UMA FÁBULA DO PIPELINISTÃO PARA OS NOSSOS TEMPOS

Por: Pepe Escobar

Por muito que se especule noutros sentidos, a questão energética e as rotas de abastecimento de petróleo e gás natural continuam a talhar as coisas do mundo. E permanecem essenciais no pós-Lockdown ou o falado “novo normal”. Pelo que as guerras dos pipelines continuam activas: aí, entre destroços de vários projectos, estão no caminho do êxito pleno os que materializam a cada vez mais forte parceria estratégica entre a Rússia e a China e também os laços que, para desespero de Washington, canalizam energia russa para dois relevantes membros da NATO – Alemanha e Turquia.

Era uma vez no Pipelinistão, onde as histórias de aflição eram a norma. Sonhos estilhaçados distribuíam-se pelo tabuleiro de xadrez – desde o IPI (Irão-Paquistão-Índia) contra TAPI (Afeganistão-Paquistão-Índia) no reino do AfPak (teatro de operações Afeganistão/Paquistão) até à ópera Nabucco na Europa (projecto de gás fracassado entre o Azerbaijão e a Turquia, seguindo para países balcânicos).

Em nítido contraste, sempre que a China entrava em cena prevalecia a conclusão bem-sucedida. Pequim financiou um gasoduto do Turquemenistão para o Xinjiang, finalizado em 2009, e vai lucrar com dois espetaculares acordos do (gasoduto) Power of Siberia (gás da Iacútia para os territórios orientais russos e o chinês) com a Rússia.    

E há ainda a Ucrânia. A “revolução” Maidan foi um projecto da administração Barack Obama, com um elenco de estrelas liderado por ele próprio, Hillary Clinton, Joe Biden, John McCain e por último, mas não menos importante, a distribuidora de biscoitos de Kiev Victoria “F.. a UE” Nuland.

A Ucrânia também deveria impedir a Rússia de aprofundar os laços energéticos com a Alemanha e outros destinos europeus.

Bem, as coisas não funcionaram bem assim. O Nord Stream (gasoduto Rússia-Alemanha) já estava operacional. O South Stream (Rússia-Turquia) era o projeto da Gazprom para o sudeste da Europa. A pressão incessante do governo Obama fê-lo descarrilar. Mas isso acabou por tornar possível uma ressurreição: o Turk Stream já concluído, através do qual o gás começou a fluir em Janeiro de 2020.  

O campo de batalha mudou-se então para o Nord Stream 2 (Rússia-Alemanha). Desta vez a implacável pressão da administração de Donald Trump não o fez descarrilar. Pelo contrário: Estará concluído até ao final de 2020.

“Alimentar a besta”

 Richard Grennel, o embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, considerado um “superstar” pelo presidente Trump, ficou furioso. Fiel ao script, ameaçou os parceiros que constituem o consórcio Nord Stream 2 – ENGIE, OMV, Royal Dutch Shell, Uniper e Wintershall – com “novas sanções”.

Pior: o embaixador sublinhou que a Alemanha “deve parar de alimentar a besta em tempos em que nem sequer paga o suficiente à NATO”.

“Alimentar a besta” não é exactamente uma terminologia subtil para o comércio de energia com a Rússia.

Peter Altmaier, ministro alemão da Economia e Energia, não ficou impressionado. Berlim não reconhece qualquer legalidade a sanções extra-territoriais.

Grennel, digamos, não é exactamente popular em Berlim. Diplomatas abriram champanhe quando souberam que iria regressar a casa para se tornar o chefe da inteligência nacional norte-americana.

As sanções da administração Trump atrasaram o Nord Stream 2 em cerca de um ano, na melhor das hipóteses. O que realmente importa é que, nesse intervalo, Kiev teve de assinar um acordo de trânsito de gás com a Gazprom russa. Do que ninguém fala é que até 2025 mais nenhum gás russo transitará pela Ucrânia em direcção à Europa.

Então todo o projecto Maidan foi, de facto, inútil.

É uma piada corrente em Bruxelas que a União Europeia nunca teve e nunca terá uma política energética unificada em relação à Rússia. A UE criou uma directiva de gás para forçar a propriedade do Nord Stream 2 a ser separada do gás que flui através do gasoduto. Os tribunais alemães aplicaram o seu próprio “nein” (não).  

O Nord Stream 2 é uma questão séria de segurança energética nacional para a Alemanha. E isso é o suficiente para suplantar o que Bruxelas possa inventar. 

E não se esqueçam da Sibéria

A moral desta fábula é que agora dois importantes nós do Pipelinistão – Turk Stream e Nord Stream 2 – estão implantados como cordões de aço umbilicais ligando a Rússia a dois aliados da NATO – Alemanha e Turquia.

E, fiel aos proverbiais roteiros “win-win”, agora também é hora de a China estudar a solidificação das suas relações com a Europa.  

Na semana passada, a chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro-ministro chinês Li Keqiang tiveram uma videoconferência para discutir a COVID-19 e a política económica China-UE.

Isso aconteceu um dia depois de Merkel e o presidente Xi Jinping terem conversado, chegando a acordo quanto ao adiamento da cimeira China-UE em Leipzig, inicialmente marcada para 14 de Setembro.  

Esta cimeira deveria ser o clímax da presidência alemã da União Europeia, que começa em 1 de Julho; a Alemanha poderia apresentar uma política unificada em relação à China unindo em teoria os 27 membros da UE e não apenas os 17+1 da Europa Central e dos Balcãs – incluindo 11 membros da UE – que já têm uma relação privilegiada com Pequim e estão a bordo da Iniciativa Cintura e Estrada (ICE).

Em contraste com a administração Trump, Merkel privilegia uma parceria comercial clara e abrangente com a China – muito além de uma mera cimeira para a fotografia. Berlim é muito mais sofisticada geoeconomicamente do que a abordagem vaga “compromisso e exigência” de Paris.

Tanto Merkel como Xi estão plenamente conscientes da iminente fragmentação da economia mundial pós-Lockdown. No entanto, por mais que Pequim esteja pronta para abandonar a estratégia de circulação global da qual tem beneficiado bastante nas últimas duas décadas, a preocupação também está no refinamento de relações comerciais muito próximas com a Europa.  

O analista Ray McGovern pormenorizou concisamente o estado atual das relações EUA-Rússia. O cerne da questão, do ponto de vista de Moscovo, foi resumido pelo vice-ministro das dos Negócios Estrangeiros, Sergei Ryabkov, um diplomata extremamente hábil:

“Não acreditamos que os Estados Unidos, na sua forma actual, sejam uma contraparte fiável; por isso não temos confiança, qualquer confiança. Portanto, os nossos próprios cálculos e conclusões estão menos relacionados com o que os Estados Unidos estão a fazer… Nós prezamos as nossas relações próximas e amigáveis com a China. Consideramos que são uma parceria estratégica abrangente em diferentes áreas, e pretendemos desenvolvê-la ainda mais”.  

Está tudo aqui. A “parceria estratégica abrangente” Rússia-China continua a avançar de maneira permanente. Incluindo o Pipelinistão “Power of Siberia”. Além do Pipelinistão que encaminha energia russa para dois aliados-chave da NATO. Sanções? Quais sanções?