrússia se tornará a próxima Síria?

Bem, não, claro que não, os dois países são muito diferentes. Mas, num sentido diferente, o que aconteceu na Síria pode acontecer na Bielorússia: a Rússia dará seu apoio total, mas apenas em contrapartida de grandes reformas a todos os níveis. E apesar de Lukashenko agora declarar que o Ocidente só quer destruir a Bielorússia como uma primeira fase de destruição de toda a Rússia, não acredito que haja qualquer probabilidade de um conflito militar, a menos que uma destas três coisas aconteça:

1. Algum maluco em qualquer dos lados abra fogo e desencadeie um incidente militar (e mesmo isso pode não ser suficiente)
2. Os polacos ficarem realmente desesperados e fizerem algo fantasticamente estúpido (a história polaca demonstra que isto é uma possibilidade muito real)
3. Lukashenko é morto e o instala-se caos (também não é muito provável)

Devemos recordar que, quando a Rússia interveio na Síria, os militares sírios estavam em condições desastrosas e basicamente derrotados. Este não é o caso na Bielorússia, que tem um exército excelente (do tipo “pequeno e eficaz”) e eles podem proteger seu próprio país, especialmente quando apoiados pelo KGB e pelas forças do Ministério de Assuntos Internos.

Ainda assim, embora Lukashenko possa ser parte da solução no curto prazo, a longo prazo ele deve ir e ser substituído por um líder fidedigno no qual o povo bielorrusso e o Kremlin possam realmente confiar e cuja principal tarefa será reintegrar totalmente a Bielorrússia na Rússia. Mais uma vez, uma grande diferença com a Síria.

Estado Profundo esmaga jornalista por dizer a verdade

Shadow Gate, o vídeo censurado

Millie Weaver Indictment Released | Law & Crime

Por: Paul Craig Roberts

O link que postei anteriormente para o documentário Shadow Gate foi removido pelo Youtube. O documentário está incorporado neste artigo: www.thegatewaypundit.com/… .

Recomendo que o assista e que o guarde.

Está em pleno curso uma tentativa da imprensa de manter o documentário afastado do público. O Youtube mentiu ao dizer que o documentário violava a sua política sobre o discurso do ódio. Não há ódio no documentário. O que o filme violou foi a política dos media de ocultar a verdade ao povo.

O documentário apresenta dois denunciantes que estiveram envolvidos na recolha e utilização de informações obtidas ilicitamente. Este tipo de informação foi utilizado na tentativa de descarrilar a presidência de Trump.

O documentário mostra que o Estado Profundo (Deep State) inclui empresas de segurança privadas as quais têm acesso à informação que a NSA recolhe alegadamente para fins de segurança nacional, mas realmente a fim de controlar as nossas percepções e o nosso comportamento. Quando os presidentes da Chefia do Estado-Maior Conjunto e os membros do alto escalão do aparelho de segurança nacional deixam a sua posição, tornam-se chefes de empresas de segurança privada para as quais são desviados os dados da NSA. O documentário dar-lhe-á uma ideia da dimensão e profundidade do Estado Profundo. Poderá ver os pormenores da Matriz (The Matrix) dentro da qual eles nos colocaram.

A censura no You Tube.
O YouTube Censurou com pretextos falsos.

A jornalista que produziu o vídeo e o seu marido foram presos sob falsas acusações. Ao contrário de Julian Assange, eles não divulgaram qualquer informação classificada. Ambos os denunciantes são claramente identificados. O Estado Profundo está simplesmente a esconder qualquer informação sobre si mesmo. Seja o que for que os Estados Unidos sejam, não são certamente uma democracia com um governo responsável.

O vídeo também pode ser descarregado aqui: shadow_gate.mp4 (1,34 GB, clique com o botão direito do rato e faça Save As…). Se algum dos leitores puder legendá-lo, cavalothetroia.xyz agradece o envio de uma cópia.