Revolução colorida nos EUA – e quem a financia

Na rota das contra-revoluções "coloridas" | IELA - Instituto de ...

Por: F. William Engdahl

Revolução colorida é a expressão utilizada para descrever uma série de notáveis operações de mudança de regime efectuadas pela CIA através de técnicas desenvolvidas pela RAND Corporation, ONGs pela “democracia” e outros grupos desde a década de 1980. Elas foram utilizadas de forma bruta para derrubar o regime comunista polaco no fim da década de 1980. Desde então as técnicas foram refinadas e utilizadas, juntamente com fortes subornos, para derrubar o regime Gorbachov na União Soviética. Para qualquer pessoa que tenha estudado estes modelos atentamente, está claro que os protestos contra violência policial conduzidos por organizações amorfas com nomes como Black Lives Matter ou Antifa são mais do que ultrajes morais puramente espontâneos. Centenas de milhares de jovens americanos estão a ser utilizados como um aríete não só para derrubar um presidente dos EUA como também, no processo, as próprias estruturas da ordem constitucional dos EUA.

Se voltarmos atrás em relação à questão imediata dos vídeos mostrando um polícia branco de Minneapolis a pressionar o seu joelho sobre o pescoço de um homem negro, George Floyd, e examinarmos o que se tem passado desde então por toda a nação, fica claro que certas organizações ou grupo estavam bem preparados para instrumentalizar o horrível acontecimento para a sua própria agenda.

Os protestos a partir de 25 de Maio começaram muitas vezes de modo pacífico sendo então capturados por bem treinados actores violentos. Duas organizações apareceram regularmente em conexão com os protestos violentos – Black Lives Matter e Antifa (USA). Vídeos mostram protestatários bem equipados vestido uniformemente em negro e mascarados (não por causa do coronavírus certamente), vandalizando carros da polícia, incendiando esquadras de polícia, partindo vitrinas de lojas com canos ou tacos de baseball. A utilização do Twitter e outros media sociais para coordenar ataques relâmpago em enxame de multidões em protesto é evidente.

O que se tem desdobrado desde o evento disparado em Minneapolia tem sido comparado à onda de tumultos de protestos dos guetos negros em 1968. Eu vivi aqueles acontecimentos em 1968 e o que está a acontecer hoje é muito diferente. Assemelha-se mais à revolução colorida na Jugoslávia que derrubou Milosevic em 2000.

Gene Sharp: Modelo para derrube de regimes

No ano 2000 o Departamento de Estado dos EUA, ajudado pelo seu National Endowment for Democracy (NED) e operadores selectos da CIA, começaram secretamente a treinar um grupo de estudantes da Universidade de Belgrado conduzidos por um grupo de estudantes que era chamado Otpor! (Resistência!). O NED e seus vários rebentos foi criado na década de 1980 pelo chefe da CIA, Bill Casey, como uma ferramenta encoberta para derrubar regimes específicos por todo o mundo sob a cobertura de uma ONG de direitos humanos. Na verdade, eles obtinham o seu dinheiro do Congresso dos EUA e da USAID.

Na desestabilização de 2000 do Otpor! sérvio, o NED e o embaixador dos EUA em Belgrado, Richard Miles, seleccionaram e treinaram um grupo de várias dúzias de estudantes, liderados por Srða Popoviæ, utilizando o manual From Dictatorship to Democracy, traduzido para sérvio, do falecido Gene Sharp e do seu Albert Einstein Institution. Num epitáfio dos acontecimentos sérvios, o Washington Post escreveu: “Consultores financiados pelos EUA desempenharam um papel crucial nos bastidores em virtualmente todos os aspectos do processo, dirigindo inquéritos de rastreamento, treinando milhares de activistas da oposição e ajudando a organizar uma contagem paralela de votos vitalmente importante. Contribuintes dos EUA pagaram 5000 latas de tinta spray utilizadas por estudantes activistas para garatujar graffitis anti- Miloševiæ nas paredes de toda a Sérvia.

Esquadrões treinados de activistas foram posicionados em protestos para tomar o comando de quarteirões de cidades com a ajuda de écrans de vídeo em “capacetes de inteligência” que lhes davam uma supervisão instantânea do seu ambientes. Bandos de jovens a convergirem sobre cruzamentos alvo em diálogo constante através de telefones celulares iriam então sobrecarregar a polícia. O governo dos EUA gastou cerca de US$41 milhões na operação. Grupos de estudantes foram secretamente treinados nas técnicas do manual Sharp de encenação de protestos que ridicularizavam a autoridade da polícia do governo, mostrando que eram desajeitados e impotentes contra os jovens manifestantes. Profissionais da CIA e do Departamento de Estado dos EUA guiaram-nos nos bastidores.

O modelo Otpor! de Revolução Colorida foi refinado e aplicado em 2004 como a Revolução Laranja na Ucrânia com o logo e a cor em cachecóis, assim como em 2002 na Geórgia como Revolução Rosa. Posteriormente a secretária de Estado Hillary Clinton utilizou o modelo para lançar a Primavera Árabe. Em todos os casos o NED esteve envolvido, com outras ONGs incluindo as Fundações Soros.

Depois de derrotar Milosevic, Popovic prosseguiu para estabelecer um centro de treino global de revoluções coloridas, CANVAS, uma espécie de negócio de consultoria lucrativa para revoluções e estava pessoalmente presente em Nova York a trabalhar, confirmadamente, com o Antifa durante o Occupy Wall Street em que o dinheiro de Soros também foi confirmado.

Antifa e BLM

Os protestos, tumultos, acções violentas e não-violentas que varrem os Estados Unidos desde 25 de Maio, incluindo um assalto às portas da Casa Branca, começam a fazer sentido quando entendemos o manual de estratégia (playbook) da Revolução Colorida da CIA.

O impacto dos protestos não seria possível se não houvesse uma rede de responsáveis políticos locais e estaduais dentro do Partido Democrata dando apoio aos protestatários, mesmo ao ponto de o presidente democrata da municipalidade de Seattle ordenar à polícia que abandonasse vários quarteirões no centro da cidade para a ocupação pelos protestatários.

Nos últimos anos grandes porções do Partido Democrata por todos os EUA têm sido silenciosamente capturadas pelo que alguém poderia considerar como candidatos da esquerda radical. Muitas vezes eles vencem com o apoio activo de organizações tais como Democratic Socialists of America ou Freedom Road Socialist Organizations. Na câmara baixa do parlamento o grupo vocal dos novos representantes em torno de Alexandria Ocasio-Cortez (D-NY), Rashida Tlaib e o deputado de Minneapolis Ilhan Omar são todos membros ou próximos do Democratic Socialists of America. Claramente, sem responsáveis locais democratas simpáticos nas cidades chave, os protestos de rua de organizações como Black Lives Matter e Antifa não teriam um impacto tão dramático.

Para compreender melhor quão sério é o actual movimento de protesto, deveríamos olhar para quem tem estado a despejar milhões no BLM. Em relação ao Antifa é mais difícil devido à sua forma explícita de organização anónima. No entanto, o seu Manual online recomenda abertamente que as “células” locais do Antifa se juntem aos capítulos do BLM.

FRSO: Sigam o dinheiro

O BLM começou em 2013 quando três activistas amigos criaram o hashtag #BlackLivesMatter para protestar contra alegações de disparo de um adolescente negro desarmado, Trayvon Martin por um vigia hispânico branco, George Zimmermann. Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi eram todos ligados e financiados por grupos de frente ligados a algo chamado Freedom Road Socialist Organization (FRSO), uma das quatro maiores organizações de esquerda radical dos Estados Unidos formada a partir de algo chamado New Communist Movement que se dissolveu nos anos 80.

Em 12 de Junho de 2020 o sítio web da Freedom Road Socialist Organization declara: “É tempo agora de aderir a uma organização revolucionária! Junte-se à Freedom Road Socialist Organization… Se esteve nas ruas nas últimas semanas, há boas probabilidades de que esteja a pensar acerca da diferença entre a espécie de mudança que este sistema tem para oferecer e a espécie de mudança que este país precisa. O capitalismo é um sistema fracassado que prospera sobre a exploração, desigualdade e opressão. A reaccionária e racista administração Trump tornou pior a pandemia. O desdobramento da crise económica que estamos a experimentar é o pior desde a década de 1930. O capitalismo monopolista é um sistema moribundo e precisamos ajudar a liquidá-lo. E é exactamente para isto que a Freedom Road Socialist Organization está a trabalhar “.

Em suma, os protestos sobre a alegada morte pela polícia de um homem negro no Minnesota estão agora a ser utilizados para apelas a uma revolução contra o capitalismo. O FRSO é um guarda-chuva para dezenas e grupos amorfos, incluindo o Black Lives Matter ou BLM. O que é interessante acerca das auto-descritas raízes marxistas da FRSO não é tanto a sua política de esquerda e sim o seu próprio estabelecimento financiado por um grupo de bem providas fundações com isenção fiscal.

Alicia Garza do BLM é também membro direcção, ou executiva, de cinco diferentes grupos de frente da Freedom Road incluindo a presidência da Right to the City Alliance, membro da direcção da School of Unity and Liberation (SOUL), da People Organized to Win Employment Rights (POWER), Forward Together e directora de Projectos Especiais da National Domestic Workers Alliance.

A Right to the City Alliance obteve US$6,5 million entre 2011 e 2014 de um certo número de muito bem estabelecidas fundações isentas de fisco, incluindo a Ford Foundation (US$1,9 milhão), das duas principais de George Soros – a Open Society Foundations e a Foundation to Promote Open Society com US$1,3 milhão. Também a Kellogg Foundation, ligada ao cornflake, contribuiu com US$250.000 e, curiosamente , a Ben & Jerry’s Foundation (sorvetes) com US$30.000.

Garza, como directora executiva da frente FRSO, também obteve dinheiro de da grande fundação POWER onde o antigo “czar dos empregos verdes” de Obama, Van Jones, que se auto-descreve como “comunista” e “nacionalista negro rebelde”, agora com a CNN, estava na direcção. Alicia Garza também presidiu a Right to the City Alliance, uma rede de grupos de activistas que se opõem à gentrificação urbana. Essa frente desde 2008 recebeu US$1,3 milhão da Ford Foundation, bem como US$600.000 das fundações de Soros e, mais uma vez, da Ben & Jerry’s (US$50.000). E a SOUL de Garza, a qual afirma ter treinado 712 “organizadores” em 2014, quando ela co-fundou o Black Lives Matter, obteve US$210.000 da Rockefeller Foundation e outros US$255.000 da Heinz Foundation (ketchup e família John Kerry) entre outros. Com o Forward Together da FRSO, Garza senta-se na direcção de uma “organização multi-racial que trabalha com líderes e organizações comunitárias para transformar a cultura e a política a fim de catalisar mudança social”. Esta oficialmente obteve US$4 milhões de receitas em 2014 e de 2012 a 2014 a organização recebeu um total de US$2,9 milhões da Fundação Ford (US$655.000) e outras fundações importantes .

O co-fundador da BLM, Opal Tometi, nascido na Nigéria, provavelmente veio da rede da FRSO. Tometi encabeçou a Black Alliance for Just Immigration, da FRSO. Curiosamente, com uma “equipe” de apenas dois esta obteve dinheiro das principais fundações incluindo a Kellogg Foundation com US$75.000 e fundações de Soros com US$100.000 e, mais uma vez, a Ben & Jerry’s (US$10.000). Tometi obteve US$60.000 em 2014 para dirigir o grupo .

A Freedom Road Socialist Organization que agora clama abertamente por uma revolução contra o capitalismo na esteira da morte de Floyd George tem um outro braço, The Advancement Project, o qual descreve-se a si próprio como “uma organização da próxima geração por direitos civis multi-raciais”. Sua direcção inclui um antigo Director de Envolvimento com a Comunidade do Departamento da Educação de Obama e um antigo assistente de procurador geral para direitos civis de Bill Clinton. Em 2013 o Advancement Project da FRSO obteve milhões das principais fundações isentas de fisco dos EUA incluindo a Ford (US$8,5 milhões), Kellogg (US$3 milhões), Hewlett Foundation fundadora da indústria de defesa da HP (US$2,5 milhões), Rockefeller Foundation (US$2,5 milhões) e fundações de Soros (US$8,6 milhões).

Dinheiro grosso e ActBlue

Em 2016, o ano das eleições presidenciais em que Hillary Clinton desafiava Donald Trump, Black Lives Matter tinha-se estabelecido como uma rede bem organizada. Nesse ano, a Fundação Ford e a Borealis Philanthropy anunciaram a formação do Fundo do Movimento de Leigos Negros (Black-Led Movement Fund, BLMF), “uma campanha conjunta de seis anos de doadores destinada a angariar US$100 milhões para a coligação Movement for Black Lives”, na qual o BLM era uma parte central. Nessa altura, as fundações Soros já haviam doado cerca de US$33 milhões em donativos ao movimento Black Lives Matter . Este foi o dinheiro a sério da fundação.

O BLMF identificou-se como sendo criado por fundações de topo incluindo, além da Fundação Ford, a Fundação Kellogg e as fundações Open Society de Soros. Eles descreveram o seu papel assim:   “O BLMF providencia doações, recursos para a construção de movimento e assistência técnica para organizações que trabalham para o avanço da liderança e visão de jovens, negros, homosexuais, feministas e líderes imigrantes que estão a modelar e liderar uma conversação nacional acerca de criminalização, policiamento e raça nos EUA”.

O Movement for Black Lives Coalition (M4BL), que inclui a Black Lives Matter, já em 2016 apelou ao “desfinanciamento de departamentos da polícia, reparações com base na raça, direito de voto para imigrantes ilegais, desinvestimento em combustíveis fósseis, fim à educação privada e das charter schools , um rendimento básico universal e faculdades gratuitas para negros “.

É notável que quando clicamos no sítio web da M4BL, no seu botão de doações aprendemos que elas virão de algo chamado ActBlue Charities. A ActBlue facilita doações para “democratas e progressistas”. Em 21 de Maio, a ActBlue havia dado US$119 milhões para a campanha de Joe Biden.

Isso foi antes dos protestos mundiais de 25 de Maio do BLM. Agora grandes corporações como a Apple, Disney, Nike e centenas de outras podem estar a despejar milhões incontáveis e não contabilizados na ActBlue sob o nome de Black Lives Matter, fundos que de facto podem ir para o financiamento da eleição de um presidente democrata, Biden. Talvez esta seja a verdadeira razão pela qual a campanha de Biden tem estado tão confiante no apoio dos eleitores negros. O que fica claro apenas neste relato sobre o papel crucial das fundações do dinheiro grosso por trás de grupos de protesto como o Black lives Matter é que existe uma agenda muito mais complexa que impulsiona os protestos que agora desestabilizam cidades por toda a América. O papel das fundações isentas de impostos ligadas às fortunas das maiores empresas industriais e financeiras como Rockefeller, Ford, Kellogg, Hewlett e Soros diz que há uma agenda muito mais profunda e sinistra para os distúrbios actuais do que o ultraje espontâneo sugeriria.

O BANDITISMO COMO INSTRUMENTO DA ORDEM INTERNACIONAL

Kosovo honours Bill Clinton - Emerging Europe | Intelligence ...

Por: José Goulão

Elon Musk, dono da Tesla, um dos homens mais ricos do mundo, twittou tranquilamente, como quem anuncia que vai jogar ténis, que “daremos o golpe em quem quisermos”. E aconselhou: “lidem com isso”. As palavras foram escritas num contexto relacionado com o golpe fascista na Bolívia, que permitiu a Musk desbloquear o livre acesso às maiores reservas de lítio do mundo, essenciais para a parte gorda dos seus negócios, os acumuladores de energia.

Musk é idolatrado pela comunicação social corporativa, um “rapaz traquinas”, talvez um pouco desbocado mas com dotes de génio para a sua actividade empresarial, tal como outros magnatas da moda como Mark Zuckerberg do Facebook, Richard Branson da Virgin, Jeff Bezos da Amazon, Bill Gates e alguns outros – a nata do regime neoliberal globalista, da riqueza “blasée” cultivada com muita “filantropia” e que, apesar das divergências de “estilo”, se revê perfeitamente em Donald Trump embora prefira apostar os financiamentos em Joe Biden.

Repare-se no plural majestático usado pelo dono da Tesla: “daremos o golpe”. Ou seja, as mudanças violentas de regimes políticos, a transformação de sistemas democráticos em ditaduras são obras colectivas, dele próprio e de muitos outros, de um aparelho subversivo às ordens de um sistema institucional representando os grandes interesses que mandam no mundo. O recado fica dado: Musk & Cia dão e darão o golpe onde for preciso se isso for indispensável para os seus negócios, interpretados de maneira abrangente como o “nosso civilizado modo de vida”. Instauram-se assim ditaduras que passam a ser reconhecidas como fruto da “reposição da democracia”, estabelece-se o banditismo golpista como garante da única “democracia” autorizada.

O “nosso” carniceiro dos Balcãs

Não é novidade que o banditismo é um instrumento que contribui para modelar a ordem internacional permitida, a unipolar; e que alguns seguidores, designadamente ao nível da União Europeia, querem fazer-nos crer multipolar.

Não surpreende, portanto, que os exemplos de tal comportamento sejam múltiplos e multifacetados, não se ficando, como é óbvio, pelos golpes de Estado clássicos.

Há poucos dias chegaram finalmente à justiça internacional de Haia os ecos de um segredo religiosamente guardado pelo mainstream mas que há mais de uma década é uma verdade banal para quem não consome apenas a comunicação “fast food”: o “presidente” do Kosovo e ex-“primeiro-ministro” da mesma entidade, Hashim Thaci, é acusado de crimes de guerra entre os quais avultam o assassínio de presos políticos seguido de extracção e comercialização dos seus órgãos internos no mercado negro internacional.

Há muito que Carla del Ponte, ex-procuradora do Tribunal Internacional para a ex-Jugoslávia, revelara esta realidade macabra. Tal como o investigador britânico Dick Marty, autor em 2011 de um pormenorizado e revelador relatório sobre o mesmo assunto para o Conselho da Europa.

Hoje existem elementos mais do que suficientes para estarmos certos de que Hashim Thaci e o seu Exército de Libertação do Kosovo (ELK), de tipo “islâmico”, constituem uma associação de malfeitores, uma entidade mafiosa ao serviço dos Estados Unidos e da NATO no processo de terrorismo militar e político que culminou com os bombardeamentos da Sérvia pela Aliança Atlântica em 1999 e a posterior “independência” do Kosovo – ainda não reconhecida no âmbito do direito internacional. Um processo que envolveu a encenação de “massacres” como o de Racak – que serviu de pretexto para os bombardeamentos efectuados pela NATO – e também limpezas étnicas no próprio Kosovo, de que a principal vítima foi e continua a ser a minoria sérvia.

A narrativa oficial da NATO, a única veiculada pela comunicação corporativa, explica-nos ainda hoje que tudo foi necessário para extirpar da região o “novo Hitler” e “carniceiro dos Balcãs”, Slobodan Milosevic. Daí que o atlantismo tenha recorrido a Hashim Thaci e seus correligionários, traficantes de órgãos humanos, de heroína, de escravos sexuais, a quem foi entregue formalmente a gestão do Kosovo “independente” como protectorado dos Estados Unidos e da NATO. Parafraseando o inconfundível Henry Kissinger poderemos então deduzir que Hashim Thaci foi, também ele, um “carniceiro dos Balcãs”, porém “o nosso carniceiro”, impoluto defensor dos interesses do “nosso mundo civilizado”,

Réplicas no Oriente

Poder-se-á dizer que uma vez não são vezes, que a frutuosa parceria da NATO com o banditismo nos Balcãs se justificou pelos superiores interesses da humanidade – por exemplo instalar no Kosovo a maior base militar regional dos Estados Unidos, o campo de Bondsteel – e daí não extravasou.

Nem os mais ingénuos acreditarão que assim foi.

O Tribunal Penal Internacional de Haia está a tentar, a duras penas, reunir dados sobre comportamentos das tropas norte-americanas e da NATO no Afeganistão passíveis de incorrer em crimes de guerra. Os Estados Unidos já reagiram – perante a passividade cúmplice dos “aliados” – ameaçando os dirigentes do tribunal com sanções, vedando-lhes o acesso ao território norte-americano, o que evidencia a pureza de consciência de quem assim procede.

Perante isto torna-se muito improvável que a justiça internacional consiga aprofundar, de maneira equilibrada, os comportamentos de todos os campos envolvidos em guerras sem fim como são as do Iraque, da Síria, da Líbia.

O caso líbio seria uma importante pedra de toque porque decorre de outra situação de aliança assumida entre uma organização ao serviço “da democracia”, a NATO, e o banditismo político-religioso, igualmente representado por grupos de mercenários ditos “islâmicos”. Foram estes que, protegidos pelo fogo atlantista que não cuidou de saber de civis – tal como acontecera na Sérvia – foram instaurar a “democracia” em Tripoli. E que belo exemplar de “regime democrático” ali ficou.

Não é novidade – por muito escondida que seja – que no Iraque e, sobretudo, na Síria os interesses ocidentais jazem nas mãos do banditismo “islâmico”, sob capa de “moderado” mas sob o comando operacional da al-Qaida e, agora menos, do Estado Islâmico. Existe, aliás, uma marca indelével no território sírio que testemunhará durante muitos anos essa profícua e sangrenta aliança: a gigantesca multinacional francesa Lafarge construiu a maior rede de túneis e subterrâneos desde a Segunda Guerra Mundial para ser usada, desta feita, pelos bandos de mercenários da al-Qaida. Razão tem Musk em usar o plural majestático a propósito de estas actividades regeneradoras da “democracia”.

Pirataria de colarinho branco

Não se pense, porém, que o banditismo ao serviço da ordem internacional se esgota em golpes de Estado fascistas e em guerras.

Os criminosos vestem roupas caras de marca quando se trata de praticar actos de pirataria apresentados como salvaguardas de legitimidades institucionais e constitucionais. O roubo do ouro venezuelano no valor de mil milhões de euros, depositado no Banco de Inglaterra, para ser entregue a um criminoso encartado como Juan Guaidó, como ficou privado na recente tentativa de assalto mercenário contra a Venezuela, é um refinado caso de banditismo de colarinho branco.

O governo legítimo de Caracas tentou mobilizar o ouro com a finalidade de comprar alimentos e medicamentos para a população, sujeita às sevícias das sanções internacionais impostas por Estados Unidos e aliados. Sanções são, como é bom de ver, actos de banditismo contra os povos, decididos arbitrariamente para penalizar governos que não cumprem as normas “democráticas” como aquelas que são instauradas, por exemplo, por via de golpes de Estado ou de grotescas usurpações de cargos políticos.

Quanto à barbárie das sanções não existe dúvida, porque é confessada pelos próprios autores. William Brownfield, ex-embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, aconselha a encará-las como “uma agonia, uma tragédia continuada até ter um desfecho”. Além disso, explica Brownfield, devem ser aceleradas “percebendo que terão impacto negativo em milhões de pessoas que já estão com dificuldades em encontrar alimentos e medicamentos”. Porém, acrescenta o ex-embaixador, “os fins desejados justificam o severo castigo”.

Presume-se portanto, através de quem as impõe, que as sanções têm inegáveis fins civilizacionais e “democráticos”, mesmo que provoquem a morte de dezenas de milhares de pessoas inocentes. Como disse o almirante norte-americano Kurt Tidd, ex-chefe do Comando Sul dos Estados Unidos ao apresentar o plano “Venezuela Freedom (Liberdade) 2”, é preciso “recorrer à matriz através da qual a Venezuela entre numa etapa de crise humanitária por falta de alimentos, água e medicamentos”.

Arrasar hospitais é “democrático”

Tendo em consideração estes exemplos de recurso à criminalidade em nome dos mais puros ideais “democráticos” não surpreende que as tropas israelitas, na sequência de muitos outros actos contra famílias civis, tenham arrasado, em 21 de Julho, o hospital de campanha e o centro de testes de Hebron erguidos por palestinianos para combater o maior foco de COVID-19 nos territórios ocupados. O mesmo acontecera em Março com o hospital de Khirbet Ibziq, igualmente na Cisjordânia. Israel, como atestará qualquer meio de comunicação corporativo e respectivos fact-checkers, é “a única democracia do Médio Oriente”.

Como se percebe, a cumplicidade entre banditismo puro e a defesa e propagação do “nosso civilizado modo de vida” revela-se através de uma cadeia contínua e interminável de factos e exemplos. Claro que os outros, os incivilizados modos de vida, recorrem naturalmente ao banditismo, por inerência. Por isso, assim como existe o “nosso” carniceiro dos Balcãs também devemos considerar a prática do banditismo com fins considerados legítimos, mesmo que sacrifiquem milhares e milhares de vidas humanas inocentes.

Digamos que se trata de seguir uma ética escrita algures nas estrelas e que legitima as práticas e as fortunas dos Musks, as atitudes dos governos de Trumps ou Bidens, as arbitrariedades contra os cidadãos cometidas pelos eurocratas, fardados ou não conforme estejam de serviço na NATO ou na União Europeia – em qualquer dos casos sob tutela de Washington.

Pelo que seria assisado e verdadeiramente democrático que as instituições representativas da República Portuguesa se dissociassem de cumplicidades com a “independência do Kosovo” e respectivo “presidente” Thaci, com indivíduos do submundo do crime como Juan Guaidó, com as missões coloniais da Aliança Atlântica, com a imposição de sanções que têm populações inocentes como vítimas principais, com as práticas fascistas e racistas de Israel, com a manutenção de guerras sem fim. Já agora convinha conhecer, finalmente, um parecer de Lisboa sobre o golpe fascista da Bolívia: viria a propósito, porque o regime usurpador acaba de adiar pela terceira vez as prometidas eleições gerais.

Ou será pedir muito que se cultive o respeito pela Constituição da República Portuguesa? 

O discurso da desesperança: Como o pessimismo palestino poderia provocar uma rebelião muito necessária

RESISTIR! Uma imagem icónica da resistência palestina | a República

Por: Ramzy Baroud

– O maior desafio da Palestina não é o fato de as pessoas não se considerarem um fator na libertação de sua própria terra e sim a incapacidade da sua liderança em reconhecer o imenso potencial de energia dos palestinos em toda a parte para um enfoque anticolonial, centrado e estratégico, uma campanha de libertação.

Numa recente discussão televisiva, um respeitado jornalista pró-Palestina declarou que se alguma vez ocorrer uma mudança ou transformação positiva na trágica saga palestina, não seria agora, pois seria necessário uma geração completamente nova para conseguir uma mudança de paradigma… Tão inócua como possa parecer, a declaração incomodou-me muito. Escutei essa frase uma e outra vez, frequentemente reiterada por intelectuais bem-intencionados, cujas experiências ao investigar e escrever sobre o chamado ‘conflito israelo-palestino’ podem ter levado alguns deles ao pessimismo, se não a desesperança. O ‘discurso da desesperança’ é, talvez, compreensível se alguém examina a realidade tangível e desagradável sobre o terreno: a ocupação israelense cada vez mais arraigada, a anexação planejada da terra palestina ocupada na Cisjordânia, a vergonhosa normalização árabe com Israel, o silêncio ensurdecedor da comunidade internacional e a inutilidade da liderança palestina. Endossar essa lógica não é apenas contraproducente, é também a-histórico. Ao longo da história cada grande conquista que trouxe liberdade e um pouco de justiça a qualquer nação se realizou apesar de probabilidades aparentemente insuperáveis. De fato, quem teria pensado que o povo argelino fosse capaz de derrotar o colonialismo francês quando suas ferramentas de libertação eram tão rudimentares em comparação com os incríveis poderes do exército francês e seus aliados? A mesma noção se aplica a muitas outras experiências históricas modernas, desde o Vietnã até a África do Sul, desde a Índia até Cuba.

A Palestina não é a exceção. Entretanto, o “discurso da desesperança” não é tão inocente quanto parece. Ele se deve a persistente incapacidade de reconhecer a centralidade do povo palestino, ou qualquer outra pessoa, para o caso, em sua própria história. Ademais, supõe que o povo palestino é, francamente, ineficaz. Curiosamente, quando muitas nações ainda estavam lidando com o conceito de identidade nacional, o povo palestino já havia desenvolvido um sentido refinado de identidade coletiva moderna e consciência nacional. As greves gerais de massas e a desobediência civil que desafiam o imperialismo britânico e os assentamentos sionistas começaram há quase um século, culminando na greve geral de seis meses de duração de 1936. Desde então, a resistência popular, que está vinculada a um sentido definido de identidade nacional, tem sido um elemento básico na história palestina. Foi uma característica destacada na Primeira Intifada, o levantamento popular de 1987. O fato de que a pátria palestina se perdiesse, apesar da maior consciência das massas palestinas nesse momento, não é indicativo da capacidade do povo palestino para afetar os resultados políticos.

Reiteradamente os palestinos se rebelaram e, com cada rebelião, obrigaram todas as partes, incluindo Israel e os Estados Unidos, a reconsiderar e rever suas estratégias por completo. Um exemplo disso foi a Primeira Intifada. Quando, em 8 de dezembro de 1987, milhares saíram às ruas do campo de refugiados de Jabaliya, o campo mais povoado e pobre da Faixa de Gaza, o momento e o lugar do levantamento foram mais adequados, racionais e necessários. Nesse mesmo dia, um caminhão israelense havia atropelado um comboio de automóveis que transportavam trabalhadores palestinos, matando a quatro homens jovens. Para Jabaliya, como para o resto da Palestina, foi a gota d’água. Respondendo aos cantos e súplicas dos sofredores de Jabaliya, Gaza foi, em questão de dias, o terreno fértil para uma verdadeira revolução autopromovida e inquebrantável. Os cantos dos palestinos na Faixa de Gaza foram respondidos na Cisjordânia e ecoaram nas cidades palestinas, inclusive naquelas localizadas em Israel.

Manifestantes palestinos lançam pedras e garrafas contra as tropas da entidade nazi-sionista. Nablus, na Cisjordancia ocupada, 13/Dezembro?1987

A energia contagiosa de crianças e jovens que queriam reclamar as identidades de seus antepassados que haviam sido horrivelmente desfigurados e divididos entre regiões, países e campos de refugiados, era emblemática. A Intifada, que literalmente significa “sacudir-se”, enviou uma poderosa mensagem à Israel de que o povo palestino está vivo e ainda é capaz de alterar todos os esforços coloniais de Israel. A Intifada também enfrentou o fracasso das lideranças palestinas e árabes, que persistiram nas suas políticas de facções e egoístas. De fato, as conversações de Madrid de 1991 entre palestinos e israelenses foram entendidas como um compromisso israelo-estadunidense, destinado a terminar com a Intifada em troca do reconhecimento da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) como representante do povo palestino. Os Acordos de Oslo, assinados por Yasser Arafat e Israel em 1993, desperdiçaram os ganhos da Intifada e, em última instância, substituíram a OLP, que era mais democraticamente representativa, pela Autoridade Palestina corrupta.

Mas mesmo então o povo palestino continuou regressando, reclamando, à sua maneira, sua importância e centralidade na luta. A Grande Marcha de Retorno de Gaza é apenas uma das muitas iniciativas impulsionadas pelas pessoas. O maior desafio da Palestina no movimento não é o fato de que as pessoas não se considerem como um fator de libertação de sua própria terra e sim a incapacidade da sua liderança em reconhecer o imenso potencial de aproveitar as energias dos palestinos em todos os lugares para um enfoque anticolonial, centrado e estratégico, campanha de libertação anticolonial. Essa falta de visão remonta aos finais da década de 1970, quando os líderes palestinos trabalharam para se comprometer politicamente com Washington e outras capitais ocidentais, culminando no sentido dominante de que, sem a validação política dos Estados Unidos, os palestinos seriam sempre marginais e irrelevantes. Os cálculos da liderança palestina naquele momento resultaram desastrosos. Depois de décadas satisfazendo as expectativas e os ditames de Washington, a liderança palestina, em última instância, regressou com as mãos vazias, como finalmente demonstrou o ‘Acordo do Século’ da atual administração de Donald Trump. Falei recentemente com duas jovens ativistas palestinas: uma é da Gaza sitiada e a outra da cidade de Seattle. O discurso progressista delas é, em si mesmo, um testemunho de que o pessimismo de alguns intelectuais não define o pensamento dessa nova geração palestina, e que não há necessidade de descartar os esforços coletivos desta geração ainda muito nova com vistas ao surgimento de uma “melhor”. Malak Shalabi, um estudante de direito que mora em Seattle, não transmite uma mensagem de desesperança e sim de ação. “É realmente importante que cada palestino e cada ativista de direitos humanos defenda a causa palestina independentemente de onde se encontrem, e é importante, especialmente agora”, me disse. “Atualmente há irrupções de movimentos sociais aqui nos Estados Unidos, em torno dos direitos civis para os negros e de outros temas que estão (se convertendo) temas prementes – igualdade e justiça – na corrente principal. Como palestinos, é importante que também nós levemos a causa palestina à corrente principal “, acrescentou. “Há muito trabalho entre os ativistas palestinos aqui nos Estados Unidos, a nível social, econômico e político, para assegurar que se produza um vínculo entre o Black Lives Matter e a Palestina”, acrescentou.

Por sua vez, Wafaa Aludaini, em Gaza, falou dos incansáveis esforços de sua organização, a 16 de outubro, para envolver as comunidades de todo o mundo e tornar conhecidos os crimes de guerra israelenses ali praticados e por fim ao assédio prolongado na faixa empobrecida. “Os palestinos e ativistas pró-palestina no exterior são importantes porque fazem que nossas vozes se escutem fora da Palestina, já que os principais meios não informam (a verdade sobre) o que está acontecendo aqui”, me disse. Para que estes esforços tenham êxito, “todos necessitamos estar unidos”, afirmou, referindo-se ao povo palestino em casa e na diáspora, e ao movimento de solidariedade pró-palestina em todas as partes, também. As palavras de Malak e Wafaa estão validadas pela crescente solidariedade com a Palestina no movimento BLM, assim como com numerosos outros movimentos de justiça em todo o mundo. Em 28 de junho, a divisão do BLM no Reino Unido tuitou que “orgulhosamente” se solidariza com os palestinos e rechaça os planos de Israel de anexar grandes áreas da Cisjordânia. BLM foi além, criticando a política britânica por ser “amordaçada do direito de criticar o sionismo e as atividades coloniais dos colonos de Israel”.

Repetir a afirmação de que toda uma nova geração necessita substituir a atual para que ocorra qualquer mudança na Palestina é um insulto, ainda que, às vezes, sem intenção, a gerações de palestinos, cuja luta e sacrifícios estão presentes em todos os aspectos da vida palestina. Simplesmente porque as probabilidades acumuladas contra a liberdade palestina parecem demasiado grandes nesse momento, não justifica deixar de contar com uma nação inteira, que viveu muitas guerras, assédios prolongados e dificuldades incalculáveis. Além disso, a próxima geração não é mais que uma mera evolução da consciência da geração atual. Não podem ser desvinculadas e analisadas separadamente. Em seus “Cadernos do Cárcere”, o intelectual antifascista Antonio Gramsci cunhou o termo “pessimismo do intelecto, otimismo da vontade”. Se bem que a análise lógica de uma situação possa levar o intelecto ao desespero, o potencial de revoluções e transformações sociais e políticas deve nos manter a todos motivados para mantermos a luta, sem importar as probabilidades.

ISRAEL ARRASA INSTALAÇÕES PALESTINIANAS CONTRA A COVID-19

Israel pede ajuda de parlamentares dos EUA para se defender de ...

Por: Alan Macleod

Tropas israelitas arrasaram há uma semana um hospital e um centro de testes acabados de construir por palestinianos em Hebron para combater a COVID-19; em Março tinham feito o mesmo em Khirbet Ibziq, também na Cisjordânia. Tanto as chamadas “democracias liberais” como as “iliberais” da União Europeia guardam um recatado silêncio perante estas atrocidades que enxovalham os direitos humanos em tempos de pandemia. As autoridades sionistas cometeram o crime com requinte: começaram por exigir licenças de construção quando são elas próprias que negam essas autorizações a palestinianos nos territórios ocupados. Israel é, como tantas vezes se repete no “mundo civilizado”, “a única democracia no Médio Oriente”.

A decisão israelita de arrasar um hospital de campanha e um centro de testes da COVID-19 acabados de construir em Hebron, na Cisjordânia, tem vindo a ser condenada por activistas, grupos de defesa dos direitos humanos e por dirigentes palestinianos. “Demolir um centro de testes da COVID-19 é, sem dúvida, a melhor maneira de Israel provocar o desperdício de fundos destinados a apoiar as populações sob ocupação”, adverte o grupo pacifista Codepink, dirigido por mulheres. “Esta obsessão israelita por destruir a Palestina, inclusivamente através da inutilização dos recursos destinados a combater uma pandemia, é uma doença séria”, acrescenta.

Em 18 de Julho, as forças israelitas de ocupação entregaram uma ordem de demolição aos responsáveis de uma clínica de campanha e centro de testes da COVID-19 erguida na entrada norte da cidade de Hebron. Construídas com o apoio do município, as instalações tinham-se tornado imprescindíveis nesta zona, que é a mais atingida pela epidemia em todos os territórios palestinianos ocupados. No dia 21 de Julho, as tropas israelitas arrasaram as construções e todo o seu conteúdo.

Os promotores da construção das instalações de saúde tinham conseguido angariar 250 mil dólares norte-americanos de financiamento. O terreno foi doado pela família do engenheiro Raed Maswadeh em memória do avô, que faleceu recentemente vítima do novo coronavírus.

Raed Maswadeh explicou aos jornalistas da publicação Middle East Eye que os soldados israelitas assistiam há meses aos trabalhos de construção sem dizer nada. Hebron é uma região dita de “autonomia palestiniana” fortemente militarizada e policiada pelas forças de ocupação, que encorajam e protegem as constantes acções violentas dos colonos sionistas contra a generalidade da população.

Há cerca de duas semanas, segundo Maswadeh, as tropas ocupantes foram instruídas para passar a exigir licenças de construção aos promotores, uma coisa impossível de conseguir quando se trata de erguer edifícios para palestinianos nos territórios “autónomos” administrados, na prática, pelas autoridades israelitas. Os soldados advertiram que se os construtores não conseguissem as licenças de edificação as obras seriam arrasadas. E assim aconteceu.

Na circunstância de pouco valeu a indignação do presidente do município de Hebron, Tayseer Abu Sneineh, eleito pela maioria da população palestiniana. “Estamos no meio de uma crise global, numa situação de emergência onde poderíamos ser levados a pensar que eles mostrariam alguma empatia ou dariam alguma margem às pessoas, mas não estão interessados nisso”, disse. Abu Sneineh sublinhou que “isto mostra claramente que Israel não tem consideração por qualquer vida palestiniana; eles não nos concedem quaisquer dos direitos básicos de saúde, nem sequer os que permitiriam tratar o nosso povo contra o coronavírus”.

O silêncio cruel da União Europeia

Os promotores da iniciativa sanitária em Hebron não estão apenas revoltados com as autoridades de ocupação mas também com os governos ocidentais que lhes dão cobertura: neste caso respondendo com o silêncio a mais uma atrocidade contra os direitos humanos. “Não se ouve uma palavra da União Europeia sobre a destruição do hospital de emergência”, sublinha Ali Abunimah, co-fundador do website Intifada Electrónica. “Quando não é o silêncio são migalhas de caridade lançadas aos palestinianos”, acusou. “Não permitiremos que a União Europeia tente lavar com essas migalhas a cumplicidade e o apoio aos crimes de guerra israelitas”.

Entretanto, a situação gerada pelo novo coronavírus na região parece estar fora de controlo. 

Apesar de Israel ter dado a sensação de conseguir travar com êxito os primeiros surtos, a verdade é que surgiu uma segunda vaga de infecções muito pior do que qualquer episódio ocorrido até agora. No auge da pandemia, no início de Abril, Israel registou em média cerca de 600 novos casos por dia. Num dos últimos dias o número de contaminações foi superior a duas mil.

Os territórios palestinianos perdem igualmente o controlo da situação, uma vez que só no mês de Julho foram registados 57 dos 64 óbitos por coronavírus.

Nikolay Mladenov, coordenador especial das Nações Unidas para o chamado “processo de paz” no Médio Oriente, alertou recentemente que o aumento de casos é um motivo acrescido para a instabilidade na região devido às suas consequências potencialmente perigosas. Sugeriu novas “medidas extraordinárias” para combater a disseminação do vírus; a destruição do hospital e do centro de testes de Hebron é precisamente o contrário do que Mladenov defendeu.

Comportamento habitual

Embora a destruição de infraestruturas sanitárias em tempos de pandemia possa chocar muitas pessoas, trata-se, contudo, de uma prática que se insere no comportamento comum das tropas israelitas de ocupação. Em Março, as tropas ocupantes tinham feito o mesmo com o novo hospital de campanha na zona de Khirbet Ibziq, na Cisjordânia; destruíram as instalações e confiscaram equipamentos médicos e materiais de construção. “Enquanto o mundo inteiro luta contra uma crise de saúde sem precedentes e paralisante, as forças armadas de Israel dedicam tempo e recursos a assediar as comunidades palestinianas mais vulneráveis da Cisjordânia, que são alvos para expulsão há muitas décadas”, escreveu o grupo israelita de direitos humanos B’Tselem. “Destruir iniciativas comunitárias de primeiros socorros durante uma crise de saúde é um exemplo especialmente cruel dos abusos regulares infligidos a essas comunidades e vai contra todos os princípios humanos e humanitários básicos, sobretudo numa situação de emergência”, acrescentou. 

O governo israelita tem vindo a anunciar planos para anexar formalmente até mais um terço da Palestina, incluindo grande parte do fértil Vale do Jordão, a fonte de alimentação da Palestina. Com base no chamado “acordo do século”, elaborado por Trump e Netanyahu, o plano prevê a inclusão de mais cerca de 70 mil palestinianos sob a jurisdição racista israelita. Até a alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos, a chilena Michelle Bachelet – silenciosa perante o golpe fascista na Bolívia e os atentados contra a Venezuela – qualificou os planos de anexação como “ilegais” e “desastrosos”. O dr. Ramzy Baroud, jornalista palestiniano também com nacionalidade norte-americana, declarou recentemente que a população da Cisjordânia “já está sob completo controlo israelita, uma vez que todas as movimentações e liberdades estão restringidas para os palestinianos”; no entanto, acrescentou, o plano de Trump e Netanyahu torna a situação ainda pior, “será o último prego no caixão do chamado processo de paz”.

A infernal máquina brasileira de lavar dinheiro

Moro critica governo Bolsonaro por falta de agenda anticorrupção

Por: Pepe Escobar

Duas décadas depois de um terremoto político, um potente tremor secundário que deveria sacudir o Brasil está sendo recebido com um silêncio estrondoso.

O que agora é chamado de “vazamentos do Banestado” e “CC5gate” é algo parecido com o antigo caso WikiLeaks:   uma lista publicada pela primeira vez na íntegra, dando nomes e detalhando um dos maiores casos de corrupção e lavagem de dinheiro do mundo nas últimas três décadas.

Esse escândalo pode nos proporcionar o saudável exercício daquilo que Michel Foucault reconhecera como uma “arqueologia do saber”:   sem entender esses vazamentos, é impossível colocar no devido contexto eventos que vão dos sofisticados ataques de Washington ao Brasil – inicialmente via NSA [National Security Agency (Agência de Segurança Nacional norte-americana)], espionando o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff (2010-2014) – até a operação “Lava Jato”, que pôs na cadeia Luis Inácio Lula da Silva e abriu o caminho para a eleição do presidente neofascista Jair Bolsonaro.

O crédito pelo furo jornalístico desta trama de guerra híbrida orwelliana deve ser tributado, mais uma vez, à mídia independente. O pequeno site Duplo Expresso , liderado pelo jovem e ousado advogado internacional Romulus Maya, radicado em Berna, foi quem publicou a lista pela primeira vez.

Uma épica live de cinco horas reuniu os três principais protagonistas da denúncia do escândalo, no final dos anos 90, e que agora se dispõem a confrontá-lo novamente:   o então governador do Estado do Paraná, Roberto Requião, o promotor federal Celso Três e o agora superintendente aposentado da Polícia Federal, José Castilho Neto.

Anteriormente, em outra live , Maya e o antropólogo Piero Leirner, principal analista de guerra híbrida do Brasil, informaram-me sobre as inúmeras complexidades políticas dos vazamentos, enquanto discutíamos a geopolítica no Sul Global.

As listas do CC5 estão aqui , aqui e aqui . Vejamos o que as torna tão especiais.

O mecanismo

Em 1969, o Banco Central do Brasil criou o que viria a ser conhecida como a “conta CC5”, para facilitar empresas e executivos estrangeiros na transferência legal de pequenos ativos para o exterior. Por muitos anos, o fluxo de caixa nessas contas não foi significativo. Então, nos anos 90, tudo mudou, com o surgimento de uma grande e complexa movida criminosa focada na lavagem de dinheiro [N. do T. preferiu-se aqui, com o termo “movida”, em parte fazer uma evocação ao bem conhecido movimento boêmio-cultural espanhol , como uma onda, uma agitação, mas também evocar a polissemia que o termo guarda no castelhano latino-americano ].

A investigação original do Banestado começou em 1997. O promotor federal Celso Três ficou surpreso ao descobrir que, de 1991 a 1996, o equivalente a nada menos que 124 mil milhões de dólares havia sido transferido para o exterior. No final das contas, durante toda a existência dessa movida (de 1991 a 2002), o total escalaria para 219 mil milhões de dólares – situando o Banestado no cerne de um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro do mundo em todos os tempos

O relatório do promotor Celso Três deu origem a uma investigação federal, que partiu de Foz do Iguaçu – estrategicamente situada na tríplice fronteira Brasil, Argentina e Paraguai –, onde os bancos locais lavavam fundos vultosos através de suas contas CC5.

Eis como funcionava:   os doleiros do mercado negro, em conluio com funcionários dos bancos e do governo, faziam uso uma vasta rede de contas bancárias, em nome de insuspeitos laranjas[1] e de empresas fantasmas, para lavar recursos ilegais oriundos de corrupção pública, fraude tributária e crime organizado, em especial por meio do Banco do Estado do Paraná ( Banestado ) em Foz do Iguaçu. Daí chamar-se “caso Banestado”.

Até 2001, a investigação federal parecia não chegar a lugar algum, quando então o superintendente da Polícia Federal José Castilho constatou que a maioria das transferências estava, na verdade, caindo em contas da agência do Banestado em Nova York. Castilho foi a Nova York em janeiro de 2002 para acelerar o necessário rastreamento internacional dos fundos.

Através de uma ordem judicial, Castilho e sua equipe revisaram 137 contas do Banestado em Nova York, acompanhando a movimentação de 14,9 mil milhões de dólares. Em alguns casos, os nomes dos beneficiários eram os mesmos de políticos brasileiros que atuavam no Congresso, ministros e até ex-presidentes.

Depois de um mês em Nova York, Castilho volta ao Brasil com um relatório de 400 páginas. Apesar das evidências esmagadoras, ele foi removido da investigação, suspensa então por, pelo menos, um ano. Quando o novo presidente Lula assume o governo no início de 2003, Castilho volta à ação.

Em abril de 2003, Castilho identificou uma conta particularmente interessante no banco Chase Manhattan, chamada “Tucano” – alcunha do PSDB, liderado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), no poder antes de Lula e que mantivera laços muito próximos às máquinas políticas do presidente norte-americano Bill Clinton e do primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Castilho foi fundamental na criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso Banestado. Mas, mais uma vez, essa Comissão não levou a lugar algum. Não houve sequer a votação de um relatório final. A maioria das empresas negociou acordos com a Receita Federal do Brasil e, assim, encerrou qualquer possibilidade de ação judicial no que respeita à sonegação de impostos.

O caso Banestado encontra a Lava Jato

Em essência, os dois maiores partidos políticos, o PSDB neoliberal, de FHC, e o Partido dos Trabalhadores, de Lula – que jamais enfrentaram de fato as maquinações imperialistas e a classe rentista brasileira – participaram ativamente para enterrar uma investigação aprofundada do caso.

Além disso, ao suceder a FHC, Lula, de forma consciente ou talvez na intuição de preservar a governabilidade, tomou a decisão estratégica de não investigar a corrupção tucana, embalada por uma série de privatizações desonestas.

Os promotores de Nova York chegaram ao ponto de preparar uma lista especial do Banestado para Castilho, com o que realmente importava para o processo criminal:   o circuito completo do esquema de lavagem de dinheiro, apresentando os fundos inicialmente remetidos de forma ilegal para fora do Brasil, por meio das contas CC5; sua passagem através das agências, em Nova York, dos bancos brasileiros envolvidos; até chegar nas contas e fundos fiduciários dos paraísos fiscais (por exemplo, Cayman, Jersey, Suíça); para só então retornar ao Brasil sob a forma – plenamente lavada – de “investimento estrangeiro”, quando então se prestariam ao uso real e gozo dos beneficiários finais, os verdadeiros donos do dinheiro.

No entanto, o ministro da Justiça brasileiro, Marcio Thomaz Bastos, nomeado por Lula, bloqueou o avanço das investigações. Como nota metaforicamente o superintendente Castilho:   “Isso me impediu de voltar ao Brasil com o cadáver do crime”.

Embora Castilho nunca tenha posto as mãos nesse documento crítico, pelo menos dois deputados brasileiros, dois senadores e dois promotores federais, que mais tarde ascenderiam à fama como “estrelas” da operação Lava Jato – Vladimir Aras e Carlos Fernando dos Santos Lima, – o teriam obtido . Por que e como o documento – chamêmo-lo de “saco de corpos” – nunca foi encontrado nos processos criminais no Brasil é ainda um mistério complementar a cobrir todo o enigma.

Enquanto isso, existiriam relatórios “não confirmados” (várias fontes se esquivam em registrar isso) de que esse documento pode ter sido usado para extorquir os envolvidos, majoritariamente bilionários, que figuram na lista.

Moro enterrou o caso

O condimento extra, na esfera judicial, está no fato de que o juiz estadual acusado por alguns de enterrar o caso Banestado não era outro senão Sergio Moro, a figura autoassumida como o Elliot Ness dos trópicos, que na próxima década alcançaria a condição de superestrela, como o capo di tutti capi da Lava Jato e daí, por consequência, ministro da Justiça de Bolsonaro. Moro acabou renunciando e agora já está, de fato, fazendo campanha para concorrer à presidência em 2022.

E aqui chegamos à conexão tóxica Banestado-Lava Jato. Considerando especulações, sobre o suposto modus operandi de Moro na Lava Jato, de alterar nomes nos documentos com a finalidade de pôr Lula na cadeia, o desafio agora seria provar se Moro “vendia” não-condenações no caso Banestado. Ele dispunha de uma desculpa legal conveniente:   sem o “corpo do crime” arrolado no processo criminal no Brasil, ninguém poderia ser considerado culpado.

À medida que mergulhamos nos detalhes excruciantes, o Banestado se parece cada vez mais com o fio de Ariadne que pode desvelar o começo da destruição da soberania do Brasil. Um conto cheio de lições a serem aprendidas por todo o Sul Global.

O rei do dólar paralelo

Naquela live épica, Castilho fez soar um alarme quando se referiu a 17 milhões de dólares que haviam transitado pela filial do Banestado em Nova York e depois, de todos os lugares do mundo possíveis, acabou sendo enviado para o Paquistão. Ele e sua equipe descobriram isso apenas alguns meses após o 11 de setembro. Enviei-lhe algumas perguntas sobre o assunto, e ele respondeu, por meio de Romulus Maya, que seus investigadores podem desenterrar tudo novamente, pois um relatório indicaria a origem desses fundos.

É a primeira vez que essas informações são divulgadas – e suas ramificações podem ser explosivas. Estamos falando de fundos duvidosos, possivelmente de operações com drogas e armas, saindo da tríplice fronteira, que historicamente é um dos grandes nódulos de operações clandestinas da CIA e do Mossad.

O financiamento pode ter sido proporcionado pelo chamado rei do dólar paralelo, Dario Messer, via contas CC5. Não é segredo que os operadores do mercado paralelo na tríplice fronteira estão todos conectados ao tráfico de cocaína do Paraguai – e também a evangélicos. Essa é a base do que Romulus Maya, Piero Leirner e eu já caracterizamos como o ” Evangelistão da Cocaína “.

Messer é uma engrenagem indispensável na máquina de reciclagem associada ao tráfico de drogas. O dinheiro viaja para paraísos fiscais sob a proteção do imperialismo, é devidamente lavado, e ressuscita gloriosamente em Wall Street e no centro financeiro de Londres, com o bônus extra para os Estados Unidos de diminuir parte de seu déficit em conta corrente. Está aí a deixa para entender a “exuberância irracional” de Wall Street.

O que realmente importa é a livre circulação de cocaína; escondida – por que não? – numa inusitada carga de soja – o que, de quebra, garante a saúde do agronegócio. Essa é uma imagem duplicada da rota da heroína da CIA no Afeganistão, que eu detalhei em outro lugar .

Em termos políticos, Messer é, antes de mais nada, o elo perdido crucial da ligação com Moro. Até uma grande mídia como O Globo foi forçada a admitir, em novembro passado, que os negócios sombrios de Messer foram “monitorados” sem trégua por duas décadas , por diferentes agências de inteligência norte-americanas, em Assunção e em Ciudad del Este, no Paraguai. Moro, por sua vez, é um trunfo para duas diferentes agências norte-americanas – o FBI e a CIA –, além do Departamento de Justiça.

Nessa trama complexa, Messer pode ser o coringa [2] . Mas também existe um Falcão Maltês, e, como aquele imortalizado no filme clássico de John Huston [a partir da obra literária homônima de Dashiell Hammett], existe apenas um Falcão Maltês . Ele está atualmente em um cofre na Suíça.

Refiro-me aos documentos oficiais originais, apresentados pela gigante da construção civil Odebrecht à operação Lava Jato, que foram indiscutivelmente “manipulados” , “a princípio” pela própria empresa, mas também, “talvez”, em conluio com o então juiz Moro e a equipe de acusação liderada por Deltan Dallagnol.

E isso foi feito não apenas com o objetivo de incriminar Lula e as pessoas próximas a ele, mas também, estrategicamente, para excluir qualquer menção a indivíduos que não deviam, sob hipótese alguma, ser trazidos à luz… ou aos bancos dos tribunais. E, sim, você adivinhou se pensou no rei do dólar paralelo, ao que tudo indica, acolitado pelos Estados Unidos.

O primeiro impacto político sério que se seguiu à liberação dos vazamentos do caso Banestado é que os advogados de Lula, Cristiano e Valeska Zanin, finalmente, e de forma oficial, solicitaram às autoridades suíças a entrega dos originais .

O ex-governador Roberto Requião, aliás, foi o único político brasileiro a pedir publicamente a Lula , em fevereiro, que buscasse os documentos na Suíça. Não é surpresa que Requião seja agora a primeira figura pública no Brasil a pedir a Lula que torne ostensivo todo o seu conteúdo, tão logo o ex-presidente ponha as mãos nele.

A lista real, não adulterada, de pessoas envolvidas na corrupção da Odebrecht está repleta de grandes nomes – incluindo a elite judiciária.

Confrontando as duas versões, os advogados de Lula podem, finalmente, ser capazes de demonstrar a fabricação de “evidências” que levaram à prisão de Lula e também, entre outros desdobramentos, ao exílio do ex-presidente do Equador Rafael Correa, à prisão de seu ex-vicepresidente Jorge Glas, a prisão do ex-presidente Ollanta Humala e sua esposa e, mais dramaticamente, ao suicídio do ex-presidente do Peru, Alan Garcia .

Patriot Act brasileiro

A grande questão política agora não é descobrir o grande mestre manipulador que enterrou o escândalo do Banestado há duas décadas. Como detalhou o antropólogo Piero Leirner, o que importa é que a apuração das informações contidas no vazamento das contas CC5 do caso se concentre no maquinário de como a corrupta grande burguesia brasileira, em associação com políticos e agentes do Judiciário (nacionais e estrangeiros), se entronizou como classe rentista e, ainda assim, eternamente submissa e controlada pelos arquivos “secretos” do imperialismo.

O vazamento inédito da lista de contas CC5 do Banestado pode permitir o reconhecimento do sentido dos lances políticos por trás do fracasso recente de Lula. Trata-se de uma guerra de espectro total (“híbrida”), onde piscar não é uma opção. E o projeto geopolítico e geoeconômico de destruir a soberania do Brasil e transformá-la em uma subcolônia imperial está vencendo, sem dúvida.

O potencial explosivo desses vazamentos do Banestado e do CC5gate pode ser medido pela reação dos diversos limited hangouts [“mediadores coarctativos” ou “entregadores limitados” ou, numa velha terminologia sindical, “pelegos”]:   um silêncio estrondoso, que abrange partidos de esquerda e meios alternativos supostamente progressistas [N. do T.:   a começar pelo portal Brasil247, onde o site Duplo Expresso e a pessoa do seu coordenador são sistemática e impiedosamente desqualificados pelo seu suspeito diretor, o jornalista Leonardo Attuch, a quem Paulo Henrique Amorim identificara como um prestador de serviços jornalísticos do banqueiro Daniel Dantas]. Para a grande mídia, por seu turno, para quem o ex-juiz Moro é uma vaca sagrada, um vazamento como esse é considerado, na melhor das hipóteses, uma “história antiga”, ” fake news ” ou até mesmo não mais que uma “farsa”.

Lula está diante de uma decisão fatídica. Com acesso a nomes até agora mantidos nas sombras pela Lava Jato, ele pode ser capaz de detonar uma bomba de nêutrons e resetar todo o jogo político, expondo um furúnculo de ministros do Supremo ligados à Lava Jato, promotores federais, promotores estaduais, jornalistas e até mesmo generais que receberam fundos da Odebrecht no exterior. Sem falar de trazer para a berlinda o rei do dólar paralelo, Dario Messer, quem, de fato, controla o destino de Moro. Isso significa, em última instância, apontar um dedo diretamente para o estado profundo dos Estados Unidos. Não vai ser uma decisão fácil de tomar.

Agora está claro que os credores do Estado brasileiro eram, originalmente, devedores. Cruzando as contas, seria possível fechar o círculo contábil do lendário “desequilíbrio fiscal” do Brasil – exatamente no momento em que essa praga é embandeirada, mais uma vez, com a intenção de dizimar os ativos do precarizado Estado brasileiro. O ministro das Finanças, Paulo Guedes, neopinochetista e líder de torcida de Milton Friedman, já avisou que vai continuar vendendo empresas estatais como se não houvesse amanhã.

O plano B de Lula seria fechar um tipo de acordo que enterraria todo o dossiê – exatamente como a investigação original do Banestado foi enterrada há duas décadas – na tentativa de preservar a liderança do Partido dos Trabalhadores como uma oposição domesticada, sem tocar naquilo que se tornou o essencial na questão:   como e por que Guedes está vendendo o Brasil.

Essa parece ser a opção preferida de Fernando Haddad, que perdeu a eleição presidencial para Bolsonaro em 2018 e é uma espécie de versão brasileira de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile. Ele é um neoliberal envergonhado, que sacrificaria tudo para ter mais uma oportunidade de ascender ao poder, possivelmente em 2026.

Se o Plano B acontecer, ele pode vir a galvanizar a ira dos sindicatos e movimentos sociais – a classe trabalhadora brasileira de carne e osso, que está às portas de ser dizimada pelo neoliberalismo anabolizado e pelo conluio tóxico da versão brasileira, inspirada nos EUA, do Patriot Act , com esquemas militares que lucram com o Evangelistão da Cocaína.

E tudo isso depois que Washington – com sucesso – quase destruiu a campeã nacional Petrobras, um dos alvos iniciais da espionagem da NSA. Zanin, advogado de Lula, também acrescenta – e talvez já seja tarde demais – que a “cooperação informal” entre Washington e a operação Lava Jato, nos termos do Decreto 3.810/02, era, na realidade, ilegal.

O que Lula vai fazer?

No pé em que está a apuração das informações a partir do vazamento do caso Banestado, uma primeira lista VIP do Banestado foi elaborada. Ela inclui o atual presidente do Superior Tribunal Eleitoral e ministro do Supremo, Luis Roberto Barroso, banqueiros, magnatas da mídia e industriais. O promotor da operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, por sua vez, parece ser muito próximo da corte judiciária neoliberal instalada no STF.

A lista VIP pode ser lida como um roteiro das práticas de lavagem de dinheiro dos brasileiros do 0,01% – estimados em aproximadamente 20 mil famílias detentoras da dívida interna brasileira de quase um milhão de milhões (trilhão) de dólares . Uma grande parte desses fundos foi reciclada para voltar ao Brasil como “investimento estrangeiro” através do esquema CC5 na década de 1990. E foi exatamente assim que a dívida interna do Brasil explodiu.

Ainda assim, ninguém sabe, em detalhes, onde a torrente de dinheiro sujo, lavada pelo Banestado, realmente acabou chegando. A “bolsa do defunto” nunca foi formalmente reconhecida como tendo sido trazida de volta de Nova York, e nunca entrou em nenhum processo criminal. No entanto, o crime de lavagem de dinheiro pode ser considerado como continuado – e, assim, sua prescrição não seria aplicável. Portanto, alguém ou alguns, poderiam ir para a cadeia. Parece que, para breve, não vai ser o caso.

Enquanto isso, patrocinado pelo Estado Profundo dos Estados Unidos, pelas finanças transnacionais e pelos operadores das elites locais – alguns de farda, outros de toga – o golpe de guerra híbrida em câmera lenta contra o Brasil continua se espraiando, dia após dia, aproximando-se do domínio de espectro total.

O que nos leva à questão-chave final:   o que Lula vai fazer a respeito?