A crise económica de 2020: Pobreza global, desemprego e desespero

Taxa de desemprego nos EUA bate recorde | Notícias e análises ...

Por: Michel Chossudovsky

Estamos indubitavelmente a viver uma das mais graves crises económicas e sociais da história moderna. De certo modo, estamos a viver história e somos incapazes de compreender a lógica da pandemia do coronavírus.

O que está em causa é o pretexto e a justificação para o encerramento de economias nacionais à escala mundial com base em preocupações de saúde pública.

Temos de entender as causalidades. Encerrar uma economia, nacionalmente e globalmente não resolver a pandemia. De facto, isto cria uma situação de instabilidade institucional.

Isto resulta também em desemprego maciço, confinamento de pessoas nas suas casas, sem emprego, sem alimento… Que é o que estamos a viver.

Não há nenhuma justificação para o encerramento de economias nacionais na base de preocupações de saúde pública, as quais podem ser resolvidas e deveriam ser resolvidas!

Há um processo de tomada de decisão muito complexo, o qual foi planeado bem antecipadamente. A partir da “autoridade central”, governos são instruídos a encerrarem suas economias e então, por sua vez, os governos instruem pessoas a implementarem engenharia social, a não se reunirem, a não terem reuniões familiares…

Essencialmente, o que não entendemos, e que é fundamental, é que a actividade económica é a base para a reprodução da vida real. Com isso quero dizer instituições, poder de compra das famílias, toda uma série de actividades, as quais tem-se desenvolvido no decorrer da história – a actividade económica constitui o fundamento de todas as sociedades.

E no que estas medidas tem resultado é uma crise maciça, na qual particularmente pequenas e médias empresas estão a ser precipitadas na bancarrota, milhões de pessoas ficaram desempregadas e em muitos países isto resultou em pobreza maciça, fome, entre certos grupos da população.

Em número recorde, pedidos de seguro-desemprego nos EUA passam de ...

Temos ampla evidência deste efeito e temos de entender que este processo de encerramento de economias nacionais é deliberado. É um plano. E é coordenado com a crise financeira ocorrida no mês de Fevereiro (2020), a qual levou a um colapso maciço em instituições bancárias, mercados de acções e assim por diante. Economistas, os convencionais, têm uma tendência a dizer que não há relacionamento entre a crise pandémica do coronavírus e o crash financeiro em Fevereiro. Isso é absolutamente errado. A campanha de medo e a campanha de desinformação facilitaram a manipulação do mercado de acções. E estamos a falar acerca da utilização de derivativos muito refinados, instrumentos especulativos, etc

O que está a acontecer agora é que governos têm estado endividados até às orelhas. Eles estão a pagar compensação a companhias que foram afectadas; em alguns casos são generosos salvamentos externos (bailouts), em outros casos é parte de uma rede de segurança social vindo em resgate de trabalhadores e empresas em pequena escala.

E a fase seguinte é a mais grave crise de dívida da história mundial. Por outras palavras, os níveis de emprego afundaram e companhias estão na bancarrota. Teremos uma crise orçamental do Estado. Assim, um declínio dramático nas receitas fiscais (sobre o rendimento) devido ao colapso no emprego, e as companhias (as que não foram à bancarrota) irão naturalmente deduzir as perdas corporativas nas suas declarações fiscais. Como é que os governos por todo o mundo continuarão a governar, financiar programas sociais e assim por diante?

Em última análise, será através de uma gigantesca operação de dívida global implementada tanto nos chamados países “desenvolvidos” – por exemplo, Itália, França, Estados Unidos, Canadá – como nos países em desenvolvimento onde actuarão mais as instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial, o FMI, os bancos de desenvolvimento regionais.

Agora, o problema dos governos ocidentais é que esta dívida não é reembolsável. O governo italiano emitiu obrigações com o apoio da Goldman Sachs e assim por diante; isso foi feito há alguns meses atrás. E o que aconteceu? A dívida da Itália está classificada (pela Standard & Poor)… e estes títulos italianos são classificados como ‘BB’, o que significa essencialmente o estatuto de junk bond. Por outras palavras, isso significa que todo um aparelho estatal está agora nas mãos dos credores. E estes credores são as instituições financeiras, os bancos e assim por diante.

E a etapa seguinte é em última análise a confiscação do Estado! O Estado será privatizado. Todos os programas obedecerão ao leme dos credores. Podemos dizer “Adeus” ao Estado Previdência (welfare state) na Europa ocidental. Por que? Porque os credores de imediato seguirão o que fizeram na Grécia poucos anos atrás… Imediatamente imporão medidas de austeridade e a privatização de programas sociais, a privatização de qualquer coisa que possa ser privatizada – cidades, terra, edifícios públicos…

Por outras palavras, estamos a viver uma evolução muito importante porque o Estado, tal como o conhecemos, deixará de existir. Ele será dirigido por interesses da banca privada os quais – e já estão a fazê-lo – nomearão seus governos, ou seus políticos, seus políticos corruptos e no essencial tomarão conta de toda a paisagem política.

Isso é o que está a acontecer num certo número de países. E em alguns países eles instruíram mesmo o governo a não debaterem (no parlamento) as enormes dívidas que foram acumuladas nestes últimos meses em resultado da pandemia, as quais agora são o objecto de financiamento destas poderosas instituições financeiras. No Canadá houve um acordo entre o primeiro-ministro Trudeau por um lado e o líder da oposição – nenhum debate no parlamento sobre os US$150 mil milhões da dívida, a qual tem de ser coberta através de operações de dívida pública e empréstimos de instituições financeiras.

No essencial o cenário que estamos a viver, o qual está a desdobrar-se, é que por um lado a economia real no decorrer dos últimos meses a partir de Março, bem, de facto, a partir de Fevereiro com o crash do mercado de acções, está num estado de crise, a actividade produtiva tem ser afectada, o comércio foi afectado. Milhões e milhões de pessoas estão a ir para o desemprego, sem ganhos, e isto não é apenas pobreza – é pobreza e desespero. É a marginalização de grandes sectores da população mundial em relação ao mercado de trabalho. Há números sobre isso, publicados pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) que de facto, nesta fase, é prematuro começar mesmo a estimar os impactos.

Podemos examinar país por país. Podemos ver, por exemplo, que nos países em desenvolvimento o sector informal, digamos que a Índia ou certos países da América Latina, tais como o Peru, um grande sector da força de trabalho está no chamado “sector informal”, auto-empregados, indústrias em pequena escala e assim por diante. Bem, isto foi completamente liquidado e as pessoas afectadas são muitas vezes deixadas sem abrigo. A única opção que elas têm é voltar às suas aldeias de origem e neste processo são vítimas de fome e uma situação de marginalização total.

Este é o cenário. Está para além da pobreza global. É desemprego em massa. É algo que foi engendrado, não é algo acidental. E certamente não é alguma coisa que foi utilizada para resolver uma crise de saúde global.

A crise de saúde global relativa ao Covid foi multiplicada. Pessoas foram confinadas, elas caíram doentes, perderam seus empregos e, ao mesmo tempo, todo o aparelho da saúde tem estado em crise, incapaz de funcionar.

O que temos de entender é que este processo tem de ser confrontado! Tem de haver uma oposição organizada. Isto é um projecto neoliberal! É neoliberalismo ao extremo.

Agora, considere-se que hoje o que se verifica é que sob certos aspectos o crash do mercado de acções utilizava instrumentos especulativos, trading de iniciados (insider), mas também a campanha de medo para implementar aquilo que é a mais significativa transferência de riqueza da história mundial! Por outras palavras, todos perdem dinheiro no crash do mercado de acções e o dinheiro vai para as mãos, como sabe, de um número limitado de bilionários. E tem havido estimativas quanto ao enriquecimento desta classe no decorrer dos últimos três meses. Não vou entrar em pormenores. De modo que isto, num certo sentido, esta crise de Fevereiro, a crise do mercado de acções, estabelece o cenário para o confinamento.

E quanto ao tópico do confinamento, podemos chamar isto por um outro nome. O confinamento é o encerramento da economia global! É um acto que instrui governos nacionais a encerrarem sua economia – e eles obedecem! Isso é o que chamamos “governação global”. Mas é um projecto imperial. Eles obedecem e encerram tudo.

E a seguir tentam convencer seus cidadãos de que isto tudo é por uma boa causa, estamos a encerrar a economia de modo a que possamos salvar vidas devido ao Covid-19. Trata-se de uma declaração muito forte e, ao mesmo tempo, as estatísticas sobre o Covid-10 são a fonte da manipulação.

Não entrarei nesta dimensão particular mas posso dizer com toda a certeza que o impacto desta crise é tão dramático, a crise económica, que ela não se compara ao impacto do Covid-19, o qual, segundo mesmo pessoas como Anthony Fauci, é comparável à gripe sazonal. Eles têm escrito isso em seus artigos revistos por pares (peer-reviewed).

O que eles dizem online, na CNN, é um assunto diferente. Mas não consideram o Covid-19 como um perigo supremo entre todos os perigos. Não é. Há muitas outras pandemias de saúde a afectarem o mundo. Isso não significa que não deveríamos considerá-la seriamente mas deveríamos entender, é de senso comum, que não é pelo encerramento da economia global que ser irá resolver esta pandemia.

Então, alguém está a mentir, em algum lugar. E de facto, as mentiras estão a “tornar-se a verdade”, estão a tornar-se parte do “consenso” e isso é extremamente perigoso.

Desigualdade cresce nos Estados Unidos, diz relatório | VEJA

Porque quando a mentira se torna “a verdade” não há volta atrás.

E percebemos como cientistas independente, analistas independentes, estão a ser censurados, que temos muitos médicos e enfermeiros e cientistas, virologistas bem como economistas que estão a dizer isso de modo explícito. E basta olhar para os números, os milhões e milhões de pessoas que estão desempregadas em consequência disso.

Portanto, o que realmente precisamos é de uma compreensão histórica do que se está a passar, porque fechar a economia através de ordens vindas “algures lá de cima”…

Em primeiro lugar, isto é diferente de qualquer crise anterior. Mas, em segundo lugar, temos de resistir a este modelo. E não é pela mudança do paradigma, não. É um movimento de massas; é um movimento de massas contra os nossos governos, é um movimento de massas contra os arquitectos deste projecto diabólico…

E não podemos pedir aos Rockefellers: “Por favor emprestem-nos o dinheiro” para pagar as nossas despesas, temos de o fazer por nós próprios.

E é por isso que todas estas ONG, que são financiadas por fundações corporativas não podem… Não estou a dizer… algumas das coisas que fazem são boas, mas não podem fazer campanha contra aqueles que as patrocinam, isso é uma impossibilidade.

Assim, temos de implementar um movimento de base, a nível nacional e internacional, para confrontar este projecto diabólico e para restaurar as nossas economias nacionais, as nossas instituições nacionais. E, para negar a legitimidade do projecto de endividamento. E investigar os elementos de corrupção que conduziram a esta aventura diabólica, a qual está a afectar a humanidade na sua totalidade.

Isto é uma guerra contra a humanidade, implementada através de instrumentos económicos complexos.

Adeus e continuaremos a nossa batalha e a nossa análise o melhor que pudermos no Global Research.

Maternidade sob controle

Por: Andrea Natalia Rivera Rosario

Os porto-riquenhos são sem dúvida a raça mais suja, preguiçosa, degenerada e ladra entre os homens que alguma vez habitaram esta esfera.   O que a ilha precisa não é de trabalho de saúde pública, mas de uma onda, maré ou algo para exterminar totalmente a população.   Fiz o meu melhor para promover o processo de extermínio ao matar oito e transplantar cancro para vários mais.
– Dr. Cornelius Rhoads, MD, enviado a Porto Rico pelo Instituto Rockefeller para dirigir uma pesquisa de saúde pública em 1931.

A medicina moderna tem tomado o lugar da religião como o principal autor de milagres. Entretanto, raras vezes nos detemos para pensar no processo que conduz ao desenvolvimento de novos medicamentos e, muito menos, nas situações sociais envolvidas. Darmo-nos conta das inumeráveis violações éticas que abriram caminho para a ciência moderna é uma tarefa difícil, ainda que reconheçamos que esses descobrimentos não se tornam menos úteis ou importantes se suas origens não são éticas. Ao sermos críticos com a prática da ciência em si, podemos superar a ideia de que, de alguma maneira, ela é sacrossanta. Assim, podemos honrar a vida das pessoas que foram sacrificadas pela busca do conhecimento.

O racismo, o sexismo e outros preconceitos alimentaram um número de experimentos (a)científicos nos Estados Unidos da América e em seus territórios, incluindo Porto Rico. Em meados do século XX, a companhia farmacêutica GD Searle levou a cabo uma série de ensaios na ilha caribenha para estimar os possíveis efeitos colaterais de uma nova forma de anticoncepcional:   a pílula. Esses esforços, motivados pela ideologia colonialista e imperialista estadunidense, não apenas colocaram em risco a vida de mulheres sem o seu consentimento como mostraram as medidas que os Estados Unidos estavam dispostos a tomar para reduzir a excesso populacional da ilha.

O DESTINO DA COLÔNIA

É quase impossível descrever a motivação por detrás do uso – e abuso – da ciência em Porto Rico sem abordar a complicada história colonial do arquipélago com os Estados Unidos. Durante a guerra hispano-americana, as tropas do general Nelson A. Miles invadiram a cidade de Guánica, no sudeste da ilha, em 25 de julho de 1898. Depois da guerra, a coroa espanhola vendeu as Filipinas, Porto Rico e Guam aos Estados Unidos por míseros US$20 milhões. [2] Devido à sua privilegiada geografia no Caribe, o arquipélago porto-riquenho (composto pela ilha principal, Vieques, Culebra e várias outras ilhas despovoadas) serviu como um ótimo porto de entrada e saída às Américas. Como consequência do seu valor estratégico-militar e comercial, Porto Rico continua sendo até o dia de hoje uma colônia estadunidense, condenada a um perpétuo estado liminar.

Os porto-riquenhos foram comandados por um governo civil estadunidense até 1952, ano que marcou a introdução da Constituição portoriquenha. Oficializado no quinquagésimo quarto aniversário da invasão, esse documento transformou formalmente a colônia em Estado Livre Associado de Porto Rico. O que resultou uma ilusão, já que Porto Rico não se converteu nem em livre, nem associado, nem num estado. Essa constituição legitimava o estado colonial existente.

Junto a introdução da nova Constituição, na década de 1950 chegou um plano específico para priorizar o desenvolvimento econômico de Porto Rico. O governador Luis Muñoz Marín – no cargo desde 1946 até 1965 – foi o primeiro governador eleito pelos cidadãos do arquipélago e supervisionou sua trajetória até o desenvolvimento democrático. Impulsionado por uma ideologia ao estilo do New Deal, sua administração instituiu a Operação Mãos à Obra (Operation Bootstrap) em 1947 para modernizar Porto Rico através da indústria, e para reduzir os principais índices de pobreza. [3] Todas as áreas da vida portoriquenha experimentaram mudanças drásticas em nome do progresso: o trabalho, a habitação, os valores, a infraestrutura e, o mais importante, a unidade familiar. O que havia sido uma transformação gradual, de um sistema econômico principalmente agrário para um baseado na manufatura e na indústria, de repente se acelerou em meados do século XX. Segundo os dados do censo dos EUA de 1940, aproximadamente 566 mil portoriquenhos viviam em áreas urbanas, onde se encontravam a maioria das fábricas. Em 1950, esse número se aproximava dos 900 mil. [4]

Apesar da aparente prosperidade econômica, a Operação Mãos à Obra deixou uma taxa mais alta de desemprego e uma taxa mais baixa de participação laboral. A industrialização simplesmente não foi suficiente para cobrir as brechas deixadas pela falta de empregos agrícolas. [5] Apesar disso, a Operação conseguiu inculcar no público uma mentalidade capitalista. Os portoriquenhos desejavam mais do “bom” (crescimento econômico, urbanização, empregos) e menos do ruim: a pobreza. Com o tempo, várias instituições e especialistas dedicaram seus esforços para encontrar a raiz da pobreza na ilha. Finalmente, foram cientistas sociais que disseram de quem era a culpa:   da população porto-riquenha estava crescendo demasiado e bastante rápido. [6]

O governo colonial, tal como o seu homólogo estadunidense, tomou medidas políticas para combater o problema do excesso populacional. Desde a década de 1920, muito antes do auge industrial, as autoridades haviam prestado muita atenção ao número “excessivo” de portoriquenhos. Um aspecto do problema, segundo os demógrafos e sociólogos da época, era a suposta alta taxa de fertilidade dos portoriquenhos. [7] Eles estabeleceram uma relação causal entre uma suposta promiscuidade sexual e o aumento da fertilidade que levou a esforços de controle populacional centrados principalmente no comportamento reprodutivo dos porto-riquenhos, especialmente o das mulheres.

REPRODUÇÃO RESTRINGIDA: O EXPERIMENTO PORTORIQUENHO

Então foram postos em marcha vários programas de controle de natalidade. No início da década de 1930 foram abertas clínicas pelo arquipélago para reduzir a pobreza através da limitação da reprodução das classes baixas e trabalhadoras. [8] Não obstante, foram as mulheres da elite e da classe alta as que se mostraram mais receptivas a essas políticas de planejamento familiar, o que suscitou a preocupação de que a ilha estivesse sofrendo de um suposto “suicídio racial”, conceito arraigado na eugenia que descreve a extinção das populações “desejáveis” e o aumento simultâneo das “não aptas”. [9]

Os anos 30 também marcaram a chegada do Dr. Clarence Gamble, um médico e herdeiro da fortuna da Procter & Gamble. Gamble, destacado eugenista, via os portoriquenhos como uma ameaça para os americanos. Claro, essa gente talvez fosse apta para os campos e as fábricas, mas ninguém queria que invadissem o continente. [10] O que faria a nação com todos estes pobres “americanos” hispanofalantes de pigmentação ambígua?

Gamble já era reconhecido pelos programas e experimentos de controle de natalidade, de modo que quando a anticoncepção (incluindo a esterilização cirúrgica) foi legalizada em Porto Rico em 1937, ele viu a oportunidade de seguir explorando seus métodos. [11] Sob sua supervisão, nos últimos anos da década várias clínicas de saúde reprodutiva se estabeleceram na ilha.

Ao mesmo tempo que Gamble promovia a esterilização como uma forma rápida e fácil de lograr uma menor densidade populacional, tomava liberdades criativas ao prescrever produtos contraceptivos reversíveis com eficácia não comprovada. Promoveu líquidos e cremes espermicidas sob o pretexto de que eram infalíveis e, por isso, adequados para as mulheres porto-riquenhas de “mente curta” [12] . Essas soluções tópicas consistiam principalmente em uma mescla de ácidos, solventes e detergentes que Gamble sabia serem raramente eficazes. [13]

Porto Rico, com sua ampla população de mulheres pobres e analfabetas, ofereceu a Gamble e às empresas farmacêuticas estadunidenses um entorno ideal para a realização de clínicas massivas de contraceptivos. A presença de Gamble, junto com sua reputação e conexões profissionais, foi importante para selar o destino do arquipélago como laboratório social. Anteriormente as iniciativas de planejamento familiar a pequena escala eram dirigidas normalmente por enfermeiras feministas e trabalhadoras sociais. O modelo de investigação do Dr. Gamble, que dava o poder de controle populacional a médicos estadunidenses, levaria os esforços contraceptivos por um caminho mais obscuro e questionável. [14]

A PÍLULA MÁGICA

O Dr. Gregory Pincus, ex-professor assistente da Universidade de Harvard e investigador da sexualidade humana, é reconhecido como o autor das pesquisas de controle de natalidade de Porto Rico. [15] Pincus sentia uma obrigação moral de combater o excesso populacional, em particular entre as “pessoas primitivas”, que ele acreditava terem uma taxa de natalidade elevada. Junto com o Dr. John Rock, um ginecologista de Harvard, Pincus levou a cabo uma série de experimentos com mulheres para provar a segurança de um anticoncepcional oral a que chamaram Enovid. [15]

O Enovid continha as investigações prévias de ambos os doutores. No laboratório de Pincus, as injeções de progesterona e de estrógeneo, hormônios conhecidos por seu papel no controle do ciclo reprodutivo feminino, haviam apresentado promissores resultados contraceptivos em coelhas. Simultaneamente, Rock usou os mesmos hormônios em sua clínica para induzir a gravidez em pacientes supostamente inférteis. Em 1953, embarcaram juntos em uma viagem para descobrir como esses produtos químicos podiam suprimir a fertilidade.

Na mesma época, Margaret Sanger, enfermeira e co-fundadora de Planned Parenthood, advogava em favor da acessibilidade dos contraceptivos. Sanger considerava-se uma defensora do direito das mulheres à maternidade voluntária e via o planejamento familiar como uma maneira de reduzir o número de mulheres que viviam abaixo do nível de pobreza. Foi essa busca que a levou a fazer contato com vários eugenistas reconhecidos, em particular com o Dr. Clarence Gamble, com quem logo estabeleceria amizade. Sanger também se interessara pela investigação do Dr. Pincus e do Dr. Rock como uma maneira de conseguir seu objetivo final: uma pílula anticoncepcional segura e efetiva. Em meados da década de 1950, Sanger havia convencido a sua colega feminista – e herdeira de uma fortuna de 35 milhões de dólares – Katharine McCormick a financiar o experimento científico dos dois investigadores. [17] Tinham um patrocinador, uma pílula e um campo de provas; a única coisa que faltava era uma fonte de fundos. Duas empresas farmacêuticas negaram-se a participar das pesquisas com seres humanos por considerarem que os possíveis experimentos eram “perigosos e pouco éticos”, mas finalmente, uma terceira, G.D. Searle, aceitou o desafio. [18]

CONSENTIMENTO NÃO INFORMADO

Vale mencionar que as regulações sobre as pesquisas com humanos não eram tão estritas nos anos 50 como são hoje em dia. As leis que estabeleceram os princípios éticos modernos, como o Relatório Belmont de 1979, que estabeleceu o princípio de consentimento informado, foram redigidas depois que os experimentos terminaram e o Enovid já estava no mercado. Em Porto Rico, que já era um “laboratório social”, a falta de regulações para pesquisas era ainda maior. Como as leis eram mais frouxas e os esforços de controle de natalidade já eram comuns, a nova pílula passou despercebida como mais um meio para reduzir a superpopulação. [19]

Em 1954 foi realizado um experimento de pequena escala com pacientes do centro psiquiátrico do Hospital Estatal de Worcester, em Massachusetts. Os pesquisadores terminaram por considerar as pesquisas como não conclusivas devido à suposição de que as pacientes não estavam sexualmente ativas. [20] Pincus e Rock dirigiram-se então a Porto Rico em busca de um grupo de sujeitos mais manejável e maior. O estudo inicial começou em 1955 com a participação de vinte mulheres estudantes de medicina da Universidade de Porto Rico. Em Reproducing Empire, Laura Briggs escreve que, apesar de essas jovens terem dado seu consentimento, foi informado que suas notas estavam condicionadas a participação no experimento. Mesmo tendo sido obrigadas a se oferecerem como voluntárias, não puderam cumprir com os requisitos das pílulas diárias e das provas requeridas: exames vaginais, medição da temperatura, coleta mensal de urina, biópsias do endométrio e às vezes inclusive laparoscopias. A pesquisa foi abandonada. [21]

Em 1956, Pincus havia mudado seu enfoque para populações mais amplas de portoriquenhos: as residentes de um projeto de habitação subsidiada em Río Pedras, San Juan, a capital, e pacientes do hospital Ryder, na cidade rural de Humacao, no leste de Porto Rico. As seiscentas mulheres inscritas na pesquisa haviam sido recusadas para o processo de esterilização, em geral, porque tinham menos de três filhos. [22] A metade dessas mulheres acabou por abandonar as pesquisas, e os experimentos produziram resultados praticamente inúteis. Na realidade, o Enovid não havia reduzido a taxa de natalidade entre as mulheres. Vinte das 295 participantes de Río Pedras ficaram grávidas nos primeiros dezoito meses da pesquisa, e os coordenadores observaram uma taxa de gravidez de 79% nos quatro meses seguintes às pesquisas. [23]

Além disso, os efeitos colaterais (náuseas, vômitos, hemorragias vaginais e fortes dores de cabeça) tornaram miseráveis as vidas de um grande número de participantes, o que frequentemente justificava visitas ao hospital. Duas das profissionais médicas que supervisionaram as pesquisas no arquipélago, a Dra. Edris Rice-Wray e a Dra. Adeleine Satterthwaite, soaram o alarme sobre as práticas desumanas que levaram essas mal informadas a sofrerem angustiantes efeitos colaterais. Informaram que muitas apresentavam danos nas estruturas uterinas, resultando inclusive em diagnósticos de câncer de colo uterino e, em outros casos, mortes. [24] Suas mortes nunca foram investigadas. Pincus qualificou esses “efeitos” como resultados do uso indevido dos hormônios e a falta de consistência das doses, e perseverou, ocultando os resultados negativos e realizando novos experimentos no Haiti e no México. O Enovid foi aprovado pela FDA em 1960. [25]

Os debates sobre o consentimento (não) informado das participantes continuaram nas décadas posteriores aos estudos de Pincus e Rock. Em seu documentário sobre as práticas de esterilização e controle da população em Porto Rico ( La Operación, 1982), Ana María García compartilha o testemunho de duas participantes. As mulheres informaram que não conheciam a composição nem a dose da pílula e uma delas relatou as náuseas, tonturas e desmaios que experimentou devido ao tratamento. [26] Quase trinta anos depois, ainda não sabiam que eram as primeiras mulheres do mundo a utilizar Enovid e não tinham ideia de que a fórmula que lhes havia sido dado inicialmente continha significativamente mais hormônios que a pílula finalmente aprovada. [27] Nenhuma dessas mulheres foi compensada pelos meses que dedicaram às pesquisas.

PARA AS MULHERES

Não se pode negar que a pílula desencadeou uma revolução. Para as feministas, e para as mulheres em geral, um método contraceptivo conveniente significou uma nova maneira de reclamar autonomia sobre seus corpos. Nas décadas posteriores aos experimentos, muitas de nós nos beneficiamos imensamente do trabalho daqueles investigadores – e das inumeráveis dificuldades suportadas por seus sujeitos.

Então, é preciso reconhecer as situações e dinâmicas de poder que tornaram possível esse avanço científico. Com um preço de 11 dólares ao mês, o Enovid era demasiado caro para as mulheres de classe média e trabalhadora de Porto Rico. [28] Embora elas tenham sido os sujeitos das medidas de controle da população – o esforço que levou Pincus à ilha –, essas mulheres não viveram nenhuma mudança nos métodos contraceptivos que tinham a sua disposição. A maioria delas continuava recorrendo à esterilização, a mais invasiva de suas opções, como meio de planejamento familiar. No começo da década de 1970, 35% das mulheres portoriquenhas haviam sido esterilizadas. [29]

A pobreza não foi aliviada com a legislação sobre o controle de natalidade e a superpopulação continuou a servir de pretexto para explorar os portoriquenhos mediante tratamentos experimentais sem regulamentação. Até o dia de hoje, a pobreza e a falta de recursos estão sendo utilizadas para justificar políticas coloniais e opressivas em Porto Rico. O arquipélago se encontra afundado em uma dívida de duvidosa legalidade e a Junta de Supervisão Fiscal, estabelecida pela lei PROMESA do Congresso em 2016, atualmente se encarrega de manejar a economia do arquipélago. [30] Esse organismo controla o futuro financeiro e econômico de Porto Rico e é composto por sete membros eleitos unilateralmente pelo Presidente dos Estados Unidos (posição pela qual, não é preciso dizer, os portoriquenhos nunca puderam votar). Igual aos programas de controle de natalidade, as ordens da Junta dão-se por recomendação de cientistas sociais e especialistas estrangeiros. Os porto-riquenhos, mais uma vez, não possuem voz nem voto nem consentimento no assunto.
1. Drew C. Pendergrass and Michelle Y. Raji, “The Bitter Pill: Harvard and the Dark History of Birth Control,” The Harvard Crimson , September 28, 2017.
2. Editors, “Treaty of Paris Ends Spanish-American War,” History.com , December 10, 2019.
3. María Elena Carrión, “Operación Manos a La Obra,” Encyclopedia de Puerto Rico, September 15, 2014.
4. US Department of Commerce, “Puerto Rico: 2010,” United States Census 2010.
5. Carrión, “Operación Manos a la Obra”.
6. Schroeder, Theodore, “Porto Rico’s Population Problem,” Birth Control Review 16, no. 3 (1932): 50;72.
7. Laura Briggs, “Debating Reproduction,” in Reproducing Empire: Race, Sex, Science, and U.S. Imperialism in Puerto Rico (University of California Press, 2002), 83-84.
8. Briggs, “Debating Reproduction,” 93-97.
9. Briggs, “Demon Mothers in the Social Laboratory,” 115-116; Sanger, Margaret, “Birth Control and Racial Betterment,” Birth Control Review (February, 1919).
10. Briggs, “Debating Reproduction,” 102.
11. James A. Miller,”Betting with Lives: Clarence Gamble and the Pathfinder International,” Population Research Institute, July 1, 1996.
12. Briggs, “Debating Reproduction,” 2-107.
13. Gamble, C.J. 1957, “Spermicidal Times as Aids to the Clinician’s Choice of Contraceptive Materials,” Fertility and Sterility 8, no. 2 (1957): 50;84.
14. Briggs, “Debating Reproduction,” 107.
15. Pendergrass and Raji, “The Bitter”
16. Pendergrass and Raji, “The Bitter”
17. Pendergrass and Raji, “The Bitter”
18. Briggs, “Demon Mothers in the Social Laboratory,” 131.
19. Pendergrass and Raji, “The Bitter”
20. Jhoni Jackson, “How Puerto Rican Women Made Birth Control Possible — At The Expense Of Their Health,” BESE , April 15, 2018.
21. Briggs, “Demon Mothers in the Social Laboratory,” 5-136.
22. Briggs, “Demon Mothers in the Social Laboratory,” 6-137.
23. Briggs, Reproducing Empire, 137.
24. Briggs, “Demon Mothers in the Social Laboratory,” 7-139.
25. Pendergrass and Raji, “The Bitter”
26. García, Ana María, La operación, film, directed by Ana María García, Puerto Rico: Latin America an Film Project, 1982.
27. PBS, “The Puerto Rico Pill Trials,” The American Experience, 2019.
28. Pendergrass and Raji, “The Bitter”
29. García, “La operación”
30. US Congress, Senate, Puerto Rico Oversight, Management, and Economic Stability Act , Public Law 114-187, U.S. Statutes at Large 549 (2016): 2328.

 Investigadora.

Uma greve histórica dos entregadores de aplicativos

Entregadores de aplicativos fazem greve 'histórica' e trazem novo ...

Por: Edmilson Costa

Trabalhadores e trabalhadoras de aplicativos realizaram uma greve histórica, com manifestações em praticamente todas as capitais e grandes cidades do País, envolvendo milhares de pessoas. Essa é a primeira vez que um movimento dessa ordem e com essa dimensão ocorre no Brasil. Foi uma greve diferente e um movimento espontâneo da categoria, convocado a partir das redes sociais e do boca a boca. As greves clássicas são convocadas por sindicatos ou por trabalhadores organizados nos locais de trabalho, mas essa greve do dia 1º de julho foi inédita porque envolveu uma categoria nova, fruto da precarização do trabalho a partir das plataformas digitais, e realizada a partir da reapropriação pelos trabalhadores das próprias redes digitais. Em outros termos, a dialética da relação capital-trabalho ou da luta de classes colocando em movimento quem está disposto a lutar.

Foi uma greve efetivamente nacional. Em São Paulo, desde bem cedo, trabalhadores e trabalhadoras já estavam concentrados/as na Zona Sul ou em frente a shopping centers, supermercados e grandes cadeias de distribuição. No início da tarde realizaram uma grande manifestação e um buzinaço pela rua da Consolação e Avenida Paulista, que contou com a presença de milhares de entregadores com suas motos e bikes, num clima tranquilo, mas com muita disposição de luta. No Rio de Janeiro, também foi realizada uma grande manifestação com motos e bicicletas até a Delegacia Regional do Trabalho. Em Brasília, os manifestantes fizeram um grande buzinaço e se concentraram em frente ao Congresso Nacional. Em Belo Horizonte a manifestação foi no centro da cidade, bem como em Recife, Salvador, Aracaju, Porto alegre, Rio Branco, Teresina, Maceió, Recife, além de outras grandes cidades do País.

Ou seja, trabalhadores e trabalhadoras de aplicativos demonstraram pedagogicamente que, mesmo nas condições mais adversas, a subjetividade de pertencimento à classe dos explorados fala mais alto que qualquer das dificuldades e se tornaram um exemplo significativo para as outras categorias da classe trabalhadora, dando um recado principalmente para as velhas centrais sindicais brasileiras, que vivem encontrando desculpa para não lutar. Ora, se uma categoria dispersa, sem nenhum direito, sem tradição de organização e de luta, e que pode ser desligada do trabalho com um simples apertar de botão digital, consegue fazer uma greve nacional como a que vimos hoje, por que essas centrais sindicais, que reúnem milhares de sindicatos e vários milhões de trabalhadores não podem também convocar uma greve nacional? Somente a acomodação, o burocratismo e o peleguismo podem explicar tamanha letargia.

A greve nacional ocorreu em função das precárias condições em que esses trabalhadores desempenham suas atividades. São forçados a trabalhar 10/12 horas por dia, ganhando por entrega, que em muitas vezes não chega a um real por corrida (~0,20€). Não têm vale refeição para café, lanche ou almoço e não têm opção a não ser comer suas marmitas sentados nas calçadas. São obrigados ainda a alugar os equipamentos de trabalho (moto ou bicicleta) e agora, em plena pandemia, não recebem máscaras, álcool em gel ou qualquer equipamento de proteção individual, o que os expõem permanentemente à doença, fato que já atingiu muitos destes trabalhadores.

Os entregadores criticam a intransigência e o arbítrio das empresas, que fixam metas absurdas de entregas, as quais põem em risco as suas vidas, fazem um sistema de pontuação para chantageá-los e bloqueiam quem não se enquadra nas metas ou busca organizar a categoria. Os entregadores não têm nenhum dos direitos trabalhistas da CLT, a grande maioria ganha pouco mais que o salário mínimo [NR] , geralmente trabalham de domingo a domingo. Ou seja, operam em situação análoga aos operários do século XIX, que tinham jornada de trabalho de até 16 horas e comiam no pé da máquina.

No caso das trabalhadoras, essa situação é ainda mais grave porque têm que acordar ainda mais cedo, geralmente às cinco horas da manhã, para preparar café e comida para as crianças e quando chegam em casa à noite ainda têm que cuidar dos filhos, dar banho, colocar para dormir e fazer janta e a marmita para o dia seguinte. Dormem pouco e no outro dia já devem estar novamente no batente. Além de tudo isso, têm que suportar diariamente o machismo no trânsito.

Vale lembrar ainda que essas empresas de aplicativos exploram também os pequenos proprietários de bares, restaurantes e pequenos negócios. Elas cobram entre 15% e 35% dos comerciantes e realizam todo tipo pressão para que parte desse percentual não seja repassada para o consumidor. Têm uma política de descontos que é bancada pelos pequenos proprietários. Nesse momento de pandemia, os pequenos proprietários se tornam muito dependentes dessas empresas, aí então os oligopólios digitais vão aumentando as exigências e os comerciantes que não concordam são desligados, o que significa a falência. As empresas de aplicativos exploram nas duas pontas: os trabalhadores e os donos dos pequenos negócios.

Por todas essas questões, os trabalhadores e as trabalhadoras em aplicativos resolveram dar um basta e fazer a greve nacional como forma não só de pressionar as empresas pelos direitos que os outros trabalhadores já possuem, mas também por uma série de reivindicações específicas, tais como aumento das taxas por entrega, aumento por quilometragem rodada, fim do sistema de pontuação, fim dos bloqueios indevidos, seguro de vida, seguro acidente e equipamentos de proteção individual, além de vale para café, almoço e lanche. Ou como diz um deles: “É terrível carregar comida para os outros com a barriga vazia”.

Entregadores de iFood, Rappi e Uber Eats marcam nova greve para 12 ...


Enquanto os trabalhadores enfrentam essa situação desesperadora, os donos das empresas de aplicativos como iFood, Rappi, Uber Eats, James, entre outros, estão ganhando rios de dinheiro às custas de um trabalho extremamente precário e desumano. Esses patrões escravocratas, fantasiados de executivos moderninhos das tecnologias da informação, ainda buscam mascarar a superexploração com contos de fada, afirmando que os entregadores são empreendedores e donos do seu próprio negócio, parceiros ou colaboradores. Trata-se de uma picaretagem linguística típica dessa fase agressiva do neoliberalismo para esconder a superexploração e precarização dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Essa greve histórica teve um papel fundamental, pois aumentou a moral dos entregadores, fortaleceu o espírito de união e, especialmente, revelou para a sociedade a brutalidade com que essas empresas moderninhas tratam os trabalhadores em pleno século XXI. Mas essas empresas estão também provando do próprio veneno tecnológico: há uma corrente de dezenas de milhares pessoas negativando ou dando nota baixa, no próprio portal dos APPs, a esse comportamento medieval dos patrões e deixando duras mensagens contrárias às péssimas condições de trabalho, além do fato de que a campanha para que a sociedade não realizasse pedido durante a greve deve ter dado um enorme prejuízo a essas firmas. A imagem de tais empresas sai bastante arranhada desse episódio.

Vale lembrar ainda um fato importante desse processo: se as empresas têm força para impor um trabalho tão precário aos entregadores, a sociedade agora ganhou força para exercer uma solidariedade ativa com os trabalhadores, tanto no que se refere aos protestos digitais, quanto ter a possibilidade de escolher quem mais respeitar os direitos da categoria, podendo impor prejuízos aos cofres dos patrões. Ou seja, ampliou-se o leque da luta, pois agora os trabalhadores têm a possibilidade de ganhar uma solidariedade objetiva para a sua luta.

Outro dado importante dessa paralisação de novo tipo é o fato de que, por ser uma categoria nova, o movimento foi espontâneo, fruto da revolta contra as más condições de trabalho e remuneração. Mas a luta forja novas lideranças, unifica reivindicações, coloca em movimento a classe. Tanto que agora os entregadores já estão discutindo fórmulas para se organizar melhor, tanto num Fórum, onde debaterão os principais problemas da categoria e as pautas de reivindicações, quanto em outras formas de organização, como grandes cooperativas ou sindicatos nacionais. Afinal, os entregadores de aplicativos despertaram para a luta!

A Unidade Classista, a União da Juventude Comunista e os Coletivos Feminista Classista Ana Montenegro, Minervino de Oliveira e LGBT Comunista estiveram presentes em pontos de concentração dos entregadores em várias capitais e cidades do Brasil, prestando sua solidariedade ativa. O canal no youtube do Jornal Poder Popular fez transmissão ao vivo das manifestações, com repórteres em várias capitais, além de comentaristas analisando o significado dessa greve histórica.
02/Julho/2020[NR] Salário mínimo no Brasil: 1039 reais (~208 euros)

Acerca da exploração dos entregadores – que o neoliberalismo diz serem “empresários por conta própria” – ver o filme Passámos por cá (Sorry We Missed You), de Ken Loach.   No Brasil o filme chama-se Você Não Estava Aqui.

[*] Secretário Geral do Partido Comunista Brasileiro

Mensagem aos leitores de Hong Kong

– Como vendemos a União Soviética e a Checoslováquia por sacos de plástico

Por: Andre Vltchek 

Esta foi uma história que, durante meses, quis partilhar com os jovens leitores de Hong Kong. Parece-me ser agora o momento realmente apropriado, quando a batalha ideológica entre o Ocidente e a China está ao rubro, e, em resultado, Hong Kong e o resto do mundo estão a sofrer.

Quero dizer que nada disto é novo, o Ocidente já desestabilizou muitos países e territórios através da lavagem ao cérebro de dezenas de milhões de jovens.

Eu sei, porque no passado fui um deles. Se não tivesse sido, seria impossível entender o que acontece em Hong Kong.


Nasci em Leninegrado, uma bela cidade da União Soviética. Agora chama-se São Petersburgo e o país é a Rússia. Minha mãe é meio russa, meio chinesa, artista e arquiteta. A minha infância foi dividida entre Leninegrado e Pilsen, uma cidade industrial conhecida pela sua cerveja, no extremo ocidental do que costumava ser a Checoslováquia. O meu pai era cientista nuclear.

As duas cidades eram diferentes. Ambos representavam algo essencial no planeamento Comunista, um sistema que os propagandistas ocidentais ensinaram vocês a odiar.

Leninegrado é uma das cidades mais impressionantes do mundo, com alguns dos maiores museus, teatros de ópera e ballet, espaços públicos. No passado, foi a capital da Rússia.

Pilsen é pequena, com apenas 180 mil habitantes. Mas quando eu era criança, contava com várias excelentes bibliotecas, cinemas de arte, um teatro de ópera, teatros de vanguarda, galerias de arte, um parque zoológico de pesquisa, e coisas que não se podiam encontrar, como percebi mais tarde (quando era tarde demais) mesmo em cidades dos EUA com um milhão de habitantes.

Ambas as cidades, uma grande e uma pequena, tinham excelentes transportes públicos, vastos parques e florestas que chegavam até aos arredores, além de cafés elegantes. Pilsen tinha inúmeras instalações gratuitas de ténis, estádios de futebol e até quadras de badmington.

A vida era boa e significativa. Era rica. Não rica em termos de dinheiro, mas rica culturalmente, intelectualmente e em termos de saúde. Ser jovem era divertido, com ensino gratuito e facilmente acessível, com cultura por todo o lado e desportos para todos. O ritmo era lento: com tempo de sobra para pensar, aprender, analisar.

Mas, também estávamos no auge da Guerra Fria.

Éramos jovens, rebeldes e fáceis de manipular. Nunca estávamos satisfeitos com o que nos era dado. Tomávamos tudo como garantido. À noite, ficávamos colados aos nossos receptores de rádio, ouvindo a BBC, a Voice of America, a Radio Free Europe e outros programas transmitidos com o objectivo de desacreditar o socialismo e todos os países que lutavam contra o imperialismo ocidental.

As grandes empresas industriais socialistas checas construíam, em solidariedade, fábricas inteiras, de siderurgias a refinarias de açúcar, na Ásia, Médio Oriente e África. Mas não víamos glória nisso porque os meios de propaganda ocidentais simplesmente ridicularizavam esses empreendimentos.

Os nossos cinemas exibiam obras-primas do cinema italiano, francês, soviético e japonês. Mas diziam-nos para exigirmos o lixo dos EUA.

A oferta musical era óptima, das exibições ao vivo aos discos. Quase toda a música estava, na verdade, disponível, embora com algum atraso, em lojas locais ou mesmo nas salas de espectáculo. O que não era vendido nas nossas lojas era o lixo niilista. Mas era exactamente isso que nos diziam para desejar. E nós passámos a desejar e a copiar essa música com reverência religiosa, para os nossos gravadores. Se algo não estivesse disponível, os meios de comunicação ocidentais gritavam que era uma grave violação da liberdade de expressão.

Eles sabiam, e sabem, como manipular cérebros jovens.

Em dado momento, fomos convertidos em jovens pessimistas, criticando tudo nos nossos países, sem comparar, sem o mínimo de objectividade. Parece-vos habitual?

Diziam-nos e repetíamos: tudo na União Soviética ou na Checoslováquia é mau. Tudo no Ocidente é óptimo. Sim, era como uma religião fundamentalista ou loucura em massa. Quase ninguém estava imune. Na verdade, estávamos infectados, doentes, transformados em idiotas.

Estávamos a usar instalações públicas socialistas, de bibliotecas a teatros e cafés subsidiados, para glorificar o Ocidente e manchar as nossas próprias nações. Foi assim que fomos doutrinados pelas estações de rádio e televisão ocidentais e pelas publicações contrabandeadas para os nossos países.

Naqueles dias, os sacos de plástico do Ocidente tornaram-se símbolos de status social! Sim, aquelas sacolas que se obtêm em alguns supermercados ou lojas baratas.

Quando penso nisso a uma distância de várias décadas, mal consigo acreditar: jovens educados, andando pelas ruas com orgulho, exibindo sacos de plástico baratos, pelos quais pagávamos uma elevada quantia. Porque vinham do Ocidente. Porque simbolizavam consumismo! E porque nos diziam que o consumismo era bom.


Disseram-nos que deveríamos desejar a liberdade. Liberdade ao estilo ocidental. Fomos assim comandados para “lutar pela liberdade”.

De várias maneiras, éramos muito mais livres que no Ocidente. Verifiquei isso quando cheguei a Nova York e vi como os jovens da minha idade eram tão pouco instruídos e quão pouco conheciam do mundo. Quão pouca cultura havia, em cidades norte-americanas de média dimensão.

Nós queríamos, nós exigíamos jeans. Estávamos ansiosos por música com etiquetas ocidentais exibidas nos seus LPs. Não era sobre a essência ou a mensagem. Era a forma sobre o conteúdo.

A nossa comida era mais saborosa, produzida ecologicamente. Mas queríamos embalagens ocidentais coloridas. Exigíamos produtos químicos. Estávamos constantemente furiosos, agitados, provocadores. Antagonizávamos as nossas famílias. Nós éramos jovens, mas sentíamo-nos velhos.

Publiquei o meu primeiro livro de poesia, depois saí, bati com a porta atrás de mim e fui para Nova York. Logo depois, apercebi-me de como estava enganado!


Esta é uma versão muito simplificada da minha história. O espaço é limitado.

Mas estou feliz por poder partilhá-lo com meus leitores de Hong Kong e, é claro, com meus jovens leitores de toda a China.

Dois países maravilhosos que costumavam ser a minha casa foram traídos, literalmente vendidos por nada, por pares de jeans e sacos de plástico.

O Ocidente festejou! Meses após o colapso do sistema socialista, ambos os países foram literalmente roubados de tudo pelas empresas ocidentais. As pessoas perderam suas casas e empregos e o internacionalismo foi dissuadido. Magníficas empresas socialistas foram privatizadas e, em muitos casos, liquidadas. Teatros e cinemas de arte foram convertidos em lojas de roupa usada barata.

Na Rússia, a expectativa de vida caiu para os níveis da África subsariana. A Checoslováquia foi dividida em duas partes.

Agora, décadas depois, a Rússia e a República Checa estão novamente prósperas. A Rússia possui muitos elementos de um sistema socialista com planeamento central.

Mas sinto falta dos meus dois países, tal como costumavam ser e todas as sondagens mostram que a maioria das pessoas também sente a sua falta. Também me sinto culpado, dia e noite, por me permitir ter sido doutrinado, usado e levado a trair.

Depois de ver o mundo, entendo que o que aconteceu com a União Soviética e na Checoslováquia também aconteceu em muitas outras partes do mundo. E agora, o Ocidente está a pretender fazer o mesmo à China, usando Hong Kong.

Quer na China, quer em Hong Kong, continuo sempre a repetir:   por favor, não sigam o nosso terrível exemplo. Defendam o vosso país! Não o vendam, em termos metafóricos, por alguns sacos de plástico sujos. Não façam algo que lamentariam pelo resto das vossas vidas!

[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Fez a cobertura de guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são Revolutionary Optimism, Western Nihilism , a novela revolucionária “Aurora” e a o best-seller político: “Exposing Lies Of The Empire” . Atualmente, Vltchek reside no Leste asiático e no Médio Oriente e continua a trabalhar em todo o mundo. Pode ser contactado através do seu site e do Twitter. Escreve especialmente para a revista online “New Eastern Outlook 

Perdi toda a confiança na investigação médica – O músculo financeiro da Big Pharma distorce a ciência durante a pandemia

Por: Malcolm Kendrick

A evidência de que um remédio barato e de venda livre custando £7 combate o Covid-19 foi escamoteada. Por que? Porque os gigantes farmacêuticos querem vender-lhe um tratamento que custa aproximadamente £2.000. É criminoso.

Poucos anos atrás escrevi um livro chamado Doctoring Data . Era uma tentativa de ajudar as pessoas a entender o pano de fundo do maremoto da informação médica que desaba sobre nós a cada dia. A informação, que frequentemente é completamente contraditória, como “Café é bom para si… não, espere é mau para si… não, espere, é bom para si outra vez”, é repetida ad nauseam.

Também destaquei alguns dos truques, jogos e manipulações que são utilizados para fazer com que medicamentos pareçam mais eficazes do que eles são realmente, ou vice-versa. Isto, tenho a dizer, pode ser um mundo muito desestimulante para entrar. Quando faço palestras sobre este assunto, frequentemente começo com umas poucas citações.

Por exemplo: aqui está o que a Dra. Marcia Angell, que editou o New England Journal of Medicine durante mais de 20 anos, escreveu em 2009:

“Simplesmente não é mais possível acreditar em grande parte da investigação médica que é publicada, ou confiar no julgamento de médicos acreditados ou orientações médicas consagradas. Não tenho prazer nesta conclusão, à qual cheguei vagarosamente e relutantemente ao longo das minhas duas décadas como editora”.

Será que as coisas ficaram melhor? Não, acredito que ficaram pior – se é que isso, na verdade, seja possível. Recentemente, foi-me enviado o seguinte email acerca de uma discussão a porta fechada, sem que fosse permitido gravá-la, efectuada em Maio deste ano sob as regras de não divulgação da Chatham House:

“Um encontro registado secretamente entre os editores-chefe de The Lancet e do New England Journal of Medicine revela que ambos os homens lamentam a influência ‘criminosa’ da big pharma sobre a investigação científica. Segundo Philippe Douste-Blazy, ex-ministro da Saúde da França e candidato a director da OMS em 2017, a discussão à porta fechada da Chatham House em 2020 foi entre os [chefes de redacção], cujas publicações retractaram-se de artigos favoráveis à big pharma com dados fraudulentos.
O email continuava com uma citação daquela gravação: “Agora não seremos capazes de … publicar quaisquer dados mais de investigação clínica porque as companhias farmacêuticas hoje são tão poderosas financeiramente e são capazes de utilizar tais metodologias, a ponto de nos fazer aceitar trabalhos aparentemente perfeitos do ponto de vista metodológico, mas que, na realidade, conseguem concluir o que elas querem concluir”, disse o editor-chefe de The Lancet, Richard Horton”.

Um vídeo do YouTube onde esta questão é discutida pode ser visto aqui . Está em francês, mas há legendas em inglês.

New England Journal of Medicine The Lancet são as duas mais influentes e mais altamente recorridas revistas médicas do mundo. Se elas já não têm capacidade para detectar o que é essencialmente investigação fraudulenta, então… Então o que? Então o que, na verdade?

De facto, as coisas geralmente deram uma viragem abrupta para pior desde o início da pandemia do Covid-19. Novos estudos, novos dados, nova informação chega a velocidade estonteantes, muitas vezes com pouca ou nenhuma revisão eficaz. No que é que se pode acreditar? Em quem se pode acreditar? Em quase nada seria a resposta mais segura.

Uma questão tem-se revelado nos últimos meses, removendo quaisquer vestígios remanescentes da minha confiança na investigação médica. Ela refere-se ao medicamento anti-malária hidroxicloroquina. Talvez saiba que Donald Trump a apoiou – o que representa toda uma série de problemas para muitas pessoas.

Contudo, antes de a pandemia acontecer, recomendei ao meu fundo local do Serviço Nacional de Saúde (NHS) que deveria verificar o stock de hidroxicloroquina. Tinha havido muita investigação ao longo dos anos, sugerindo fortemente que poderia inibir a entrada de vírus nas células – e que também interferia com a replicação viral uma vez no interior da célula.

Este mecanismo de acção explica porque ele pode ajudar a impedir a entrada do parasita da malária nos glóbulos vermelhos. A ciência é complexa, mas muitos investigadores acharam que havia boas razões para pensar que a hidroxicloroquina pode ter alguns benefícios reais, se não mesmo decisivos, no Covid-19.

Esta ideia foi ainda mais reforçada pelo conhecimento de que tem alguns efeitos na redução da chamada “tempestade de citocinas” que é considerada mortal com o Covid-19. É prescrito na artrite reumatóide para reduzir o ataque imunitário às articulações.

A outra razão para recomendar a hidroxicloroquina é que ela é extremamente segura. Ela é, por exemplo, o medicamento mais amplamente prescrito na Índia. Milhares de milhões de doses têm sido prescritas. Está disponível em venda livre na maior parte dos países. Assim, sinto-me bastante confortável ao recomendar que possa ser experimentada. Na pior das hipóteses, não faria mal nenhum.

E então a hidroxicloroquina tornou-se o centro de uma tempestade mundial. Por um lado, usando os aventais brancos, foram os investigadores que a utilizaram desde cedo, pois parecia mostrar alguns benefícios significativos. Por exemplo, o Professor Didier Raoult , do Institut Hospitalo-universitaire Méditerranée Infection, em França:

“Um famoso professor investigador em França relatou resultados bem sucedidos de um novo tratamento para o Covid-19, com testes iniciais a sugerirem que pode impedir o vírus de ser contagioso em apenas seis dias”.

A seguir surgiu esta investigação de um cientista marroquino na Universidade de Lille:

“Jaouad Zemmouri … acredita que 78 por cento das mortes por Covid-19 na Europa podiam ter sido evitadas se a Europa tivesse usado hidroxicloroquina… O Marrocos, com uma população de 36 milhões de habitantes [cerca de um décimo daquela dos EUA], tem apenas 10.079 casos confirmados de Covid-19 e apenas 214 mortes.
“O Professor Zemmouri acredita que a utilização da hidroxicloroquina pelo Marrocos resultou numa taxa de recuperação do Covid-19 de 82,5 por cento e uma taxa de fatalidade de apenas 2,1 por cento, entre os admitidos em hospital.


Pouco antes disso, em 22 de Maio, foi publicado um estudo em The Lancet declarando que a hidroxicloroquina realmente aumentou as mortes. Constatou-se então que os dados utilizados não podiam ser verificados e eram muito provavelmente inventados. Os autores tinham grandes conflitos de interesse com empresas farmacêuticas que fabricavam medicamentos anti-virais. No início de Junho, todo o artigo foi retractado por Horton.

Depois surgiu um estudo britânico a sugerir que a hidroxicloroquina não funcionava de todo. Ao discutir os resultados, o Professor Martin Landray, um professor da Universidade de Oxford que está a co-liderar o ensaio Randomised Evaluation of Covid-19 Therapy (RECOVERY), declarou :

“Isto não é um tratamento para a Covid-19. Não funciona. Este resultado deveria mudar a prática médica em todo o mundo. Podemos agora deixar de usar um medicamento que é inútil”.

Desde então, o estudo tem sido fortemente criticado por outros investigadores, os quais afirmam que a dose de hidroxicloroquina utilizada era potencialmente tóxica. Também foi administrada demasiado tarde para ter qualquer efeito positivo. Muitos dos doentes já se encontravam em ventiladores.

Esta semana, foi-me enviada uma cópia pré-prova de um artigo acerca de um estudo que será publicado no International Journal of Infectious Diseases . O seu autor descobriu que a hidroxicloroquina ” diminuiu significativamente” a taxa de mortalidade dos pacientes envolvidos na análise. O estudo analisou 2.541 pacientes hospitalizados em seis hospitais entre 10 de Março e 2 de Maio de 2020 e descobriu que

  • 13% daqueles que foram tratados com hidroxicloroquina morreram
  • 26% dos que não receberam o medicamento morreram.

Quando as coisas se complicam, tenho tendência a procurar os potenciais conflitos de interesse. Quero com isto dizer:   quem se prepara para ganhar dinheiro com ataques à utilização da hidroxicloroquina, que é um medicamento genérico existente desde 1934 e que custa cerca de £7 por frasco de 60 comprimidos?

Neste caso, em primeiro lugar, aquelas companhias que fabricam drogas anti-virais enormemente caras tais como o Remdesivir da Gilead Scientes, o qual, nos EUA, custa US$2340 para uma típica administração durante cinco dias . Em segundo lugar, são as companhias que estão a batalhar para por uma vacina no mercado. Há muitos milhares de milhões de dólares em causa aqui.

Neste mundo, medicamentos baratos tais como a hidroxicloroquina não têm muita chance. Nem tão pouco vitaminas baratas, tais como a vitamina C e a vitamina D. Será que têm benefícios para os que sofrem de Covid-19? Tenho a certeza de que sim. Será que tais benefícios serão descartados em estudos que foram cuidadosamente manipulados para garantir que não funcionam? Claro que sim. Recordem estas palavras: “As empresas farmacêuticas são hoje tão poderosas financeiramente, e são capazes de utilizar tais metodologias, a ponto de nos fazerem aceitar documentos que aparentemente são perfeitos do ponto de vista metodológico, mas que, na realidade, conseguem concluir o que elas querem que concluam”.

A menos e até que os governos e os organismos médicos actuem decisivamente para cortar permanentemente os laços financeiros entre os investigadores e a Big Pharma, estas distorções e manipulações na busca do Grande Lucro continuarão. Por favor, não tenham grandes expectativas de que será para breve.