A PANDEMIA É O EUROMILHÕES DOS RICOS ENTRE OS RICOS

Por: Manuel Restrepo Domínguez

A Declaração Universal dos Direitos Humanos parece uma longínqua referência e as violações em massa são paralelas à expansão do vírus da COVID-19. O presidente Trump humilha a Organização Mundial de Saúde, ameaça-a e desqualifica-a enquanto os outros órgãos da ONU empalidecem para evitar ficar contagiados com o mesmo mal que a atinge: o desprezo dos mais poderosos. Milhões de seres humanos anseiam por água, comida, tecto e saúde. Na educação, enormes massas de jovens entram em deserção por falta de conectividade, os empregos estáveis caíram em areias movediças, a precariedade e a informalidade laboral atingem números aterradores. A maquilhagem das informações económicas de êxito e associadas a supostas escalas de igualdade social extingue-se perante a realidade desigual que o vírus destapou.

A crise de direitos humanos estende-se juntamente com o vírus e o que parecia claro a respeito do que são e significam os seres humanos sofre mutações. O mundo não é, por ora, a aldeia global a que nos tinham habituado como slogan da sociedade do conhecimento e do fim da história, é o regresso e uma casa de habitação na qual as pessoas lutam pela sobrevivência, “uma casa única, que não é feliz… um gigantesco hospital psiquiátrico (Gamboa, escritor colombiano) e o que acontece em Espanha replica-se em França, na Grécia, Colômbia ou Brasil. A fluidez da vida parece ter ficado suspensa, mas não a fluidez do capital, cujas transacções abertas e visíveis assaltam os bolsos e contas de milhares de milhões de aforradores e consumidores num jogo imenso em que poucos ganham e muitos vão à falência.

O capital privado floresce com o vírus

O capital privado está a crescer durante a pandemia com mais rapidez que o PIB, o comércio e os aforros mundiais. Neste século XXI, a prosperidade está a transferir-se para menos de três mil bilionários do mundo, unidos para governar os governantes, para os quais a caixa de ferramentas de saque está repleta de tecnologias de informação. Ficaram para trás, no cinema, as caravanas de lingotes de ouro e os cofres de papel moeda. Da pandemia fica o capital convertido em números, operações que num nanosegundo conseguem converter a riqueza física, os patrimónios públicos e as receitas das nações em valores e depósitos financeiros privados que, ao contrário do ouro e do papel moeda, não têm despesas de envio. Não é preciso que gastem todos ao mesmo tempo, basta que o façam, pode ser mesmo a partir de casa.

Nos anos do século XX transcorridos, mais de metade dos intercâmbios globais e de acções realizam-se em dólares, menos de 15% em euros e menos de 9% em ienes. Isto explica que a taxa de rendibilidade e de segurança dos investidores dependa fundamentalmente da estabilidade política de um Estado – e não se acredite que seja pelas garantias oferecidas para realização e respeito pelos direitos humanos. Há muito tempo que o capital rompeu com os direitos humanos para poder crescer, é evidente que os grandes tesouros e riquezas se construíram sobre massivas violações dos direitos humanos. Os Estados Unidos são o país que melhor tem cuidado da sua estabilidade, não interessa a criminalidade da sua polícia contra os seus irmãos negros, afro ou latinos, muito menos a crueldade da CIA, a violência da DEA ou a perversão dos seus franco-atiradores, mercenários ou contratados. O que importa é a sua estabilidade, a união dos seus dois partidos para defender a pátria e a ordem como garantias que possam ser asseguradas aos investidores, não aos cidadãos. O complemento desta acção é a criação pelos estáveis da instabilidade noutros lugares. A desestabilização é a sua arma de competição. Os Estados Unidos são os primeiros em estabilidade e também em acções de desestabilização no cenário político global. 

Desaparecem empregos, crescem fortunas

A pandemia livrou os empresários multimilionários de obstáculos reguladores e legais para fazer fluir uma economia global de inovação que promete riqueza rapidamente convertível nos activos financeiros desejados pelos investidores, mas com emprego instável, desigualdade acelerada e endividamento ilimitado. As novas tecnologias são o impulsionador da transferência do mercado para a sociedade invisível. Entre Março e Abril, em apenas dois meses de pandemia, a fortuna dos mais ricos dos ricos norte-americanos cresceu 15%, com destaque para Jeff Bezos da Amazon e Mark Zuckerberg do Facebook. Os 600 multimilionários dos Estados Unidos tornaram-se mais ricos porque as acções tecnológicas subiram durante o bloqueio gerado pela pandemia. Entre 18 de Março e 19 de Maio o seu património líquido aumentou 434 mil milhões de dólares (mais do dobro do PIB de Portugal), enquanto se registavam perdas massivas de emprego e agonia económica. Mais de 38 milhões de norte-americanos perderam o emprego, milhão e meio foram infectados e mais de cem mil morreram; politicamente, Donald Trump exacerbou o ódio racial, a xenofobia, a discriminação e a estupidez e enquanto isso acontecia a riqueza de Bezos cresceu 30%, para 147 mil milhões de dólares, a de Zuckerberg mais de 45%, para 88 mil milhões de dólares (American for Tax Fairness), a de Bill Gates, da Microsoft, 8% e a de Warren Buffet 1%.

Estamos, portanto, perante uma crise de direitos humanos na qual todos os seus sistemas são afectados e o futuro próximo depende de como encararmos este momento. As respostas sobre o que se segue podem procurar-se acima de nós, onde já não está Deus mas sim os grandes investidores e avaros do mundo, sozinhos, sem Estado nem lei humana. Eles são Deus e Lei. Não há pandemia que os afecte nem infecte. Deles dependerão então, em grande medida, as garantias de respeito pelos direitos, a não ser que os trabalhadores consigam decifrar o enigma e voltem a encher as ruas com renovada rebeldia.