A NATO ASSUME A SUA AMBIÇÃO IMPERIAL

Por: Manlio Dinucci

O processo de alargamento da NATO à zona Indo-Pacífico já começou. Foi criado oficialmente um grupo de trabalho para o efeito, não para reflectir a estratégia considerada mais adequada contra a China mas para a tornar pública e a justificar a posteriori, uma vez o trabalho concluído. Não existe qualquer diferença em relação ao período colonial, uma vez que se trata de conter a China, isto é, impedir o seu desenvolvimento. Tudo isto no âmbito imperial da Grande NATO Mundial no horizonte de 2030 – agregando Austrália, Nova Zelândia, Japão e outros países asiáticos.

Os ministros da Defesa da NATO reuniram-se em videoconferência nos dias 17 e 18 de Junho e tomaram uma série de “decisões para reforçar a dissuasão da Aliança”. Mas disso pouco se fala nos países da organização, nem mesmo na comunicação social (incluindo as redes sociais) e no mundo político, onde reina sobre tudo isto um silêncio abrangente.

As decisões assumidas, ditadas fundamentalmente por Washington e subscritas em Portugal pelo ministro João Gomes Cravinho, traçam as linhas condutoras não apenas da política militar dos países abrangidos mas também da sua política externa. Antes de mais – anuncia o secretário-geral Jens Stoltenberg – “a NATO está em vias de se preparar para uma possível segunda vaga do COVID-19”, contra a qual já foram mobilizados meio milhão de soldados na Europa.

Stoltenberg não clarifica como a NATO pode prever uma possível segunda vaga da pandemia com um novo confinamento. Mas ele é muito claro num ponto: isso “não significa que outros desafios tenham desaparecido”. O maior – sublinham os ministros da Defesa – tem origem no “comportamento desestabilizador e perigoso da Rússia”, em especial a sua “retórica nuclear irresponsável com o objectivo de intimidar e ameaçar os aliados da NATO”. Ao dizer isto, invertem a realidade tentando apagar o facto de a NATO, uma vez terminada a guerra fria, se ter estendido até às fronteiras com a Rússia através das suas forças e das suas bases nucleares, sobretudo norte-americanas. Desenvolveu-se metodicamente, sob a direcção de Washington, uma estratégia com o objectivo de criar na Europa tensões crescentes com a Rússia.

Para decidir estas novas medidas militares contra a Rússia, os ministros da Defesa reuniram-se no Grupo de Planificação Nuclear, presidido pelos Estados Unidos. Desconhecem-se as decisões em matéria nuclear subscritas pelo ministro Cravinho e em Itália pelo ministro Guerini. Mas é óbvio que participando no grupo e alojando armas nucleares norte-americanas (utilizáveis também pela aeronáutica italiana) a Itália viola o Tratado de Não Proliferação e rejeita o Tratado da ONU de interdição de armas nucleares. Stoltenberg limitou-se a dizer: “Hoje decidimos novas etapas para que a dissuasão nuclear da NATO na Europa continue segura e eficiente”. Entre estas etapas encontra-se seguramente a próxima chegada, incluindo a Itália, das novas bombas nucleares norte-americanas B61-12.

Os “sistemas de mísseis” chineses

O outro “desafio” crescente de que falaram os ministros da Defesa da NATO é o relacionado com a China, que está pela primeira “no topo da agenda da NATO”. A China é o parceiro comercial de numerosos aliados mas, simultaneamente, “investiu fortemente em novos sistemas de mísseis que podem atingir todos os países da NATO”, explica Stoltenberg. A NATO começa assim a presentar a China como uma ameaça militar. Ao mesmo tempo, a aliança considera perigosos os investimentos chineses em países da organização. Com base nestas premissas, os ministros da Defesa actualizaram as linhas condutoras para a “resiliência nacional” com o objectivo de impedir que a energia, os transportes e as telecomunicações, nomeadamente a 5G, não acabem por ficar “sob propriedade e controlo estrangeiros” (leia-se “chinês”).

Eis as decisões subscritas pelos ministros da Defesa, entre os quais o de Portugal, na reunião da NATO. Alienam-se assim os Estados membros da aliança a uma estratégia de hostilidade crescente sobretudo contra a Rússia e a China, expondo os povos a riscos cada vez mais graves e desestabilizando o terreno sobre o qual repousam os próprios acordos económicos.

É uma estratégia a longo prazo, como revela o lançamento do projecto “NATO 2030”, em 8 de Junho, pelo secretário-geral Stoltenberg, para “reforçar a aliança militar e politicamente” incluindo países como a Austrália (já convidada para a reunião dos ministros da Defesa), a Nova Zelândia, o Japão e outros países asiáticos, numa função claramente anti-chinesa.

Para o projecto da Grande NATO Mundial 2030 foi formado um grupo de 10 conselheiros de países como a Dinamarca, Holanda, Estados Unidos, França, Alemanha, Turquia, Canadá, Polónia, Reino Unido e Itália. Do lado italiano foi indicada Marta Dassù, antiga conselheira de política externa do governo D’Alema antes e durante a guerra da NATO contra a Jugoslávia, na qual o país participou em 1999, sob comando dos Estados Unidos, com as suas bases e os seus bombardeiros.

IMPÉRIO À DERIVA E MORTÍFERO NO CORNO DE ÁFRICA

Por: Martin Jay

Na Somália, o embaixador dos Estados Unidos puxa para um lado; e a estratégia militar de agressão do Pentágono parece conduzir no sentido contrário. Tudo acontece entre massacres de civis por aviões norte-americanos, subornos de milhões em dinheiro vivo e outros comportamentos de que beneficiam os terroristas do Al Shabab, parentes da al-Qaida. O caos e a instabilidade subsistem no Corno de África numa situação em que é impossível decifrar qualquer coerência da política imperial para a região, a não ser aprofundar o caos e a instabilidade.

Consta que uma vez Churchill disse que “a diplomacia é a arte de mandar alguém para o inferno e o visado ainda pedir instruções para o caminho”. Se isso for verdade, então poderemos assumir que o homem de Washington para a África Oriental precisa que se lhe aplique essa máxima.

Existe também uma história sobre um alto funcionário de um departamento de Londres que, durante os tempos coloniais, visitou um “oficial do distrito” na África Oriental. Depois da sobremesa, os dois aventuraram-se numa saída de Land Rover, ocasião em que o alto funcionário fez três perguntas ao oficial vestido de caqui:

“Qual é a tribo dominante nesta área?

Que língua falam os seus habitantes?

Onde existe água potável nesta região?” 

O oficial, um homem mais jovem, pareceu confuso e encolheu os ombros. O alto funcionário parou o carro, mandou-o sair e gritou-lhe enquanto se afastava: “Quando voltar quero que saiba as respostas”.

Washington bem pode considerar enviar um funcionário deste tipo à África Oriental para fazer uma saída de Land Rover com o desastrado e desconcertado embaixador que por lá está e que começa a ser notado em Washington DC por perturbar ainda mais a política entre os Estados Unidos e a Somália.

Donald Yamamoto foi alvo de um artigo recente da publicação The National Interest no qual foi retratado como um tolo que se intromete na geopolítica do Corno de África de maneira a criar ainda mais problemas reais para a administração Trump.

Designado “governador colonial”, devido às visões delirantes sobre o seu próprio papel ao engendrar políticas e tomar acções concretas para construir um Estado unificado entre a Somália e a Somalilândia, Yamamoto consegue ser até uma ameaça para os próprios planos do secretário de Estado Pompeo para aquilo a que chama “estabilizar” a Somália.

Os recentes movimentos de Yamamoto para associar o primeiro-ministro da Etiópia a uma pretensa unificação da Somália com a chamada Somalilândia – que seria a coroação da sua presença no cargo – saíram pela culatra e colocaram novamente a região sob os holofotes do circo de Washington e da panóplia mediática que se alimenta das suas entranhas.

Trata-se de uma situação muito perigosa e que pode contribuir para explicar a razão pela qual o Pentágono e o Departamento de Estado norte-americano estão actualmente envolvidos na mais ilógica, mas banal e absolutamente cruel onda de ataques aéreos na Somália – que na esmagadora maioria das vezes assassina pastores, residentes civis de localidades, agricultores e quase nunca os membros do grupo extremista Al Shabab. Será que os pilotos norte-americanos que operam os drones são incompetentes? O que será que nos escapa? 

O regresso de velhos fantasmas

A última vez que os Estados Unidos estiveram no centro de notícias sobre a Somália, e pelos motivos errados, foi em 1993 quando e revista Time saiu com uma foto de capa vencedora do Prémio Pulitzer mostrando o corpo de um soldado norte-americano a ser arrastado preso a uma corda pelas ruas de Mogadíscio, depois do fiasco da operação militar Black Hawk Down.

Esse caso acabaria por redesenhar a política externa dos Estados Unidos nos anos seguintes, interpretada pela administração Clinton, perseguida pelos fantasmas que gerou e pelas repercussões mediáticas, a que se juntou a situação no Ruanda – onde Washington ficou na linha da frente a assistir a um genocídio.

É importante regredir cerca de dois anos nessa época, à altura em que o regime somaliano de Siad Barre, sem dúvida uma ditadura brutal, entrou em colapso – situação aproveitada pela Somalilândia, uma ex-colónia britânica, para se afastar da região a Sul, a Somália, uma ex-colónia italiana.

Ainda o comboio de veículos de tracção às quatro rodas topo de gama que transportava a família de Barre mal chegara à fronteira com o Quénia já a Somalilândia, sem perda de tempo, recuperara a sua independência, obtida dos britânicos em 1960.

Porém, esta secessão não é reconhecida internacionalmente, a não ser em casos pontuais, e acabou por contribuir para criar uma nova colónia onde se faz sentir a influência militar de Israel. Neste quadro pode considerar-se um território muito mais “estável” e “calmo” que a Somália, um país estrangulado pela Al Shabab, organização terrorista da constelação da al-Qaida que se enraizou na sequência dos atentados de 11 de Setembro em Nova York e contribui para uma nação dilacerada, das mais pobres e corruptas do planeta. 

A nova união

As razões e os motivos objectivos que estão no ressurgimento da ideia de união entre os dois territórios não são claros, embora exista alguma verdade na sensação partilhada em ambos os lados de que uma Somália maior e unida poderia ser menos vulnerável aos inimigos regionais.

A pressão pela união é maior do lado da Somália, mas para que as circunstâncias se tornem favoráveis seria necessário que os Estados Unidos contivessem os bombardeamentos supostamente contra os terroristas do Al Shabab mas que, no essencial, continuam a poupá-los. Pelo que estamos numa situação bizarra: o embaixador dos Estados Unidos movimenta-se no sentido da união da Somália e da Somalilândia enquanto o Pentágono e o Departamento de Estado destroem quaisquer hipóteses desse enlace.

Muitos políticos em Mogadíscio parecem acreditar que o embaixador Yamamoto seja ingénuo. Na verdade, a ideia de que a unificação proporcionará estabilidade na região é uma loucura e aos jornalistas veteranos faz lembrar outros episódios singulares com origem em Washington, como os planos de antigos generais dos tempos do Black Hawk Down que assentavam na oferta de uma recompensa de 25 mil dólares por informações que levassem à captura de Mohamed Farrah Aidid, que a Wikipédia descreve simplesmente como “senhor da guerra”.

A estabilidade na Somália só é possível se assentar em acções concretas de âmbito regional que neutralizem, de facto, o Al Shabab. E para isso seria necessário que os Estados Unidos deixassem de dar força ao grupo terrorista com as suas acções que atravessam mais de duas décadas e várias administrações. Governança é um termo pretensioso usado por analistas e consultores ocidentais em Mogadíscio e a sua distância em relação à realidade só é superada pelos movimentos do embaixador dos Estados Unidos. 

Os comportamentos coloniais e agressivos do Pentágono, do Departamento de Estado e da sala oval da Casa Branca (partindo do princípio que o presidente sabe onde fica Mogadíscio no mapa) têm consequências negativas nos próprios países da região que era suposto os Estados Unidos ajudarem.

O embaixador dos Estados Unidos não se limita a parecer ingénuo na sua abordagem simplista e instantânea, tipo desenhos animados, de uma situação extremamente complicada tanto na Somália como na Somalilândia. E as suas decisões em Mogadíscio têm preços muito elevados.

Mil milhões de dólares em dinheiro vivo foram gastos imprudentemente a untar mãos consideradas importantes na construção da unificação dos dois territórios. Pressionar no sentido de Mogadíscio ter o controlo central do espaço aéreo acabou por conduzir à chegada de carregamentos ilegais de armas, que anteriormente eram impedidos. Esse tipo de controlo dos céus provocou reacções negativas na Somalilândia e criou novas tensões entre o Sul e o Norte. O mais grave erro de julgamento de Donald Yamamoto é, contudo, a decisão de insistir para que todo o dinheiro da ajuda internacional e dos Estados Unidos seja canalizado num único sentido – Mogadíscio.

Desde que isso aconteceu o terrorismo aumentou de intensidade, uma vez que os tentáculos do Al Shabab entram profundamente nos departamentos governamentais, na polícia, nos corpos militares e até nas áreas da chefia do Estado. Em que estaria o embaixador a pensar quando colocou todos os ovos da ajuda numa única cesta e num país que bate todos os recordes negativos por ser um Estado falido?

Daí que os ataques com drones que continuam a ser realizados pelos Estados Unidos contra alvos sobretudo civis na Somália pareçam uma estratégia contrária à adoptada pelo embaixador, privilegiando a divisão e o caos na região em vez de uma unificação de dois territórios.

Os ataques aéreos dos Estados Unidos estão a acontecer agora para impulsionar o plano absurdo do embaixador ou para o desmontar? Há muita confusão, mentira e desinformação para digerir numa estratégia imperial à deriva.

Massacres

Só este ano já foram realizados pelo menos 41 ataques aéreos contra a Somália, com terríveis massacres de civis. Fontes locais calculam cerca de 300 mortos: as fontes militares norte-americanas, como é habitual em todas as guerras de agressão em curso, falam apenas num “punhado”. 

Os níveis de ingerência e de colossal confusão das acções dos Estados Unidos na Somália, em particular, e no Corno de África em geral já inspiraram filmes de Hollywood como Black Hawk Down. Agora as estranhas manobras de um embaixador dos Estados Unidos, combinadas com uma estratégia militar aparentemente dissonante, poderão servir de base a um novo guião de Hollywood.

Espera-se agora a visita de um general do Pentágono a Mogadíscio, pronto a fazer ao embaixador as três perguntas sacramentais numa viagem de Land Rover até ao deserto. Tudo leva a crer que haja quem precise de ser mandado diplomaticamente para o inferno.

GUERRA MAIS SANÇÕES MAIS COVID-19 É IGUAL A GENOCÍDIO NA SÍRIA

Por: José Goulão

A operação genocida montada pela administração Trump e o Conselho Europeu, em tempos de pandemia, contra a esmagadora maioria do povo da Síria passa entre os pingos da chuva da comunicação social corporativa e avança em todo o terreno sem que as Nações Unidas manifestem a menor intenção de travar a tragédia recaindo sobre pelo menos 17 milhões de pessoas.

Israel deu o exemplo em Gaza, submetendo dois milhões de pessoas a um universo concentracionário que se prolonga há muitos anos. As administrações Obama e Trump, mais o Conselho que representa os governos da União Europeia seguem o mesmo caminho na Síria – e em outros países, como se sabe – eventualmente com falinhas mais mansas e pretensos objectivos libertadores e humanitários cuja simples invocação retrata o desumano cinismo de quem assim se comporta.

Falemos especificamente da tragédia que se vive na Síria, de uma actualidade flagrante que não encontra correspondência junto de quem se limita a consumir as matérias envenenadas da comunicação dominante.

Em plena pandemia de COVID-19, a administração de Donald Trump pôs em vigor a chamada “Lei César” para reforçar brutalmente as já muito restritivas sanções que se fazem sentir no dia-a-dia de guerra vivido por cada cidadão da Síria; e alguns dias antes, em 28 de Maio, o Conselho Europeu decidiu prorrogar por mais um ano as sanções que estão em vigor desde 2011 – supostamente contra “o regime” mas que recaem sobre a população. Por exemplo, proibir a importação de petróleo num país onde os recursos petrolíferos estão sob controlo de tropas de ocupação norte-americanas ou de grupos terroristas por elas tutelados retrata em corpo inteiro o “humanismo” dos governantes europeus perante uma população que, além de resistir contra uma agressão estrangeira tem de se desdobrar, com absoluta penúria de energia, na guerra contra o novo coronavírus.

O comportamento das castas dominantes transatlânticas com ambições globalistas tem uma designação: genocídio. E os europeus que não apontem o dedo a Trump, porque estão ao mesmo nível ilegal e criminoso.

Vingança raivosa

Aquilo a que estamos a assistir na Síria, a condenação de um povo à fome e à doença, é uma vingança raivosa. Os países e os interesses que apostaram numa guerra contra a Síria através de intermediários terroristas vingam-se da derrota que sofreram castigando uma população que resistiu e, passo-a-passo, conseguiu libertar quase todo o país das ocupações que sofreu.

A vingança orienta-se num sentido prioritário: impedir a reconstrução do país; e deixar o povo numa situação em que não tenha meios, nem saúde nem ânimo para encontrar caminhos que possam ser alternativos.

“Atirámos com tudo, menos as pias de cozinha, para dentro da Lei César”, orgulha-se o “enviado” de Donald Trump para a Síria, James Jeffrey, falando do espectro total abrangido agora pelas sanções norte-americanas, somadas às europeias.

A “Lei César” destina-se, dizem os autores – bipartidários no Congresso dos Estados Unidos – à “protecção civil” dos sírios. Por aqui se mede a hipocrisia dos legisladores de ilegal vocação supranacional: “proteger” uma população matando-a à fome e entregando-a à pandemia até que se revolte e promova a “mudança de regime” ansiada em Washington e Bruxelas. No léxico “ocidentalez” estamos no domínio da defesa dos direitos humanos, da civilização e das liberdades políticas.

A origem da designação “César” para a lei de sanções é, só por si, um exercício de provocação política. “César” é o “anónimo” cidadão supostamente sírio que em 2014 revelou ter em seu poder 55 mil fotografias de vítimas das “atrocidades do regime”. O espólio não resistiu a uma análise independente que, em 30 páginas, demonstrou que cerca de metade dos instantâneos correspondiam a carnificinas cometidas pelos “rebeldes moderados” e outros heterónimos da al-Qaida e Isis contra as populações civis. O próprio Christian Science Monitor, órgão norte-americano da constelação corporativa, reconheceu na altura que o caso das 55 mil fotografias foi “uma oportuna acção de propaganda financiada pelo Qatar”.

Quando Jeffrey diz que “atirámos com tudo” para a “Lei César” é mesmo tudo. Empresas e entidades, colectivas ou individuais, ficam impedidas de negociar com a Síria sob a ameaça de multas colossais e sequestro de activos. Nem materiais de construção, nem alimentação, nem energia – como estabeleceu a União Europeia – nem medicamentos, equipamentos médicos, remessas de refugiados e emigrantes e outros produtos de primeira necessidade poderão ser importados pela Síria.

Ou seja, os países e interesses que submeteram a Síria ao conflito são os mesmos que impedem a reconstrução – para prolongar a guerra agora por outros meios terroristas além da violência militar. Até à desejada capitulação.

Excepções confirmam a regra do terrorismo

O novo pacote de sanções norte-americanas não inova muito, mas reforça o âmbito abrangente da agressão e a perenidade dos seus efeitos. Os sírios já conhecem as vicissitudes das sanções com que têm de se deparar no terreno mesmo depois de terem vencido as anteriores fases de guerra.

Um exemplo. Quando o exército regular e a resistência nacional libertaram a região de Alepo, cerca de 500 mil pessoas tentaram regressar às suas residências e propriedades, muitas delas destruídas. Para a reconstrução conseguiram contar com materiais plásticos, mas não com cimento e vidro, produtos que não podem entrar no país. Como herança de uma guerra vitoriosa, aos sírios foi permitido voltar para barracas e construções precárias, não para as habitações que tinham sido obrigados a deixar.

Em compensação, os grupos terroristas da al-Qaida e do Isis tiveram betão de sobra – graças a milhões de toneladas fornecidas pelo grupo transnacional francês Lafarge – para construir bunkers e labirintos subterrâneos através dos quais multiplicaram as suas actividades terroristas.

É desta cooperação íntima entre a “civilização” corporativa e o terrorismo dito “islâmico” que fala a “Lei César” quando assegura que as sanções não são aplicáveis em regiões sírias como Idleb ou o “Rojava” alegadamente curdo, ou ainda outros territórios sob o controlo das Forças Democráticas Sírias e demais heterónimos sob o chapéu da NATO. Idleb, recorda-se, está em poder de uma parceria formada pela al-Qaida e tropas turcas de ocupação, confirmando-se que a excepção confirma a regra do terrorismo, agora reforçado pela “Lei César” e as renovadas sanções europeias. Neste quadro é de uma lógica naturalíssima que Washington incentive os “aliados” a investir nos territórios sob ocupação terrorista aquilo não permite na Síria libertada. Se dúvidas ainda houvesse sobre quem são os patrões dos mercenários “islâmicos”…

Estratégia integrada

A estratégia integrada da nova fase da agressão à Síria não se resume à trilogia formada por violência militar e terrorismo mais sanções, mais pandemia. Há um quarto elemento, comprovando sempre que o alvo a abater é o povo sírio: o fogo.

Nestas semanas de renovação das sanções europeias e de intensificação das penalizações de Washington têm-se multiplicado os fogos devastadores contra campos agrícolas sírios tanto do Norte como no Sul – tarefas cuja autoria é repartida pela constelação de grupos terroristas e pelas próprias tropas norte-americanas de ocupação.

Além de não poderem contar com alimentos importados, as populações sírias estão impedidas de colher os que produzem.

O silêncio das Nações Unidas e do seu secretário-geral sobre estas realidades que representam a punição arbitrária e totalitária do povo de um dos mais antigos e históricos Estados do planeta é revelador da situação em que se encontra a chamada “comunidade internacional”, verdadeira cúmplice de guerras e actos genocidas.

E uma vez que a falta de alimentos e de energia na Síria se tornou gritante, os preços sobem vertiginosamente, a par da multiplicação dos efeitos do terrorismo cambial imposto pela “Lei César” e respectivas réplicas europeias. Washington postulou que o Banco Central da Síria é “uma instituição de lavagem de dinheiro”, pelo que as suas actividades internacionais devem ser impedidas – do mesmo modo que já anteriormente o Conselho Europeu congelara os activos do banco. Resultado: a libra síria passou do valor de 650 por dólar em Outubro último para 2600 por dólar actualmente, com os inerentes problemas para a população.

Nesta matéria, porém, também existem excepções. Certamente com o conhecimento e o beneplácito da Casa Branca, da União Europeia e da NATO, a Turquia pôs em circulação a sua moeda, a libra turca, nas regiões sírias ainda sob ocupação terrorista, concentradas no Norte e Nordeste do território. Mais uma prova do enlace entre o terrorismo e o atlantismo e também a demonstração de que um dos objectivos da guerra é desmembrar o Estado sírio – como o único que ainda representa uma sombra regional para Israel. Está nos anais da História, embora não daquela que é explicada aos cidadãos, que a guerra contra a Síria começou depois de o presidente sírio, Bachar Assad, ter rejeitado uma “sugestão” da secretária de Estado norte-americana, então a democrata Hillary Clinton, no sentido de tornar mais “flexíveis” as relações com o Estado sionista.

O papel da solidariedade

James Jeffrey, o “enviado” de Trump já atrás citado, é um homem muito dotado a sintetizar actividades criminosas em soundbites de fácil circulação.

“O meu trabalho é criar um atoleiro para os russos”, explica ele sobre os objectivos da “Lei César”. Faz todo o sentido: o povo sírio ficará muito mais à mercê da fome, da pandemia e da guerra sem o apoio militar e civil que a Rússia tem dado à libertação e à manutenção da integridade territorial da Síria.

Claro que as intenções do carteiro de Trump não se transformam em realidade só por brandir um slogan com fácil receptividade e repercussão.

Independentemente da resposta que a Rússia vier a dar a esta nova situação, há uma componente de solidariedade da cidadania internacional que pode desenvolver-se através dos canais abertos por países que estão dispostos a subverter as sanções ilegais impostas contra a Síria – ilegais por muito que os governos europeus aleguem estar sintonizados com resoluções da ONU. Pois claro, a destruição da Líbia pela NATO também se fez a coberto de interpretações de resoluções da ONU e nem por isso foi legal.

A solidariedade cidadã deve e pode manifestar-se sobretudo nos países cujos governos são cúmplices das sanções genocidas, exactamente porque os povos não querem sê-lo. Daí que devam meter mãos à obra para fazer chegar aos sírios aquilo que arbitrariamente lhes é negado. Espaço e condições para isso existem, imaginação, unidade e acção também não irão faltar. Trata-se de combater um genocídio friamente programado e aplicado.

ESTADO, RELIGIÃO E MODERNIDADE: MUAMMAR AL-KADAFI E A TERCEIRA TEORIA UNIVERSAL.

Por: Murilo Sebe Bon Meihy – PUC-Rio

A construção de projetos políticos alternativos pode ser observada em experiências políticas que se baseiam em uma nova concepção de modernidade distante dos modelos sustentados pelo contexto da
Guerra Fria. No interior de uma crítica a concepção de modernidade amparada por Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, torna-se possível observar que a década de
setenta do século XX produziu em territórios de população islâmica, discursos políticos críticos às relações de poder próprias do confronto ideológico estabelecido entre capitalismo e comunismo. Em grande parte desses discursos, novas estratégias políticas eram traçadas por Estados de maioria muçulmana que consolidavam a legitimidade de seus governos através da aproximação de seus líderes a referências islâmicas, em detrimento da construção de identidades nacionais vinculadas à bipolaridade da Guerra Fria.

Os países muçulmanos do norte do continente africano, em especial, foram tomados nos anos setenta do século XX, por um crescente sentimento pró islamismo. A República Árabe do Egito, que durante os onze primeiros anos de governo do general Gamal Abdel Nasser assistiu sua defesa de uma política socialista e pan-arabista sobreposta a qualquer sectarismo religioso no país, pôde perceber que após a derrota na Guerra dos Seis Dias de 1967, sua legitimidade política passou a depender de uma tímida aproximação com o discurso islâmico, ainda que não permitindo o desenvolvimento de grupos políticos de cunho religioso1. Com a morte de Nasser em 1970 e a ascensão de Anuar Sadat, a tendência egípcia a islamização se acentua. Sadat ainda que buscando distanciar-se do nasserismo, intensificando suas relações com o Ocidente, construiu uma identidade egípcia moderna que ressaltava sua raiz islâmica embora controlada pelo Estado-nação que se alinhava ao modelo capitalista.
Em oposição ao modelo de Sadat, a Líbia de Muammar al-Kadafi se via como a continuadora do nasserismo pós 1967. A defesa de um Estado moderno na Líbia sempre foi uma das preocupações capitais do líder líbio, porém a concepção de modernidade perceptível em seus discursos políticos
estabelece uma participação do islã com uma intensidade muito mais característica do que àquela que o Egito apresentava.

O entendimento sobre a modernidade que se extrai da política de Kadafi se assemelha aos elementos conceituais que o filósofo Mohammed al-Jabri atribui à idéia de modernidade construída pela civilização árabe-islâmica, que apresenta elementos constitutivos próprios, ao invés de se colocar como uma caricatura da modernidade ocidental. Dessa maneira, para al-Jabri a concepção de modernidade árabe-islâmica possui uma dinâmica interna que se apresenta como reprodutora do antigo, vinculando ao “moderno” uma inerente ligação com a tradição (Turâth). A característica mais marcante dessa modernidade seria sua necessária relação com o passado, criando interpretações modernas da tradição2.

A idéia de se levar um projeto político moderno a civilização árabe-islâmica mostrou-se tentadora à Kadafi. A partir da queda de popularidade de seu governo em 1973, Kadafi cria uma nova estratégia governamental que propunha alterações significativas na composição política, econômica e social da Líbia. As reformas instituídas por Kadafi em 1973 e publicadas em sua obra O Livro Verde a partir de 1975, refletem sua leitura inovadora da tradição política legada pelo islã, construindo um projeto modernizador ao país que alterava significativamente o sistema político líbio e extraia legitimidade política de seus fundamentos religiosos. Gema Martín Muñoz salienta que desde sua chegada ao poder em 1969, Kadafi já havia percebido que qualquer projeto político para a Líbia deveria considerar três elementos básicos da realidade sociológica do país: A matriz religiosa do Estado, a frágil coesão social do país e o peso da estrutura tribal na organização social da Líbia3. O que se observa no projeto político de Kadafi em 1975 é sua ênfase proposital no primeiro desses elementos.
A partir de uma reforma no sistema político líbio, Kadafi critica no primeiro volume de seu Livro Verde, denominado Solução do Problema da Democracia, o modelo representativo liberal de governo, procurando incentivar não somente em seu país, mas em todo o Mundo Árabe, uma reestruturação das instituições políticas capaz de garantir a consolidação da unidade na região em uma espécie de pan-arabismo que começa a se encantar pelo teor militante da ação política islâmica4. A maneira encontrada por Kadafi para o estabelecimento de laços de maior proximidade com os demais países do Mundo Árabe é a chamada de todos a uma crítica conjunta sobre a influência da experiência política estrangeira em seus regimes. Para Kadafi, parece claro que o modelo representativo ocidental e o comunismo soviético não podem ser entendidos como propostas definitivas para a solução das questões políticas contemporâneas.

A proposta teórica do líder líbio se apresenta como uma alternativa ao embate ideológico da Guerra Fria, pois o primeiro volume de seu Livro Verde traria a base política de uma Terceira Teoria Universal”, concorrente à democracia representativa e ao governo comunista. Kadafi defende que sua teoria criara uma “democracia direta” que verdadeiramente daria ao povo o controle sobre o poder político, sem depender da “impostura” da eleição de representantes. O modelo representativo de governo se mostra como uma ferramenta de usurpação da soberania popular, já que afastaria as massas do exercício direto da política. Nesse aspecto, Kadafi tenta introduzir em seu novo modelo político o princípio corânico da shûrà (no islã, idéia de consenso em relação ao governante)5, confirmando o argumento de que a representação é um embuste político distante da tradição islâmica comum à nação líbia.

O primeiro volume do Livro Verde ampara a noção de que suas linhas propõem uma nova realidade política aos homens. Antes de sua criação, o mundo teria vivido o que Kadafi chamou de “Era das Repúblicas/Ditaduras”, pois o ambiente ideológico da Guerra Fria permitiu a existência de modelos políticos opressivos que estariam fadados ao desaparecimento a partir do estabelecimento de um marco político inaugural proposto pelo Livro Verde, a Era da Jamahiriyya (Era das Massas). Assim, a construção de uma visão crítica da Guerra Fria ganha concepções mais explícitas, seja pela recusa da uniformização material da sociedade proposta pelo comunismo, ou mesmo pelo partidarismo da democracia representativa atribuída ao capitalismo liberal, já que Kadafi afirma que:

“Enfim: as tentativas de uniformização da base material da sociedade, com o objetivo de resolver o problema do poder, ou de pôr fim à luta em proveito de um partido, de uma classe, de uma seita ou de uma tribo, têm falhado do mesmo modo que as tentativas de satisfazer as mesmas pela eleição de epresentantes, ou pela organização de referendos; continuar nessa via seria perder tempo e ridicularizar o povo”6.

A idéia de que todos os governos existentes no mundo são “ditaduras camufladas” se acentua pela discussão que o livro apresenta sobre a legitimidade do poder exercido por partidos políticos.
Kadafi defende que um partido político é sempre a coligação dos interesses de seus integrantes, sendo o poder de uma fração sobre o conjunto da população de um país. A existência de partidos políticos em um sistema de governo o transforma em “máquina de governação ditatorial”, posto que cada eleição, enquanto disputa entre propostas partidárias, consolidaria os interesses do grupo vitorioso no poder, legando ao povo apenas a opção de escolher qual minoria deve ter seus interesses atendidos pela posse do poder político. Qualquer embate eleitoral tenderia a se desdobrar em dois caminhos possíveis: a luta armada pelo poder, ou a difamação mútua entre o partido do governo e o de oposição7.

A proposta de resolução das questões apresentadas pela “máquina de governar” está contida no conceito de “democracia direta” da Terceira Teoria Universal. A ação política direta do povo estaria garantida por meio de uma estrutura piramidal de escolha de atores políticos que através de uma sucessão de congressos e comitês populares constituiriam um Congresso Geral do Povo formado por delegados designados. As eleições do secretariado de cada congresso submetem-se a um modelo de
seleção relacionado ao conceito de “escolha dos melhores” presente no islã desde a época posterior à morte do profeta Maomé, que havia servido como estratégia para a escolha de seus sucessores8. Esse princípio islâmico invocado (ijtihad) refere-se ao esforço de adaptação do texto corânico a determinadas situações não previstas pelo texto original, dando, portanto, caráter de legalidade ao que se examina.

A manutenção desse princípio religioso na teoria política de Kadafi relaciona-se diretamente com a maneira como o líder líbio caracteriza o conceito de “lei”. Em sua obra, Kadafi defende o argumento de que a autêntica lei de uma sociedade é a sua tradição, que no caso líbio refere-se a costumes islâmicos entendidos como inerentes à população local. A explícita valorização da tradição na produção de um moderno projeto político coloca sua própria definição de tradição à condição de “lei natural”, entendendo o islã como a legítima e apropriada tradição da Líbia. A proposta de Kadafi é atacar a ação legisladora dos Parlamentos, posto que qualquer lei criada pelos homens, como a Constituição de um país, se trata de uma “lei artificial” não advinda da tradição. Nesse sentido:
O meio pelo qual as ‘máquinas de governar’ procuram dominar os povos está consignado na Constituição. O povo é constrangido a submeter-se pela força às leis derivadas da Constituição, que por sua vez resulta do humor e das concepções da ‘máquina de governar’9.
Uma Constituição, portanto, não seria capaz de garantir a liberdade e a forma de exercício justo do poder aos homens condicionados a mesma. O modo de se governar um povo deve ser extraído de sua própria tradição, obrigando o governo a adaptar-se a lei natural de sua sociedade. A ausência de uma forma de governo baseada em uma lei natural, sagrada, tornada estável pelo uso contínuo, coloca em risco a liberdade de um povo porque a lei humana está sempre submetida à vicissitudes dependentes das relações de poder no interior de um regime político10.
Em condição complementar a base política da “Era da Jamahiriyya”, Kadafi expõe em um segundo volume do Livro Verde o que considera ser A Solução do Problema Econômico (Socialismo).
A idéia central de seu pensamento econômico se mostra pela defesa incondicional do fim do trabalho assalariado. Para Kadafi, a relação patrão-empregado é a base do problema econômico vivido pela humanidade. O sistema de trabalho assalariado é considerado opressor por ser visto como uma espécie de escravidão temporária, em que o trabalhador aluga sua força de trabalho e até o pagamento do salário mantém-se dominado pelo empregador. A resolução da questão econômica se encontra no
“socialismo natural”. Com a abolição da relação trabalhador-patrão, somente o Estado é admitido como empregador, pois somente ao mesmo deve ser estabelecida a posse de terra11. Entretanto, com a abolição do trabalho assalariado, o Estado fica responsável em garantir acesso à liberdade econômica para cada cidadão líbio. O conceito de liberdade econômica se define como o controle das necessidades de cada indivíduo, sendo o Estado responsável por assegurar três elementos básicos a essa liberdade:
habitação, proventos e veículo. Além disso, torna-se função do Estado garantir que as relações humanas retornem a maneira como eram dadas antes do surgimento das classes. Esse regresso a uma espécie de “lei econômica natural”, seria possível quando o Estado tivesse controle sobre os três elementos fundamentais da economia: a matéria-prima, os instrumentos de produção e o produtor. A atribuição de um mesmo grau de importância a esses três elementos, bem como o controle dos mesmos pelo Estado é a raiz conceitual que define o “socialismo natural” líbio. Este socialismo característico seria capaz de prover o homem da satisfação das necessidades não somente materiais, já que:

“O objetivo da nova sociedade socialista é criar uma sociedade feliz, porque é livre. Esta pode ser alcançada através da satisfação das necessidades materiais e morais do homem, o que, por sua vez, o liberta da dominação e controle exterior destas necessidades”12.

Dessa maneira, ao Estado compete dar condições para o desenvolvimento material e moral do homem, fator que novamente uniria Estado e religião enquanto ferramentas de construção da ordem social do país. Se a religião, conforme visto anteriormente, é a lei natural do povo, as regras de organização da base material do mesmo também devem ser pautadas em igual princípio, tornando legítimo do ponto de vista econômico a existência de um socialismo natural, assim como a religião à
sociedade.

A proposta econômica desenvolvida por Kadafi garante o fim do lucro e do dinheiro, dispensáveis no interior de uma coletividade economicamente justa. A ausência desses dois elementos existentes em qualquer economia faria com que o trabalhador submetido ao regime socialista se visse como sócio da produção, sem necessidade de agir com parcimônia; entendida como a usurpação da riqueza pública.

A última parte da obra O Livro Verde intitulada A Base Social da Terceira Teoria Universal refere-se a determinado projeto de revolução social entendido como a “genuína interpretação da história”, preocupada em estabelecer os “princípios firmes da vida social para toda a Humanidade”.
Através de uma análise da condição social de minorias como as mulheres e os negros, Kadafi determina que a existência de minorias em um país é fruto da dissolução do nacionalismo. Assim, o mundo, submetido a ciclos regulares do movimento histórico encontra-se no ciclo de defesa do nacionalismo pela luta nacional, compreendendo esse combate como o motor da história13.

A base da teoria social de Kadafi é a defesa do nacionalismo. A conservação da unidade nacional/social é entendida como alicerce da sobrevivência humana. Nesse sentido, enquanto a definição de Estado coincidir com a de Nação, a integração social encontra-se mantida. Em contraposição à defesa dos interesses de minorias, Kadafi reinterpreta seu próprio projeto de nação, que atrelado a seu programa econômico ousado e sua concepção política inovadora, se vê como uma
alternativa ao contexto da Guerra Fria, criando uma modernidade preocupada com um método próprio
de relacionar-se com a tradição.


1 “Após a derrota de 1967 Nasser se afastara um pouco do socialismo e dera início a uma reaproximação com o Estados Unidos. Reconhecendo o novo clima religioso do Oriente Médio, voltara a rechear seus discursos com referências islâmicas, embora mantivesse os Irmãos Muçulmanos presos”. Karen Armstrong. Em Nome de Deus: O Fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. São Paulo: Cia das Letras, 2001. 2ª. Reimpressão. p. 323.

2 “É por isso que o nosso próprio caminho para a modernidade deve necessariamente apoiar-se nos elementos de espírito crítico manifestados na própria cultura árabe, para desencadear dentro desta uma dinâmica de mudança. A modernidade significa, pois, antes de tudo elaborar um método e uma visão modernos da tradição. Poderemos assim, libertar a nossa concepção da tradição dessa carga ideológica e afetiva que pesa sobre a nossa consciência e nos força a ver a tradição como uma realidade absoluta, que transcende a história, em vez de vê-la em sua relatividade e em sua historicidade”. Mohammed al-Jabri. Introdução à Crítica da Razão Árabe. São Paulo: Editora UNESP, 1999. p. 29.


3 “Pero, tanto en su primera etapa como em su reconversión posterior, el régimen modelado por Gaddafi ha tenido que amoldar su estructura a los tres elementos básicos de la realidad sociológica líbia: la matriz religiosa del Estado (por el papel desempeñado por la cofradía Sanusiyya en su construcción estatal), la débil cohesión nacional (por tratarse de la agrupación de tres regiones bastante inconexas:Cirenaica, Tripolitana y al-Fazzan) y el peso de la estructura tribal en la organización social del país”. Gema Martín Muñoz. El Estado Árabe – Crisis de Legitimidad y Contestación Islamista.
Barcelona: Edicions Bellaterra, 1999. p. 150.

4 “Cet arabisme ‘classique’, hérité de Gamal Abd al-Nasser, recèle toutefois quelques spécificités. Dans la transition qui s’opère tout au long dês années soixante-dix entre l’arabisme de Nasser et l’islamisme montant dês années quatre-vingt, Qadhafi occupe une place intermédiaire (…) il est moins éloigné que Nasser de l’univers référentiel des islamistes”. François Burgat et André Laronde. La Libye. Paris: PUF, 1996. p. 63.


5 “La formulación teórica de Gaddafi se concreta em la creación por todo el país de congresos y comités populares destinados a hacer participar a los libios en las decisiones polítcas, pero cuya participación se presentará ideológicamente como un procedimiento conforme al principio coránico de la consulta (shûrà). Gema Martín Muñoz. Op.cit. p.152.

6 Muammar al-Kadafi. O Livro Verde. Primeira Parte: A Solução do Problema da Democracia (A Autoridade do Povo).
Trípoli: Empresa Pública de Edição, s/d. p. 22.


7“O partido afirma de antemão que a sua subida ao poder será o meio de realizar os seus objetivos e que os seus objetivos são os do povo. Essa é a teoria que justifica a teoria do partido e que serve de base a toda a ditadura. Qualquer que seja o número de partidos, essa teoria é sempre a mesma. A existência de vários partidos exacerba até a luta pelo poder… que onduz ao aniquilamento de todas as conquistas do povo e sabota todos os planos de desenvolvimento da sociedade. É essa destruição que justifica a tentativa do partido rival de tomar o lugar do partido no poder. A luta dos partidos, se não conduz à luta armada – o que é raro – toma a forma da crítica e da difamação mútuas”. Idem, p. 13.


8 “Hay que señalar que la elección de los secretariados de cada Congreso es presentada como un procedimiento inspirado en el principio de la ‘elección de los mejores’ (ijtiyar) en el que se fundamentó la designación de los primeros sucesores del Profeta; de ese modo, el régimen libio vse identifica y confunde con el primer y mítico período del islam”. Gema Martín Muñoz. Op. cit. p. 152.

9 Muammar al-Kadafi. Op.cit. p.32.
10 “A religião absorve o costume, que é a expressão da vida natural dos povos. Portanto, a religião é uma confirmação da lei
natural. As leis não nascidas do costume e da religião são criações do Homem contra o Homem. Por conseqüência, são injustas porque são desprovidas das fontes naturais que são o costume (a tradição) e a religião”. Idem, pp. 34 e 35.


11 “O argumento de que, no caso da posse ser do Estado, os proventos revertem para a sociedade, incluindo os trabalhadores, em contraste com o fato de que numa corporação privada, os lucros revertem apenas para o seu proprietário, é válido. Nós defendemos que tomemos em consideração antes dos interesses particulares dos trabalhadores, os interesses gerais da
sociedade e que a autoridade política, que monopoliza a posse da propriedade, é a autoridade de todo o povo”. Idem, p. 48.

12 Idem, p. 57.
13 “O que se passa é que o Mundo está a atravessar atualmente um dos seus ciclos regulares do movimento histórico, o da
luta nacional em defesa do nacionalismo. (…) Isto quer dizer que a luta nacional – luta social – é a base do movimento da
história, porque é mais forte do que todos os outros fatores”. Idem, p. 77.

VINGANÇA DA DERROTA: WASHINGTON E BRUXELAS CONDENAM POVO SÍRIO À FOME

Por: Edward Barnes

Incapazes de vencer a guerra de agressão lançada há já nove anos contra a Síria, os Estados Unidos e a União Europeia têm vindo a confirmar, durante as últimas semanas, a sua mudança de estratégia para tentar colocar em Damasco os seus servidores: impor a fome ao povo sírio em cima da pandemia de COVID-19 e provocar uma explosão social interna.

Um bloqueio total da Síria devastada pela guerra é o efeito pretendido pela administração Trump com as novas sanções impostas esta semana. O objectivo é impedir que a nação árabe consiga desenvolver o processo de reconstrução e de normalização da sua vida depois de ter vencido a guerra que lhe é imposta há dez anos. Ou, como diz a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, “impedir o governo sírio de garantir a vitória militar”.

Uma guerra que lhe é movida no exterior e não uma rebelião interna, versão falsa dos acontecimentos que continua a ser a doutrina oficial disseminada pela comunicação social corporativa. Os agentes directos desta guerra são grupos terroristas injectados do exterior, especialmente da Turquia, com patrocínio da NATO e sob vários rótulos que convergem sob duas designações essenciais do terrorismo internacional: al-Qaida e Isis ou Estádio Islâmico. Ao longo dos últimos nove anos têm sido muitas as ocasiões em que foram demonstradas cumplicidades directas entre países da NATO, como os Estados Unidos, o Reino Unido, a França e a Turquia e seus aliados regionais e os citados grupos de mercenários que se cobrem sob a máscara do “islamismo”.

A União Europeia, como entidade, é igualmente responsável pelas acções pela mudança de regime em Damasco, através do envolvimento militar de alguns dos seus membros e também pela imposição de sanções, renovadas e reforçadas no mês passado.

Associar os efeitos da fome e da pandemia

Washington e Bruxelas tentam através das sanções submeter o povo sírio à fome, de modo a tornar as condições sociais no país tão insuportáveis que suscitem um levantamento interno total. A estratégia tem sido aplicada igualmente noutros países, como a Venezuela e o Irão. Acresce que o reforço de sanções coincide com a pandemia de COVID-19, sendo evidente a intenção partilhada pelos Estados Unidos e a União Europeia de vencerem a resistência síria e penalizarem o povo pela conjugação dos efeitos das duas tragédias.

Logo que se deu o agravamento das sanções norte-americanas e europeias, ilegais à luz do direito internacional e que poderiam cair no âmbito do Tribunal Penal Internacional (TPI) – se este realmente funcionasse de maneira independente – grupos terroristas da al-Qaida no norte do país e tropas de ocupação dos Estados Unidos no sul começaram a incendiar campos agrícolas de maneira coordenada. A Síria apresentou queixa no Conselho de Segurança das Nações Unidas mas a ONU, como um todo, tem dado perante a agressão à Síria mais uma imagem do seu desprestígio e do alinhamento pela guerra.

Em poucos dias desapareceram dos mercados sírios os produtos alimentares importados e os preços dos que são produzidos localmente, sob a pressão dos atentados nos campos, subiram em flecha. A libra síria afundou-se nos mercados cambiais e é negociada no mercado negro por um quarto do seu valor oficial.

Coincidindo com este cenário, a Turquia pôs a sua moeda nacional em circulação nos territórios ainda ocupados por grupos terroristas no norte e noroeste do país, designadamente na província de Idleb – uma situação que acaba por tornar-se idêntica à que vigora há quase 50 anos no Norte de Chipre. Além de revelar mais um passo nas ambições “neo-otomanas” do ditador fundamentalista turco Erdogan, nada deixa entender que a medida venha a ser contestada pelos Estados Unidos e a União Europeia, confirmando-se assim a sua intenção de desagregar o território da Síria.

Uma “nova face do terrorismo”

De acordo com o quadro de sanções posto em prática mais recentemente, qualquer pessoa ou entidade que faça comércio com a Síria será duramente condenada pelos Estados Unidos e a União Europeia – que continua a seguir a essência das medidas tomadas por um energúmeno como Trump.

As acções para condenação dos sírios à fome começaram a ter repercussões internas. Desde 9 de Junho têm ocorrido manifestações populares reclamando alimentos. Contudo, a Síria nunca tivera problemas alimentares durante a guerra, excepto nas regiões que estiveram ocupadas pelos terroristas, onde estes apreendiam os produtos alimentares às populações reféns.

A Presidência da República preparou um plano de autossuficiência alimentar, mas que não produzirá efeitos imediatos. A Rússia e eventualmente outros países, como a China, poderão suprir as maiores necessidades a curto prazo, mas a população síria debate-se com a ameaça da fome a médio prazo.

As sanções reforçadas esta semana foram impostas no quadro de uma lei interna dos Estados Unidos – de responsabilidade tanto de democratas como de republicanos – designada, cruel e cinicamente, “Lei de Protecção Civil da Síria” ou “lei César”.

Kelly Craft, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, foi clara ao afirmar perante o Conselho de Segurança que as medidas se guiam pela necessidade de impedir o governo sírio de “garantir a vitória militar”. O embaixador sírio na ONU, Bachar Jaafari, declarou que as medidas “mostram uma nova face do terrorismo”.

Tudo indica que os ataques norte-americanos e europeus não fiquem por aqui: “antecipamos muito mais sanções”, declarou o secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo. A finalidade, acrescentou, é fazer com que Damasco “concorde com uma solução política para o conflito”.

A única “solução política” considerada viável pelos Estados Unidos e aliados é a renúncia do actual governo e a sua substituição por agentes dos países e interesses que têm estado por detrás de nove anos de guerra e destruição de um país soberano.

Vários países, designadamente Rússia, China, Irão, Cuba e Venezuela, condenaram as sanções a afirmaram que não se considerarão submetidos às medidas pretensamente transnacionais impostas de maneira totalitária, e contra o direito internacional, por Estados Unidos e União Europeia.

Além destas duas entidades, a que deve acrescentar-se a NATO, há ainda os seguintes países envolvidos individualmente na estratégia de destruição e desagregação territorial da Síria: Reino Unido, França, Alemanha, Turquia, Israel, Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Jordânia.

A guerra internacional imposta contra a Síria provocou já 400 mil mortos além de milhões de pessoas com as vidas arruinadas, tornando-se refugiados e desalojados internos e externos.