A China posiciona Sun Tzu para vencer a Guerra dos Chips

Sun Tzu – You must believe you will succeed | Cavalothetroia

Por: Pepe Escobar

Vamos directos ao assunto: com ou sem a força destruidora de uma sanção, a China simplesmente não será expulsa do mercado global de semicondutores.

A quantidade real de chips que a Huawei tem em stock para o seu negócio de smart phones pode ficar como uma questão em aberto.

Mas o ponto mais importante é que nos próximos anos – recordar que o Made in China 2025 continua em vigor – os chineses fabricarão o equipamento necessário para produzir chips de 5 nm ( nanómetros ) de qualidade equivalente ou mesmo melhor do que os provenientes de Formosa, Coreia do Sul e Japão.

Conversas com peritos em TI da Rússia, da ASEAN e da Huawei revelam os contornos básicos do roteiro pela frente.

Eles explicam que o que poderia ser descrito como uma limitação da física quântica está a impedir um movimento constante dos chips de 5nm para 3nm. Isto significa que os próximos grandes avanços podem vir de outros materiais semicondutores e outras técnicas. Assim, a China, neste aspecto, está praticamente ao mesmo nível de investigação que Formosa, Coreia do Sul e Japão.

Além disso, não existe nenhuma lacuna de conhecimento – ou um problema de comunicação – entre os engenheiros chineses e os de Formosa. E o modus operandi predominante continua a ser a porta giratória.

Os grandes avanços da China envolvem uma comutação crucial do silício para o carbono. A investigação chinesa está totalmente empenhada nela e está quase pronta para transpor o seu trabalho de laboratório para a produção industrial.

Em paralelo, os chineses estão a actualizar o procedimento de foto-litografia privilegiada pelos EUA a fim de obter chips nanométricos para um novo procedimento não foto-litográfico capaz de produzir chips mais pequenos e mais baratos.

Tanto quanto as empresas chinesas, avançando, estarão a comprar todas as fases possíveis do negócio de manufacturação de chips tendo em vista, qualquer que seja o custo, que isto prosseguirá em paralelo com empresas de topo dos EUA em semicondutores, como a Qualcomm, que não vão impor limitações para contornar sanções e continuam a fornecer chips à Huawei. Este já é o caso da Intel e da AMD.

O jogo da Huawei

Por sua vez, a Huawei está a investir fortemente num relacionamento de I&D muito forte com a Rússia, recrutando alguns dos seus melhores talentos técnicos, notavelmente fortes em matemática, física e trabalho rigoroso de concepção. Um exemplo disso é a compra pela Huawei da companhia russa de reconhecimento facial Vocord em 2019.

Alguns dos melhores cérebros tecnológicos na Coreia do Sul por acaso são russos.


Huawei também estabeleceu um “centro de inovação de ecossistemas 5G” na Tailândia – o primeiro do seu tipo na ASEAN .

A médio prazo, a estratégia da Huawei para os seus telefones inteligentes de excelência – que utilizam chips de 7nm – será entregar o negócio a outros actores chineses como a Xiaomi, OPPO e VIVO, cobrar taxas de patentes e aguardar pela inevitável descoberta do chip chinês enquanto mantém a produção de equipamento 5G, para o qual tem chips suficientes.

O sistema Harmony OS da Huawei é considerado por estes peritos de TI como mais eficiente do que o Android. E funciona com chips menos exigentes.

Com a expansão do 5G, a maior parte do trabalho em telefones inteligentes pode ser efectuada por servidores na nuvem. Até ao fim de 2020, pelo menos 300 cidades por toda a China estarão cobertas pelo 5G.

A Huawei irá concentrar-se na produção de computadores de secretária (desktop) e ecrãs digitais. Estes computadores de secretária virão com um processador chinês, o Kunpeng 920, e serão geridos por um Sistema Operativo Unificado Chinês (UOS).

O UOS é um sistema Linux desenvolvido pela Union Tech da China e encomendado por Pequim para – aqui está o acto decisivo – substituir o Microsoft Windows. Estes desktops não serão vendidos ao público em geral: irão equipar as administrações provinciais e nacionais da China.

Não é de admirar um rumor constante nos círculos de TI seja que a melhor aposta pela frente seria colocar dinheiro num Fundo Chinês de Investimento em Chips – com a expectativa de arrecadar em grande quando enormes feitos tecnológicos acontecerem antes de 2025.

O núcleo tecnológico da Ásia Oriental

Sejam quais forem os ensaios e atribulações da guerra dos chips, a tendência inevitável pela frente é de a China posicionar-se como o núcleo tecnológico indispensável da Ásia Oriental – abrangendo a ASEAN, o Nordeste Asiático, e a Sibéria Oriental ligada a ambas as Coreias.

Este é o nó árduo da próxima Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP) – o maior acordo de comércio livre do mundo – que deverá ser assinado em 2021.

A Índia optou pela auto-exclusão do RCEP – o que em termos geoeconómicos a condena a um papel periférico como potência económica. A compará-la com a Coreia do Sul, a qual está a promover a sua integração com a ASEAN e o Nordeste da Ásia.

O núcleo tecnológico da Ásia Oriental estará no centro de uma cadeia de produção global integrando o melhor da concepção científica e tecnológica e os melhores especialistas de produção espalhados por todos os nós da cadeia de fornecimento global.

Esta é uma consequência natural, entre outros factores, de a Ásia Oriental introduzir pedidos de patentes 3,46 vezes mais que os EUA.

E isso leva ao caso muito especial da Samsung. A Samsung está a aumentar o seu esforço de I&D para, de facto, ultrapassar tecnologias de marcas estado-unidenses o mais rapidamente possível.

Quando o Presidente da Coreia do Sul, Moon enfatiza o seu apelo para o fim oficial da Guerra da Coreia isso deveria ser visto em conjunto com a Samsung, finalmente alcançar um acordo de cooperação tecnológica de vasto alcance com a Huawei.

Este movimento em pinça pronuncia de modo claro a independência da Coreia do Sul em relação ao abraço do urso americano.

Não escapa à atenção da liderança de Pequim que a emergência da Coreia do Sul como actor geopolítico e geoeconómico cada vez mais forte na Ásia Oriental deve estar indissociavelmente ligada ao acesso da China à próxima geração de chips.

Assim, um processo geopolítico e geoeconómico crucial a observar nos próximos anos é como Pequim atrai progressivamente Seul para a sua área de influência como uma espécie de potência tributária de alta tecnologia, enquanto confiando no futuro de uma Federação Coreana.

Isto é algo que tem sido discutido todos os anos, ao mais alto nível, no Fórum Económico Oriental em Vladivostok.

Wang Huiyao do Centro para a China e a Globalização, com sede em Pequim, observa como a China e a Coreia do Sul já têm um acordo de comércio livre e “iniciarão a segunda fase de negociações a fim de estabelecer um novo mecanismo para a cooperação económica China-Coreia do Sul, o qual está a desenvolver-se rapidamente”.

O próximo passo – imensamente difícil – será estabelecer um mecanismo de comércio livre China-Japão. E a seguir um mecanismo mais fechado, interligando China-Japão-Coreia do Sul. O RCEP é apenas o primeiro passo. Será uma longa viagem até 2049. Mas todos sabem para que lado sopra o vento.

Extradição de Assange, audiência do dia 17 – Um julgamento quase secreto e com blackout informativo

ONU, há 75 anos em busca da paz - Arquidiocese de Cascavel

Por: Craig Murray

 Silêncio total dos media corporativos acerca do processo de extradição de Assange para os EUA
– Conivência dos jornalistas britânicos (e portugueses) com o crime que se prepara
– O maior ataque à liberdade de imprensa de toda a história do jornalismo

Durante a audiência de evidências médicas nos últimos três dias, o governo britânico foi apanhado duas vezes a contar directamente mentiras importantes acerca de acontecimentos na prisão de Belmarsh, cada mentira provada por evidências documentais. O factor comum foram os registos médicos mantidos pela Dra. Daly, chefe dos serviços médicos da prisão. Também houve, para dizer o mínimo, uma aparente deturpação da Dra. Daly. Pessoalmente, desconfio do tipo de pessoa que impressiona Ross Kemp.

Aqui está uma foto da Dra. Daly, extraída do documentário de Ross Kemp sobre o presídio de Belmarsh.

Isto é a descrição do Sr. Kemp da ala médica em Belmarsh:   “Aqui a segurança está em outro nível, com seis vezes mais funcionários por preso do que no resto da prisão.”

Enquanto na ala médica ou de “cuidados de saúde”, Julian Assange esteve de facto em confinamento solitário e três psiquiatras e um médico com vasta experiência no tratamento de traumas testemunharam todos no tribunal que a condição física e mental de Assange deteriorou-se enquanto esteve em “cuidados de saúde” durante vários meses. Eles também disseram que ele melhorou depois de ter deixado a “área de saúde”. Isso diz algo de profundo acerca dos “cuidados de saúde” que lhe foram prestados. Os mesmos médicos testemunharam que Assange tem um relacionamento mau com a Dra. Daly e não confidenciará seus sintomas ou sentimentos a ela e isso também foi asseverado pelo conselho de defesa.

Isto é o pano de fundo essencial para as mentiras. Agora deixem-me falar das mentiras. Infelizmente, para fazer isso, devo revelar pormenores da condição médica de Julian que eu não havia revelado, mas penso que a situação é tão grave que agora devo fazer isso.

Não contei que o professor Michael Kopelman deu provas de que, entre outros preparativos para o suicídio, Julian Assange havia ocultado uma lâmina de barbear nas dobras da sua cueca, mas isso fora descoberto numa busca em sua cela. Como informei, Kopelman foi submetido a um interrogatório extremamente agressivo por James Lewis, o qual na parte da manhã concentrara-se na noção de que a doença mental de Julian Assange era simplesmente fingimento e que Kopelman não conseguira detectar isso. A lâmina de barbear foi um fator-chave na intimidação de Lewis contra Kopelman e ele atacou-o repetidas vezes.

Lewis declarou que Kopelman “confiou” na narrativa da lâmina de barbear para o seu diagnóstico. Ele então passou a retratar isto como uma fantasia tramada por Assange para apoiar a sua simulação. Lewis perguntou repetidamente a Kopelman por que, se a história fosse verdadeira, não estava nas notas clínicas da Dra. Daly? Certamente, se um prisioneiro, conhecido por estar deprimido, tivesse uma lâmina de barbear descoberta na sua cela, isto estaria nos registos médicos da prisão? Por que o professor Kopelman deixou de notar no seu relatório que não havia evidência da lâmina de barbear nos registos médicos do Dra. Daly? Estava ele a esconder essa informação? Não era muito estranho que este incidente não estivesse nas notas médicas?

Numa tentativa de humilhar Kopelman, Lewis disse: “O senhor diz que não confia na lâmina de barbear para o seu diagnóstico. Mas o senhor confia nela. Vamos então examinar o vosso relatório. O senhor confia na lâmina de barbear no parágrafo 8. O senhor a menciona novamente no parágrafo 11a. Então no 11c. A seguir, no parágrafo 14, parágrafo 16, 17b, 18a. Então, chegamos à secção seguinte e a lâmina de barbear está ali nos parágrafos 27 e 28. Então, outra vez no sumário está nos parágrafos 36 e novamente no parágrafo 38. Diga-me, Professor, como o senhor pode dizer que não confia na lâmina de barbear?”
[Não forneço os números reais dos parágrafos; estes são ilustrativos].

Lewis então prosseguiu convidando Kopelman a mudar o seu diagnóstico. Ele perguntou-lhe mais de uma vez se o seu diagnóstico seria diferente se não houvesse lâmina de barbear e esta fosse uma invenção de Assange. Kopelman ficou visivelmente enervado com este ataque. Ele concordou que era “muito estranho” não ter sido mencionado nas notas médicas se fosse verdade. O ataque directo de que ele ingenuamente havia acreditado numa mentira óbvia desconcertou Kopelman.

Mas era Lewis quem não estava a dizer a verdade. Houve realmente uma lâmina de barbear escondida e o que Assange havia dito a Kopelman, e que Kopelman havia acreditado, era verdadeiro em todos os pormenores. Numa cena saída de um drama legal da TV, durante o depoimento de Kopelman, a defesa conseguiu obter a folha de acusação da Prisão de Belmarsh – Assange fora acusado pelo delito de lâmina de barbear. A folha de acusação é datada de 09h00 em 7 de maio de 2019, e é o que se lê:

Governador,
No dia 05/05/19, aproximadamente às 15h30, eu e o oficial Carroll estávamos a efectuar uma busca matriz de rotina no 2-1-37 ocupado exclusivamente pelo Sr. Assange A9379AY. Ele foi questionado antes de começarmos a busca se tudo na cela lhe pertencia, ao que ele respondeu “Que eu saiba, sim”. Durante o processo de busca, levantei uma dobra da sua cueca enquanto vasculhava o armário. Quando os levantei, ouvi um objecto metálico cair dentro do armário. Quando investiguei o que era, vi metade de uma lâmina de barbear escondida na sua cueca. Esta foi agora colocada no saco de evidência número M0001094.
Isto conclui meu relatório
Assinado
Locke

Posteriormente, mostraram-me uma cópia e fiz um instantâneo:
Auto de apreensão.

Quando, na terça-feira, o advogado Edward Fitzgerald apresentou este auto de acusação no tribunal, ele não parecia ser novidade para a promotoria. James Lewis entrou em pânico. Rapidamente, Lewis levantou-se de um salto e pediu ao juiz que deveria ser notado que ele nunca dissera que não havia lâmina de barbear. Fitzgerald respondeu que não fora a impressão que recebera. Do banco das testemunhas e sob juramento, Kopelman declarou que também não fora essa a impressão que tivera.

E certamente não foi a impressão que tive na galeria pública. Ao afirmar repetidamente que, se a lâmina de barbear existisse, ela estaria nas notas médicas, Lewis havia, no mínimo, confundido a testemunha sobre uma questão de facto material, que realmente afectou a sua prova. E Lewis havia feito isso precisamente para afectar a evidência.

Entrando em pânico, Lewis entregou o jogo ainda mais ao fazer a afirmação desesperada de que a acusação contra o Sr. Assange havia sido rejeitada pelo Governador [do presídio]. Assim, a acusação definitivamente sabia muito mais sobre os eventos em torno da lâmina de barbear do que a defesa.

[A juíza] Baraitser, que estava ciente de que se isto era um grande contratempo, agarrou-se à mesma palha à qual Lewis se agarrara em desespero e disse que, se a acusação tivesse sido rejeitada, então não havia prova de que a lâmina de barbear existira. Fitzgerald destacou que isto era absurdo. A acusação pode ter sido rejeitada por numerosas razões. A existência da lâmina não estava em dúvida. Julian Assange atestou isto e dois carcereiros atestaram. Baraitser disse que só poderia basear sua opinião na decisão do Governador da Prisão.

No entanto, Baraitser pode tentar escondê-lo, Lewis atacou o Prof. Kopelman sobre a existência da lâmina quando Lewis deu todas as aparências subsequente de um homem que sabia muito bem o tempo todo que havia evidências convincentes de que a lâmina existiu. Para Baraitser tentar proteger tanto Lewis como a acusação pretendendo que a existência da lâmina está dependende do resultado da acusação subsequente, quando todas as três pessoas na cela no momento da busca concordaram com sua existência, incluindo Assange, é talvez o abuso mais notável de Baraitser do procedimento legal.

Após a apresentação da sua prova, fui tomar um gim-tónica com o professor Kopelman, que é um velho amigo. Não tivemos nenhum contacto durante dois anos, precisamente por causa de seu envolvimento no caso de Assange como perito médico. Michael estava muito preocupado por não ter tido um desempenho forte na sua sessão de evidências pela manhã, embora tivesse sido capaz de responder com mais clareza à tarde. E sua preocupação com a manhã era porque ficara incomodado com a questão da lâmina de barbear. Ele havia entendido firmemente que Lewis estava a dizer que não havia lâmina de barbear nos registos da prisão e, portanto, que fora enganado por Julian. Se ele tivesse sido enganado, naturalmente teria sido uma falha profissional e Lewis provocou-lhe ansiedade enquanto estava no banco das testemunhas.

Devo deixar claro que não acredito nem por um momento que o lado do governo não estivesse ciente de que a lâmina de barbear era real. Lewis fez um exame cruzado (cross-examined) utilizando notas preparadas pormenorizadas sobre a lâmina de barbear e com todas as referências a ela dispostas em tabela no relatório de Kopelman. O facto de isto ter sido realizado pela promotoria sem perguntar à prisão se o incidente era verdade, desafia o senso comum.

Na quinta-feira, Edward Fitzgerald entregou a Baraitser o registo da audiência na prisão onde a acusação foi discutida. Era um longo documento. A decisão do Governador estava no parágrafo 19. Baraitser disse a Fitzgerald que ela não podia aceitar o documento porque era uma nova prova. Fitzgerald disse-lhe que ela própria pedira o resultado da acusação. Ele disse que o documento continha informação muito interessante. Baraitser disse que a decisão do governador estava no parágrafo 19, que era tudo que ela havia pedido, e que se recusaria a tomar o resto do documento em consideração. Fitzgerald disse que a defesa pode desejar fazer uma apresentação formal sobre isso.

Não vi este documento. Com base nos pronunciamentos anteriores de Baraitser, tenho quase certeza de que deste modo ela está a proteger Lewis. No parágrafo 19, a decisão do governador provavelmente rejeita as acusações como disse Lewis. Mas os parágrafos anteriores, que Baraitser se recusa a considerar, quase certamente deixam claro que a posse da lâmina de barbear por Assange era indiscutível, e muito provavelmente explica sua intenção de utilizá-la para suicídio.

Assim, para citar o próprio Lewis, por que isso não estaria nas notas médicas da Dra. Daly?

Apesar daquela história assustadora não a considerei suficientemente poderosa para justificar a publicação dos alarmantes pormenores pessoais acerca de Julian. Mas depois voltou a acontecer.

Na manhã de quinta-feira, o Dr. Nigel Blackwood, Professor Adjunto de Psiquiatria Forense do Kings College London, deu depoimento para a acusação. Ele essencialmente minimizou todos os diagnósticos de doença mental de Julian e contestou que ele tivesse o [síndrome de] Asperger. No decorrer desta minimização, ele afirmou que quando Julian foi admitido na ala de cuidados de saúde em 18 de Abril de 2019, não havia sido por qualquer razão médica. Havia sido puramente para isolá-lo dos outros prisioneiros por causa do vídeo dele que foi filmado e divulgado por um prisioneiro.

Fitzgerald perguntou a Blackwood como ele sabia disso e Blackwood disse que a Dra. Daly lhe havia contado para o seu relatório. A defesa agora apresentou outro documento da prisão a mostrar que o governo estava mentindo. Era um relatório do pessoal da prisão datado das 14h30 do dia 18 de Abril de 2019 e dizia especificamente que Julian estava “muito abatido” e tendo impulsos suicidas incontroláveis. Sugeria transferi-lo para a ala médica e mencionou um encontro com a Dra. Daly. Julian foi de facto transferido naquele mesmo dia.

Fitzgerald afirmou a Blackwood que claramente Assange fora transferido para a ala médica por razões médicos. Sua evidência estava errada. Blackwood continuou a asseverar que Assange fora movido só por causa do vídeo. As notas médicas da Dra. Daly não diziam que ele fora transferido por razões médicos. A juíza repreendeu Fitzgerald por dizer “absurdo” (“nonsense”), embora ela tivesse permitido que Lewis fosse muito mais duro do que isso com as testemunhas de defesa. Fitzgerald perguntou a Blackwood por que Assange seria transferido para a ala médica por causa de um vídeo feito por outro prisioneiro? Blackwood disse que o Governador considerou o vídeo “embaraçoso” e estava preocupado com “danos à reputação” para a prisão.

Então, vamos dar uma olhada nisso. A Dra. Daly não colocou nas notas médicas que Assange havia escondido uma lâmina para suicídio na sua cela. A Dra. Daly não colocou nas notas médicas que, no mesmo dia em que Assange foi transferido para a ala médica, uma reunião da equipe havia dito que ele deveria ser transferido para a ala médica devido a impulsos suicidas incontroláveis. A seguir, Daly dá a Blackwood uma narrativa inventada sobre as razões para a remoção de Assange para a ala médica, para assisti-lo na subestimação da condição médica de Assange.

Ou vejamos a narrativa alternativa. A narrativa oficial é que os cuidados de saúde – para citar Ross Kemp, onde “a segurança está em outro nível” – é usada para manter prisioneiros em isolamento por razões totalmente não médicas. Na verdade, para evitar “embaraço”, para evitar “danos à reputação”, Assange foi mantido em isolamento nos “cuidados de saúde” durante meses enquanto, de acordo com quatro médicos, incluindo neste ponto até Blackwood, sua saúde se deteriorou por causa do isolamento. Enquanto estava sob os “cuidados” da Dra. Daly. E esta é a narrativa oficial. O melhor que eles podem dizer é “ele não estava doente, nós o colocamos nos “Cuidados de Saúde” por razões totalmente ilegítimas como uma punição”. Para evitar “embaraço” se prisioneiros tirassem sua foto.

Estou em vias de escrever à juíza Baraitser solicitando uma cópia da transcrição do contra-interrogatório de Lewis ao Professor Kopelman sobre a lâmina de barbear, com o objectivo de denunciar Lewis ao Conselho da Ordem. Eu me pergunto se o Conselho Médico Geral não teria razão para considerar a prática da Dra. Daly neste caso.

A testemunha final foi o Dr. Sondra Crosby, o médico que tratava de Julian desde seu tempo na Embaixada do Equador. O Dr. Crosby parecia uma pessoa maravilhosa e embora suas evidências fossem muito convincentes, mais uma vez não vejo nenhuma razão forte para revelá-las.

No final dos procedimentos de quinta-feira, houve dois depoimentos de testemunhas lidos rapidamente nos autos. Isso era realmente muito importante, mas passou quase despercebido. John Young, da cryptome.org , deu provas de que a Cryptome publicou os telegramas não editados (unredacted) em 1 de Setembro de 2011, crucialmente um dia antes de a Wikileaks os ter publicado. A Cryptome tem sede nos Estados Unidos, mas eles nunca foram abordados pelas autoridades sobre estes telegramas não editados, nem solicitados a retirá-los. Os telegramas permaneceram online na Cryptome.

Da mesma forma, Chris Butler, administrador do Internet Archive, deu evidência de que telegramas não editados e outros documentos confidenciais estavam disponíveis na máquina Wayback. Nunca lhes pediram para removê-los nem foram ameaçados de processo.

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Sobre o Autor

Ex-diplomata britânico que se tornou activista político, defensor dos direitos humanos, blogueiro e denunciante.   Entre 2002 e 2004, foi o embaixador britânico no Uzbequistão, período durante o qual expôs as violações dos direitos humanos naquele país pelo governo Karimov.
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O Ocidente deveria sentar-se sobre o seu traseiro, calar a boca e ouvir “os outros”!

Por: Andre Vltchek

Este é um artigo recente de Andre Vltchek (1962-2020), antes do seu falecimento em Istambul dia 22 de Setembro.   Seu último ensaio publicado foi Guo Wengui – So Anti-Chinese that even US Establishment Cannot Stomach Him .
Vltchek foi escritor, realizador de cinema, fotógrafo, jornalista, analista político e um ardente anti-imperialista.   A sua posição consequente e lúcida foi um exemplo do que deve ser um jornalismo combativo e de ideias, o qual se contrapõe ao jornalismo pasteurizado dos media corporativos que nos mentem & omitem diariamente.  Tal como o co-fundador de resistir.info, Miguel Urbano Rodrigues, Andre Vltchek constitui um exemplo para todos nós.

Sempre nos disseram o que pensar; o que é correcto e o que é errado. Pelos sujeitos brancos que moram ou vieram da Europa e da América do Norte. Eles sabiam de tudo. Eles eram os mais qualificados.

Quando escrevo “branco”, não me refiro apenas à raça ou cor da pele. Para mim, “branco” é a sua cultura, aquela a que pertencem. Sim, a sua identidade.

Nós russos, cubanos, venezuelanos, chineses, iranianos, turcos não somos realmente “brancos”, mesmo que a cor da nossa pele seja essa. Não que estejamos ansiando por ser brancos, realmente! Temos nossa própria maneira de viver e pensar e a maior parte de nós está do lado dos oprimidos, dos ‘miseráveis do mundo’, intuitivamente. Durante séculos as nossas nações foram saqueadas e atacadas. Milhões de nosso povo desapareceram durante invasões, genocídios, como aqueles na África e em todas as outras partes do mundo ‘não-branco’.

Sempre fomos estudados; sempre fomos analisados, fomos descritos por aqueles confiantes escribas e repórteres vindos sobretudo do Reino Unido e da América do Norte. Eles sabem melhor quem somos e que tipo de sistemas políticos e culturais merecemos e deveríamos almejar. Estas pessoas sabem como falar. Seus sotaques são tão perfeitos, tão “científicos”. Se eles dizem alguma coisa, isso deve ser pura verdade, simplesmente porque são qualificados, pois dominam o mundo há séculos.

Nós, os Outros, espera-se que calemos e ouçamos, a fim de aprender quem realmente somos, com os mestres do universo. Porque aos seus olhos não somos ninguém, apenas pouco mais que animais. E os animais não falam; eles só ouvem, recebem ordens e servem. Eles também são abatidos obedientemente, quando “é necessário”.

Esperava-se que os decisores brancos do mundo soubessem acerca de nós, muito melhor do que sabemos acerca do nosso próprio povo e dos nossos países.

Deus proíba um de nós, indivíduos “não brancos”, ousar emitir publicamente algum julgamento, especialmente um julgamento negativo, sobre a Europa, América do Norte ou Austrália!

Bem, em primeiro lugar, ninguém nos ouviria, porque nada se espera de nós, não podemos julgar o Ocidente. Estamos aqui para nos sentarmos polidamente, submissamente, para ouvir e tomar notas.

Será que vê frequentemente um chinês num programa de televisão britânico ou americano, a apresentar análises comunistas do Ocidente? Será que já viu um socialista iraniano ou chavista venezuelano a criticar o capitalismo britânico ou canadiano? Isso seria impensável, não é?

E honestamente, olhe para os chamados meios de comunicação independentes ou “progressistas” nos Estados Unidos ou Canadá. A situação lá é basicamente a mesma dos principais jornais e estações de televisão, com algumas raras, muito raras, excepções.

Mais uma vez, os brancos, sobretudo os anglo-saxões, “conhecem o que é melhor”: seja a respeito dos recentes protestos anti-racistas nos Estados Unidos, seja a própria origem do COVID-19. Mesmo que não saibam nada, absolutamente nada, eles ainda são considerados os mais bem informados, os “peritos” mais qualificados. Só porque têm nomes, aparências e pronúncias adequadas. Só porque são brancos, arrumados e capazes de mentir de maneiras aceitáveis.


Há poucas horas assisti a uma gravação, um diálogo entre dois “experts”, o qual foi postado online por um media “independente” norte-americano. Eles discutiam o COVID-19.

O impressionante foi a arrogância e aqueles sorrisinhos sarcásticos do tipo “sabemos tudo e vocês não sabem nada”. Dois homens estavam claramente a demonstrar rancor degenerado pelo mundo. Ambos eram brancos. Mais uma vez, não era só a cor da pele, mas também a sua atitude; devido à sua cultura.

Nos 40 minutos durante os quais falaram, não houve referências à tremenda vitória da China sobre a pandemia. Nenhuma menção ao Vietname ou a Cuba. Eram eles a falar. Era acerca deles, acerca do seu mundo e definitivamente não acerca da verdade objectiva.

O mesmo media basicamente chutou-me para fora; deixou de reimprimir meus ensaios depois de as nossas opiniões começarem a divergir, sobre todos os tópicos importantes, como a revolta nos Estados Unidos, o COVID-19 e a China. Quando cessei de me comportar como um branco, fui expulso.

Não me cabia nem era meu direito falar do Ocidente, neste momento histórico crucial. Afinal, eu era apenas algum outro da Rússia, da China. Este era o momento de os governantes do mundo brilharem. Eles e só eles eram qualificados para definir as crises na sua própria sociedade. Suas publicações fecharam as portas para os Outros. Nem todos, mas a maior parte certamente sim.

Os Outros eram por vezes autorizados a criticar seus próprios países. De vez em quando era-lhes permitido criticar duramente seus companheiros das nações não brancas. Mas nunca, alguma vez, foram tolerados como os críticos eminentes do Ocidente dominante; dos brancos!

Também não lhes é permitido fazer julgamentos intelectuais importantes: no Ocidente, os chineses não são confiáveis para decidir se o seu país é comunista ou não! Tais decisões são feitas por eles em Montreal e Londres, e se você ousar contradizer trotskistas ocidentais ou anarco-sindicalistas, será silenciado, censurado e impedido de publicar. Não significa nada que a China tenha uma das maiores e mais antigas culturas da Terra. Se o Irão é um país socialista é decidido em Paris ou Nova York, não em Teerão. O que aconteceu na União Soviética entre as duas guerras mundiais não cabe aos russos decidir.

Espera-se que todas as grandes nações não ocidentais aprendam acerca de si mesmas com alguns diletantes britânicos, suíços e canadianos, cujo único direito à fama é que são brancos e fazem parte do Ocidente.

Uma vez, um motorista de táxi em Teerão queixou-se a mim:

“Brancos ocidentais vêm ao meu país pela primeira vez. Eles não sabem nada sobre o Irão. Mas, com 5 minutos de viagem, começam a dar-me um sermão sobre a minha própria nação”.

Nem é preciso dizer que os ocidentais brancos sempre têm permissão para criticar o mundo inteiro. Não importa se sabem muito ou pouco acerca dele. Em geral, não sabem nada, absolutamente nada, mas e daí? Frequentemente, eles até conseguem infiltrar-se em meios de comunicação e universidades em países independentes e ensinar aos revolucionários acerca da sua própria revolução. Ridículo? Bizarro? Sim, é, mas está a acontecer!


Agora, como o Ocidente está a entrar em colapso, chovem teorias da conspiração por toda parte. Invenções e especulações ridículas e idiotas são impressas, dia após dia. Mesmo alguns media internacionais sérios com sede no mundo não ocidental caem na armadilha. Eles estão a contratar exércitos inteiros de redactores britânicos, irlandeses e norte-americanos convencionais, só para impressionar seus leitores no Ocidente, aqueles que não estão habituados a receberem “sermões” de pessoas de outras cores e culturas.

O Ocidente, intelectual e moralmente confuso e corrupto, não foi capaz de analisar, de pensar racionalmente. É uma lavagem cerebral completa. Isso se aplica tanto aos redactores quanto aos leitores. Ele precisa, não pode viver sem “caras familiares”, sem linhas de pensamento familiares.

Apesar da sua confusão, insistem em falar. Exigem serem ouvidos.

São incapazes de aprender com os outros. Só sabem como ditar; como pregar.

Mas aquilo que dizem nada mais é que lixo incompreensível. É apenas um disparate racista, fantasmagórico e irracional.

Conversa política ocidental, tagarelice académica, degeneração mental alucinogénica de Hollywood, danos cerebrais da Disney desde a primeira infância, narrativas surreais dos media de massa – tudo isso está reduzindo a nossa raça humana a nada, a um zero intelectual.

O caos e a falta de lógica patológica estão a manter o status quo . Sob tais condições, nenhuma ideologia progressista poderia sobreviver. Portanto, este é o ambiente mais adequado para os meninos ocidentais brancos e sua ditadura global.

É hora de calar a boca da maior parte dos faladores ocidentais, parar de ouvir e, se possível, trancar alguns dos oradores mais dementes numa instituição mental!

Mais fácil dizer do que fazer! Mas não há outra maneira.


Francamente, estou farto desta situação. Trabalho por todo o mundo e posso comparar. É claro para mim que a maior parte dos brancos ocidentais perdeu o seu gume criativo. Seus pensadores, escritores e directores de cinema estão a produzir sobretudo lixo. Com algumas excepções, o mesmo pode ser dito acerca sua academia e jornalismo investigativo.

Um jornalista russo, chinês, venezuelano poderia ver o colapso das sociedades ocidentais com muito mais clareza do que os próprios ocidentais. Ele ou ela seriam, em geral, muito mais qualificados e educados, capaz de descrever a realidade e de criticar objectivamente.

No Ocidente, o nível de ignorância é realmente impressionante. O conhecimento não é uma exigência. Só papéis, diplomas e selos fornecidos pelo regime é que são.

O mundo precisa desesperadamente de ouvir os Outros. Pois é preciso que os Outros se envolvam, sejam eles mesmos, para impedir que meninos ocidentais brancos de assassinarem milhões e milhões de pessoas inocentes em todos os cantos do mundo, como têm feito durante vários séculos ininterruptamente. Pois precisa dos Outros para erigir novos conceitos, novas ideologias e novos princípios morais.

Os conceitos colonialistas, imperialistas e racistas da América do Norte e da Europa simplesmente não são suficientemente bons para o mundo.

Em pânico, os brancos estão ultimamente a gritar (depois que o Sr. Floyd foi assassinado pela polícia sádica e a rebelião irrompeu por todo o mundo): “Não se trata de raça!”

Mas observe uma coisa: são eles, a dizer a nós, mais uma vez, a dizer ao mundo o que é e o que não é! Você nunca ouviria tais declarações na África, Médio Oriente ou Ásia. Lá as pessoas sabem perfeitamente bem do que realmente se trata, se se trata de raça ou não!

Acabei de passar duas semanas nos Estados Unidos, analisando a profunda crise da sociedade estado-unidense. Visitei Washington, DC, Minneapolis, Nova York e Boston. Falei com muitas pessoas em todos esses lugares. O que testemunhei foi confusão e ignorância total sobre o resto do mundo. Os Estados Unidos, um país que brutaliza nosso planeta há décadas, é absolutamente incapaz de se ver no contexto do mundo inteiro. As pessoas, incluindo aquelas dos media, são escandalosamente ignorantes e provincianas.

E são egoístas.

Perguntei muitas vezes: “A vida dos negros importa por todo o mundo? Elas importam na República Democrática do Congo e na Papua Ocidental? ” Juro, nunca recebi uma resposta coerente.

Alguém tem de lhes dizer… Alguém tem de forçá-los a abrir os olhos.



Há poucos anos, fui convidado para ir ao sul da Califórnia para mostrar meu documentário da África (meu longa-metragem Ruanda Gambit , sobre genocídios desencadeados pelo Ocidente tanto no Ruanda como posteriormente na República Democrática do Congo), onde milhões de negros estão a morrer, a fim de que a grande maioria dos americanos brancos viva na opulência suína.

Mas antes de poder apresentar, fui avisado:

“Lembre-se, as pessoas aqui são sensíveis… Não mostre realidade demasiado brutal, pois pode perturbá-las…”

Ao ouvir isso, quase abandonei o evento. Só o meu respeito pelo organizador me fez permanecer.

Agora estou convencido: é tempo de forçá-los a assistir; a ver os rios de sangue desencadeados pela sua preguiça, egoísmo e ganância. É hora de forçá-los a ouvir gritos de agonia dos outros.

Nós podemos fazer isso: repórteres “não brancos” da Rússia, China, América Latina e alhures. Temos imagens e sons! É nosso povo, nossos irmãos e irmãs por todas as partes do mundo que estão a atravessar sofrimento inimaginável. E faremos isso. Já começámos a fazê-lo. Que se lixem as sensibilidades dos assassinos remotos que se disfarçam de companheiros vítimas do capitalismo, só porque têm de pagar empréstimos estudantis e hipotecas, ou trabalhar em dois empregos! Eles não sabem absolutamente nada sobre verdadeiros horrores e verdadeira miséria. Um dia, em breve, serão forçados a ver e a compreender.

Incesto intelectual no ocidente

Durante séculos, intelectuais, pessoas dos media e propagandistas ocidentais ouviram-se uns aos outros, reciclando pensamentos uns dos outros, “casando” uns com os outros de uma forma obsoleta e incestuosa. Em seguida, eles despejavam seus discursos, muitas vezes vigorosamente, goela abaixo de todos os africanos, asiáticos, em suma, “dos outros”.

Eles criaram uma narrativa horrível que é predominantemente bombástica, hipócrita, falsa e até mesmo francamente enganosa.

Durante anos e décadas tenho escrito livros pormenorizados, dando exemplos de todos os cantos do planeta, revelando esta concepção atroz. O mais completo deles chama-se Exposing Lies of the Empire e tem mais de 800 páginas. A segunda parcela virá em 2021.

Em algum ponto, por operar dentro de margens intelectuais extremamente estreitas, a cultura ocidental branca simplesmente ficou sem ideias e sem criatividade. Tornou-se impotente, egoísta e incapaz de oferecer qualquer coisa progressista e optimista à humanidade.

Mas continua a dar lições ao mundo, ‘educando’ ou, mais precisamente, fazendo lavagem cerebral a todas as outras raças e nacionalidades.

O mundo foi condicionado de modo que, sem os selos brancos de aprovação do Ocidente, nada poderia se mover, ou ter êxito, ou ser levado a sério.

Mas agora, no Ocidente, a cultura branca entrou em colapso total. Ela parou abruptamente de dar à luz grandes escritores, cineastas ou pensadores. A Ásia, Rússia e até mesmo partes da África como a Nigéria e a África do Sul estão a produzir autores muito melhores, enquanto o Irão, China e Argentina estão a gerar cineastas indubitavelmente superiores.

Mas é o Ocidente que está a distribuindo prémios para o seu próprio pessoal e traidores estrangeiros, fingindo que ainda tem o mandato para julgar, educar e inspirar o mundo. Seus prémios, assim como seus diplomas, nada mais são do que selos de aprovação dados a colaboradores; recompensas por servidão.

Nesta altura, os meninos ocidentais brancos sabem muito pouco. Eles estão em negação absoluta. Eles são ridiculamente sobrestimados. Na verdade, estão acabados. Eles são vazios, cínicos, super-masturbados e preguiçosos. Eles pedem toda espécie de direitos e privilégios, mas nada sabem sobre responsabilidades, trabalho árduo e entusiasmo.

A América do Norte e a Europa branca esperam que o resto do mundo seja obediente, submisso, trabalhe duro, apoiando os não razoáveis altos padrões de vida do Ocidente. Isto é verdade tanto para sua direita quanto para os chamados “progressistas” (isto é tudo o que realmente – uma vez que virtualmente já não existe uma verdadeira esquerda internacionalista remanescente nos países ocidentais).

Mas mesmo a pseudo “esquerda”, que é patética, defunta e realmente apaixonada pelo obsoleto, ainda ousa julgar e desdenhar daqueles grandes países nos quais Partidos Comunistas e governos internacionalistas agora orgulhosamente detêm o poder!

A única razão para tal arrogância grotesca é (sim, o que está a imaginar é certo) o facto de que os membros da pseudo-esquerda são brancos e vêm de países ocidentais. O que é obviamente bastante bom (para eles) para alimentar seus complexos grandiloquentes de superioridade.

Se tudo isso parecer perverso e incestuoso, esteja certo de que realmente é.

Claro, este monstruoso arranjo do mundo tem de acabar logo, muito em breve. E acabará! Faremos com que isto aconteça.


Durante décadas e séculos, meninos brancos ocidentais estiveram a julgar-nos, aos outros. Estiveram a analisar-nos, a dizer-nos o que fazer, como pensar e como viver.

Isso levou a um desastre absoluto: a genocídios, pilhagem e escravidão; a colapsos intelectuais e ambientais.

A moral da história é: o Ocidente Branco não tem absolutamente nenhum direito de controlar o mundo. Este facto está a tornar-se cada vez mais óbvio.

Ele não está qualificado para liderar o mundo. Existem sistemas políticos muito melhores do que o ocidental, pois existem culturas muito mais importantes.

A única razão pela qual o Ocidente ainda está no controle do planeta é por causa da sua violência, brutalidade, bem como de enganos.

A violência pode ser confrontada. De agora em diante, será. Pela Rússia, Irão, China, Venezuela e outros países valentes.

Os enganos também devem ser desafiados. Agora temos nossos meios de comunicação. E estamos a usá-los.

Não deveríamos ouvir mais mentiras. Elas têm prejudicado nossos países durante décadas e séculos.

Temos de falar. Somos obrigados a falar! Cada vez mais alto. Acerca das nossas nações, acerca do mundo e da demência do Ocidente.

Agora, o Ocidente deve ser forçado a ouvir nossas vozes.

Nosso povo não deve mais sofrer em silêncio.

Francamente, no Ocidente branco, eles não sabem nada ou muito pouco acerca de nós. Embora saibamos muito, ou deveria dizer demasiado sobre o Ocidente. Realmente, fomos forçados a saber, mas principalmente mentiras. A verdade fomos nós que a descobrimos, mas descobrimos por nós próprios e muitas vezes da maneira mais difícil.

O mundo oprimido está a despertar. Cada vez mais, exige que seu próprio povo escreva e fale. Acerca dos nossos países próprios e também acerca do Ocidente.

Não nos interessa o que o Ocidente branco pensa de nós. Já não nos importamos. Cada vez mais de nós cuspimos nos seus convites e nos incentivos para trair. Não precisamos dos seus certificados e dos seus diplomas.

Não precisamos do seu dinheiro: temos os nossos próprios meios de comunicação que começam a render devido a um trabalho árduo e excelente; na Rússia, China e noutros lugares. Temos as nossas editoras e estações de televisão. As nossas palavras estão espalhadas por toda a Internet e ondas de rádio.

Isto é um novo mundo e um grande despertar.

Agora vamos dizer-lhes, directamente na cara, sobre a sua luta fracassada contra o COVID-19 e sua democracia fracassada. Envergonharemos seu imperialismo, colonialismo, consumismo vazio e racismo endémico. E analisaremos suas revoltas, sua opressão, vazio emocional e consumismo estúpido, usando nossos próprios repórteres, poetas e pensadores.

Falaremos sobre socialismo e comunismo a partir das nossas próprias perspectivas, do nosso próprio jeito e quando quisermos! Não precisamos da permissão deles.

Não precisamos dos sorrisos sarcásticos do Ocidente. Não somos “brancos”. E mesmo que a cor da nossa pele possa ser, em alguns casos, pálida, estamos a lutar decididamente ao lado das nações oprimidas, contra o sinistro ‘clube’ que tem assassinado centenas de milhões de pessoas, assim como todo o entusiasmo, bondade e esperança neste planeta.

As coisas estão a mudar rapidamente. Os Outros estão subindo. A grande batalha dos dias modernos contra a escravatura e o colonialismo começou.

Nossa mensagem é clara: Imperialistas, colonialistas, colonos e supremacistas ocidentais, calem a boca, recuem e ouçam; tivemos de ouvi-los durante séculos! Sua narrativa é vazia. E vocês não podem enganar-nos mais. Em breve construiremos nosso próprio novo mundo: aqueles milhares de milhões que não eram ninguém no vosso mundo tornar-se-ão tudo no nosso.

Agora estamos a falar e, pela primeira vez na história moderna, não há nada que vocês possam fazer a respeito. Vocês simplesmente terão que se habituar com o som das nossas vozes!

Sobre o Autor

Andre Vltchek (1963-2020): Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigativo. Cobriu guerras e conflitos em dezenas de países. Alguns dos seus livros mais recentes são New Capital of Indonesia , China Belt and Road Initiative , The Great October Socialist Revolution Fighting Against Western Imperialism , Revolutionary Optimism, Western Niilism , o romance revolucionário Aurora e um best-seller de não ficção política: Exposing Lies Of The Empire . Assista Rwanda Gambit , seu documentário inovador sobre Ruanda e a R.D. Congo e o seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism . Vltchek faleceu em 22/Setembro/2020 em Istambul. O seu é andrevltchek.weebly.com , Patreon

Taxa de lucro mundial: uma nova abordagem

Blockchain pode gerar US$ 1 tri ao comércio mundial em 10 anos

Por: Michael Roberts

O modelo de capitalismo de Marx assume uma economia mundial e principia com o “capital em geral”. Foi a este nível de abstracção que Marx desenvolveu o seu modelo das leis de movimento do capitalismo e, em particular, o que ele considerou ser a mais importante lei de movimento no processo de produção capitalista, a lei da tendência da taxa de lucro para a queda.

A taxa de lucro é o melhor indicador da “saúde” de uma economia capitalista. Ela apresenta um valor previsional significativo sobre o investimento futuro e a probabilidade de recessão ou desmoronamento (slump). De modo que o nível e a direcção de uma taxa de lucro mundial pode ser um guia importante para o desenvolvimento futuro da economia capitalista mundial.

Contudo, no mundo real, há muitos capitais; e não apenas um estado capitalista mundial mas sim muitos estados capitalistas nacionais. Assim, há barreiras para o estabelecimento de uma economia mundial e de uma taxa de lucro mundial devido a restrições ao trabalho, comércio e capital concebidas para preservar e proteger mercados nacionais e regionais do fluxo do capital global. Mesmo assim, o modo de produção capitalista agora propagou-se para todos os cantos do globo e a “globalização” do comércio e fluxos de capitais torna o conceito de medida de uma taxa de lucro mundial mais realista e perceptível.



Minha primeira tentativa de medir uma taxa de lucro mundial foi num documento de 2012 . Uma medida adequada da taxa de lucro mundial teria de considerar todo o capital constante e variável do mundo e estimar o valor excedente total apropriado por este capital global. Naquele tempo, isto parecia uma tarefa impossível. Assim, uma média ponderada de taxas de lucro nacionais era o único caminho factível de obter um número.



Tentei desenvolver uma taxa de lucro mundial que incluísse todas as economias do G7 mais as quatro economias do acrónimo BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China). Isto cobriu 11 economias de topo e constituía uma fatia significativa do PIB global. A seguir utilizou as Extended Penn World Tables tais como construídas pelo Professor Adalmir Marquetti do Brasil. Ponderei as taxas nacional pela dimensão do PIB, embora a taxa média bruta não parecesse divergir significativamente da média ponderada.

Gráfico 1

Descobri que: 1) houve uma queda na taxa de lucro mundial desde o ponto de partida daqueles dados em 1963 e que até 2013 a taxa mundial nunca se recuperou para o nível de 1913; 2) a taxa de lucro atingiu uma baixa em 1975 e a seguir ascendeu para um pico nos meados da década de 1990; 3) depois disso, a taxa de lucro mundial foi estática ou ligeiramente cadente.



Em 2015 revisitei a mensuração da uma taxa de lucro mundial. No período intercalar, Esteban Maito havia feito algum trabalho pioneiro utilizando um método de medição semelhante (taxas nacionais ponderadas pelo PIB) para 14 países, mas utilizando estatísticas nacionais, não as Tabelas Mundiais Ampliadas da Penn e remontando a 1870 para alguns países. Maito confirmou o meu estudo mais limitado de uma clara tendência descendente na taxa de lucro mundial, embora houvesse períodos de recuperação parcial tanto nos países centrais como periféricos. Maito reviu e actualizou o seu trabalho para um capítulo em World in Crisis: uma análise global da lei da lucratividade de Marx – leitura essencial.

O gráfico abaixo é a minha adaptação do trabalho de Maito.

Gráfico 2

Maito mostrou que o comportamento da taxa de lucro sobre o stock de capital confirma as previsões feitas por Marx acerca da tendência histórica do modo de produção. Há uma tendência secular para a queda da taxa de lucro sob o capitalismo e a lei de Marx actua. Maito também descobriu que houve uma estabilização e mesmo uma ascensão na taxa de lucro mundial desde o princípio ou meados da década de 1980 até o fim da de 1990, o chamado período neoliberal de destruição de sindicatos, de redução do estado de bem-estar social (welfare state) e de impostos corporativos, de privatização, globalização, inovação hi-tech e da queda da União Soviética. Além disso, Maito mostrou que esta recuperação atingiu o pico cerca de 1997.



A medição da taxa mundial de lucro do meu trabalho de 2015 ( Revisiting a world rate of profit, June 2015 ); desta vez utilizei as tabelas mais actualizadas Penn World Tables 8.0 para dados baseados nas principais economias do G20. Estes resultados apresentaram um declínio secular semelhante ao dos dados de Maito. Houve uma queda significativa desde a primeira derrocada económica internacional simultânea em 1974-5 até ao início dos anos 80, depois uma modesta recuperação antes de outra queda coincidir com a recessão económica mundial de 1991-2. Houve uma ligeira recuperação na década de 1990 até ao início da década de 2000. Depois disso, a taxa de lucro do G20 baixou, tanto antes da Grande Recessão de 2008-9 como depois, apenas com uma minúscula recuperação até 2011.

Gráfico 3

Apoiei estes resultados com dados da base de dados AMECO do Eurostat, os quais estão ainda mais actualizados. A questão com os dados do AMECO é que a sua medida do stock líquido de capital é altamente duvidosa, especialmente nos primeiros anos a partir de 1963. Contudo, a partir do início dos anos 80, a taxa de lucro da AMECO segue aquela da medição das Penn Tables.



Agora dei uma terceira vista de olhos à taxa de lucro mundial utilizando os dados mais recentes das Penn World Tables 9.1. Esta última base de dados tem uma inovação importante. Tem uma nova série chamada taxa interna de rentabilidade (TIR) sobre o stock de capital, um excelente proxy para a taxa de lucro Marxiana. Como os dados são compilados sobre as mesmas categorias e conceitos, a série TIR oferece uma valiosa comparação entre as taxas de lucro nacionais e também é ampliada até 2017. Assim, temos agora uma série para as taxas de lucro de quase todos os países do mundo, principiando em muitos casos em 1950 e indo até 2017. ( Internal rate of return )

Em futuras mensagens sobre isto considerarei quaisquer problemas de medição com a TIR e outras categorias; explicarei a minha metodologia; e fornecerei fontes e elaborações. Além disso, analisarei a decomposição da taxa de lucro nos seus factores-chave, nomeadamente a composição orgânica do capital e a taxa de mais-valia. Esta decomposição é importante. Uma coisa é mostrar uma da taxa de lucro cadente ao longo do tempo; outra é mostrar que isto é causado pela lei de Marx da tendência para a queda da taxa de lucro. Poderia haver outras razões.



Se a lei de Marx está correcta, então segue-se que quando a taxa de lucro cai, a composição orgânica do capital (C/v) deve aumentar mais rapidamente do que a taxa de exploração (s/v). De acordo com a lei de Marx, uma composição orgânica ascendente do capital é o factor tendencialmente determinante para a queda da taxa de lucro e a taxa de exploração é o factor (principal) contrabalançador para isso . Se a última subir mais depressa do que a primeira, então a taxa de lucro sobe – e houve períodos em que isso aconteceu. Mas, no longo prazo secular, a taxa de lucro cai e isso acontece porque a composição orgânica do capital sobe mais do que a taxa de exploração.

Não discutirei estas questões nesta mensagem, mas considere-se apenas os resultados principais da mensuração da taxa de lucro mundial utilizando as séries IRR nas Penn World Tables. Ponderei as séries IRR pela dimensão do stock de capital (não pelo PIB como em mensagens anteriores) a fim de obter uma melhor medição para as economias do G20 (19 países excluindo a UE) e também para as principais economias imperialistas do G7; bem como para economias emergentes ou em desenvolvimento seleccionadas.

Os resultados do G7 confirmam os resultados das minhas duas medições anteriores em 2012 e 2015; que a taxa de lucro nas principais economias imperialistas têm estado em declínio a longo prazo. A taxa não tem sido uma linha recta descendente, mas pode ser dividida em quatro períodos: 1) a “era dourada” de alta e mesmo lucratividade crescente de 1950-1966; 2) então a enorme lucratividade entra em colapso de 1966 a 1982; 3) a seguir a relativamente fraca recuperação neoliberal; e 4) desde o pico em 1997, uma depressão geral na taxa de lucro até 2017 (quando terminam os dados).

Gráfico 4

Agora com as séries IRR podemos medir melhor a taxa de lucro do G20, provavelmente o mais próximo que podemos obter para uma “taxa mundial”. Esta medida deveria ser melhor do que a de Maito ou qualquer medida anterior porque inclui mais países;
Agora com a série IRR podemos medir melhor a taxa de lucro do G20, provavelmente o mais próximo que podemos chegar de uma “taxa mundial”. Esta medida deveria ser melhor do que a de Maito ou qualquer medida anterior porque inclui mais países; embora o trabalho pioneiro de Maito meça as taxas de lucro desde o século XIX e não apenas até 1950.

A taxa de lucro do G20 corresponde àquela da taxa de lucro do G7 na sua trajectória.

Gráfico 5

Mas note-se que o nível da taxa de lucro é geralmente mais elevado do que a taxa G7. Isto deveria ser expectável ao abrigo da lei de Marx porque a composição orgânica do capital será mais elevada nos países imperialistas do que nos países em desenvolvimento que ainda estão a tentar “recuperar” o atraso tecnológico. Voltaremos a este ponto numa futura mensagem.

Na verdade, vamos examinar a taxa de lucro em algumas economias em desenvolvimento seleccionadas, em particular os membros do G20, tais como Argentina, Brasil, México, África do Sul, China, Índia, Indonésia e Turquia. Mais uma vez, verificamos que a taxa de lucro cai a longo prazo, mas com os quatro sub-períodos semelhantes às séries G7 e G20.

Gráfico 6

Mas, mais uma vez, note-se o nível muito mais elevado da taxa de lucro, cerca de 24% na Idade de Ouro em comparação com apenas 10% nas economias do G7 caindo para 10% no último sub-período em comparação com 6,5% no G7. Também, o ponto de viragem dentro do período neoliberal é posterior; em 1989 a comparar com 1982 para o G7. E, para estas economias em desenvolvimento, qualquer recuperação da lucratividade é efémera, entrando em derrocada na crise dos mercados emergentes de 1998. A longa depressão da lucratividade nas economias em desenvolvimento tem prosseguido desde então.

Assim, podemos resumir estes resultados iniciais da série IRR das Penn World Tables 9.1 como a confirmação do declínio a longo prazo da taxa de lucro mundial (ou seja, para a maior parte das grandes e maiores economias), com vários sub-períodos, tal como foi percebido nas duas medições anteriores de 2012 e 2015.

Em futuras mensagens tenciono expandir estes resultados. Analisarei a decomposição da taxa de lucro mundial e os factores que a impulsionam. Considerarei a taxa de lucro em economias-chave específicas (EUA, Alemanha, Japão, China) para ver o que podemos aprender. Tentarei relacionar a variação da taxa de lucro com a regularidade e intensidade das crises no modo de produção capitalista. E considerarei a questão colocada e respondida no trabalho de Maito: se a taxa de lucro mundial estiver destinada a diminuir, irá para zero e como é que isso é possível? E, se assim for, quanto tempo irá demorar? E o que é que isso nos diz acerca do próprio capitalismo?

Sobre o Autor

Economista, autor de The Long Depression.

Vacinas contra a Covid-19: os governos, mais uma vez, aos pés das multinacionais farmacêuticas

Por: Ángeles Maestro e Eloy Navarro

Que se tomem as medidas necessárias para fortalecer a investigação pública, garantir a sua independência do capital privado e criar uma indústria farmacêutica pública capaz de fabricar os medicamentos considerados como essenciais pela OMS, entre eles, as vacinas.

Desde há algum tempo que se está a evidenciar a distorção que o capitalismo introduz no conhecimento científico e, em especial, na chamada ” medicina com base na evidência ” [1] . Poderosos interesses económicos decidem o que se investiga, o que se fabrica e o que não se fabrica, privando a humanidade de avanços que o seu próprio desenvolvimento poderia oferecer. A determinação exercida pelo objetivo prioritário do lucro empresarial, que se paga com milhões de mortes prematuras e doenças evitáveis, afeta de forma decisiva a produção de medicamentos [2] . Como tem sido repetidamente denunciado, até se inventam novas patologias – ou seja, sinalizam-se doenças inexistentes – para se poderem prescrever certos medicamentos, especialmente nas doenças mentais [3] .

É bem sabido que uma das consequências esperadas da pandemia é o colossal negócio para as multinacionais farmacêuticas derivado da compra de milhões de doses de vacinas.

Agora, gigantes empresariais que exibem, anualmente, margens de lucro muito superiores às da banca, nem mesmo terão de correr riscos com os seus investimentos –, o dinheiro público dos Estados da UE, incluindo o espanhol, compra adiantadamente milhões de doses antecipadamente de vacina; e faz isso antes de terem sido demonstradas a sua validade, eficácia e segurança.

Em meados de junho, o ministro da Saúde anunciava a adesão da Espanha ao Acordo de Compra Antecipada de Vacinas [4] contra a COVID 19. Com este acordo, a UE decidiu investir grande parte dos 2.700 milhões de euros do Instrumento de Apoio a Emergências para ” contribuir para a implantação da vacina “. Ou seja, acertou-se o financiamento antecipado da produção da vacina.

A corrida entre as grandes farmacêuticas foi vencida, até agora, pela britânica AstraZeneka, que recebeu 1.200 milhões de euros da UE por 300 milhões de doses.

É significativo que o acordo de financiamento e o desembolso do dinheiro tenham ocorrido quando a fase III ainda não havia sido concluída, enquanto choviam as críticas à apresentação da vacina russa, exatamente nas mesmas condições. Acaba de ser anunciado que o ensaio clínico desenvolvido pela AstraZeneca foi suspenso devido a graves efeitos secundários.

A AstraZeneka, como outras multinacionais, já conseguiu assegurar-se não só de indemnizações dos governos da UE aos quais fornecerá a vacina, caso as empresas sejam condenadas a pagar por possíveis efeitos secundários da mesma [5] , mas também está a tentar ficar totalmente isenta de responsabilidade civil.

Perante uma situação grave, em que é mais do que provável que, como já aconteceu em outras ocasiões, se aproveitem a angústia e o medo da população perante a enfermidade e a morte – inoculadas em grandes doses pelos média – para que o poderoso lóbi do medicamento consiga fabulosos lucros, a Coordenadora Antiprivatização da Saúde, num comunicado recente [6] :

1.º – Denuncia que o resultado da investigação biomédica realizada com fundos públicos do Estado espanhol, que se reduziu em 25% nos últimos dez anos, é sistematicamente transferido para empresas privadas [7] . Desta forma, e mais uma vez, o desmantelamento ou a parasitação do setor público, deixa a saúde sem instrumentos próprios e favorece o colossal negócio das empresas privadas.

2.º – Afirma que o dinheiro público pago a multinacionais farmacêuticas para vacinas ainda não testadas e em detrimento de instituições públicas, implicará cortes noutros serviços, especialmente graves em tempos de uma crise sanitária, social e económica como a que estamos a viver.

3.º – Refere que, quando se adotam decisões contra natura como a que estamos a analisar, costuma acontecer que anos depois se descubra que as empresas beneficiadas subornaram aqueles que estavam envolvidos em tais deliberações.

4.º – Lembra que, como depois se soube, os membros do comité de especialistas da OMS sobre a gripe A foram financiados pelas multinacionais Roche e Glaxo, fabricantes, respetivamente, do Tamiflu e da Relenza. Dessa forma, ocultou-se que esses fármacos eram ineficazes contra o vírus H1N1 e, além disso, tinham importantes efeitos secundários não declarados. A OMS exortou os governos a investirem nestes medicamentos cerca de 5.000 milhões de euros em 2009, justamente quando se iniciavam os drásticos cortes nos serviços públicos devido ao rebentar da crise.

No Estado espanhol, as enormes quantidades de ambos os medicamentos comprados pela ministra da Saúde, Trinidad Jimenz – para o tratamento de supostos 12 milhões de casos – caducaram nos armazéns [8] , segundo um relatório de 2017. Além disso, foram gastos cerca de 300 milhões de euros em vacinas contra uma epidemia que nunca existiu.

Os laboratórios envolvidos faturaram 700.000 milhões de dólares por ano.

Por tudo isto, como aponta a Coordenadora Antiprivatização da Saúde, é preciso exigir que:

1.º – Se constitua de imediato um comité científico com reconhecida independência da indústria farmacêutica para avaliar a validade, eficácia e segurança das vacinas disponíveis, inclusive as produzidas por instituições públicas de outros países.

2.º – Se tomem as medidas necessárias para fortalecer a investigação pública, garantir a sua independência do capital privado e criar uma indústria farmacêutica pública capaz de fabricar os medicamentos considerados como essenciais pela OMS, entre eles, as vacinas.


[1] rebelion.org/la-distorsion-de-la-medicina-basada-en-la-evidencia/ .
[2] Gotzsche, Peter.C, (2014) Medicamentos que matam e crime organizado, www.researchgate.net/…
[3] www.eldiario.es/…
[4] www.boe.es/diario_boe/txt.php? id = BOE-A-2020-9132
[5] www.publico.es/… .
[6] www.casestatal.org/…
[7] saludporderecho.org/… .
[8] Relatório oficial publicado em 2017, www.aemps.gob.es/…

Sobre o Autor

Médicos e membros da Coordenadora Antiprivatização da Saúde Pública (CAS)