O Irão imperialista torna-se anti-imperialista

Expresso | Pérsia. A herança de um império que o Irão não esquece

Por: Thierry Meyssan

A história do Irão dos séculos XX e XXI não corresponde nem à imagem que os Ocidentais tem dela, nem às que os discursos oficiais dos Iranianos dela dão. Historicamente ligado à China e desde há dois séculos fascinado pelos Estados Unidos, o Irão debate-se entre a recordação do seu passado imperial e o sonho libertador de Rouhollah Khomeiny. Considerando que o xiismo não é somente uma religião, mas também uma arma política e militar, ele hesita entre proclamar-se protector de xiitas ou libertador de oprimidos. Nós publicamos um estudo de Thierry Meyssan, em duas partes, sobre o Irão moderno.

s Persas formaram vastos impérios federando os povos vizinhos mais do que conquistando os seus territórios. Comerciantes mais do que guerreiros, eles impuseram a sua língua durante um milénio em toda a Ásia, ao longo das rotas chinesas da seda. O farsi, que apenas eles falam hoje em dia, tinha um estatuto comparável ao do inglês na actualidade. No século XVI, o seu soberano decidiu converter o povo ao xiismo a fim de o unificar conferindo-lhe uma identidade distinta no seio do mundo muçulmano. Este particularismo religioso serviu de base ao império safávida.

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O Primeiro-Ministro Mohammad Mossadegh (à direita) dirigindo-se ao Conselho de Segurança da ONU.

No início do século XX, o país teve de fazer face aos apetites vorazes dos impérios britânico, otomano e russo. Por fim, no seguimento de uma terrível fome, deliberadamente provocada pelos Britânicos e tendo causado 6 milhões de mortos, Teerão perde o seu império enquanto Londres lhe impõe uma dinastia de opereta, as dos Pahlevi, em 1925, a fim de poder explorar os campos petrolíferos em seu exclusivo proveito. Em 1951, o Primeiro-Ministro Mohammad Mossadegh nacionaliza a Anglo-Persian Oil Company. Furiosos, o Reino Unido e os Estados Unidos conseguem derrubá-lo mantendo ao mesmo tempo a dinastia Pahlevi. Para conter os nacionalistas, eles transformam o regime numa terrível ditadura ao libertar das suas prisões um antigo General nazi, Fazlollah Zahedi e impondo-o como Primeiro-Ministro. Este criou uma polícia política, a SAVAK, cujos quadros são antigos oficiais da Gestapo (rede Stay-behind).

Em todo o caso, este episódio despertou a consciência do Terceiro Mundo para a exploração económica de que é vítima. Ao contrário do colonialismo francês de povoamento, o colonialismo britânico não é senão uma forma organizada de pilhagem. Antes dessa crise, as companhias petrolíferas britânicas não pagavam mais de 10% dos seus lucros às populações que exploravam. Se os Britânicos gritam por roubo durante a nacionalização, os Estados Unidos colocam-se ao lado de Mossadegh e propõem uma divisão de meio por meio. Sob impulso do Irão, este reequilíbrio irá prosseguir por todo o mundo ao longo do século XX.

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Amigo de Frantz Fanon e de Jean-Paul Sartre, Ali Shariati reinterpretou o islão como uma ferramenta de libertação. Segundo ele, « Se tu não estás no campo de batalha, pouco importa que estejas na mesquita ou no bar ».

Progressivamente, surgem dois movimentos principais de oposição no seio da burguesia: primeiro os comunistas, apoiados pela União Soviética, depois os terceiro-mundistas, à volta do filósofo Ali Shariati. Mas é um clérigo, Rouhollah Khomeini, quem, sozinho, consegue acordar a arraia-miúda. Segundo ele, é uma coisa positiva lamentar o martírio do Profeta Hussein, mas é muito melhor seguir o seu exemplo e lutar contra a injustiça; um ensinamento que lhe valeu ser considerado como herético pelo resto do clero xiita. Após 14 anos de exílio no Iraque, ele instala-se em França onde impressiona inúmeros intelectuais de esquerda como Jean-Paul Sartre e Michel Foucault.

Os Ocidentais fizeram do Xá Reza Pahlevi o «policia do Médio-Oriente». Ele trata de esmagar os movimentos nacionalistas. Ele sonha em religar-se com o esplendor do passado do seu país, do qual celebra com um fausto hollywoodesco o 2.500º aniversário numa aldeia de tendas em Persépolis. Aquando do choque petrolífero de 1973, percebe o poderio de que dispõe. Pensa, então, restaurar um verdadeiro império e solicita a ajuda dos Saud. Estes informam imediatamente os Estados Unidos, os quais decidem eliminar o seu aliado Pahlevi, que se tornou demasiado ganancioso, e substituí-lo pelo velho Aiatola Khomeini (77 anos à época) que rodearão com os seus agentes. Mas, antes de mais, o MI6 abre caminho: os comunistas são postos na prisão, enquanto o Imã dos pobres, o Libanês Moussa Sadr, desaparece durante uma visita à Líbia e Ali Shariati é assassinado em Londres. Entretanto, os Ocidentais convidam o Xá doente a deixar por algumas semanas o seu país a fim de se fazer tratar.

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No cemitério de Behesht-e Zahra, o Aiatolla Khomeiny interpela o exército, o qual convoca a libertar o país dos Anglo-Saxões. Assim, este que a CIA tomava por um pregador gagá é, na realidade, um tribuno que inflama as multidões e a todos dá a convicção que pode mudar o mundo.

A 1 de Fevereiro de 1979, o Aiatolla Khomeiny chega triunfalmente do exílio. Mal acaba de pisar o terminal do aeroporto de Teerão, dirige-se de helicóptero para o cemitério da cidade onde acabam de ser enterradas 600 pessoas massacradas durante uma manifestação contra o Xá. Para estupefacção geral ele pronuncia um discurso, não contra a monarquia, mais violentamente anti-imperialista. Ele apela ao exército para que não sirva mais os Ocidentais, mas, sim o povo iraniano. A mudança orquestrada do regime pelas potências coloniais acaba de se transformar instantaneamente em revolução.

Khomeini impõe um regime político estrangeiro ao Islão, o Velayat-e faqih, inspirado na República de Platão, de quem é um grande leitor: o governo será colocado sob a orientação de um sábio, neste caso ele mesmo. Ele afasta então, um a um, todos os políticos pró-Ocidentais. Washington reagiu organizando várias tentativas de Golpe de Estado militar, depois uma campanha de terrorismo por ex-comunistas, os Mujahedins do Povo. Por fim, contrata —via Kuwait— o Iraque do Presidente Saddam Hussein como força contra-revolucionária. Segue-se uma terrível guerra de uma dezena de anos durante a qual os Ocidentais apoiam cinicamente, ao mesmo tempo, os dois campos. Para se armar, o Irão não hesita em comprar armas dos EUA a Israel (é o «escândalo Irão-Contras»). Khomeini transforma a sociedade. Ele desenvolve entre o seu povo o culto dos mártires e um extraordinário senso de sacrifício. Quando o Iraque bombardeia os civis iranianos com mísseis ao acaso, ele interdita ao exército ripostar da mesma forma, afirmando que as armas de destruição maciça são contrárias à sua visão do Islão; o que prolonga ainda um pouco mais os combates.

Após um milhão de mortos, Saddam Hussein e Rouhollah Khomeini percebem que são joguetes dos Ocidentais. Concluem então uma paz. A guerra termina tal como começou, sem propósito. O velho sábio morre pouco depois, não sem ter designado o seu sucessor, o Aiatola Ali Khamenei. Os dezasseis anos seguintes são consagrados à reconstrução. O país está exangue e a revolução nada mais é do que um slogan sem conteúdo. Continua-se a gritar «Morte à América!» durante os sermões de sexta-feira, mas o «Grande Satã» e o «Regime sionista» tornaram-se parceiros privilegiados. Os Presidentes Hachemi Rafsanjani, depois Mohammad Khatami, organizam a economia em torno da receita petrolífera. A sociedade relaxa e as diferenças de rendimento aprofundam-se de novo.

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Hachemi Rafsandjani vai tornar-se o homem mais rico do país, não pelo comércio de pistácios, mas pelo das armas com Israel. Assim que se torna Presidente da República islâmica, irá enviar os Guardas da Revolução para se baterem sob as ordens dos generais norte-americanos na Bósnia-Herzegovina.

Rafsandjani, que fez a sua fortuna com o tráfico de armas no «escândalo Irão-Contras», convence Khamenei a enviar Guardas da Revolução para se baterem na Bósnia-Herzegovina ao lado dos Sauditas e sob as ordens da OTAN. Khatami, esse, tece relações pessoais com o especulador George Soros.

(Continua…)

Sobre o autor

Thierry Meyssan

presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

COLONIALISMO EM MARCHA, HOJE COMO ONTEM

AFRICOM: EEUU contempla aumentar tropas en Libia y Somalia | HISPANTV

Por: Manlio Dinucci

Portugal e a Itália estão entre os países subcontratantes do Pentágono no Mediterrâneo e em África. Se bem que o Comando Africano dos Estados Unidos (AfriCom) permaneça ainda na Alemanha, Washington delegou uma parte das missões marítimas e todas as operações terrestres na Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Estónia, Noruega, Holanda, Portugal, Reino Unido, Suécia e República Checa, sob comando da França. A parte norte-americana conserva, bem entendido, o controlo das operações, designadamente por via aérea. Velhos e novos aparelhos coloniais em marcha, travestidos de “missões de paz”, actuam além-fronteiras para servirem interesses estratégicos e económicos. O exemplo de Itália.

O ministro italiano da Defesa, Lorenzo Guerini (Partido Democrático, Pd), manifestou grande satisfação pelo voto “solidário” do Parlamento em relação às missões internacionais. Exceptuando algumas divergências sobre o apoio à Guarda Nacional de Tripoli, maioria e oposição aprovaram de modo compacto, sem votos contra e com algumas abstenções, 40 missões militares italianas na Europa, África, Médio Oriente e Ásia.

Foram prorrogadas as principais “missões de paz” em curso desde há décadas na esteira das guerras dos Estados Unidos e da NATO nos Balcãs e no Afeganistão (com participação portuguesa), na Líbia e na de Israel no Líbano, que faz parte da mesma estratégia. A estas guerras acrescentaram-se algumas novas: a operação militar da União Europeia no Mediterrâneo, formalmente para “impedir o tráfico de armas na Líbia”; a missão da União Europeia de “apoio ao aparelho de segurança no Iraque”; a missão da NATO de reforço do apoio a países situados no flanco sul da aliança.

O envolvimento de Itália e outros países europeus na África Subsaariana regista um forte crescimento. Forças especiais italianas participam na Task Force Takuba (que inclui forças portuguesas), destacada no Mali sob comando francês. Operam também no Níger, Chade e Burkina Faso no quadro da operação Barkhane, onde estão envolvidos 4500 militares franceses com blindados e bombardeiros, oficialmente e apenas contra as milícias jihadistas.

No Mali, a Itália participa também na missão da União Europeia Eutm, que proporciona treino militar e “aconselhamento” às forças armadas deste país e de alguns outros limítrofes.

No Níger, a Itália tem a sua própria missão bilateral de apoio às forças armadas e, ao mesmo tempo, participa na missão da União Europeia Eucap Sahel Niger numa área geográfica que inclui também a Nigéria, o Mali, a Mauritânia, o Chade, o Burkina Faso e o Benim.

O Parlamento italiano, por outro lado, aprovou o emprego de “um dispositivo aeronaval nacional para actividades de presença, vigilância e segurança no Golfo da Guiné”. Objectivo declarado: “vigiar nesta zona os interesses estratégicos nacionais (leia-se os da companhia petrolífera ENI), apoiando a frota comercial nacional que aí transita”.

Um concentrado de matérias-primas

Não é por acaso que estas zonas africanas onde se concentram as “missões de paz” são as mais ricas em matérias-primas estratégicas – petróleo, gás natural, urânio, coltan, ouro, diamantes manganês, fosfatos e outras – exploradas pelas multinacionais norte-americanas e europeias.

O seu oligopólio, contudo, está a ser posto em causa pela crescente presença económica chinesa. Não conseguindo contrariá-la apenas através de meios económicos, e sentindo simultaneamente diminuir a sua própria influência no interior dos países africanos, os Estados Unidos e as potências europeias recorrem à velha mas ainda eficaz estratégia colonial: garantir os seus próprios interesses económicos com meios militares, incluindo o apoio às elites locais que assentam o próprio poder nas forças armadas. 

A luta contra as milícias jihadistas, razão oficial de operações como a da Task Force Takuba, é a cortina de fumo que esconde os verdadeiros objectivos estratégicos. O governo italiano declarou que as missões internacionais servem para “garantir a paz e a segurança dessas zonas, para a protecção e a tutela das populações”. Na realidade, as intervenções militares expõem as populações a riscos ulteriores e, reforçando os mecanismos de exploração, agravam o seu empobrecimento – com um aumento constante dos fluxos migratórios para a Europa.

Para proteger milhares de soldados e veículos envolvidos nas missões militares, a Itália gasta directamente num ano mais de mil milhões de euros, fornecidos (com dinheiros públicos) não apenas pelo Ministério da Defesa mas também pelos do Interior, da Economia, das Finanças e pela Presidência do Conselho.

Esta soma, porém, não passa da ponta do iceberg das crescentes despesas militares (mais de 25 mil milhões anualmente), devido ao ajustamento do conjunto das forças armadas a esta estratégia. Aprovada pelo Parlamento por um consenso bipartidário unânime.

A guerra tecnológica dos EUA à China e a batalha do 5G

Vivo reforça a importância do 5G e anuncia ampliação da rede no ...

Por: Prabir Purkayastha

A guerra tecnológica dos EUA contra a China continua, com a proibição de equipamentos chineses na sua rede e pedidos aos seus parceiros dos Cinco Olhos e aliados da NATO para seguirem o seu exemplo. É um regime de negação do mercado da tecnologia que procura reconquistar o mercado que os EUA e países da Europa perderam para a China.

O comércio internacional assumia que bens e equipamentos poderiam ser provenientes de qualquer parte do mundo. A primeira violação deste esquema foi a rodada anterior de sanções dos EUA à Huawei no ano passado, de que qualquer empresa que use 25% ou mais de conteúdo estado-unidense tem de obedecer às regras de sanções dos EUA. Isso significava que o software e os chips dos EUA, baseados em desenhos dos EUA, não podiam ser exportados para a Huawei. A última rodada de sanções dos EUA, em Maio deste ano, amplia o alcance das sanções dos EUA para cobrir quaisquer bens produzidos com equipamento estado-unidense, estendendo sua soberania muito além das suas fronteiras.

Nas últimas décadas da globalização do comércio, os EUA terciarizaram cada vez mais a manufactura para outros países, mas ainda retiveram o controle sobre a economia global através do seu controle sobre as finanças globais – bancos, sistemas de pagamento, seguros e fundos de investimento. Com a nova série de sanções, revelou-se uma outra camada de controle dos EUA sobre a economia global: seu controle sobre a tecnologia, tanto em termos de propriedade intelectual como em equipamento para a fabricação de chips.

A nova sanção comercial que os EUA impuseram viola as regras da OMC. Assim, a razão porque os EUA estriparam a OMC, recusando-se a aceitar novas nomeações para o Tribunal de Solução de Disputas, torna-se clara: A China não pode levar as sanções ilegais dos EUA à OMC para uma solução da disputa, pois o órgão de solução das mesmas foi virtualmente extinto pelos EUA.

A batalha acerca do 5G e da Huawei tornou-se o terreno da guerra tecnológica EUA-China. Espera-se que o próprio mercado de redes 5G atinja 50 mil milhões de dólares em 10 anos, mas impulsionará a muitas vezes mais do que isso – milhões de milhões de dólares de produto económico – com as redes 5G. Qualquer empresa ou país que controle a tecnologia 5G terá uma vantagem sobre os outros neste espaço económico.

Para entender a guerra tecnológica sobre o 5G precisamos entender o seu papel. A internet é o fundamento sobre o qual serão implantadas quase todas as futuras tecnologias digitais. As redes 5G aumentam a velocidade da Internet sem fios em dez a quarenta vezes. Para os consumidores, a velocidade lenta da Internet é o estrangulamento de numerosas aplicações, tais como videoconferências, jogos online que permitem jogos com múltiplos jogadores, em que as velocidades de carregamento e descarregamento precisam ser altas. Esta é a diferença de consumir vídeos pela Internet, como o Netflix, onde apenas as velocidades de descarregamento são importantes. As redes 5G também permitiriam que a Internet de alta velocidade fosse implantada numa área muito maior e nos nossos dispositivos móveis.

As outras duas áreas que se beneficiariam do 5G são os carros sem condutor e a Internet das Coisas (Internet of Things, IoT), nos quais todos os nossos aparelhos conversarão uns com os outros pela Internet sem fios. Se bem que os carros sem condutor ainda estejam a alguma distância, a IoT poderia ser muito mais importante para melhorar a eficiência e manutenção da infraestrutura física de electricidade, semáforos, sistemas de água e esgotos em futuras “cidades inteligentes”.

O G nas redes de telecomunicações refere-se a gerações – e cada geração de tecnologia de comunicações sem fios significa aumentar a quantidade de informações que as ondas de rádio transportam. As redes 5G são muito mais rápidas que as redes 4G equivalentes e suportam um número muito maior de dispositivos numa determinada área. O preço é que, ao contrário dos actuais 3G e 4G, o 5G não pode percorrer longas distâncias e precisa de vários saltos repetidos, ou células e antenas, para percorrer a mesma distância. Uma rede 5G pode fornecer as mesmas velocidades que uma rede de cabos de fibra óptica, sem o alto custo da cablagem física. Ela pode, portanto, alcançar centros populacionais menos densos, incluindo áreas rurais, com internet de alta velocidade a custos muito mais baixos.

Quem são os outros actores no espaço 5G? Os demais actores principais além da Huawei são Samsung (Coreia do Sul), Nokia (Finlândia), Ericsson (Suécia) e ZTE (China). Embora os EUA não tenham grandes actores ao nível de equipamentos de rede, possuem a Qualcomm que fabrica componentes e conjuntos de chips (chipsets) sem fios e a Apple que hoje é líder no mercado de smartphones.

As sanções dos EUA haviam anteriormente atacado a Huawei usando sua posição dominante em software. O Android do Google impulsiona a maior parte dos celulares da China, bem como a maior parte dos celulares não Apple. Nos chips semicondutores, actualmente os processadores ARM têm uma posição de liderança, com a maioria das empresas que exigem processadores avançados a passarem da Intel para o ARM. O ARM, uma empresa britânica, mas pertencente ao SoftBank do Japão, não fabrica chips por conta própria, mas fornece desenhos para núcleos que entram nos processadores. Estes são então licenciados a empresas como Huawei, Qualcomm, Samsung e Apple, que desenham seus processadores com base em 2, 4 ou 8 núcleos ARM e os fabricam em fundições de silício. Estes processadores movimentam equipamentos de redes móveis, telefones celulares ou os laptops dos diferentes fabricantes.

As fundições de silício que fabricam os actuais chips de processador a partir de desenhos da Huawei, Samsung ou Apple são fábricas como a Taiwan Silicon Manufacturing Company (TSMC), a maior do mundo, com 48% do mercado global. A Samsung também possui uma fundição de silício de alta capacidade, com 20% do mercado global. Ela usa a instalação cativa para as suas necessidades e também para outros fabricantes. A China possui a quinta maior fundição de silício do mundo, a Semiconductor Manufacturing International Corporation (SMIC), mas é apenas um décimo da dimensão da TSMC. Só a TSMC e a Samsung possuem tecnologia de 7 nanómetros (dimensão do transístor nos chips), ao passo que a SMIC possui actualmente uma tecnologia de 14 nanómetros.

O ataque anterior dos EUA à Huawei e à China proibindo o software dos EUA significa que a Huawei teve de mudar do Android e de vários aplicativos que cavalgavam o sistema Android na loja de aplicativos do Google. Ela previu antecipadamente este ataque e criou o seu próprio sistema operacional, o HarmonyOS, e a sua própria loja de aplicativos. Como os seus utilizadores actuariam sem a loja de jogos do Google, ainda está para ser visto. Isto depende de os desenvolvedores de aplicativos mudarem para a Huawei em número suficientemente grande e da qualidade dos fabricantes de aplicativos chineses que já deram provas no mercado chinês.

Inicialmente, pensou-se que os processadores ARM não estariam disponíveis para a Huawei no futuro. Isso levantou um ponto de interrogação acerca dos equipamentos Huawei, pois dependem dos processadores ARM para equipamento de rede, telefones celulares e laptops. A ARM suspendeu inicialmente todas as vendas futuras dos seus processadores para a Huawei, pois os EUA alegavam que ela tinha mais de 25% de conteúdo estado-unidense e, portanto, enquadravam-se no regime de sanções dos EUA. Posteriormente, a ARM chegou à conclusão de que o seu conteúdo estado-unidense é inferior a 25% e, portanto, não está sujeito às sanções dos EUA.

Foi isto que precipitou as novas sanções que os EUA impuseram, que qualquer equipamento de origem norte-americana, se for usado para produzir componentes ou sistemas para a Huawei, também estará dentro de seu regime de sanções. A TSMC usa máquinas originárias dos EUA para a fabricação de chips. A Samsung possui uma mistura de máquinas americanas e não americanas para suas linhas de fabricação e poderia, se quisesse, trocar pelo menos algumas dessas linhas para usar apenas máquinas não americanas para a sua fabricação. Isto deixa uma janela para a Huawei vencer as sanções dos EUA, desde que a Samsung esteja disposta a fazer parceria com a Huawei.

Se a Huawei tiver de depender apenas de fontes internas, isto afectará a sua produção futura. Ela possui um stock acumulado de possivelmente 12 a 18 meses de chips fabricados, de modo que esse é o prazo que tem para um [encontrar] um novo fornecedor ou utilizar uma tecnologia menos densa – 10 ou 14 nanómetros .

Para o mercado 5G, a fabricação de 7 nanómetros pode não ser o decisor. A Huawei tem uma liderança significativa em rádios e antenas, que são os componentes chave da rede 5G. As redes 5G dependem do que é chamado de antenas MIMO (Massively Multi-input Multi-output), em que a Huawei está muito à frente dos outros. Isto, mais do que o tamanho do processador, pode decidir a vantagem técnica das ofertas da Huawei. A Nokia e a Ericsson estão a utilizar chips Intel que não estão à altura dos processadores ARM. E com o apoio da Huawei, o SMIC da China pode ser capaz de mudar rapidamente para uma tecnologia de 10 nanómetros, reduzindo o fosso entre os seus processadores e os dos outros.

A Huawei ainda tem algumas cartas para jogar, uma delas é ceder à Samsung o mercado de celulares avançados (high end) para acesso à fabricação de chips. E a Huawei é praticamente o único actor do mundo que pode fornecer uma solução 5G completa e instalá-la muito mais rapidamente do que os outros. Actualmente, o seu mercado interno é maior do que todos os outros mercados 5G do mundo somados, com o que ela pode impulsionar o seu crescimento.

Certamente não é um jogo acabado para a Huawei, como muitos outros analistas de tecnologia estão concluindo. Eles já declararam jogo acabado mais de um par de vezes, uma vez sobre a negação do sistema Android do Google, posteriormente com a proibição do processador ARM. Com esta proibição, se bem que os EUA tenham assegurado alguma vantagem temporária para outros actores ocidentais, criaram também um incentivo para a maior parte dos fabricantes de fora dos EUA se afastarem dos equipamentos estado-unidenses.

Portanto, é um jogo extremamente disputado para a Huawei e a China na guerra tecnológica. São as maiores forças da política económica que decidirão esta guerra. Tal como em qualquer outra guerra, não é uma batalha numa arena que decidirá a guerra. O 5G é apenas um teatro de batalha, existem muitos outros campos de batalha que decidirão o futuro desta guerra. E em muitos deles, a China detém as cartas.

Revolução colorida nos EUA – e quem a financia

Na rota das contra-revoluções "coloridas" | IELA - Instituto de ...

Por: F. William Engdahl

Revolução colorida é a expressão utilizada para descrever uma série de notáveis operações de mudança de regime efectuadas pela CIA através de técnicas desenvolvidas pela RAND Corporation, ONGs pela “democracia” e outros grupos desde a década de 1980. Elas foram utilizadas de forma bruta para derrubar o regime comunista polaco no fim da década de 1980. Desde então as técnicas foram refinadas e utilizadas, juntamente com fortes subornos, para derrubar o regime Gorbachov na União Soviética. Para qualquer pessoa que tenha estudado estes modelos atentamente, está claro que os protestos contra violência policial conduzidos por organizações amorfas com nomes como Black Lives Matter ou Antifa são mais do que ultrajes morais puramente espontâneos. Centenas de milhares de jovens americanos estão a ser utilizados como um aríete não só para derrubar um presidente dos EUA como também, no processo, as próprias estruturas da ordem constitucional dos EUA.

Se voltarmos atrás em relação à questão imediata dos vídeos mostrando um polícia branco de Minneapolis a pressionar o seu joelho sobre o pescoço de um homem negro, George Floyd, e examinarmos o que se tem passado desde então por toda a nação, fica claro que certas organizações ou grupo estavam bem preparados para instrumentalizar o horrível acontecimento para a sua própria agenda.

Os protestos a partir de 25 de Maio começaram muitas vezes de modo pacífico sendo então capturados por bem treinados actores violentos. Duas organizações apareceram regularmente em conexão com os protestos violentos – Black Lives Matter e Antifa (USA). Vídeos mostram protestatários bem equipados vestido uniformemente em negro e mascarados (não por causa do coronavírus certamente), vandalizando carros da polícia, incendiando esquadras de polícia, partindo vitrinas de lojas com canos ou tacos de baseball. A utilização do Twitter e outros media sociais para coordenar ataques relâmpago em enxame de multidões em protesto é evidente.

O que se tem desdobrado desde o evento disparado em Minneapolia tem sido comparado à onda de tumultos de protestos dos guetos negros em 1968. Eu vivi aqueles acontecimentos em 1968 e o que está a acontecer hoje é muito diferente. Assemelha-se mais à revolução colorida na Jugoslávia que derrubou Milosevic em 2000.

Gene Sharp: Modelo para derrube de regimes

No ano 2000 o Departamento de Estado dos EUA, ajudado pelo seu National Endowment for Democracy (NED) e operadores selectos da CIA, começaram secretamente a treinar um grupo de estudantes da Universidade de Belgrado conduzidos por um grupo de estudantes que era chamado Otpor! (Resistência!). O NED e seus vários rebentos foi criado na década de 1980 pelo chefe da CIA, Bill Casey, como uma ferramenta encoberta para derrubar regimes específicos por todo o mundo sob a cobertura de uma ONG de direitos humanos. Na verdade, eles obtinham o seu dinheiro do Congresso dos EUA e da USAID.

Na desestabilização de 2000 do Otpor! sérvio, o NED e o embaixador dos EUA em Belgrado, Richard Miles, seleccionaram e treinaram um grupo de várias dúzias de estudantes, liderados por Srða Popoviæ, utilizando o manual From Dictatorship to Democracy, traduzido para sérvio, do falecido Gene Sharp e do seu Albert Einstein Institution. Num epitáfio dos acontecimentos sérvios, o Washington Post escreveu: “Consultores financiados pelos EUA desempenharam um papel crucial nos bastidores em virtualmente todos os aspectos do processo, dirigindo inquéritos de rastreamento, treinando milhares de activistas da oposição e ajudando a organizar uma contagem paralela de votos vitalmente importante. Contribuintes dos EUA pagaram 5000 latas de tinta spray utilizadas por estudantes activistas para garatujar graffitis anti- Miloševiæ nas paredes de toda a Sérvia.

Esquadrões treinados de activistas foram posicionados em protestos para tomar o comando de quarteirões de cidades com a ajuda de écrans de vídeo em “capacetes de inteligência” que lhes davam uma supervisão instantânea do seu ambientes. Bandos de jovens a convergirem sobre cruzamentos alvo em diálogo constante através de telefones celulares iriam então sobrecarregar a polícia. O governo dos EUA gastou cerca de US$41 milhões na operação. Grupos de estudantes foram secretamente treinados nas técnicas do manual Sharp de encenação de protestos que ridicularizavam a autoridade da polícia do governo, mostrando que eram desajeitados e impotentes contra os jovens manifestantes. Profissionais da CIA e do Departamento de Estado dos EUA guiaram-nos nos bastidores.

O modelo Otpor! de Revolução Colorida foi refinado e aplicado em 2004 como a Revolução Laranja na Ucrânia com o logo e a cor em cachecóis, assim como em 2002 na Geórgia como Revolução Rosa. Posteriormente a secretária de Estado Hillary Clinton utilizou o modelo para lançar a Primavera Árabe. Em todos os casos o NED esteve envolvido, com outras ONGs incluindo as Fundações Soros.

Depois de derrotar Milosevic, Popovic prosseguiu para estabelecer um centro de treino global de revoluções coloridas, CANVAS, uma espécie de negócio de consultoria lucrativa para revoluções e estava pessoalmente presente em Nova York a trabalhar, confirmadamente, com o Antifa durante o Occupy Wall Street em que o dinheiro de Soros também foi confirmado.

Antifa e BLM

Os protestos, tumultos, acções violentas e não-violentas que varrem os Estados Unidos desde 25 de Maio, incluindo um assalto às portas da Casa Branca, começam a fazer sentido quando entendemos o manual de estratégia (playbook) da Revolução Colorida da CIA.

O impacto dos protestos não seria possível se não houvesse uma rede de responsáveis políticos locais e estaduais dentro do Partido Democrata dando apoio aos protestatários, mesmo ao ponto de o presidente democrata da municipalidade de Seattle ordenar à polícia que abandonasse vários quarteirões no centro da cidade para a ocupação pelos protestatários.

Nos últimos anos grandes porções do Partido Democrata por todos os EUA têm sido silenciosamente capturadas pelo que alguém poderia considerar como candidatos da esquerda radical. Muitas vezes eles vencem com o apoio activo de organizações tais como Democratic Socialists of America ou Freedom Road Socialist Organizations. Na câmara baixa do parlamento o grupo vocal dos novos representantes em torno de Alexandria Ocasio-Cortez (D-NY), Rashida Tlaib e o deputado de Minneapolis Ilhan Omar são todos membros ou próximos do Democratic Socialists of America. Claramente, sem responsáveis locais democratas simpáticos nas cidades chave, os protestos de rua de organizações como Black Lives Matter e Antifa não teriam um impacto tão dramático.

Para compreender melhor quão sério é o actual movimento de protesto, deveríamos olhar para quem tem estado a despejar milhões no BLM. Em relação ao Antifa é mais difícil devido à sua forma explícita de organização anónima. No entanto, o seu Manual online recomenda abertamente que as “células” locais do Antifa se juntem aos capítulos do BLM.

FRSO: Sigam o dinheiro

O BLM começou em 2013 quando três activistas amigos criaram o hashtag #BlackLivesMatter para protestar contra alegações de disparo de um adolescente negro desarmado, Trayvon Martin por um vigia hispânico branco, George Zimmermann. Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi eram todos ligados e financiados por grupos de frente ligados a algo chamado Freedom Road Socialist Organization (FRSO), uma das quatro maiores organizações de esquerda radical dos Estados Unidos formada a partir de algo chamado New Communist Movement que se dissolveu nos anos 80.

Em 12 de Junho de 2020 o sítio web da Freedom Road Socialist Organization declara: “É tempo agora de aderir a uma organização revolucionária! Junte-se à Freedom Road Socialist Organization… Se esteve nas ruas nas últimas semanas, há boas probabilidades de que esteja a pensar acerca da diferença entre a espécie de mudança que este sistema tem para oferecer e a espécie de mudança que este país precisa. O capitalismo é um sistema fracassado que prospera sobre a exploração, desigualdade e opressão. A reaccionária e racista administração Trump tornou pior a pandemia. O desdobramento da crise económica que estamos a experimentar é o pior desde a década de 1930. O capitalismo monopolista é um sistema moribundo e precisamos ajudar a liquidá-lo. E é exactamente para isto que a Freedom Road Socialist Organization está a trabalhar “.

Em suma, os protestos sobre a alegada morte pela polícia de um homem negro no Minnesota estão agora a ser utilizados para apelas a uma revolução contra o capitalismo. O FRSO é um guarda-chuva para dezenas e grupos amorfos, incluindo o Black Lives Matter ou BLM. O que é interessante acerca das auto-descritas raízes marxistas da FRSO não é tanto a sua política de esquerda e sim o seu próprio estabelecimento financiado por um grupo de bem providas fundações com isenção fiscal.

Alicia Garza do BLM é também membro direcção, ou executiva, de cinco diferentes grupos de frente da Freedom Road incluindo a presidência da Right to the City Alliance, membro da direcção da School of Unity and Liberation (SOUL), da People Organized to Win Employment Rights (POWER), Forward Together e directora de Projectos Especiais da National Domestic Workers Alliance.

A Right to the City Alliance obteve US$6,5 million entre 2011 e 2014 de um certo número de muito bem estabelecidas fundações isentas de fisco, incluindo a Ford Foundation (US$1,9 milhão), das duas principais de George Soros – a Open Society Foundations e a Foundation to Promote Open Society com US$1,3 milhão. Também a Kellogg Foundation, ligada ao cornflake, contribuiu com US$250.000 e, curiosamente , a Ben & Jerry’s Foundation (sorvetes) com US$30.000.

Garza, como directora executiva da frente FRSO, também obteve dinheiro de da grande fundação POWER onde o antigo “czar dos empregos verdes” de Obama, Van Jones, que se auto-descreve como “comunista” e “nacionalista negro rebelde”, agora com a CNN, estava na direcção. Alicia Garza também presidiu a Right to the City Alliance, uma rede de grupos de activistas que se opõem à gentrificação urbana. Essa frente desde 2008 recebeu US$1,3 milhão da Ford Foundation, bem como US$600.000 das fundações de Soros e, mais uma vez, da Ben & Jerry’s (US$50.000). E a SOUL de Garza, a qual afirma ter treinado 712 “organizadores” em 2014, quando ela co-fundou o Black Lives Matter, obteve US$210.000 da Rockefeller Foundation e outros US$255.000 da Heinz Foundation (ketchup e família John Kerry) entre outros. Com o Forward Together da FRSO, Garza senta-se na direcção de uma “organização multi-racial que trabalha com líderes e organizações comunitárias para transformar a cultura e a política a fim de catalisar mudança social”. Esta oficialmente obteve US$4 milhões de receitas em 2014 e de 2012 a 2014 a organização recebeu um total de US$2,9 milhões da Fundação Ford (US$655.000) e outras fundações importantes .

O co-fundador da BLM, Opal Tometi, nascido na Nigéria, provavelmente veio da rede da FRSO. Tometi encabeçou a Black Alliance for Just Immigration, da FRSO. Curiosamente, com uma “equipe” de apenas dois esta obteve dinheiro das principais fundações incluindo a Kellogg Foundation com US$75.000 e fundações de Soros com US$100.000 e, mais uma vez, a Ben & Jerry’s (US$10.000). Tometi obteve US$60.000 em 2014 para dirigir o grupo .

A Freedom Road Socialist Organization que agora clama abertamente por uma revolução contra o capitalismo na esteira da morte de Floyd George tem um outro braço, The Advancement Project, o qual descreve-se a si próprio como “uma organização da próxima geração por direitos civis multi-raciais”. Sua direcção inclui um antigo Director de Envolvimento com a Comunidade do Departamento da Educação de Obama e um antigo assistente de procurador geral para direitos civis de Bill Clinton. Em 2013 o Advancement Project da FRSO obteve milhões das principais fundações isentas de fisco dos EUA incluindo a Ford (US$8,5 milhões), Kellogg (US$3 milhões), Hewlett Foundation fundadora da indústria de defesa da HP (US$2,5 milhões), Rockefeller Foundation (US$2,5 milhões) e fundações de Soros (US$8,6 milhões).

Dinheiro grosso e ActBlue

Em 2016, o ano das eleições presidenciais em que Hillary Clinton desafiava Donald Trump, Black Lives Matter tinha-se estabelecido como uma rede bem organizada. Nesse ano, a Fundação Ford e a Borealis Philanthropy anunciaram a formação do Fundo do Movimento de Leigos Negros (Black-Led Movement Fund, BLMF), “uma campanha conjunta de seis anos de doadores destinada a angariar US$100 milhões para a coligação Movement for Black Lives”, na qual o BLM era uma parte central. Nessa altura, as fundações Soros já haviam doado cerca de US$33 milhões em donativos ao movimento Black Lives Matter . Este foi o dinheiro a sério da fundação.

O BLMF identificou-se como sendo criado por fundações de topo incluindo, além da Fundação Ford, a Fundação Kellogg e as fundações Open Society de Soros. Eles descreveram o seu papel assim:   “O BLMF providencia doações, recursos para a construção de movimento e assistência técnica para organizações que trabalham para o avanço da liderança e visão de jovens, negros, homosexuais, feministas e líderes imigrantes que estão a modelar e liderar uma conversação nacional acerca de criminalização, policiamento e raça nos EUA”.

O Movement for Black Lives Coalition (M4BL), que inclui a Black Lives Matter, já em 2016 apelou ao “desfinanciamento de departamentos da polícia, reparações com base na raça, direito de voto para imigrantes ilegais, desinvestimento em combustíveis fósseis, fim à educação privada e das charter schools , um rendimento básico universal e faculdades gratuitas para negros “.

É notável que quando clicamos no sítio web da M4BL, no seu botão de doações aprendemos que elas virão de algo chamado ActBlue Charities. A ActBlue facilita doações para “democratas e progressistas”. Em 21 de Maio, a ActBlue havia dado US$119 milhões para a campanha de Joe Biden.

Isso foi antes dos protestos mundiais de 25 de Maio do BLM. Agora grandes corporações como a Apple, Disney, Nike e centenas de outras podem estar a despejar milhões incontáveis e não contabilizados na ActBlue sob o nome de Black Lives Matter, fundos que de facto podem ir para o financiamento da eleição de um presidente democrata, Biden. Talvez esta seja a verdadeira razão pela qual a campanha de Biden tem estado tão confiante no apoio dos eleitores negros. O que fica claro apenas neste relato sobre o papel crucial das fundações do dinheiro grosso por trás de grupos de protesto como o Black lives Matter é que existe uma agenda muito mais complexa que impulsiona os protestos que agora desestabilizam cidades por toda a América. O papel das fundações isentas de impostos ligadas às fortunas das maiores empresas industriais e financeiras como Rockefeller, Ford, Kellogg, Hewlett e Soros diz que há uma agenda muito mais profunda e sinistra para os distúrbios actuais do que o ultraje espontâneo sugeriria.

O BANDITISMO COMO INSTRUMENTO DA ORDEM INTERNACIONAL

Kosovo honours Bill Clinton - Emerging Europe | Intelligence ...

Por: José Goulão

Elon Musk, dono da Tesla, um dos homens mais ricos do mundo, twittou tranquilamente, como quem anuncia que vai jogar ténis, que “daremos o golpe em quem quisermos”. E aconselhou: “lidem com isso”. As palavras foram escritas num contexto relacionado com o golpe fascista na Bolívia, que permitiu a Musk desbloquear o livre acesso às maiores reservas de lítio do mundo, essenciais para a parte gorda dos seus negócios, os acumuladores de energia.

Musk é idolatrado pela comunicação social corporativa, um “rapaz traquinas”, talvez um pouco desbocado mas com dotes de génio para a sua actividade empresarial, tal como outros magnatas da moda como Mark Zuckerberg do Facebook, Richard Branson da Virgin, Jeff Bezos da Amazon, Bill Gates e alguns outros – a nata do regime neoliberal globalista, da riqueza “blasée” cultivada com muita “filantropia” e que, apesar das divergências de “estilo”, se revê perfeitamente em Donald Trump embora prefira apostar os financiamentos em Joe Biden.

Repare-se no plural majestático usado pelo dono da Tesla: “daremos o golpe”. Ou seja, as mudanças violentas de regimes políticos, a transformação de sistemas democráticos em ditaduras são obras colectivas, dele próprio e de muitos outros, de um aparelho subversivo às ordens de um sistema institucional representando os grandes interesses que mandam no mundo. O recado fica dado: Musk & Cia dão e darão o golpe onde for preciso se isso for indispensável para os seus negócios, interpretados de maneira abrangente como o “nosso civilizado modo de vida”. Instauram-se assim ditaduras que passam a ser reconhecidas como fruto da “reposição da democracia”, estabelece-se o banditismo golpista como garante da única “democracia” autorizada.

O “nosso” carniceiro dos Balcãs

Não é novidade que o banditismo é um instrumento que contribui para modelar a ordem internacional permitida, a unipolar; e que alguns seguidores, designadamente ao nível da União Europeia, querem fazer-nos crer multipolar.

Não surpreende, portanto, que os exemplos de tal comportamento sejam múltiplos e multifacetados, não se ficando, como é óbvio, pelos golpes de Estado clássicos.

Há poucos dias chegaram finalmente à justiça internacional de Haia os ecos de um segredo religiosamente guardado pelo mainstream mas que há mais de uma década é uma verdade banal para quem não consome apenas a comunicação “fast food”: o “presidente” do Kosovo e ex-“primeiro-ministro” da mesma entidade, Hashim Thaci, é acusado de crimes de guerra entre os quais avultam o assassínio de presos políticos seguido de extracção e comercialização dos seus órgãos internos no mercado negro internacional.

Há muito que Carla del Ponte, ex-procuradora do Tribunal Internacional para a ex-Jugoslávia, revelara esta realidade macabra. Tal como o investigador britânico Dick Marty, autor em 2011 de um pormenorizado e revelador relatório sobre o mesmo assunto para o Conselho da Europa.

Hoje existem elementos mais do que suficientes para estarmos certos de que Hashim Thaci e o seu Exército de Libertação do Kosovo (ELK), de tipo “islâmico”, constituem uma associação de malfeitores, uma entidade mafiosa ao serviço dos Estados Unidos e da NATO no processo de terrorismo militar e político que culminou com os bombardeamentos da Sérvia pela Aliança Atlântica em 1999 e a posterior “independência” do Kosovo – ainda não reconhecida no âmbito do direito internacional. Um processo que envolveu a encenação de “massacres” como o de Racak – que serviu de pretexto para os bombardeamentos efectuados pela NATO – e também limpezas étnicas no próprio Kosovo, de que a principal vítima foi e continua a ser a minoria sérvia.

A narrativa oficial da NATO, a única veiculada pela comunicação corporativa, explica-nos ainda hoje que tudo foi necessário para extirpar da região o “novo Hitler” e “carniceiro dos Balcãs”, Slobodan Milosevic. Daí que o atlantismo tenha recorrido a Hashim Thaci e seus correligionários, traficantes de órgãos humanos, de heroína, de escravos sexuais, a quem foi entregue formalmente a gestão do Kosovo “independente” como protectorado dos Estados Unidos e da NATO. Parafraseando o inconfundível Henry Kissinger poderemos então deduzir que Hashim Thaci foi, também ele, um “carniceiro dos Balcãs”, porém “o nosso carniceiro”, impoluto defensor dos interesses do “nosso mundo civilizado”,

Réplicas no Oriente

Poder-se-á dizer que uma vez não são vezes, que a frutuosa parceria da NATO com o banditismo nos Balcãs se justificou pelos superiores interesses da humanidade – por exemplo instalar no Kosovo a maior base militar regional dos Estados Unidos, o campo de Bondsteel – e daí não extravasou.

Nem os mais ingénuos acreditarão que assim foi.

O Tribunal Penal Internacional de Haia está a tentar, a duras penas, reunir dados sobre comportamentos das tropas norte-americanas e da NATO no Afeganistão passíveis de incorrer em crimes de guerra. Os Estados Unidos já reagiram – perante a passividade cúmplice dos “aliados” – ameaçando os dirigentes do tribunal com sanções, vedando-lhes o acesso ao território norte-americano, o que evidencia a pureza de consciência de quem assim procede.

Perante isto torna-se muito improvável que a justiça internacional consiga aprofundar, de maneira equilibrada, os comportamentos de todos os campos envolvidos em guerras sem fim como são as do Iraque, da Síria, da Líbia.

O caso líbio seria uma importante pedra de toque porque decorre de outra situação de aliança assumida entre uma organização ao serviço “da democracia”, a NATO, e o banditismo político-religioso, igualmente representado por grupos de mercenários ditos “islâmicos”. Foram estes que, protegidos pelo fogo atlantista que não cuidou de saber de civis – tal como acontecera na Sérvia – foram instaurar a “democracia” em Tripoli. E que belo exemplar de “regime democrático” ali ficou.

Não é novidade – por muito escondida que seja – que no Iraque e, sobretudo, na Síria os interesses ocidentais jazem nas mãos do banditismo “islâmico”, sob capa de “moderado” mas sob o comando operacional da al-Qaida e, agora menos, do Estado Islâmico. Existe, aliás, uma marca indelével no território sírio que testemunhará durante muitos anos essa profícua e sangrenta aliança: a gigantesca multinacional francesa Lafarge construiu a maior rede de túneis e subterrâneos desde a Segunda Guerra Mundial para ser usada, desta feita, pelos bandos de mercenários da al-Qaida. Razão tem Musk em usar o plural majestático a propósito de estas actividades regeneradoras da “democracia”.

Pirataria de colarinho branco

Não se pense, porém, que o banditismo ao serviço da ordem internacional se esgota em golpes de Estado fascistas e em guerras.

Os criminosos vestem roupas caras de marca quando se trata de praticar actos de pirataria apresentados como salvaguardas de legitimidades institucionais e constitucionais. O roubo do ouro venezuelano no valor de mil milhões de euros, depositado no Banco de Inglaterra, para ser entregue a um criminoso encartado como Juan Guaidó, como ficou privado na recente tentativa de assalto mercenário contra a Venezuela, é um refinado caso de banditismo de colarinho branco.

O governo legítimo de Caracas tentou mobilizar o ouro com a finalidade de comprar alimentos e medicamentos para a população, sujeita às sevícias das sanções internacionais impostas por Estados Unidos e aliados. Sanções são, como é bom de ver, actos de banditismo contra os povos, decididos arbitrariamente para penalizar governos que não cumprem as normas “democráticas” como aquelas que são instauradas, por exemplo, por via de golpes de Estado ou de grotescas usurpações de cargos políticos.

Quanto à barbárie das sanções não existe dúvida, porque é confessada pelos próprios autores. William Brownfield, ex-embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, aconselha a encará-las como “uma agonia, uma tragédia continuada até ter um desfecho”. Além disso, explica Brownfield, devem ser aceleradas “percebendo que terão impacto negativo em milhões de pessoas que já estão com dificuldades em encontrar alimentos e medicamentos”. Porém, acrescenta o ex-embaixador, “os fins desejados justificam o severo castigo”.

Presume-se portanto, através de quem as impõe, que as sanções têm inegáveis fins civilizacionais e “democráticos”, mesmo que provoquem a morte de dezenas de milhares de pessoas inocentes. Como disse o almirante norte-americano Kurt Tidd, ex-chefe do Comando Sul dos Estados Unidos ao apresentar o plano “Venezuela Freedom (Liberdade) 2”, é preciso “recorrer à matriz através da qual a Venezuela entre numa etapa de crise humanitária por falta de alimentos, água e medicamentos”.

Arrasar hospitais é “democrático”

Tendo em consideração estes exemplos de recurso à criminalidade em nome dos mais puros ideais “democráticos” não surpreende que as tropas israelitas, na sequência de muitos outros actos contra famílias civis, tenham arrasado, em 21 de Julho, o hospital de campanha e o centro de testes de Hebron erguidos por palestinianos para combater o maior foco de COVID-19 nos territórios ocupados. O mesmo acontecera em Março com o hospital de Khirbet Ibziq, igualmente na Cisjordânia. Israel, como atestará qualquer meio de comunicação corporativo e respectivos fact-checkers, é “a única democracia do Médio Oriente”.

Como se percebe, a cumplicidade entre banditismo puro e a defesa e propagação do “nosso civilizado modo de vida” revela-se através de uma cadeia contínua e interminável de factos e exemplos. Claro que os outros, os incivilizados modos de vida, recorrem naturalmente ao banditismo, por inerência. Por isso, assim como existe o “nosso” carniceiro dos Balcãs também devemos considerar a prática do banditismo com fins considerados legítimos, mesmo que sacrifiquem milhares e milhares de vidas humanas inocentes.

Digamos que se trata de seguir uma ética escrita algures nas estrelas e que legitima as práticas e as fortunas dos Musks, as atitudes dos governos de Trumps ou Bidens, as arbitrariedades contra os cidadãos cometidas pelos eurocratas, fardados ou não conforme estejam de serviço na NATO ou na União Europeia – em qualquer dos casos sob tutela de Washington.

Pelo que seria assisado e verdadeiramente democrático que as instituições representativas da República Portuguesa se dissociassem de cumplicidades com a “independência do Kosovo” e respectivo “presidente” Thaci, com indivíduos do submundo do crime como Juan Guaidó, com as missões coloniais da Aliança Atlântica, com a imposição de sanções que têm populações inocentes como vítimas principais, com as práticas fascistas e racistas de Israel, com a manutenção de guerras sem fim. Já agora convinha conhecer, finalmente, um parecer de Lisboa sobre o golpe fascista da Bolívia: viria a propósito, porque o regime usurpador acaba de adiar pela terceira vez as prometidas eleições gerais.

Ou será pedir muito que se cultive o respeito pela Constituição da República Portuguesa?